Curso de História para o 1º Ano do Ensino Médio
MÓDULO 4 – EGITO ANTIGO E NÚBIA
Aula 58 – O Médio e o Novo Império egípcio: expansão e contato com outros povos
Aula 58 – O Médio e o Novo Império egípcio: expansão e contato com outros povos
Vamos continuar nossa exploração do Egito Antigo, avançando no tempo para dois dos períodos mais dinâmicos e mais ricos dessa civilização milenar: o Médio Império e o Novo Império. Se o Antigo Império foi o tempo das grandes pirâmides, o tempo em que o poder do faraó se expressou de forma mais monumental e mais concentrada, os períodos que vamos estudar hoje foram marcados por um Egito mais aberto ao mundo, mais guerreiro, mais diplomático e mais culturalmente rico. Foi um Egito que expandiu suas fronteiras, estabeleceu contatos profundos com outros povos e viveu alguns dos momentos mais dramáticos de toda a sua história.
Vamos começar com o Médio Império, que se estende de aproximadamente 2055 a 1650 antes de Cristo.
Como vimos na aula anterior, o Antigo Império chegou ao fim por causa do enfraquecimento progressivo do poder central do faraó e da ascensão dos nomarcas, os governadores das províncias. O período que se seguiu, chamado de Primeiro Período Intermediário, foi um tempo de fragmentação política, de guerras entre os nomarcas e de instabilidade generalizada. O Egito voltou a se dividir em pequenos reinos rivais, perdendo a unidade que havia permitido a construção das grandes pirâmides.
Esse período de fragmentação terminou quando um faraó do Sul, chamado Mentuhotep II, da Décima Primeira Dinastia, reunificou o Egito por volta de 2055 antes de Cristo. Mentuhotep II foi um governante de grande habilidade militar e política. Ele derrotou os rivais do norte em uma série de campanhas militares e restaurou o poder centralizado do faraó. Sua vitória marcou o início do Médio Império e de um novo período de estabilidade e de prosperidade para o Egito.
O Médio Império foi um período de grande desenvolvimento em muitas áreas. Em primeiro lugar, houve uma reorganização da administração do Estado. Os faraós do Médio Império aprenderam com os erros que haviam levado ao colapso do Antigo Império e adotaram medidas para limitar o poder dos nomarcas. Os cargos de nomarca foram mantidos, mas o faraó passou a ter um controle muito mais direto sobre as províncias, com funcionários do palácio supervisionando a administração local e garantindo a lealdade dos governadores provinciais.
Em segundo lugar, o Médio Império foi um período de grande expansão econômica e territorial. Os faraós da Décima Segunda Dinastia, que é considerada a mais brilhante do Médio Império, empreenderam campanhas militares ao sul, na região da Núbia, que hoje corresponde ao Sudão. A Núbia era rica em ouro, marfim, ébano e pedras preciosas, recursos que eram muito valorizados no Egito e que os faraós queriam controlar diretamente. Para garantir o controle dessa região, os egípcios construíram uma série de fortes ao longo do Nilo na Núbia, criando uma fronteira militar permanente que protegia os interesses econômicos do Egito.
Em terceiro lugar, o Médio Império foi um período de grande florescimento cultural e literário. A língua e a literatura do Médio Império são consideradas o pico da expressão clássica do egípcio antigo, o equivalente do que o latim clássico é para a língua romana. Textos literários como o Conto do Náufrago, a História de Sinuhe e as Lamentações de Ipuver foram compostos nesse período e são considerados obras-primas da literatura egípcia. Esses textos mostram uma sociedade que valorizava a narrativa, a filosofia e a reflexão sobre a condição humana.
O Conto do Náufrago, por exemplo, narra a aventura de um soldado egípcio que sobrevive a um naufrágio e chega a uma ilha governada por uma grande serpente divina. É uma história de coragem, de sabedoria e de retorno ao lar, com temas que ressoam em muitas outras literaturas do mundo antigo. A História de Sinuhe, por sua vez, é considerada por muitos especialistas como a obra literária mais refinada do Egito Antigo. Ela narra a vida de um cortesão egípcio que, por medo de represálias após a morte de um faraó, foge para o Oriente Médio e passa anos vivendo entre os povos semitas do Levante, antes de finalmente retornar ao Egito e ser perdoado pelo novo faraó. É uma história de exílio, de saudade da pátria e de redenção que tem uma beleza narrativa que ainda hoje impressiona os leitores.
