Da ciência observada em documentários à ficção dos videogames, conheça o Cordyceps, um parasita real, assustador e muito mais próximo da nossa realidade do que parece
Imagine descobrir que um dos apocalipses mais famosos da cultura pop não nasceu apenas da imaginação de roteiristas, mas de um fenômeno biológico real, estudado há décadas por cientistas. Foi exatamente isso que aconteceu com The Last of Us. O jogo chocou o mundo ao trocar zumbis tradicionais por algo ainda mais perturbador: humanos controlados por um fungo existente na natureza.
Mas até onde essa ideia é apenas ficção? E até onde a ciência já chegou? Prepare-se para mergulhar em uma história que mistura biologia, evolução, curiosidade científica e um toque legítimo de medo.
Um pesadelo que já existe fora das telas
O grande diferencial de The Last of Us sempre foi o realismo desconfortável. Em vez de vírus inventados, o jogo se inspirou no Cordyceps, um fungo parasita que realmente existe e que, neste exato momento, está infectando criaturas ao redor do planeta.
Esse detalhe muda tudo. Afinal, não estamos falando de algo hipotético, mas de um organismo real, observado, documentado e estudado pela ciência moderna. A pergunta inevitável surge naturalmente: e se esse fungo desse um salto evolutivo?
Afinal, o que é o Cordyceps?
O Cordyceps não é uma única espécie, mas um gênero que reúne centenas de fungos parasitas diferentes. A maioria deles tem um alvo específico: insetos e outros artrópodes. Entre os mais famosos está o Ophiocordyceps unilateralis, conhecido por infectar formigas em florestas tropicais.
O funcionamento é digno de um roteiro de terror. Após a infecção, o fungo cresce dentro do corpo do inseto, interfere em seu sistema nervoso e altera completamente seu comportamento. A formiga passa a agir contra seus próprios instintos, escalando plantas até um ponto ideal para a reprodução do parasita. Quando o ciclo se completa, o hospedeiro morre, e o fungo se projeta para fora do corpo, liberando novos esporos.
Não é exagero dizer que se trata de uma forma real de controle biológico. Uma espécie de “zumbificação” natural que acontece longe dos olhos humanos, mas diariamente na natureza.
Da BBC ao videogame: quando a ciência vira terror
A ponte entre esse fenômeno e o universo de The Last of Us surgiu a partir de documentários científicos que mostravam imagens reais dessas infecções. Um deles, exibido pela BBC, chamou atenção por revelar o processo de forma crua e visualmente impactante.
Segundo relatos do próprio Neil Druckmann, criador do jogo, foi ali que surgiu a ideia perturbadora: e se algo assim pudesse acontecer com humanos? A partir desse questionamento nasceu um dos mundos pós-apocalípticos mais marcantes da história dos games.
Na ficção, o fungo teria se adaptado ao aumento das temperaturas globais, rompendo uma das principais barreiras que impedem fungos de infectar mamíferos: a incapacidade de sobreviver à temperatura do corpo humano.
Mas isso poderia acontecer na vida real?
Aqui entra a parte que tranquiliza… e ao mesmo tempo deixa um alerta no ar.
Atualmente, não existe nenhuma evidência de que o Cordyceps possa infectar humanos. As espécies conhecidas são extremamente específicas em relação aos seus hospedeiros. O cérebro humano, o sistema imunológico e nossa complexidade biológica tornam essa adaptação espontânea altamente improvável.
Porém, a ciência evita palavras absolutas. Nos últimos anos, médicos e pesquisadores têm observado um aumento preocupante de infecções fúngicas em humanos, incluindo espécies resistentes a medicamentos, como o Candida auris. Isso mostra que fungos são organismos muito mais adaptáveis do que costumávamos imaginar.
Além disso, mudanças climáticas globais podem forçar microrganismos a tolerar temperaturas mais altas, algo que antes funcionava como uma barreira natural de proteção para os humanos.
Ou seja: um apocalipse fúngico continua sendo ficção, mas a capacidade de adaptação dos fungos é um tema real e levado a sério pela ciência.
O outro lado do Cordyceps: de ameaça a possível cura
Curiosamente, nem tudo no Cordyceps é motivo de medo. Algumas espécies são utilizadas há séculos na medicina tradicional asiática, especialmente no tratamento de fadiga, problemas respiratórios e fortalecimento do sistema imunológico.
Hoje, pesquisas modernas investigam substâncias extraídas desses fungos para possíveis aplicações no combate ao câncer, inflamações crônicas e doenças metabólicas. O mesmo organismo que inspira histórias de terror também pode ajudar a salvar vidas.
A natureza, mais uma vez, mostra que não é vilã nem heroína, apenas complexa.
Por que essa história nos assusta tanto?
O sucesso de The Last of Us não vem apenas da ação ou do drama, mas do desconforto psicológico que ele provoca. A ideia de que o apocalipse pode surgir não de armas ou monstros, mas de algo microscópico e invisível, toca em medos muito reais da humanidade moderna.
O Cordyceps verdadeiro não vai transformar pessoas em criaturas amanhã. Ainda assim, ele nos lembra de uma verdade incômoda: sabemos muito sobre o mundo, mas ainda entendemos pouco sobre tudo o que vive nele.
E talvez seja exatamente por isso que essa história continua tão fantástica. Porque, no fundo, a pergunta “e se isso acontecesse?” nunca pareceu tão distante da realidade.