Curso de História para o 1º Ano do Ensino Médio
MÓDULO 5 – OUTROS POVOS E CIVILIZAÇÕES ANTIGAS
Aula 61 – A China Antiga: organização política, sociedade e cultura
Aula 61 – A China Antiga: organização política, sociedade e cultura
Na aula de hoje nós vamos falar sobre a China Antiga, um país que já era uma civilização organizada quando grande parte do mundo ainda vivia em pequenas comunidades sem escrita, sem cidades e sem governo centralizado. A China é um caso extraordinário na história humana: ela desenvolveu uma cultura própria de enorme riqueza, manteve uma continuidade impressionante ao longo de milênios e deu ao mundo invenções que transformaram completamente a vida dos seres humanos em todos os continentes.
Para entender a China Antiga, precisamos começar pelo lugar onde ela nasceu: a sua geografia.
A China está localizada no leste da Ásia, e seu território é imenso, com uma variedade geográfica extraordinária. Ao norte, grandes estepes e desertos separam a China das tribos nômades da Ásia Central. A oeste, as mais altas montanhas do mundo, o Himalaia e os Montes Kunlun, formam uma barreira natural quase intransponível. A leste e ao sul, o Oceano Pacífico e o Mar da China fecham o território. Essa posição geográfica relativamente isolada teve uma consequência muito importante para o desenvolvimento da civilização chinesa: ela cresceu de forma relativamente autônoma, sem as influências externas constantes que caracterizaram a história do Mediterrâneo ou do Oriente Médio.
Mas dentro desse território imenso e relativamente isolado, havia dois grandes rios que foram o berço da civilização chinesa. O primeiro é o Rio Amarelo, chamado em chinês de Huang He, que fica no norte e que recebe esse nome por causa da cor amarelada das águas, carregadas de sedimentos de areia e de lama. O segundo é o Rio Azul, chamado em chinês de Yang-tsé ou Yangtzé, que fica mais ao sul. Assim como o Nilo no Egito e os rios Tigre e Eufrates na Mesopotâmia, esses dois rios foram essenciais para o desenvolvimento da agricultura e para o surgimento de populações densas que tornariam possível o aparecimento de cidades e de Estados.
O Rio Amarelo, em particular, é frequentemente chamado de o berço da civilização chinesa, porque foi em suas margens que as primeiras grandes civilizações chinesas se desenvolveram. Mas o Rio Amarelo era também um rio muito perigoso, com cheias imprevisíveis e devastadoras que podiam destruir cidades e campos de cultivo inteiros. Por isso, os chineses o chamavam também de o Pesar da China. A necessidade de controlar as cheias do Rio Amarelo, de construir diques, de organizar a distribuição de água para a agricultura, exigiu desde muito cedo uma coordenação coletiva de enorme escala, e foi essa necessidade de organização coletiva que impulsionou o desenvolvimento de estruturas políticas centralizadas na China.
A civilização chinesa é muito antiga. As evidências arqueológicas mostram que já havia seres humanos vivendo nas margens do Rio Amarelo há mais de um milhão de anos. A famosa descoberta do Homem de Pequim, um ancestral humano que viveu na região de Pequim há aproximadamente meio milhão de anos, mostra como a ocupação humana da China é remotíssima. Mas as primeiras civilizações organizadas, com cidades, escrita e governo, surgiram mais tarde, por volta do terceiro e segundo milênio antes de Cristo.
A tradição histórica chinesa fala de uma época de governantes míticos, chamados os Cinco Imperadores, que teriam civilizado a humanidade ensinando técnicas de agricultura, de criação de animais, de construção de casas e de cura de doenças. Entre esses governantes míticos, dois são especialmente famosos: o Imperador Amarelo, Huangdi, que é considerado o ancestral comum de todos os chineses e o inventor da escrita, da roda e de muitas outras técnicas, e o Grande Yu, que teria realizado a façanha de controlar as enchentes do Rio Amarelo, salvando o povo de inundações devastadoras.
