Curso de História para o 1º Ano do Ensino Médio
MÓDULO 10 – A FORMAÇÃO DA EUROPA MEDIEVAL
Aula 115 – A divisão do Império Franco: o Tratado de Verdun
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| Dados de Catalogação na Publicação: NORAT, Markus Samuel Leite. Curso de história para o 1º ano do ensino médio. João Pessoa: Editora Norat, 2026. Livro Digital, Formato: HTML5, Tamanho: 132,4125 gigabytes (132.412.500 kbytes) . ISBN: 978-65-80808-16-8 | Cutter: N825c | CDD-907.12 | CDU-94(100)”-04/17″:373.5 . Palavras-chave: História, Ensino Médio, Pré-História, Civilizações Antigas, Mesopotâmia, Egito Antigo, Grécia Antiga, Roma Antiga, África Antiga, Reinos Africanos, Mundo Árabe-Muçulmano, Idade Média, Feudalismo, Antigo Regime, Monarquias Absolutistas, Renascimento, Humanismo, ENEM, Vestibulares. . TODOS OS DIREITOS RESERVADOS. É proibida a cópia total ou parcial desta obra, por qualquer forma ou qualquer meio. A violação dos direitos autorais é crime tipificado na Lei n. 9.610/98 e artigo 184 do Código Penal. |
Aula 115 – A divisão do Império Franco: o Tratado de Verdun
Há momentos na história em que uma única decisão, tomada num único lugar e num único dia, muda o mapa do mundo de forma tão profunda que seus efeitos continuam sendo sentidos séculos depois. O Tratado de Verdun, assinado em agosto de oitocentos e quarenta e três, é um desses momentos. Com ele, o imenso Império Franco construído por Carlos Magno foi partido em três pedaços, e esses três pedaços se tornaram, ao longo dos séculos seguintes, as sementes das nações que hoje chamamos de França, Alemanha e Itália. Não é exagero dizer que a Europa tal como a conhecemos, com suas fronteiras, suas línguas nacionais e suas identidades culturais distintas, tem uma de suas origens mais profundas naquele tratado assinado numa cidade do nordeste do que é hoje o território francês, por três netos de Carlos Magno que mal conseguiam se suportar.
Para entender por que o tratado foi necessário, e por que o império que parecia tão sólido em vida de Carlos Magno começou a se desfazer tão rapidamente depois de sua morte, precisamos voltar um pouco no tempo e entender o que aconteceu nos quarenta anos que separaram a morte de Carlos Magno, em oitocentos e quatorze, da assinatura do tratado.
Carlos Magno morreu em janeiro de oitocentos e quatorze, em Aquisgrana, com mais de sessenta anos de idade, o que para os padrões medievais era uma velhice avançada. Ele havia reinado por mais de quatro décadas, transformando o reino franco numa estrutura imperial que abrangia o que é hoje a França, a Bélgica, os Países Baixos, a Alemanha, a Áustria, grande parte da Itália, o norte da Espanha e partes da Europa Central. Era um território de dimensões impressionantes, mantido unido por uma combinação de força militar, organização administrativa, aliança com a Igreja e pelo poder pessoal avassalador de Carlos.
Quando um grande conquistador morre, o problema que sempre surge é o mesmo: quem vai manter unido o que ele construiu? A história está cheia de exemplos de impérios que desapareceram ou se fragmentaram logo após a morte de seus fundadores, porque aquilo que os sustentava era o poder pessoal de um indivíduo excepcional, não uma estrutura institucional capaz de funcionar sem ele. O Império de Alexandre da Macedônia durou como unidade apenas até a morte do conquistador, em trezentos e vinte e três antes de Cristo, e depois foi dividido entre seus generais. O Império Franco seria dividido da mesma forma, mas o processo levou algumas décadas a mais.
