{"id":1860,"date":"2026-10-14T09:58:09","date_gmt":"2026-10-14T12:58:09","guid":{"rendered":"https:\/\/editoranorat.com.br\/scientiaetratio\/?p=1860"},"modified":"2026-10-14T09:58:09","modified_gmt":"2026-10-14T12:58:09","slug":"o-dever-de-punir-e-a-responsabilidade-estatal-pos-carcere-a-falha-na-reinsercao-social-do-egresso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/editoranorat.com.br\/scientiaetratio\/o-dever-de-punir-e-a-responsabilidade-estatal-pos-carcere-a-falha-na-reinsercao-social-do-egresso\/","title":{"rendered":"O DEVER DE PUNIR E A RESPONSABILIDADE ESTATAL P\u00d3S-C\u00c1RCERE: A FALHA NA REINSER\u00c7\u00c3O SOCIAL DO EGRESSO"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>THE DUTY TO PUNISH AND STATE RESPONSIBILITY AFTER INCARCERATION: THE FAILURE OF THE SOCIAL REINTEGRATION OF FORMER PRISONERS<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left wp-block-paragraph\">Artigo submetido em 13 de outubro de 2026<br>Artigo aprovado em 14 de outubro de 2026<br>Artigo publicado em 14 de outubro de 2026<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-table\"><table class=\"has-pale-ocean-gradient-background has-background\"><tbody><tr><td class=\"has-text-align-center\" data-align=\"center\"><strong>Scientia et Ratio<\/strong><br>Volume 6 \u2013 N\u00famero 10 \u2013 2026<br>ISSN 2525-8532<\/td><\/tr><\/tbody><\/table><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left has-white-color has-text-color has-link-color wp-elements-1 wp-block-paragraph\">.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-table\"><table class=\"has-very-light-gray-to-cyan-bluish-gray-gradient-background has-background\"><tbody><tr><td><strong>Autor:<br><\/strong>Cid\u00e9lio Jos\u00e9 de Carvalho J\u00fanior<a href=\"#_ftn1\">[1]<\/a><br>Nathalia Viana Lopes Kashimoto<a href=\"#_ftn2\">[2]<\/a><\/td><\/tr><\/tbody><\/table><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-white-color has-text-color has-link-color wp-elements-2 wp-block-paragraph\">.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">RESUMO: O presente artigo analisa a dimens\u00e3o jur\u00eddica e social da responsabilidade civil e administrativa do Estado em face da inefic\u00e1cia das pol\u00edticas p\u00fablicas direcionadas \u00e0 reinser\u00e7\u00e3o social da pessoa egressa do sistema prisional brasileiro. A partir do dogma do jus puniendi, contrabalan\u00e7ado pelo dever constitucional de prote\u00e7\u00e3o aos direitos fundamentais e ressocializa\u00e7\u00e3o, investiga-se como a omiss\u00e3o estatal qualificada e a falha estrutural no acompanhamento p\u00f3s-c\u00e1rcere violam os preceitos da Lei de Execu\u00e7\u00e3o Penal (Lei n\u00ba 7.210\/1984) e os vetores fixados pelo Supremo Tribunal Federal na Argui\u00e7\u00e3o de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 347. O estudo adota metodologia anal\u00edtico-dedutiva, baseada em revis\u00e3o bibliogr\u00e1fica e documental das normas vigentes e da jurisprud\u00eancia p\u00e1tria. Conclui-se que a omiss\u00e3o estatal no dever de assist\u00eancia ao egresso configura il\u00edcito administrativo de natureza continuada, apto a ensejar a responsabiliza\u00e7\u00e3o objetiva do Estado pelos danos decorrentes da reincid\u00eancia evit\u00e1vel e da marginaliza\u00e7\u00e3o sist\u00eamica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Palavras-chave:<\/strong> Sistema Prisional. Egresso. Ressocializa\u00e7\u00e3o. Responsabilidade Civil do Estado. Direitos Fundamentais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">ABSTRACT: This article analyzes the legal and social dimensions of the State&#8217;s civil and administrative liability regarding the ineffectiveness of public policies aimed at the social reintegration of individuals released from the Brazilian prison system. Grounded in the doctrine of *jus puniendi*\u2014balanced against the constitutional duty to protect fundamental rights and foster rehabilitation\u2014the study investigates how qualified state omission and structural failures in post-release monitoring violate the precepts of the Penal Execution Law (Law No. 7.210\/1984) and the guidelines established by the Supreme Federal Court in the Claim of Non-Compliance with a Fundamental Precept (ADPF) 347. The study employs an analytical-deductive methodology based on a review of literature and documentation concerning current regulations and domestic case law. It concludes that the State&#8217;s failure to fulfill its duty of assistance to released individuals constitutes a continuing administrative illicit act, capable of triggering the State&#8217;s strict liability for damages resulting from avoidable recidivism and systemic marginalization.