Mas o Médio Império chegou ao fim de forma dramática, com a invasão de um povo estrangeiro que os egípcios nunca haviam enfrentado antes: os hicsos.
Os hicsos eram um povo de origem semita, proveniente do Oriente Médio, que começou a se infiltrar no Delta do Nilo durante o Médio Império e que, aproveitando um período de enfraquecimento político, conquistou o norte do Egito por volta de 1650 antes de Cristo. Os hicsos estabeleceram sua própria dinastia no Egito, a Décima Quinta Dinastia, com capital em Avaris, no Delta do Nilo.
A chegada dos hicsos foi um choque enorme para os egípcios, que até então nunca haviam sido dominados por um povo estrangeiro. A tradição egípcia via os hicsos de forma muito negativa, chamando-os de invasores e de “governantes de terras estrangeiras”. Mas a realidade era mais complexa do que isso. Os hicsos não destruíram a civilização egípcia. Eles se adaptaram a muitos costumes e práticas egípcias, adotaram a escrita hieroglífica e se apresentaram como faraós legítimos. Ao mesmo tempo, trouxeram consigo inovações tecnológicas muito importantes.
As principais inovações trazidas pelos hicsos foram de natureza militar. Eles introduziram no Egito o carro de guerra, puxado por cavalos, que era uma arma de combate muito mais móvel e muito mais eficiente do que qualquer coisa que os egípcios possuíam até então. Introduziram também um novo tipo de arco, chamado arco composto, que era muito mais potente e de maior alcance do que o arco simples que os egípcios usavam. E trouxeram espadas e lanças de bronze de melhor qualidade. Essas inovações militares transformaram profundamente o exército egípcio e foram fundamentais para o período que viria a seguir.
O período da dominação hicsa é chamado de Segundo Período Intermediário, e ele durou até que os faraós do Sul, com capital em Tebas, iniciaram uma série de guerras de libertação contra os invasores. A luta pela expulsão dos hicsos foi longa e difícil, envolvendo vários faraós da Décima Sétima Dinastia. O faraó Seqenenré Taô, por exemplo, foi encontrado mumificado com feridas graves na cabeça, provavelmente sofridas em batalha contra os hicsos. Seu filho Kamose também lutou bravamente contra os invasores, mas foi o irmão de Kamose, Ahmósis I, que finalmente expulsou os hicsos do Egito por volta de 1550 antes de Cristo, inaugurando o Novo Império.
E agora chegamos ao período mais rico e mais poderoso de toda a história egípcia: o Novo Império, que se estende de aproximadamente 1550 a 1070 antes de Cristo.
Ahmósis I, o fundador do Novo Império, foi um governante de grande habilidade militar e política. Após expulsar os hicsos do Egito, ele reorganizou o exército egípcio, incorporando as inovações militares que os hicsos haviam trazido, especialmente o carro de guerra. Ele também perseguiu os hicsos até além das fronteiras do Egito, empreendendo campanhas militares no sul da Palestina e na Síria, e consolidando o controle egípcio sobre a Núbia ao sul.
Essa política de expansão militar além das fronteiras tradicionais do Egito foi a característica mais marcante do Novo Império. Os faraós do Novo Império não se contentavam em defender o Egito. Eles queriam um império, um domínio sobre territórios e povos muito além do vale do Nilo.
O Novo Império é dividido em três grandes famílias reais, chamadas de Décima Oitava, Décima Nona e Vigésima Dinastias. Cada uma delas produziu faraós notáveis que deixaram marcas profundas na história do Egito e do mundo antigo.
Durante a Décima Oitava Dinastia, o Egito atingiu seu maior poder e sua maior expansão territorial. O faraó Tutmósis I empreendeu campanhas militares que levaram o exército egípcio até o rio Eufrates, na Mesopotâmia, estabelecendo o maior império que o Egito já havia controlado até então. Seus sucessores, Tutmósis II e Tutmósis III, continuaram essa política de expansão.
Mas antes de falar sobre Tutmósis III, precisamos parar um momento para falar sobre uma das figuras mais extraordinárias e mais importantes do Egito Antigo: a rainha Hatshepsut.
Hatshepsut foi esposa de Tutmósis II e, após a morte do marido, assumiu o poder como regente de seu filho Tutmósis III, que era ainda muito jovem para governar. Mas o que deveria ser uma regência temporária se transformou em um reinado de pleno direito. Hatshepsut se proclamou faraó, com todos os títulos e as prerrogativas do cargo. Ela era representada nas esculturas e nos relevos com os símbolos do faraó, incluindo a barba postiça cerimonial que era um atributo masculino do poder. E ela governou o Egito com competência e visão por aproximadamente vinte anos.