Carlos Magno tomou uma precaução que parecia sensata: como ele havia sobrevivido a todos os seus filhos legítimos exceto um, quando morreu havia apenas um herdeiro para o trono, o filho caçula Luís, que assumiu o poder sem disputa. Luís havia governado o reino da Aquitânia, no sudoeste da França atual, como sub-rei desde jovem, tinha experiência administrativa e era considerado um homem de caráter sério e piadoso, o que lhe valeu o apelido pelo qual ficou conhecido na história: Luís o Piedoso. Essa piedade, que era uma qualidade genuína e profunda, seria ao mesmo tempo um de seus trunfos e uma de suas fraquezas como governante.
Luís o Piedoso assumiu o trono com boas intenções e algumas ideias muito claras sobre como devia governar. Uma dessas ideias, que o diferenciava profundamente de seu pai, era que o império devia ser governado como uma unidade cristã, não como um conjunto de territórios conquistados mantidos unidos pela força. Luís queria um império em que a lei fosse uniforme, em que a Igreja fosse reformada e unificada, e em que os valores cristãos de ordem e de misericórdia prevalecessem sobre a brutalidade da política. Essas eram ideias nobres, mas na prática revelaram-se difíceis de implementar num território tão vasto e numa aristocracia tão belicosa quanto a franca.
Logo no início de seu reinado, Luís tomou uma decisão que parecia mostrar que pensava diferente de seu pai: em oitocentos e dezassete, publicou um documento chamado Ordinatio Imperii, que significa Organização do Império, no qual estabelecia a forma como o poder seria transmitido após sua morte. Luís decidiu que o império devia ser mantido unido como herança única de seu filho mais velho, Lotário, que seria o único a ter o título de imperador. Os outros dois filhos de Luís, Pepino e Luís o Germânico, como ficou conhecido para distingui-lo do pai, receberiam sub-reinos dentro do império, mas sob a autoridade suprema de Lotário. Era um arranjo que protegia a unidade do império, mas que deixava os filhos mais novos em posição claramente inferior ao irmão mais velho.
O problema surgiu quando Luís o Piedoso se casou pela segunda vez. Sua primeira esposa, Ermengarda, havia morrido em oitocentos e dezoito, e um ano depois Luís se casou com Judith da Bavária, uma mulher de grande inteligência, determinação e ambição política. Em oitocentos e vinte e três, Judith deu a Luís um quarto filho, chamado Carlos, que depois seria conhecido como Carlos o Calvo. E aqui começa o problema: Judith queria para seu filho um destino à altura do filho de um imperador, não um papel secundário num reino já dividido entre três meios-irmãos mais velhos. Luís o Piedoso, profundamente apegado à jovem esposa e ao filho caçula, foi gradualmente cedendo às pressões de Judith e tentando abrir espaço para Carlos numa partilha que já havia sido formalmente estabelecida pela Ordinatio Imperii de oitocentos e dezassete.
As tentativas de Luís de renegociar a partilha em benefício do filho caçula irritaram profundamente os três filhos mais velhos, que viram nisso uma traição aos compromissos assumidos pelo pai. A aristocracia franca, que tinha seus próprios interesses e que se dividia em facções que apoiavam diferentes pretendentes, começou a usar os conflitos familiares para seus próprios fins. O resultado foi uma série de guerras civis, rebeliões e humilhações que tornaram o reinado de Luís o Piedoso um dos mais turbulentos da história carolíngia.
Em oitocentos e trinta, os três filhos mais velhos se rebelaram contra o pai pela primeira vez. Luís foi capturado e por algum tempo ficou completamente em poder dos filhos rebeldes, que tentaram forçá-lo a abdicar e a se recolher num mosteiro. Foi um momento de humilhação extraordinária para um imperador: deposto por seus próprios filhos, destituído de sua autoridade, tratado como um pecador que precisava fazer penitência pública por seus erros. Luís o Piedoso concordou com a penitência, o que foi um erro político grave, porque na mentalidade medieval um rei que confessava pecados e fazia penitência pública perdia uma parte importante de sua autoridade sagrada. Um rei que reconhecia ter errado não devia mais governar.