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Keywords:<\/strong> Prison System. Released Individual. Rehabilitation. State Civil Liability. Fundamental Rights.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>1 INTRODU\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A crise estrutural do sistema penitenci\u00e1rio brasileiro representa um dos desafios mais complexos do Estado Democr\u00e1tico de Direito contempor\u00e2neo. Historicamente pautado por uma l\u00f3gica eminentemente retributiva e segregadora, o exerc\u00edcio do poder punitivo estatal (jus puniendi) tem priorizado a priva\u00e7\u00e3o da liberdade em detrimento do cumprimento das diretrizes de reintegra\u00e7\u00e3o social expressamente inscritas na ordena\u00e7\u00e3o jur\u00eddica nacional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O texto constitucional de 1988 consagrou a dignidade da pessoa humana (art. 1\u00ba, III) e a proibi\u00e7\u00e3o de penas cru\u00e9is ou degradantes (art. 5\u00ba, XLVII, &#8216;e&#8217;) como pilares inafast\u00e1veis da ordem jur\u00eddica. Em simetria com o diploma constitucional, a Lei de Execu\u00e7\u00e3o Penal (Lei n\u00ba 7.210\/1984) estabeleceu que a execu\u00e7\u00e3o penal tem por objetivo harmonioso prover condi\u00e7\u00f5es para a harm\u00f4nica integra\u00e7\u00e3o social do condenado e do internado. Contudo, a realidade f\u00e1tica do ambiente carcer\u00e1rio e, precipuamente, o cen\u00e1rio vivenciado pelo indiv\u00edduo no per\u00edodo p\u00f3s-c\u00e1rcere demonstram um profundo descompasso entre a norma jur\u00eddica e a pr\u00e1tica administrativa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pessoa egressa do sistema prisional enfrenta barreiras institucionais, econ\u00f4micas e sociais impostas pela estigmatiza\u00e7\u00e3o da pena. A aus\u00eancia de suporte estatal efetivo no momento de transi\u00e7\u00e3o da priva\u00e7\u00e3o de liberdade para a vida em sociedade desconstitui o objetivo ressocializador da pena, atuando como fator de fomento \u00e0 reincid\u00eancia criminal e \u00e0 perpetua\u00e7\u00e3o da vulnerabilidade social.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Diante desse panorama, o presente trabalho se prop\u00f5e a analisar a responsabilidade civil e administrativa do Estado decorrente da omiss\u00e3o qualificada no cumprimento das obriga\u00e7\u00f5es de assist\u00eancia ao egresso. Questiona-se em que medida a inefici\u00eancia das pol\u00edticas p\u00fablicas estatais para a reinser\u00e7\u00e3o social do indiv\u00edduo egresso extrapola o mero desvio administrativo e ingressa na esfera da ilicitude geradora do dever de indenizar e de recomposi\u00e7\u00e3o contratual e social.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>2 EVOLU\u00c7\u00c3O DAS FINALIDADES DA PENA E FUNDAMENTOS JUR\u00cdDICOS DA ASSIST\u00caNCIA \u00c0 PESSOA EGRESSA<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a><\/a>2.1 A Vis\u00e3o Te\u00f3rica das Finalidades da Pena<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A compreens\u00e3o do dever estatal de prestar assist\u00eancia \u00e0 pessoa egressa exige a contextualiza\u00e7\u00e3o das teorias justificadoras da san\u00e7\u00e3o penal. Historicamente, a pena oscillou entre os modelos retributivos, preventivos e ressocializadores, consolidando-se na dogm\u00e1tica contempor\u00e2nea sob a perspectiva ecl\u00e9tica ou mista.<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li><strong>Teoria Retributiva:<\/strong> A pena traduz-se como mera rea\u00e7\u00e3o jur\u00eddica ao mal praticado pelo delituoso, despida de fins utilit\u00e1rios imediatos. Fundamentada na exig\u00eancia \u00e9tica de justi\u00e7a, limita-se a impor a expia\u00e7\u00e3o do il\u00edcito.