O reinado de Hatshepsut foi marcado não por guerras de conquista, mas por prosperidade econômica e por grandes realizações culturais e arquitetônicas. Ela mandou construir um dos mais belos templos do Egito, o templo de Deir el-Bahari, em Tebas, que ainda hoje é considerado uma das obras-primas da arquitetura egípcia. Ela também organizou uma grande expedição comercial ao país de Punt, uma região distante, provavelmente na costa oriental da África, de onde trouxeram incenso, ébano, animais exóticos e outros produtos luxuosos.
Após a morte de Hatshepsut, Tutmósis III assumiu o poder e empreendeu uma das mais brilhantes carreiras militares da história egípcia, com dezessete campanhas militares na Síria e na Palestina ao longo de seu reinado. Ele é frequentemente chamado de o Napoleão do Egito, tamanha era a sua habilidade estratégica e o alcance de suas conquistas. Sob seu governo, o Egito controlou um território que ia desde a quarta catarata do Nilo, na Núbia, até o rio Eufrates, na Mesopotâmia, tornando-se a maior potência do mundo antigo de seu tempo.
A política do Novo Império não era apenas de conquista militar. Era também de diplomacia sofisticada. Os faraós do Novo Império trocavam cartas, presentes e até mesmo esposas com os reis de outras grandes potências da época, como o Império Mitani na Síria, o Império Babilônico, o Império Hitita na Anatólia e o Egito. Essas correspondências diplomáticas, escritas em cuneiforme e descobertas no sítio arqueológico de Amarna, no Egito, são chamadas de Cartas de Amarna e são uma fonte histórica de enorme valor para entender a política internacional do Oriente Médio no segundo milênio antes de Cristo.
Os egípcios chamavam as grandes potências com quem se correspondiam de “grandes irmãos”, e a linguagem das cartas era de igualdade mútua e de respeito. Os reis se chamavam de irmãos uns dos outros, trocavam presentes de ouro, ébano, marfim e cavalos, e negociavam alianças matrimoniais. Era um sistema de relações internacionais surpreendentemente sofisticado para a época, que lembra em muitos aspectos a diplomacia moderna.
Um dos eventos mais famosos do Novo Império foi a Batalha de Kadesh, que ocorreu por volta de 1274 antes de Cristo, durante o reinado do faraó Ramsés II, da Décima Nona Dinastia. Ramsés II enfrentou o exército do Império Hitita, liderado pelo rei Muwatalli II, na cidade de Kadesh, na Síria. A batalha foi uma das maiores batalhas de carros de guerra da Antiguidade, com dezenas de milhares de soldados de ambos os lados. O resultado foi inconclusivo, com ambos os lados reivindicando a vitória, mas a realidade foi que nenhum dos dois conseguiu uma vitória decisiva.
O que tornou a Batalha de Kadesh ainda mais famosa foi o que aconteceu depois dela. Em vez de continuar guerreando por uma vitória que nenhum dos dois podia garantir, Ramsés II e o rei hitita Hattusili III assinaram um tratado de paz por volta de 1259 antes de Cristo. Esse tratado, conhecido como o Tratado de Kadesh, é considerado o mais antigo tratado de paz de que se tem registro na história da humanidade. Ele estabelecia a fronteira entre os dois impérios, garantia a não agressão mútua, previa o retorno de refugiados e a extradição de criminosos, e selava a aliança com um casamento entre Ramsés II e uma princesa hitita. Uma cópia em cuneiforme desse tratado está preservada nos arquivos do Museu Arqueológico de Istambul, e uma reprodução dele está exposta na sede da Organização das Nações Unidas, em Nova York, como um símbolo da importância histórica da diplomacia.
Ramsés II foi o faraó mais longo reinante do Novo Império, governando por cerca de sessenta e seis anos, de 1279 a 1213 antes de Cristo. Ele é famoso por sua política de autoengrandecimento, com a construção de templos monumentais em todo o Egito, muitos dos quais cobertos com relevos que exaltavam seus supostos feitos heroicos na Batalha de Kadesh. Os templos de Abu Simbel, escavados na rocha da Núbia e decorados com quatro colossos de Ramsés II, cada um com vinte metros de altura, são talvez os exemplos mais impressionantes dessa política de glorificação pessoal.