No entanto, Luís sobreviveu à humilhação de oitocentos e trinta. Os filhos brigaram entre si, as alianças mudaram, e em oitocentos e trinta e um Luís conseguiu recuperar o poder com o apoio de Luís o Germânico, que havia se separado de Lotário, o irmão mais velho. Mas a paz foi breve. Em oitocentos e trinta e três, Lotário tentou novamente depor o pai, desta vez com o apoio do próprio papa Gregório IV, que atravessou os Alpes para a Gália numa visita sem precedentes, tentando mediar o conflito mas na prática dando legitimidade à rebelião dos filhos. Luís o Piedoso foi capturado novamente, numa campanha que a tradição chamou de Campo da Mentira, porque os seguidores do imperador foram convencidos a desertar um a um até que ele ficou completamente só, sem exército e sem apoio.
Desta vez a humilhação foi ainda maior. Luís foi obrigado a fazer uma penitência pública solene na cidade de Soissons, em oitocentos e trinta e três, em que confessou crimes e pecados diante do clero reunido, foi despojado de suas armas e vestido com o hábito de penitente. Era o fim simbólico de seu reinado. Mas mais uma vez a crise foi superada: Luís o Germânico e Pepino, os dois filhos do meio, se voltaram contra Lotário, o irmão mais velho que havia tomado o poder, e em oitocentos e trinta e quatro Luís o Piedoso foi restaurado ao trono pelo terceiro filho com quem ele havia feito acordo. Lotário foi enviado de volta à Itália, sua parte do reino, e proibido de aparecer ao norte dos Alpes.
Luís o Piedoso passou os últimos anos de seu reinado tentando, sem sucesso, estabelecer uma partilha definitiva que satisfizesse todos os seus filhos. Os acordos se sucediam, eram renegociados, eram rompidos, eram renegociados de novo. Quando Luís o Piedoso morreu, em junho de oitocentos e quarenta, em Ingelheim, no atual território alemão, o império estava tão dividido e enfraquecido quanto antes, e os três filhos sobreviventes, porque Pepino havia morrido em oitocentos e trinta e oito, ainda brigavam entre si sobre a partilha: Lotário, o filho mais velho, que reivindicava o título de imperador e a autoridade suprema sobre todos os outros; Luís o Germânico, que controlava as regiões orientais do império, o que é hoje a Alemanha; e Carlos o Calvo, o filho mais novo de Judith, que controlava partes da Gália ocidental.
Após a morte do pai, a guerra entre os irmãos continuou por mais três anos, com alianças que mudavam e batalhas que se sucediam sem resultado decisivo. A situação era estranha: Lotário tinha o título de imperador, mas não tinha controle real sobre as partes orientais do império, que Luís o Germânico defendia com determinação, nem sobre as partes ocidentais, onde Carlos o Calvo se mantinha. As lealdades da aristocracia oscilavam conforme as perspectivas de cada candidato, e o povo franco comum sofria com as guerras, as pilhagens e a instabilidade.
O momento decisivo veio em junho de oitocentos e quarenta e dois, com um evento de grande importância histórica que aconteceu na cidade de Estrasburgo: os irmãos Luís o Germânico e Carlos o Calvo se reuniram e prestaram um juramento de aliança mútua contra Lotário, o irmão mais velho. Esse juramento ficou conhecido na história como o Juramento de Estrasburgo, e é famoso por uma razão que vai além da política: foi registrado nas línguas vernáculas de cada irmão, não em latim. Luís o Germânico prestou seu juramento no romance antigo, que é uma forma primitiva do francês, para que os soldados de Carlos o Calvo pudessem entendê-lo; e Carlos o Calvo prestou seu juramento em alemão antigo, para que os soldados de Luís o Germânico pudessem entendê-lo. Os soldados de cada exército, por sua vez, confirmaram o juramento de seu senhor na língua do irmão.
O Juramento de Estrasburgo é o mais antigo documento escrito que conhecemos nas línguas que se tornariam o francês e o alemão. Sua importância histórica é enorme: ele mostra que, em oitocentos e quarenta e dois, já havia uma diferença linguística suficientemente clara entre as populações do oeste e do leste do império para que um juramento político precisasse ser pronunciado em dois idiomas diferentes, e não apenas em latim. As populações do oeste estavam desenvolvendo o que viria a ser o francês, e as populações do leste estavam desenvolvendo o que viria a ser o alemão. As línguas nacionais europeias, que hoje são instrumentos fundamentais de identidade cultural, já estavam emergindo naquele momento.