<\/li>\n\n\n\n<li><strong>Teoria Preventiva Geral e Especial:<\/strong> Introduz a utilidade funcional da puni\u00e7\u00e3o. A preven\u00e7\u00e3o geral busca desestimular a pr\u00e1tica de infra\u00e7\u00f5es pela coletividade (negativa) ou refor\u00e7ar a vig\u00eancia da norma (positiva). A preven\u00e7\u00e3o especial dirige-se diretamente ao apenado, visando evitar a pr\u00e1tica de novos delitos atrav\u00e9s da segrega\u00e7\u00e3o moment\u00e2nea (negativa) ou da reeduca\u00e7\u00e3o e reinser\u00e7\u00e3o social (positiva).<\/li>\n\n\n\n<li><strong>Teoria Mista ou Unificadora:<\/strong> Adotada expressamente pelo C\u00f3digo Penal Brasileiro (art. 59), sintetiza os fins de retribui\u00e7\u00e3o e preven\u00e7\u00e3o, exigindo que a san\u00e7\u00e3o penal seja necess\u00e1ria e suficiente para a reprova\u00e7\u00e3o e preven\u00e7\u00e3o do crime.<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a><\/a>A vertente ressocializadora exige que o Estado n\u00e3o se limite ao isolamento f\u00edsico do condenado, mas garanta meios concretos para que sua restitui\u00e7\u00e3o \u00e0 liberdade ocorra de forma comunit\u00e1ria e funcional.2.2 O Arcabou\u00e7o Normativo da Assist\u00eancia ao Egresso<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Lei de Execu\u00e7\u00e3o Penal (LEP) disciplina minuciosamente a assist\u00eancia devida pelo Estado ao apenado e ao egresso. De acordo com o art. 10 da LEP, a assist\u00eancia \u00e9 dever do Estado e tem por finalidade prevenir o crime e orientar o retorno \u00e0 conviv\u00eancia em sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nos termos do art. 26 do referido diploma legal, considera-se egresso:<\/p>\n\n\n\n<ol start=\"1\" class=\"wp-block-list\">\n<li>O liberado definitivo, pelo prazo de 1 (um) ano a contar da sa\u00edda do estabelecimento;<\/li>\n\n\n\n<li>O liberado condicional, durante o per\u00edodo de prova.<\/li>\n<\/ol>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O art. 27 da LEP especifica o conte\u00fado essencial da assist\u00eancia ao egresso, compreendendo a orienta\u00e7\u00e3o e o apoio para a sua reintegra\u00e7\u00e3o \u00e0 vida em liberdade, bem como a concess\u00e3o de alojamento e alimenta\u00e7\u00e3o em estabelecimento adequado pelo prazo de dois meses, prorrog\u00e1vel mediante comprova\u00e7\u00e3o do empenho na busca de emprego.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar da clareza solar do preceito legislativo, a efetiva\u00e7\u00e3o dessas garantias esbarra no descumprimento sistem\u00e1tico das obriga\u00e7\u00f5es por parte do Poder P\u00fablico, gerando um hiato entre a vig\u00eancia formal do direito e sua efic\u00e1cia material.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>3 POL\u00cdTICAS P\u00daBLICAS E ESTRUTURAS INSTITUCIONAIS DE REINSER\u00c7\u00c3O SOCIAL NO BRASIL<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a><\/a>3.1 A Estrutura dos Patronatos e dos Escrit\u00f3rios Prisionais<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para operacionalizar as garantias da Lei de Execu\u00e7\u00e3o Penal, o ordenamento jur\u00eddico prev\u00ea o funcionamento do Patronato p\u00fablico ou particular (art. 78 da LEP), incumbido de fiscalizar o cumprimento das penas restritivas de direitos, prestar assist\u00eancia aos egressos e colaborar na obten\u00e7\u00e3o de trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entretanto, observa-se uma acentuada fragilidade institucional na implementa\u00e7\u00e3o e manuten\u00e7\u00e3o dessas estruturas no territ\u00f3rio nacional. A escassez de recursos or\u00e7ament\u00e1rios, a aus\u00eancia de quadros t\u00e9cnicos multiprofissionais (assistentes sociais, psic\u00f3logos e pedagogos) e a desarticula\u00e7\u00e3o com a rede descentralizada de assist\u00eancia social (CRAS\/CREAS) inviabilizam o acompanhamento cont\u00ednuo dos egressos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nacionalmente, iniciativas como a Pol\u00edtica Nacional de Aten\u00e7\u00e3o \u00e0s Pessoas Egressas do Sistema Prisional (PNAPE), desenvolvida sob