Esses personagens míticos nos dizem algo muito importante sobre os valores da civilização chinesa: ela admirava os governantes que cuidavam do povo, que organizavam o trabalho coletivo e que promoviam o bem-estar da sociedade. A legitimidade do poder, na tradição chinesa, estava diretamente ligada à capacidade do governante de cuidar do povo.
A história documentada da China começa com a Dinastia Shang, que governou o vale do Rio Amarelo de aproximadamente 1600 a 1046 antes de Cristo. Os Shang foram durante muito tempo considerados uma lenda, mencionados apenas em textos históricos mais tardios, mas as escavações arqueológicas do século vinte confirmaram que eles existiram de fato, revelando cidades, palácios, tumbas e uma sofisticada cultura material.
Os Shang tinham uma organização política que combinava poder político e religioso. O rei era também o principal sacerdote, o intermediário entre os homens e os ancestrais divinos. A religiosidade dos Shang era profundamente centrada no culto aos ancestrais. Os chineses acreditavam que os espíritos dos antepassados continuavam ativos após a morte e podiam influenciar a vida dos vivos, para o bem ou para o mal, dependendo de como fossem honrados e cultuados.
Para se comunicar com os ancestrais e com as divindades, os sacerdotes Shang usavam ossos de animais e carapaças de tartaruga, nos quais faziam perguntas e aplicavam calor até que o osso ou a carapaça rachasse. Os padrões das rachaduras eram então interpretados como respostas dos espíritos. Esses ossos e carapaças eram depois gravados com os textos das perguntas e das respostas, e é nessas gravações, chamadas de ossos oraculares, que encontramos os mais antigos exemplos da escrita chinesa.
A escrita chinesa é um dos sistemas de escrita mais antigos que ainda estão em uso no mundo hoje. Ao contrário do alfabeto fenício, que representava sons, a escrita chinesa é um sistema logográfico, em que cada caractere representa uma palavra ou uma ideia. Os caracteres chineses modernos são descendentes diretos dos caracteres gravados nos ossos oraculares dos Shang, há mais de três mil anos. Essa continuidade extraordinária da escrita é um símbolo da persistência e da coerência cultural da civilização chinesa ao longo dos milênios.
A Dinastia Shang foi sucedida pela Dinastia Zhou, que governou a China de aproximadamente 1046 a 256 antes de Cristo. Os Zhou governaram por um período extraordinariamente longo, quase oitocentos anos, embora a natureza do seu poder tenha mudado profundamente ao longo desse tempo.
A Dinastia Zhou introduziu na China um conceito político de enorme importância que moldou toda a história política chinesa posterior: o Mandato do Céu, chamado em chinês de Tianming. Esse conceito dizia que o Céu, entendido como uma força divina superior que governava o universo, concedia ao governante o direito de governar a China, mas apenas enquanto ele governasse com justiça, sabedoria e cuidado com o povo. Se o governante se tornasse tirano, corrupto, cruel ou incompetente, o Céu retirava o seu mandato e enviava sinais de desaprovação, como desastres naturais, epidemias e guerras, até que o governante fosse derrubado e substituído por um novo digno do mandato.
O Mandato do Céu foi uma justificativa ideológica do poder político de enorme eficácia. Ele explicava por que os Zhou tinham o direito de derrubar os Shang: porque os Shang haviam perdido o Mandato do Céu por causa dos seus excessos e tiranias. E ele também explicava por que qualquer futuro governante que derrubasse a dinastia reinante tinha legitimidade para fazê-lo: era porque o Céu havia retirado o mandato da dinastia caída e o havia concedido ao novo governante. É uma lógica circular, mas de grande poder ideológico, que justificava tanto a obediência aos governantes legítimos quanto a rebelião contra os ilegítimos.
