Curso de História para o 1º Ano do Ensino Médio
MÓDULO 4 – EGITO ANTIGO E NÚBIA
Aula 59 – O Reino de Kush e a Núbia: a civilização africana ao sul do Egito
Aula 59 – O Reino de Kush e a Núbia: a civilização africana ao sul do Egito
Nesta aula vamos tratar sobre uma civilização que durante muito tempo foi negligenciada pelos livros didáticos e que só nas últimas décadas começou a receber a atenção que merece: o Reino de Kush e da civilização núbia, que floresceu ao sul do Egito, às margens do rio Nilo, e que foi, durante séculos, uma das mais ricas, mais poderosas e mais sofisticadas civilizações do continente africano.
A história dos núbios e dos kushitas é, em muitos sentidos, uma história de relação intensa com o Egito, uma relação que oscilou entre a colaboração comercial, a dominação política e, surpreendentemente, a inversão completa dos papéis, com os reis de Kush chegando a governar o próprio Egito em um dos momentos mais extraordinários da história antiga.
Para entender essa história, precisamos primeiro saber onde ficava a Núbia e o que tornava essa região tão importante.
A Núbia era uma região localizada ao longo do rio Nilo, ao sul do Egito, em um território que hoje corresponde principalmente ao norte do Sudão e ao extremo sul do Egito moderno. O nome Núbia provavelmente deriva da palavra egípcia “nub”, que significa ouro, e isso já nos diz muito sobre por que os egípcios estavam tão interessados nessa região. A Núbia era extraordinariamente rica em recursos naturais: ouro, em quantidade enorme, marfim obtido dos elefantes que viviam na região, ébano, uma madeira escura e densa muito valorizada, pedras semipreciosas como a cornalina e o quartzo, animais exóticos como girafas, leopardos e macacos, incenso e resinas aromáticas, e escravizados, que eram um produto trágico mas muito presente no comércio antigo.
Essa riqueza tornava a Núbia um dos territórios mais cobiçados do mundo antigo, e o Egito foi um dos primeiros e mais persistentes a tentar controlá-la. A relação entre egípcios e núbios começa muito antes da formação dos reinos organizados que vamos estudar hoje. Já no Período Pré-Dinástico, ou seja, antes de 3100 antes de Cristo, há evidências arqueológicas de contato entre as comunidades do vale do Nilo ao sul do Egito e as comunidades egípcias. Esse contato era principalmente comercial, com produtos núbios chegando ao Egito e produtos egípcios chegando à Núbia.
Com a unificação do Egito e a formação do Estado faraônico, essa relação se transformou em algo muito mais assimétrico. Os faraós do Antigo Império já realizavam expedições militares e comerciais à Núbia, mas foi a partir do Médio Império que os egípcios passaram a controlar de forma sistemática o norte da Núbia.
Os faraós da Décima Segunda Dinastia, que governaram o Médio Império, construíram uma série de fortes militares ao longo do Nilo na Núbia, nas cataratas do rio, que são regiões onde o Nilo se torna raso e repleto de rochas, tornando a navegação difícil e criando pontos naturais de controle. Esses fortes serviam como postos avançados do poder egípcio, garantindo o controle das rotas comerciais e impedindo que os povos da Núbia resistissem à dominação egípcia.
A região controlada pelos egípcios no norte da Núbia era chamada de Uáuate ou Wawat. Ao sul dessa região controlada pelo Egito ficava outra região, chamada de Kush, que é o nome que dá título à nossa aula de hoje.
Durante o período em que o Egito estava enfraquecido pelo Segundo Período Intermediário, com a invasão dos hicsos no Delta do Nilo, o Reino de Kush aproveitou o vácuo de poder e se fortaleceu, ampliando seu território e desenvolvendo suas próprias estruturas políticas e sociais. Os reis de Kush, com capital na cidade de Kerma, uma das primeiras grandes cidades da Núbia, construíram um reino poderoso que comercializava com o Egito e com outras regiões da África.
A cidade de Kerma era o centro do que os arqueólogos chamam de Cultura de Kerma, que floresceu entre aproximadamente 2500 e 1500 antes de Cristo. As escavações arqueológicas em Kerma revelaram uma cidade com grandes edifícios de tijolos de barro, monumentos funerários chamados tumuli, que eram grandes montes de terra cobrindo as sepulturas dos reis, e uma produção artesanal sofisticada, com cerâmica de altíssima qualidade técnica, muito elogiada pelos próprios egípcios, joias de ouro, marfim esculpido e outros objetos de luxo.