o escopo das diretrizes do Conselho Nacional de Justi\u00e7a (CNJ), buscam qualificar as sa\u00eddas do sistema carcer\u00e1rio por meio do alinhamento entre o Judici\u00e1rio, o Executivo e as organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil. A expans\u00e3o dos Centros de Aten\u00e7\u00e3o ao Egresso e dos Escrit\u00f3rios Sociais constitui avan\u00e7o institucional relevante, embora ainda incipiente diante da magnitude do contingente populacional egresso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a><\/a>3.2 O Estado de Coisas Inconstitucional e a ADPF 347<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Supremo Tribunal Federal, ao julgar a Medida Cautelar na Argui\u00e7\u00e3o de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 347, reconheceu expressamente a exist\u00eancia de um &#8220;Estado de Coisas Inconstitucional&#8221; no sistema penitenci\u00e1rio brasileiro. Tal figura te\u00f3rica, importada do constitucionalismo colombiano, caracteriza-se pela verifica\u00e7\u00e3o cumulativa dos seguintes requisitos:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>Vola\u00e7\u00e3o maci\u00e7a e generalizada de direitos fundamentais dos custodiados;<\/li>\n\n\n\n<li>In\u00e9rcia e omiss\u00e3o reiterada de m\u00faltiplos \u00f3rg\u00e3os do Poder P\u00fablico;<\/li>\n\n\n\n<li>Necessidade de reestrutura\u00e7\u00f5es sist\u00eamicas e or\u00e7ament\u00e1rias complexas para supera\u00e7\u00e3o do quadro de ilicitude.<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A declara\u00e7\u00e3o do Estado de Coisas Inconstitucional pelo STF abrange a totalidade do ciclo de execu\u00e7\u00e3o penal, desvelando que a falha estrutural no interior dos estabelecimentos carcer\u00e1rios projeta efeitos diretos no insucesso do egresso, ante a incapacidade de prover a forma\u00e7\u00e3o educacional e laboral exigida pelo mercado de trabalho contempor\u00e2neo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>4 PRESSUPOSTOS E LIMITES DA RESPONSABILIDADE ESTATAL POR FALHAS NO PER\u00cdODO P\u00d3S-C\u00c1RCERE<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a><\/a>4.1 A Omiss\u00e3o Estatal Qualificada e o Nexo de Causalidade<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A responsabilidade civil do Estado acha-se precipuamente esculpida no art. 37, \u00a7 6\u00ba, da Constitui\u00e7\u00e3o Federal, o qual adota a teoria do risco administrativo para as condutas comissivas. No tocante \u00e0s condutas omissivas, a jurisprud\u00eancia e a doutrina majorit\u00e1ria dividem-se entre a aplica\u00e7\u00e3o da responsabilidade subjetiva (fundada na culpa do servi\u00e7o ou <em>faute du service<\/em>) e a responsabilidade objetiva decorrente da inobserv\u00e2ncia de um dever espec\u00edfico de prote\u00e7\u00e3o (<em>posi\u00e7\u00e3o de garante<\/em>).Tratando-se do egresso, o Estado assume o dever legal espec\u00edfico de prestar aux\u00edlio material, psicol\u00f3gico e laboral transit\u00f3rio (arts. 10 e 27 da LEP). A omiss\u00e3o cont\u00ednua no fornecimento desses instrumentos m\u00ednimos constitui descumprimento intencional ou negligente de comando legal direto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para que se configure o dever estatal de indenizar ou de reparar o egresso ou terceiros afetados pela reincid\u00eancia impulsionada pelo abandono institucional, faz-se necess\u00e1ria a demonstra\u00e7\u00e3o do nexo causal direto entre a in\u00e9rcia administrativa qualificada e o dano experimentado. A caracteriza\u00e7\u00e3o do nexo de causalidade fundamenta-se na teoria da causalidade adequada ou do dano direto e imediato (art. 403 do C\u00f3digo Civil), demonstrando-se que a omiss\u00e3o do servi\u00e7o p\u00fablico colocou o indiv\u00edduo em situa\u00e7\u00e3o de absoluta incapacidade de subsist\u00eancia aut\u00f4noma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a><\/a>4.2 A Reserva do Poss\u00edvel versus o M\u00ednimo Existencial<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O principal argumento absolut\u00f3rio utilizado pela Fazenda P\u00fablica reside na invoca\u00e7\u00e3o do princ\u00edpio da reserva do poss\u00edvel. Argumenta o