A aliança de Luís e Carlos contra Lotário pressionou o irmão mais velho a negociar. Lotário percebeu que não podia vencer militarmente os dois irmãos unidos, e que continuar a guerra apenas enfraquecia ainda mais um império que já estava exausto. As negociações começaram, e em agosto de oitocentos e quarenta e três, na cidade de Verdun, que fica na região nordeste do que é hoje a França, os três irmãos assinaram o tratado que ficou conhecido pelo nome da cidade.
O Tratado de Verdun dividiu o Império Franco em três partes. É importante entender tanto o que cada irmão recebeu quanto a lógica que presidiu a divisão, porque essa lógica revela muito sobre como a aristocracia carolíngia pensava o poder e o território.
Lotário, o filho mais velho, manteve o título de imperador, que havia herdado do pai e do avô, mas esse título passou a significar muito menos do que havia significado antes: era uma honra, uma precedência simbólica entre iguais, não um poder real de governo sobre os territórios dos irmãos. Junto com o título, Lotário recebeu a Lotaríngia, que era uma faixa de território que ia do delta do Reno, no norte, até a Itália, no sul, passando pela Borgonha, pela Alsácia e pela Lorena. Essa faixa central incluía as duas capitais mais importantes do império: Aquisgrana, onde havia o palácio imperial de Carlos Magno, e Roma, a cidade que dava legitimidade simbólica ao título imperial. Era um território muito longo e estreito, sem unidade geográfica ou cultural clara.
Luís o Germânico recebeu as regiões a leste do Reno, que eram as terras de população predominantemente germânica: a Bavária, a Saxônia, a Turíngia, a Francônia e as regiões adjacentes. Era um território que tinha alguma unidade cultural e linguística, já que suas populações falavam variedades do que chamamos de alemão antigo ou alto-alemão antigo. Era também um território que havia sido integrado ao mundo franco relativamente tarde, especialmente a Saxônia, que Carlos Magno havia conquistado à força durante suas longas guerras do final do século oito.
Carlos o Calvo, o filho mais novo, recebeu a parte ocidental do império, a França Ocidental, que era o território que corresponde aproximadamente à França moderna, incluindo a Gália, a Bretanha, parte da Borgonha e a Aquitânia. Era um território de população que falava principalmente formas do romance, as línguas derivadas do latim que estavam se transformando no que seria o francês.
Olhando para o mapa do Tratado de Verdun, podemos notar algo muito importante: o território que Lotário recebeu, a Lotaríngia, é exatamente a região que ao longo dos séculos seguintes seria a mais disputada entre os reinos vizinhos, e que ainda hoje, na região que cobre a Alsácia, a Lorena, a Bélgica, os Países Baixos e partes da Alemanha e da Suíça, se podem encontrar misturas de tradições culturais, linguísticas e históricas que refletem essa posição limítrofe original. A disputa entre França e Alemanha pela Alsácia e pela Lorena, que explodiu em guerras no século dezenove e no início do século vinte, tem suas raízes mais antigas exatamente nessa divisão do século nove.
A forma como o território foi dividido em Verdun não seguia rios, montanhas ou outras fronteiras naturais de forma consistente, nem seguia divisões culturais e linguísticas com precisão: seguia principalmente critérios de equilíbrio de riqueza e de poder entre os três herdeiros, tentando garantir que nenhum deles ficasse em posição muito mais vantajosa do que os outros em termos de recursos, de rendas e de número de súditos. Era uma divisão patrimonial, no sentido de que tratava o império como uma propriedade de família a ser dividida entre os filhos, não como um estado com interesses próprios que deviam ser preservados.