O Novo Império chegou ao fim gradualmente, com o enfraquecimento progressivo do poder central causado por fatores internos e externos. Internamente, o poder dos sacerdotes de Amon-Rá cresceu a ponto de se tornar uma ameaça real ao poder do faraó. Em algumas fases finais da Vigésima Dinastia, os sumos sacerdotes de Amon chegaram a controlar o Alto Egito de forma praticamente independente, enquanto o faraó controlava apenas o Delta do Nilo. Externamente, o Egito enfrentou ataques de povos que os egípcios chamavam de Povos do Mar, grupos de migrantes e guerreiros que devastaram muitas civilizações do Mediterrâneo Oriental por volta de 1200 antes de Cristo, destruindo o Império Hitita e ameaçando gravemente o Egito.
Após o Novo Império, o Egito entrou no Terceiro Período Intermediário, um tempo de fragmentação política e de dominação por parte de povos estrangeiros, como os líbios e, mais tarde, os assírios. Depois veio o período Tardio, quando persas e macedônios dominaram o Egito, até que a conquista romana em 30 antes de Cristo, com a morte da rainha Cleópatra VII, encerrou definitivamente a história do Egito como Estado independente.
Agora, vamos fazer as conexões com o ENEM que são tão importantes para a sua preparação.
O ENEM frequentemente apresenta questões sobre o Médio e o Novo Império que exploram a expansão territorial e o contato com outros povos. Você precisa saber explicar como os hicsos mudaram a história do Egito ao trazerem inovações militares, como o carro de guerra e o arco composto, e como essas inovações foram incorporadas pelo Egito e usadas para a expansão do Novo Império.
A figura de Hatshepsut é outro tema recorrente. O ENEM pode usar a história de Hatshepsut para explorar questões de gênero, poder e história. Ela é um exemplo de mulher que governou o Egito com competência e que foi, muitas vezes, apagada da história por seus sucessores. Esse apagamento histórico é um tema que conecta o mundo antigo com debates contemporâneos sobre a memória histórica e a representação das mulheres no poder.
O Tratado de Kadesh é um tema muito importante para o ENEM, pois representa o mais antigo tratado de paz da história. Você precisa saber contextualizar esse tratado, explicando quem eram as partes envolvidas, qual era o contexto que levou à sua assinatura e qual foi a sua importância histórica.
As Cartas de Amarna são outro ponto relevante. Elas são uma fonte primária extraordinária para entender as relações diplomáticas do Oriente Médio no segundo milênio antes de Cristo, e o ENEM pode apresentar trechos dessas cartas para que você analise e contextualize.
Por fim, o declínio do Novo Império e o papel dos Povos do Mar é um tema que o ENEM pode usar para discutir as causas do colapso das civilizações antigas, conectando o Egito com outras civilizações que foram afetadas por esses movimentos populacionais no final da Idade do Bronze.
Vamos fazer agora um resumo completo de tudo que estudamos nesta aula.
O Médio Império Egípcio, de 2055 a 1650 antes de Cristo, foi inaugurado pela reunificação do Egito pelo faraó Mentuhotep II, após o Primeiro Período Intermediário. Caracterizou-se pela reorganização da administração, pela expansão para a Núbia, pela extração de seus recursos naturais e por um grande florescimento literário, com obras como a História de Sinuhe e o Conto do Náufrago.
O Médio Império terminou com a invasão dos hicsos, um povo semita que dominou o Delta do Nilo por cerca de um século, o Segundo Período Intermediário. Os hicsos introduziram o carro de guerra, o arco composto e outras inovações militares no Egito. Foram expulsos por Ahmósis I, que inaugurou o Novo Império.
O Novo Império, de 1550 a 1070 antes de Cristo, foi o período de maior poder e expansão do Egito. Faraós como Tutmósis I, Tutmósis III e Ramsés II levaram o Egito a controlar territórios da Núbia ao Eufrates. Hatshepsut se destacou como uma das poucas mulheres a governar o Egito como faraó, com um reinado marcado pela prosperidade e pelas grandes obras.
A Batalha de Kadesh, contra os hititas, levou ao Tratado de Kadesh, o mais antigo tratado de paz da história. O sistema diplomático do Novo Império, com as Cartas de Amarna, mostrou um Oriente Médio conectado por relações sofisticadas entre grandes potências.
O Novo Império entrou em declínio com o crescimento do poder dos sacerdotes e com os ataques dos Povos do Mar, levando ao Terceiro Período Intermediário e ao fim do Egito como grande potência, até a conquista romana em 30 antes de Cristo.
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