Estado a inexist\u00eancia de disponibilidade or\u00e7ament\u00e1ria ilimitada para subsidiar programas sociais de integra\u00e7\u00e3o destinados integralmente ao contingente de egressos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A jurisprud\u00eancia constitucional consolidou o entendimento de que a reserva do poss\u00edvel n\u00e3o pode ser oposta como \u00f3bice abstrato ao cumprimento de presta\u00e7\u00f5es que integrem o n\u00facleo essencial do <strong>m\u00ednimo existencial<\/strong>. O m\u00ednimo existencial compreende o conjunto de condi\u00e7\u00f5es materiais b\u00e1sicas indispens\u00e1veis a uma vida digna, no qual se insere a assist\u00eancia social inicial ao indiv\u00edduo desprovido de renda e suporte familiar ap\u00f3s a desvincula\u00e7\u00e3o do sistema prisional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A omiss\u00e3o estatal n\u00e3o pode ser blindada por alega\u00e7\u00f5es de discricionariedade or\u00e7ament\u00e1ria quando a ina\u00e7\u00e3o administrativa atinge patamares que aniquilam a pr\u00f3pria efic\u00e1cia das normas constitucionais garantidoras da dignidade humana.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>5 CONCLUS\u00c3O<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A execu\u00e7\u00e3o da pena n\u00e3o finda com a simples expedi\u00e7\u00e3o do alvar\u00e1 de soltura ou do termo de livramento condicional. A transi\u00e7\u00e3o da tutela penal para a vida civil exige a atua\u00e7\u00e3o concreta do Estado no cumprimento dos deveres assistenciais previstos na Lei de Execu\u00e7\u00e3o Penal, sob pena de restar esvaziada a finalidade preveniente e ressocializadora da san\u00e7\u00e3o criminal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A omiss\u00e3o sistem\u00e1tica do Poder P\u00fablico na estrutura\u00e7\u00e3o de Patronatos, na concess\u00e3o de aux\u00edlio transit\u00f3rio e na cria\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas regionais e nacionais efetivas de inser\u00e7\u00e3o laboral de egressos constitui falha de servi\u00e7o e descumprimento de dever jur\u00eddico espec\u00edfico de prote\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O reconhecimento do Estado de Coisas Inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal refor\u00e7a a tese de que a des\u00eddia na gest\u00e3o do sistema prisional e de seu ecossistema p\u00f3s-c\u00e1rcere enseja a caracteriza\u00e7\u00e3o da responsabilidade civil do Estado. Restando comprovado o nexo entre a omiss\u00e3o administrativa qualificada e o estado de vulnerabilidade absoluta gerador de danos ao egresso ou \u00e0 coletividade, imp\u00f5e-se a aplica\u00e7\u00e3o do dever de recomposi\u00e7\u00e3o do direito violado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A supera\u00e7\u00e3o desse quadro exige a consolida\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas estruturadas, o fortalecimento dos Escrit\u00f3rios Sociais e a efetiva aloca\u00e7\u00e3o de recursos do Fundo Penitenci\u00e1rio Nacional (FUNPEN) para a\u00e7\u00f5es voltadas prioritariamente \u00e0 reinser\u00e7\u00e3o social da pessoa egressa, sob pena de perpetua\u00e7\u00e3o do ciclo de exclus\u00e3o, viola\u00e7\u00e3o de direitos humanos e inefici\u00eancia da seguran\u00e7a p\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>REFER\u00caNCIAS<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">BARROSO, Lu\u00eds Roberto. <em>O Controle de Constitucionalidade no Direito Brasileiro<\/em>. 8. ed. S\u00e3o Paulo: Saraiva, 2019.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">BRASIL. Constitui\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica Federativa do Brasil de 1988. Bras\u00edlia, DF: Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, 1988.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">BRASIL. Lei n\u00ba 7.210, de 11 de julho de 1984. Institui a Lei de Execu\u00e7\u00e3o Penal. Bras\u00edlia, DF: Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, 1984.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">BRASIL. Lei n\u00ba 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Institui o C\u00f3digo Civil. Bras\u00edlia, DF: Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, 2002.