Essa mentalidade patrimonial é uma das chaves para entender a história política da Europa medieval. Para a aristocracia carolíngia, o reino não era uma entidade abstrata com interesses próprios: era a propriedade pessoal do rei e de sua família, transmitida segundo as regras da herança, da mesma forma que uma fazenda ou um castelo. Quando um rei morria com vários filhos, o reino devia ser dividido entre eles, assim como qualquer outra propriedade. Os filhos mais velhos podiam ter precedência, mas os filhos mais novos tinham direito a alguma parte. Essa lógica patrimonial, que parece estranha para alguém acostumado com a ideia moderna de estado-nação com fronteiras fixas, era perfeitamente natural para os homens do século nove.
Mas o Tratado de Verdun não foi apenas uma divisão territorial: foi também o início de um processo de diferenciação cultural e política entre as três partes que ao longo dos séculos se aprofundaria até produzir identidades nacionais distintas. Os habitantes da França Ocidental de Carlos o Calvo foram gradualmente se tornando francos que pensavam em francês, que tinham suas próprias tradições jurídicas e suas próprias formas de organização social, que se identificavam com um território específico e com um rei específico. Os habitantes da França Oriental de Luís o Germânico foram da mesma forma se tornando francos que pensavam em alemão, com suas próprias tradições e sua própria identidade. E os habitantes da Itália, embora politicamente fragmentados por séculos, foram desenvolvendo sua identidade cultural própria.
Após a assinatura do tratado, as três partes do império tiveram histórias muito diferentes nos anos e décadas seguintes. Lotário governou sua Lotaríngia central até sua morte em oitocentos e cinquenta e cinco, quando dividiu seu próprio território entre seus três filhos: o filho mais velho Luís II recebeu a Itália e o título imperial; o filho do meio Lotário II recebeu a região que passou a se chamar Lotaríngia em seu nome, que é a origem do topônimo moderno Lorena; e o filho mais novo Carlos recebeu a Provença. Essa segunda divisão enfraqueceu ainda mais a parte central, e quando Lotário II morreu em oitocentos e sessenta e nove sem filhos legítimos, o que restava da Lotaríngia central foi novamente disputado e dividido entre os reis da França Ocidental e da França Oriental pelo Tratado de Mersen, em oitocentos e setenta, o que praticamente extinguiu o reino do meio como entidade política separada.
Luís o Germânico governou a França Oriental até sua morte em oitocentos e setenta e seis, e durante seu reinado a monarquia germânica foi se consolidando, embora o poder dos grandes aristocratas regionais fosse crescendo e o controle do rei sobre as regiões mais remotas fosse diminuindo. O reino da França Oriental foi o embrião do que seria o Sacro Império Romano-Germânico, a complexa estrutura política que dominou a Europa Central na Idade Média.
Carlos o Calvo, talvez o mais habilidoso politicamente dos três irmãos, governou a França Ocidental e chegou até a recuperar o título de imperador por um breve período antes de sua morte, em oitocentos e setenta e sete. Seu reino foi o embrião do que viria a ser a França, embora nesse período inicial a autoridade real fosse ainda muito dependente da cooperação dos grandes nobres locais, que tinham poderes quase independentes em seus condados e ducados.
Uma das consequências mais importantes do Tratado de Verdun foi o enfraquecimento da capacidade defensiva do que havia sido o império unificado. Carlos Magno havia construído um sistema militar capaz de defender as fronteiras do império em várias direções ao mesmo tempo, mas esse sistema dependia da mobilização de recursos de todo o território imperial. Com a divisão, cada um dos três reinos precisava defender suas próprias fronteiras com seus próprios recursos, e a cooperação entre eles era difícil e intermitente, dificultada pela rivalidade constante.