Os primeiros séculos da Dinastia Zhou foram um período de relativa unidade e de prosperidade. Mas com o tempo, o poder central dos reis Zhou foi enfraquecendo, e os senhores feudais que governavam as diferentes regiões da China começaram a agir com cada vez mais autonomia. Esse processo de fragmentação levou ao que os historiadores chamam de Período dos Reinos Combatentes, que vai de aproximadamente 475 a 221 antes de Cristo, um tempo de guerras constantes entre os vários reinos em que a China estava dividida.
Mas paradoxalmente, esse período de guerras e de instabilidade política foi também um dos períodos de maior florescimento intelectual da história chinesa. É nesse tempo que viveram os grandes filósofos e pensadores que moldaram a cultura, a ética e a política da China por mais de dois mil anos.
O mais influente de todos eles foi Confúcio, que viveu de 551 a 479 antes de Cristo. Confúcio, cujo nome chinês era Kong Fuzi, foi um filósofo e educador que passou sua vida tentando convencer os governantes do seu tempo a adotarem princípios de governo baseados na virtude, na benevolência, na lealdade e no respeito mútuo.
O pensamento de Confúcio é chamado de confucionismo, e ele parte de uma ideia central: a sociedade funciona bem quando cada pessoa cumpre corretamente o papel que lhe corresponde dentro das relações sociais fundamentais. Confúcio identificou cinco relações fundamentais que estruturam a sociedade: a relação entre governante e súdito, entre pai e filho, entre marido e mulher, entre irmão mais velho e irmão mais novo, e entre amigos. Em cada uma dessas relações, há deveres específicos de ambos os lados. O governante deve ser benevolente com o súdito, e o súdito deve ser leal ao governante. O pai deve cuidar do filho, e o filho deve respeitar e obedecer ao pai. O marido deve proteger a mulher, e a mulher deve ser fiel ao marido.
O confucionismo valoriza profundamente a hierarquia, o respeito pelas autoridades, a piedade filial, ou seja, o profundo respeito pelos pais e pelos ancestrais, e a busca pela virtude moral como base de um bom governo e de uma boa sociedade. Ele não é uma religião no sentido de ter deuses, templos e ritos de salvação, mas é um sistema ético e filosófico que moldou profundamente a forma como os chineses pensam sobre família, sociedade, governo e moral.
As ideias de Confúcio foram compiladas em um livro chamado Analetos, que é uma coleção de ditos e de diálogos do mestre com seus discípulos. Os Analetos são um dos textos mais influentes da história da humanidade, estudados e debatidos na China e em toda a Ásia Oriental por mais de dois mil anos.
Além do confucionismo, outros sistemas de pensamento importantes surgiram na China durante o Período dos Reinos Combatentes. O taoísmo, associado ao pensador Laozi, propunha uma visão de mundo completamente diferente do confucionismo. Para Laozi, a sabedoria estava em viver em harmonia com o Tao, que pode ser traduzido como O Caminho, uma força misteriosa e inefável que permeia todo o universo. Em vez de se esforçar para transformar a sociedade, como Confúcio pregava, o taoísmo pregava a simplicidade, a espontaneidade, o não fazer como forma de agir em harmonia com a natureza. O símbolo mais famoso do taoísmo é o Yin e o Yang, o círculo dividido em duas metades, uma escura e uma clara, que representam as forças opostas e complementares que governam o universo.
O legismo, ou escola legalista, foi outra corrente de pensamento importante, associada a pensadores como Han Fei e Shang Yang. Ao contrário do confucionismo, que acreditava que as pessoas podiam ser guiadas pela virtude e pelo exemplo, o legismo acreditava que os seres humanos são naturalmente egoístas e que só a lei, aplicada com rigor e sem exceção, pode manter a ordem social. Para os legalistas, o Estado deve ter leis claras, punições severas e um sistema de recompensas e castigos eficiente. Aquele que obedece é recompensado. Aquele que desobedece é punido, sem exceção e sem misericórdia.
Foi o legismo que inspirou o Estado que finalmente pôs fim ao Período dos Reinos Combatentes e reunificou a China: o Estado de Qin.