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Argui\u00e7\u00e3o de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 347 MC\/DF. Relator: Min. Marco Aur\u00e9lio, Tribunal Pleno, julgado em 09\/09\/2015.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">CONSELHO NACIONAL DE JUSTI\u00c7A (CNJ). <em>Aten\u00e7\u00e3o \u00e0 pessoa egressa do sistema prisional: diretrizes e orienta\u00e7\u00f5es para a rede de servi\u00e7os p\u00fablicos e de prote\u00e7\u00e3o social<\/em>. Bras\u00edlia: CNJ, 2021.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. <em>Direito Administrativo<\/em>. 34. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2021.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">GRECO, Rog\u00e9rio. Curso de Direito Penal: Parte Geral. v. 1. 23. ed. Niter\u00f3i: Impetus, 2021.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MIRABETE, Julio Fabbrini; FABBRINI, Renato N. Execu\u00e7\u00e3o Penal: Coment\u00e1rios \u00e0 Lei 7.210\/84. 14. ed. S\u00e3o Paulo: Atlas, 2020.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">ROXIN, Claus. <em>A Prote\u00e7\u00e3o de Bens Jur\u00eddicos como Fun\u00e7\u00e3o do Direito Penal<\/em>. Organiza\u00e7\u00e3o e tradu\u00e7\u00e3o de Andr\u00e9 Lu\u00eds Callegari e Nereu Jos\u00e9 Giacomolli. 2. ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2009.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> Discente do curso de Direito na Institui\u00e7\u00e3o de Ensino Afya Porto Velho-RO.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"#_ftnref2\" id=\"_ftn2\">[2]<\/a> Docente do curso de Direito da Institui\u00e7\u00e3o de Ensino Afya Porto Velho-RO; Advogada; Bacharel em Direito pela Universidade Federal de Rond\u00f4nia. P\u00f3s-graduada em Direito de Fam\u00edlia e Sucess\u00f5es, Direito e Processo do Trabalho e Direito Previdenci\u00e1rio pela Universidade L\u00edbano; Mestranda em Administra\u00e7\u00e3o pela Universidade Federal de Rond\u00f4nia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>THE DUTY TO PUNISH AND STATE RESPONSIBILITY AFTER INCARCERATION: THE FAILURE OF THE SOCIAL REINTEGRATION OF FORMER PRISONERS Artigo submetido&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1862,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"fifu_image_url":"https:\/\/cognitiojuris.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/cognitio_juris_n25.jpg","fifu_image_alt":"","footnotes":""},"categories":[2],"tags":[11],"class_list":["post-1860","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos-cientificos","tag-10-2026"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/editoranorat.com.br\/scientiaetratio\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1860","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/editoranorat.com.br\/scientiaetratio\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/editoranorat.com.br\/scientiaetratio\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/editoranorat.com.br\/scientiaetratio\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/editoranorat.com.br\/scientiaetratio\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1860"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/editoranorat.com.br\/scientiaetratio\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1860\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1861,"href":"https:\/\/editoranorat.com.br\/scientiaetratio\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1860\/revisions\/1861"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/editoranorat.com.br\/scientiaetratio\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1862"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/editoranorat.com.br\/scientiaetratio\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1860"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/editoranorat.com.br\/scientiaetratio\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1860"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/editoranorat.com.br\/scientiaetratio\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1860"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}