A cerâmica de Kerma é particularmente impressionante. Com paredes extremamente finas, superfícies polidas em tons de vermelho e preto, ela representa um nível de técnica artesanal que rivaliza com qualquer produção do mundo antigo de seu tempo. Encontrá-la nos túmulos de Kerma é um sinal claro de uma sociedade altamente desenvolvida, capaz de produzir objetos de beleza e de complexidade técnica que não devem nada às produções egípcias ou mesopotâmicas.
Quando o Egito do Novo Império expulsou os hicsos e recuperou seu poder, os faraós voltaram sua atenção para a Núbia com uma intensidade renovada. O faraó Tutmósis I, da Décima Oitava Dinastia, liderou uma campanha militar devastadora que destruiu Kerma e estendeu o controle egípcio até além da quarta catarata do Nilo, a mais de mil e quinhentos quilômetros ao sul de Mênfis. Essa foi a maior extensão do controle egípcio sobre a Núbia na história.
Durante o Novo Império, a Núbia foi profundamente egípcia-nizada, um termo que os historiadores usam para descrever o processo pelo qual uma região absorve a cultura de outro povo dominante. Os egípcios construíram templos aos seus próprios deuses em território núbio, como os famosos templos de Abu Simbel, mandados construir pelo faraó Ramsés II. Enviaram governadores egípcios para administrar a região, que recebeu o título de Canaã do Sul ou Vice-Reino de Kush. A elite núbia local adotou progressivamente as roupas, a língua, a escrita e a religião egípcias, enterrando seus mortos segundo os costumes egípcios e usando títulos egípcios.
Mas essa dominação egípcia não apagou completamente a identidade cultural núbia. As populações locais continuaram suas próprias práticas, seus próprios ritos e suas próprias tradições, que coexistiam com os elementos da cultura egípcia que haviam sido adotados. Essa fusão de culturas criou algo único: uma civilização núbia que era, ao mesmo tempo, profundamente influenciada pelo Egito e distintamente diferente dele.
Com o enfraquecimento do Novo Império, por volta de 1070 antes de Cristo, o controle egípcio sobre a Núbia começou a se dissolver. A região voltou à autonomia política, e um novo reino começou a se formar no sul da Núbia, na região chamada Merowe ou Meroe, com sua capital na cidade de Napata, perto da quarta catarata.
Os reis de Napata, que governavam o novo reino chamado de Reino de Kush, eram profundamente egípcios na aparência cultural: eles adoravam os deuses egípcios, especialmente Amon, o grande deus de Tebas, escreviam em hieróglifos, construíam pirâmides para seus mortos, mumificavam seus corpos e usavam títulos faraônicos. Mas eram africanos de origem, herdeiros de uma tradição que ia muito além da influência egípcia, e tinham suas próprias características culturais que os distinguiam dos egípcios.
E aqui chegamos a um dos momentos mais extraordinários e mais surpreendentes de toda a história do Egito e da Núbia: a conquista do Egito pelos reis de Kush.
No século oitavo antes de Cristo, o Egito estava em um período de profunda fragmentação política. O Terceiro Período Intermediário havia dividido o Egito em múltiplos reinos menores, governados por faraós rivais e por príncipes locais sem autoridade real sobre o conjunto do país. O grande templo de Amon em Tebas, no Alto Egito, que era um dos maiores centros religiosos do mundo antigo, estava ameaçado por príncipes guerreiros que disputavam o poder e que não respeitavam a autoridade dos sacerdotes.
Foi então que o rei kushita Piankhi, que governava a partir de Napata, decidiu intervir. Piankhi era um devoto fervoroso do deus Amon, o mesmo deus venerado em Tebas, e via a fragmentação e a desordem do Egito como uma ofensa ao deus. Por volta de 728 antes de Cristo, ele liderou seu exército para o norte e conquistou o Egito inteiro, do Delta do Nilo até o Alto Egito. Não como um invasor destruidor, mas como um restaurador da ordem e um protetor de Amon. Piankhi foi tão respeitoso com os templos e as tradições egípcias que muitos egípcios o receberam com alívio e até com alegria.
Piankhi se tornou o fundador da Vigésima Quinta Dinastia, também chamada de Dinastia Kushita ou Dinastia Etíope, que governou o Egito de aproximadamente 747 a 656 antes de Cristo. Pela primeira vez na história, o Egito era governado por reis cujas raízes culturais estavam ao sul, na África subsaariana. Mas o paradoxo extraordinário dessa situação é que esses reis africanos eram, ao mesmo tempo, os mais “egípcios” de todos os faraós em termos de devoção às tradições religiosas e culturais do Egito.