O rei do Estado de Qin, chamado Ying Zheng, usou as ideias legalistas para organizar um Estado militar extremamente eficiente, com uma burocracia centralizada, leis uniformes e um exército disciplinado e poderoso. Com esse Estado, Ying Zheng derrotou todos os outros reinos em uma série de campanhas militares entre 230 e 221 antes de Cristo, reunificando a China pela primeira vez em sua história. Ao concluir essa unificação, ele criou para si mesmo um novo título: Qin Shi Huangdi, que significa Primeiro Imperador da China. É daí que vem o nome China, da própria palavra Qin.
O Primeiro Imperador da China foi uma figura de enorme ambição e de enorme crueldade. Ele mandou queimar livros de outras escolas filosóficas, especialmente os confucianos, para eliminar o pensamento que considerava subversivo ao seu poder. Mandou enterrar vivos centenas de estudiosos que se opunham às suas políticas. Mas também realizou feitos de enorme importância para a unificação e o desenvolvimento da China. Ele padronizou os pesos e medidas em todo o território, criou um sistema de escritas uniformes para substituir os diferentes sistemas de escrita usados nos diferentes reinos, construiu grandes estradas e canais que conectavam as diferentes partes do país, e iniciou a construção de uma grande muralha ao norte da China para proteger o território dos ataques dos nômades da estepe.
A Grande Muralha da China, que é um dos monumentos mais conhecidos do mundo, não foi construída de uma só vez pelo Primeiro Imperador. Ela foi sendo construída, ampliada e reconstruída ao longo de séculos, por várias dinastias diferentes. Mas foi a Dinastia Qin que deu o impulso inicial à construção de uma defesa contínua ao norte. A Grande Muralha que conhecemos hoje foi principalmente construída durante a Dinastia Ming, muitos séculos depois do Primeiro Imperador. Ela se estende por mais de vinte e um mil quilômetros, cruzando montanhas, desertos e planícies, e é um símbolo poderoso da capacidade de organização e de mobilização do Estado chinês.
Após a morte do Primeiro Imperador, em 210 antes de Cristo, a Dinastia Qin rapidamente se desintegrou, consumida por revoltas e por conflitos internos. O excesso de centralização e de autoritarismo do legismo havia criado um Estado poderoso mas frágil, sem a base de apoio social que uma civilização duradoura precisava. Apenas quatro anos após a morte do Primeiro Imperador, a Dinastia Qin havia chegado ao fim.
A dinastia que veio depois, a Dinastia Han, foi muito mais duradoura e muito mais bem-sucedida em criar uma civilização estável e próspera. A Dinastia Han governou a China de 206 antes de Cristo a 220 depois de Cristo, um período de mais de quatrocentos anos, e é considerada um dos períodos mais brilhantes da história chinesa. Tanto que até hoje os chineses se referem a si mesmos como povo Han, em homenagem a essa dinastia fundacional.
Os Han adotaram uma política diferente dos Qin. Em vez do legismo rígido, eles fizeram do confucionismo a filosofia oficial do Estado. Os funcionários públicos passavam a ser selecionados por meio de exames que testavam o conhecimento dos textos confucianos, em vez de serem nomeados por favoritismo ou por origem aristocrática. Esse sistema de exames públicos para a seleção de funcionários foi uma das criações mais importantes e mais originais da civilização chinesa. Ele criava uma burocracia meritocrática, pelo menos em teoria, onde qualquer homem que estudasse suficientemente os textos sagrados poderia alcançar posições de poder e de prestígio. Esse sistema, com muitas variações ao longo dos séculos, continuou sendo usado na China por mais de dois mil anos, até o início do século vinte.
A Dinastia Han também foi um período de enorme expansão territorial e comercial. O imperador Han Wu Di, que governou de 141 a 87 antes de Cristo, foi o mais agressivo expansionista da Dinastia Han, enviando exércitos para o norte para subjugar os nômades Xiongnu que ameaçavam as fronteiras, para o oeste para controlar as rotas comerciais da Ásia Central e para o sul para expandir o domínio chinês até o que hoje é o Vietnã.