Os reis kushitas que governaram o Egito, como Shabaka, Shebitku, Taharqa e Tantamani, foram governantes de grande capacidade e de visão. Eles restauraram templos, retomaram a construção de monumentos religiosos, reviveram tradições que haviam caído em desuso e tentaram reunificar um Egito que havia sido fragmentado por séculos de disputas internas. O faraó Taharqa, que governou de aproximadamente 690 a 664 antes de Cristo, é considerado o mais poderoso dos reis kushitas. Ele empreendeu uma política de obras monumentais em todo o Egito e na Núbia, construindo e restaurando templos em locais como Karnak, em Tebas, e Napata, em Kush.
O reinado de Taharqa também foi marcado por um conflito de enorme importância histórica: o confronto com o Império Assírio. Os assírios, como já estudamos, eram o maior poder militar do Oriente Médio na época, e estavam expandindo seu domínio para o oeste, em direção ao Mediterrâneo e ao Egito. O faraó Taharqa resistiu bravamente aos assírios, mas as forças militares assírias eram simplesmente avassaladoras. O rei assírio Esarhadon invadiu o Egito em 671 antes de Cristo e capturou Mênfis. Taharqa recuou para o sul e continuou governando partes do Egito por alguns anos, mas seu sucessor Tantamani foi finalmente expulso do Egito pelos assírios, e a Vigésima Quinta Dinastia chegou ao fim.
Os reis kushitas recuaram para Napata e depois, progressivamente, para uma nova capital ainda mais ao sul, a cidade de Meroe, às margens do Nilo no atual Sudão central. E aqui começa um dos capítulos mais independentes e mais originais da civilização núbia.
O Reino de Meroe, que floresceu de aproximadamente 350 antes de Cristo a 350 depois de Cristo, foi um reino africano independente que desenvolveu características culturais próprias, em um processo de progressivo afastamento dos modelos egípcios e de afirmação de uma identidade genuinamente kushita.
Os reis de Meroe continuaram construindo pirâmides, mas as pirâmides meróiticas tinham uma forma distinta das egípcias: eram muito mais altas e estreitas, com um ângulo de inclinação mais agudo, e eram construídas em menor escala, mas em maior número. Hoje, em sítios arqueológicos como Meroe e Nuri, no Sudão, existem mais de duzentas pirâmides kushitas, um número que supera em muito o total de pirâmides egípcias. Isso mostra que essa prática funerária, originalmente aprendida com o Egito, foi adotada com tal entusiasmo pelos kushitas que eles a praticaram por um período de tempo muito maior e com uma frequência muito maior do que os próprios egípcios.
Os kushitas de Meroe também desenvolveram sua própria escrita, chamada de escrita meróitica, que era diferente dos hieróglifos egípcios. Eles adaptaram alguns dos sinais hieroglíficos e criaram um alfabeto próprio, com cerca de vinte e três sinais, cada um representando um som específico. A escrita meróitica ainda não foi completamente decifrada pelos pesquisadores modernos, o que significa que uma parte importante da história e da cultura de Meroe permanece um mistério. Os estudiosos conseguem ler os sons dos textos, ou seja, pronunciar as palavras, mas não conseguem entender o significado de grande parte do vocabulário, porque a língua meróitica não está suficientemente documentada. É um dos grandes enigmas da linguística histórica moderna.
Economicamente, o Reino de Meroe era extremamente próspero. Situado em uma região fértil do vale do Nilo, com acesso a recursos minerais abundantes, especialmente o ferro, Meroe se tornou um dos maiores centros de fundição de ferro do mundo antigo. As escórias de ferro encontradas nos sítios arqueológicos de Meroe são de uma quantidade tão impressionante que alguns arqueólogos chamaram a cidade de Birmingham da África Antiga, em referência à cidade britânica que foi o centro da Revolução Industrial no século dezenove. O ferro produzido em Meroe era usado para fazer ferramentas e armas, e era exportado para toda a África subsaariana e para o Oriente Médio, tornando Meroe um ponto central das rotas comerciais africanas.
Meroe também comercializava com o Egito, então sob domínio romano, com a Arábia, com a Etiópia e com a Índia. A cidade era uma encruzilhada de rotas comerciais que conectavam o interior da África ao mundo mediterrâneo e ao Oriente. Carregamentos de ouro, marfim, animais exóticos e escravizados partiam de Meroe em direção ao norte e ao leste, enquanto mercadorias como vidro, cerâmica, vinho e óleos chegavam em sentido contrário.
O papel das mulheres na sociedade de Meroe é outro aspecto que merece destaque especial. O Reino de Meroe foi governado por várias rainhas que exerceram o poder com grande autonomia, muito diferente do que era comum na maioria das civilizações antigas. Essas rainhas guerreiras eram chamadas de Kandake, um título que os gregos e romanos transformaram em Candaces. As Kandakes de Meroe eram figuras de grande poder, representadas nos relevos dos templos com tamanho igual ou superior ao de seus maridos, armadas com arco e flecha, lança e espada, e comandando exércitos em batalha.