Foi durante a Dinastia Han que surgiu uma das redes comerciais mais importantes da história antiga: a Rota da Seda. A Rota da Seda não era uma única estrada, mas um conjunto de rotas terrestres e marítimas que conectava a China ao Oriente Médio e ao Mediterrâneo. Por ela passavam caravanas carregadas de seda, porcelana, chá, especiarias e outros produtos chineses em direção ao Ocidente, e vinham em sentido contrário ouro, prata, vidro, lã e outros produtos mediterrâneos. Mas a Rota da Seda não era apenas uma rota comercial. Era também uma rota de difusão de ideias, de religiões, de tecnologias e de doenças. O budismo chegou à China vindo da Índia pela Rota da Seda. Tecnologias como a fabricação de papel e a porcelana viajaram da China para o Oriente Médio e depois para a Europa pela Rota da Seda.
A sociedade da China Antiga era fortemente hierárquica e organizada segundo os princípios confucianos de respeito às autoridades e às hierarquias. No topo da hierarquia estava o imperador, o Filho do Céu, que era o detentor do Mandato do Céu e o governante absoluto de toda a China. Abaixo dele estava a aristocracia imperial, formada pelos parentes do imperador e pelos grandes nobres. Em seguida, vinham os letrados, os funcionários que haviam passado pelos exames imperiais e que administravam o Estado, que eram chamados de mandarins. Abaixo dos mandarins estavam os agricultores, que eram o grupo mais numeroso da população e que eram altamente valorizados pelo confucionismo, porque eram os produtores dos alimentos que sustentavam toda a sociedade. Depois dos agricultores vinham os artesãos, que produziam os bens necessários para a vida cotidiana, e por último os comerciantes, que eram curiosamente o grupo de menor prestígio social na China Antiga, apesar de sua importância econômica. O confucionismo via o comércio com certa desconfiança, pois os comerciantes não produziam nada, apenas intermediavam a troca de produtos que outros haviam produzido.
A posição das mulheres na China Antiga era subordinada à dos homens, e o confucionismo reforçava essa subordinação ao colocar a obediência como a principal virtude feminina. Uma mulher devia obedecer ao pai, depois ao marido e, após a morte do marido, ao filho mais velho. Essa doutrina da tripla obediência definia de forma muito estrita o papel da mulher na sociedade chinesa. As mulheres da aristocracia podiam ter acesso à educação, à poesia e às artes, mas a vida pública e política estava essencialmente fechada para elas. A prática do enfaixamento dos pés, que surgiu mais tarde, durante a Dinastia Song, era uma demonstração extrema dessa subordinação, tornando as mulheres literalmente incapazes de andar normalmente e dependentes da assistência masculina.
As contribuições culturais e tecnológicas da China Antiga para a humanidade são de uma variedade e de uma importância que poucas civilizações podem igualar. Vamos listar algumas das mais importantes.
A escrita chinesa, como já mencionamos, é um dos sistemas de escrita mais antigos que ainda estão em uso. Ela permitiu a preservação de uma continuidade cultural através de milênios e foi adotada e adaptada por outros povos da Ásia Oriental, como os japoneses e os coreanos.
O papel foi inventado na China durante a Dinastia Han, por volta do século dois antes de Cristo, sendo atribuída a sua invenção ao funcionário Cai Lun, que teria aperfeiçoado o processo de fabricação de papel a partir de fibras de bambu, de linho e de restos de redes de pesca. O papel foi uma revolução na comunicação e no armazenamento do conhecimento, muito mais barato e mais fácil de usar do que os tecidos de seda ou os tabletes de bambu que os chineses usavam antes. A invenção do papel chegou ao mundo árabe por volta do século oito depois de Cristo e à Europa por volta do século doze, e transformou completamente a produção e a difusão do conhecimento.
A impressão tipográfica foi outra invenção chinesa de enorme impacto. Os chineses desenvolveram técnicas de impressão com blocos de madeira entalhados e, mais tarde, com tipos móveis feitos de argila, muito antes de Gutenberg desenvolver a sua prensa tipográfica na Europa no século quinze. A impressão permitiu a produção de livros em quantidade muito maior e a um custo muito menor do que a cópia manual, democratizando o acesso ao conhecimento.
A pólvora foi inventada na China por alquimistas taoístas que experimentavam diferentes compostos químicos em sua busca por elixires de imortalidade. Por volta do século nono depois de Cristo, esses alquimistas descobriram que a mistura de nitrato de potássio, carvão e enxofre explodia quando em contato com o fogo. Inicialmente usada em fogos de artifício e em rituais religiosos, a pólvora foi logo aplicada a fins militares, com o desenvolvimento de bombas, foguetes e, finalmente, armas de fogo. A pólvora chegou ao mundo islâmico e depois à Europa por volta do século treze, e transformou completamente a arte da guerra.
A bússola foi outra invenção chinesa que mudou a história do mundo. Os chineses descobriram as propriedades magnéticas da magnetita por volta do segundo século antes de Cristo e desenvolveram instrumentos que usavam essa propriedade para indicar a direção norte-sul. A bússola foi inicialmente usada para fins geomânticos, ou seja, para orientar a construção de edifícios de acordo com os princípios do Feng Shui. Mas sua aplicação à navegação marítima foi uma revolução: ela permitiu aos navios se orientarem mesmo quando não havia estrelas visíveis e tornou possível a navegação em mar aberto em qualquer condição climática. A bússola chegou ao Oriente Médio e à Europa por volta do século doze, e foi um dos instrumentos que tornou possível a era das grandes navegações europeias.
A seda, embora não seja tecnicamente uma invenção, foi por séculos o produto mais valorioso que a China produzia. Os chineses descobriram que a lagarta do bicho-da-seda produzia um fio de enorme resistência e de beleza extraordinária ao construir seu casulo, e desenvolveram técnicas de criação do bicho-da-seda e de fiação e tecelagem do fio de seda que produziam tecidos de qualidade incomparável. O segredo da produção da seda foi guardado pelos chineses por séculos, e qualquer pessoa que tentasse exportar ovos do bicho-da-seda ou sementes da amoreira, a planta da qual a lagarta se alimenta, era punida com a morte. A seda era tão valiosa que ela mesma era usada como moeda de troca e como tributo entre os Estados. O nome da Rota da Seda vem diretamente da importância desse produto no comércio internacional da Antiguidade.
A porcelana é outra criação chinesa de enorme impacto cultural. Os chineses desenvolveram técnicas de fabricação de cerâmica de uma fineza e de uma qualidade que não eram encontradas em nenhuma outra parte do mundo antigo. A porcelana chinesa era tão admirada no mundo islâmico e depois na Europa que a palavra inglesa china ainda hoje é usada para designar a louça fina, independentemente de onde ela foi fabricada.
A arte chinesa é rica e diversificada, expressando-se em formas como a pintura em tinta sobre seda e papel, a caligrafia, que era considerada a mais nobre de todas as artes, a escultura em jade e em bronze, e a arquitetura dos grandes palácios e templos. A pintura chinesa tem características muito diferentes da pintura europeia: em vez de tentar reproduzir a realidade com precisão fotográfica, ela busca capturar a essência, o espírito das coisas, com pinceladas rápidas e expressivas que evocam a natureza com um mínimo de elementos. A caligrafia, a arte de escrever os caracteres chineses com um pincel de forma bela e expressiva, era considerada uma forma de arte que revelava o caráter e a profundidade moral do seu praticante.
Agora, vamos fazer as conexões com o ENEM que são tão importantes para a sua preparação.
O ENEM frequentemente apresenta questões sobre a China Antiga que exploram a relação entre as ideias filosóficas e a organização política e social. O confucionismo, com sua ênfase na hierarquia, no respeito às autoridades e na piedade filial, é um tema central. Você precisa saber explicar como o confucionismo justificava a ordem social e política da China e como ele foi usado pelo Estado como ideologia oficial.