Uma das Kandakes mais famosas foi uma rainha cujo nome não foi completamente identificado, que teria se confrontado com um general do exército de Alexandre, o Grande, no século quatro antes de Cristo, quando Alexandre estava conquistando o Oriente Médio e a Pérsia. Segundo as fontes, ao se aproximar da fronteira de Meroe, Alexandre teria encontrado um exército liderado pela Kandake e, ao ver a força da rainha e de seu exército, teria desistido de invadir o território de Kush. Independentemente de o episódio ser completamente histórico ou parcialmente lendário, ele mostra que a fama das Kandakes como guerreiras poderosas era algo conhecido e respeitado no mundo antigo.
O fim do Reino de Meroe chegou por volta do século quatro depois de Cristo, quando foi destruído pelo Reino de Axum, um poderoso Estado localizado no que hoje é a Etiópia. A civilização de Meroe deixou de existir como entidade política, mas seus efeitos sobre a história da África foram profundos e duradouros. O conhecimento da fundição de ferro se espalhou por toda a África subsaariana a partir de Meroe. As práticas funerárias, as tradições religiosas e as estruturas políticas que Meroe havia desenvolvido influenciaram outras civilizações africanas que vieram depois.
Agora, vamos fazer as conexões com o ENEM que são tão importantes para a sua preparação.
O ENEM tem prestado cada vez mais atenção às civilizações africanas que não são o Egito. A Núbia e o Reino de Kush são um tema que aparece com crescente frequência, especialmente em questões que pedem ao aluno que reconheça a existência de civilizações africanas complexas e sofisticadas que não se limitam ao Egito. A ideia de que a África era um continente de povos sem história ou sem organização política antes da chegada dos europeus é um mito que o ENEM frequentemente contesta, e a história de Kush e de Meroe é um dos exemplos mais poderosos para refutar esse mito.
A inversão de papéis na história egípcio-núbia, com os reis de Kush conquistando e governando o Egito durante a Vigésima Quinta Dinastia, é um tema que o ENEM pode usar para explorar a complexidade das relações entre os povos do mundo antigo. Ela mostra que a relação entre dominadores e dominados nunca é estática e que os povos que foram subjugados em um momento podem se tornar poderosos em outro.
A escrita meróitica não decifrada é outro ponto interessante que o ENEM pode explorar, mostrando como o conhecimento histórico é sempre incompleto e como os arqueólogos e linguistas continuam trabalhando para desvendar os mistérios do passado.
O papel das Kandakes como governantes femininas em uma sociedade onde as mulheres exerciam o poder político de forma visível e respeitada é um tema que conecta a história antiga com debates contemporâneos sobre gênero, poder e representação.
A influência de Meroe na difusão da metalurgia do ferro pelo continente africano é um exemplo de como civilizações africanas foram agentes ativos na disseminação de tecnologias que transformaram a história do continente.
Vamos fazer agora um resumo completo de tudo que estudamos nesta aula.
A Núbia era uma região ao sul do Egito, rica em ouro, marfim, ébano e outros recursos, que foi objeto de cobiça e de dominação egípcia desde o Período Pré-Dinástico. O Reino de Kerma, a primeira grande civilização núbia, floresceu entre 2500 e 1500 antes de Cristo, com uma produção artesanal de alta qualidade, especialmente na cerâmica.
Com o Novo Império, o Egito dominou militarmente a Núbia, construindo templos e impondo a cultura egípcia. Com o declínio do Novo Império, surgiu o Reino de Kush, com capital em Napata. Os reis kushitas, devotos do deus Amon, conquistaram o Egito no século oitavo antes de Cristo, fundando a Vigésima Quinta Dinastia, também chamada de Dinastia Kushita. Faraós como Piankhi, Shabaka e Taharqa governaram um Egito reunificado com respeito pelas tradições egípcias, até serem expulsos pelos assírios no século sete antes de Cristo.
Após a perda do Egito, os reis de Kush se concentraram em Meroe, no atual Sudão, onde desenvolveram uma civilização própria com escrita meróitica original, numerosas pirâmides de forma mais aguda que as egípcias, e um avançado sistema de fundição de ferro que influenciou toda a África subsaariana. Meroe era um centro comercial que conectava a África ao Mediterrâneo e ao Oriente.
As Kandakes de Meroe, rainhas que exerciam poder político e militar de forma autônoma, são um símbolo da sofisticação política e da posição das mulheres nessa civilização. O Reino de Meroe foi destruído pelo Reino de Axum por volta do século quatro depois de Cristo, mas sua influência na história da África foi profunda e duradoura.
Na próxima aula, vamos explorar as relações entre Egito e Núbia ao longo da história.
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