O Mandato do Céu é outro conceito muito importante para o ENEM. Ele é uma forma de legitimação do poder político que é muito diferente das formas ocidentais de legitimidade, como o direito divino dos reis europeus ou a soberania popular das democracias modernas. O ENEM pode apresentar textos históricos chineses e pedir que você identifique a lógica do Mandato do Céu e suas implicações políticas.
As invenções chinesas, como o papel, a pólvora, a bússola e a impressão, são temas que o ENEM usa para discutir a difusão de tecnologias entre culturas e o impacto das inovações na história mundial. Você precisa saber quando e como essas invenções chegaram ao Ocidente e qual foi o seu impacto na história europeia.
A Rota da Seda é um tema de enorme relevância para o ENEM, pois ela é usada para discutir a globalização antes da globalização, ou seja, as redes de comércio de longa distância que conectavam civilizações muito diferentes na Antiguidade e na Idade Média. O ENEM pode usar a Rota da Seda para explorar o intercâmbio cultural, a difusão de religiões, como o budismo, e a transmissão de doenças, como a Peste Negra.
Vamos fazer agora um resumo completo de tudo que estudamos nesta aula.
A China Antiga nasceu nas margens do Rio Amarelo e do Rio Azul, com uma geografia de relativo isolamento que permitiu o desenvolvimento de uma civilização original e autônoma. A Dinastia Shang foi a primeira grande civilização documentada, com a escrita chinesa surgindo nos ossos oraculares. A Dinastia Zhou introduziu o Mandato do Céu como justificativa do poder político e foi o contexto em que surgiram os grandes pensadores chineses, como Confúcio, fundador do confucionismo, Laozi, fundador do taoísmo, e os pensadores legalistas.
O Primeiro Imperador, da Dinastia Qin, unificou a China em 221 antes de Cristo, padronizando pesos, medidas e escrita, e iniciando a Grande Muralha. A Dinastia Han, que veio a seguir, adotou o confucionismo como filosofia oficial, criou o sistema de exames para funcionários públicos e expandiu o comércio pela Rota da Seda.
A sociedade chinesa era hierárquica, com o imperador no topo, seguido pela aristocracia, pelos letrados mandarins, pelos agricultores, pelos artesãos e pelos comerciantes. As mulheres eram subordinadas aos homens segundo os princípios confucianos.
As contribuições da China Antiga para a humanidade foram enormes: a escrita logográfica, o papel, a impressão tipográfica, a pólvora, a bússola, a seda, a porcelana e uma arte rica e sofisticada. Todas essas criações viajaram pela Rota da Seda até o Oriente Médio e a Europa, transformando profundamente a história da humanidade.
Na próxima aula, vamos conhecer outra grande civilização do extremo Oriente: a Índia Antiga, com seu complexo sistema de castas e suas grandes religiões, o hinduísmo e o budismo.
Como fazer referência ao conteúdo:
| Dados de Catalogação na Publicação: NORAT, Markus Samuel Leite. Curso de história para o 1º ano do ensino médio. João Pessoa: Editora Norat, 2026. Livro Digital, Formato: HTML5, Tamanho: 132,4125 gigabytes (132.412.500 kbytes) . ISBN: 978-65-80808-16-8 | Cutter: N825c | CDD-907.12 | CDU-94(100)”-04/17″:373.5 . Palavras-chave: História, Ensino Médio, Pré-História, Civilizações Antigas, Mesopotâmia, Egito Antigo, Grécia Antiga, Roma Antiga, África Antiga, Reinos Africanos, Mundo Árabe-Muçulmano, Idade Média, Feudalismo, Antigo Regime, Monarquias Absolutistas, Renascimento, Humanismo, ENEM, Vestibulares. . TODOS OS DIREITOS RESERVADOS. É proibida a cópia total ou parcial desta obra, por qualquer forma ou qualquer meio. A violação dos direitos autorais é crime tipificado na Lei n. 9.610/98 e artigo 184 do Código Penal. |