Esse enfraquecimento defensivo teve consequências dramáticas ao longo do século nono, que foi um período de invasões violentas em várias direções. Pelo norte, os vikings, que eram guerreiros e navegadores escandinávos de extraordinária habilidade naval, haviam começado a atacar as costas e os rios da Europa ocidental desde o final do século oito, saqueando mosteiros, cidades e aldeias costeiras. Sem um poder imperial centralizado capaz de organizar uma defesa coordenada, os reinos da França Ocidental e da Lotaríngia sofreram ondas de ataques vikings ao longo de décadas, com saques de cidades importantes como Paris, que foi atacada várias vezes. Pelo sul, os sarracenos, como os cristãos medievais chamavam os povos muçulmanos, atacavam as costas do Mediterrâneo e chegaram a estabelecer bases no sul da Itália e da França de onde conduziam expedições de pilhagem para o interior. Pelo leste, os magiares, um povo de guerreiros nômades procedentes das estepes da Europa oriental, fizeram incursões devastadoras pela Alemanha, pela Itália e até pela França durante o final do século nono e o início do século dez.
Essas ameaças externas aceleraram o processo de fragmentação do poder que o Tratado de Verdun havia iniciado. Quando os reis não conseguiam defender seus súditos, eram os condes, os duques e os bispos locais que organizavam a defesa com seus próprios recursos e seus próprios exércitos. Em troca dessa proteção, as populações locais cediam liberdades, autonomia e rendas aos poderosos que as defendiam. Era o mecanismo básico do feudalismo: a troca de serviço militar e de proteção por terra, trabalho e lealdade. O feudalismo não foi inventado pelo Tratado de Verdun, mas o tratado criou as condições políticas que aceleraram enormemente seu desenvolvimento.
Outro aspecto da divisão de Verdun que merece atenção é o papel da Igreja durante esse período conturbado. A Igreja havia sido o principal suporte institucional e ideológico do Império Franco, e a divisão do império em três partes colocou a hierarquia eclesiástica numa posição complicada. Os bispos e os abades que tinham propriedades e jurisdições em diferentes partes do império dividido precisavam negociar com vários senhores ao mesmo tempo. O papado, que havia coroado Carlos Magno e que havia apostado na aliança com o poder imperial como estratégia para sua própria segurança e expansão, via-se agora diante de três reis rivais em vez de um único imperador, o que ao mesmo tempo era uma complicação e uma oportunidade: a complicação era a instabilidade; a oportunidade era que a rivalidade entre os reis podia ser usada pelo papa para aumentar sua própria independência e autoridade.
Ao longo do século nono, o papado foi gradualmente afirmando uma autoridade mais independente dos poderes laicos, desenvolvendo argumentos teológicos e jurídicos sobre a supremacia da autoridade espiritual sobre a temporal que culminariam, nos séculos seguintes, nas grandes disputas entre papas e imperadores conhecidas como Querela das Investiduras. As raízes desse processo de afirmação da independência papal estão em parte no enfraquecimento do poder imperial que o Tratado de Verdun exemplificou e acelerou.
É importante também entender o que o Tratado de Verdun significou para as populações comuns, os camponeses, os artesãos, os pequenos comerciantes que formavam a grande maioria da população do império. Para essas pessoas, a questão de qual dos três irmãos era o imperador legítimo ou de onde passava exatamente a fronteira entre a França Ocidental e a Lotaríngia era muito menos importante do que questões imediatas: quem ia cobrar os impostos, quem ia garantir a segurança das estradas, quem ia proteger os campos das invasões. A fragmentação do poder central significava na prática que a autoridade que mais importava para a vida cotidiana era a do senhor local, o conde ou o bispo que controlava o castelo ou a cidade mais próxima.
A língua que as pessoas falavam também ia se diferenciando mais claramente, impulsionada pela divisão política. No reino da França Ocidental, o latim vulgar que havia sido o idioma das populações romanizadas da Gália foi evoluindo para formas que reconhecemos como antepassadas do francês moderno. No reino da França Oriental, as populações de origem germânica que haviam chegado como conquistadores nos séculos anteriores falavam variedades do alemão antigo que foram evoluindo para o alemão medieval. Na Itália, o latim vulgar estava se transformando nos dialetos que seriam o italiano. Essas línguas não eram ainda as línguas nacionais modernas, mas o processo que levaria até elas estava claramente em marcha.
As instituições jurídicas também foram se diferenciando. Carlos Magno havia tentado criar um corpo de leis mais uniforme para seu império, mas as tradições jurídicas locais, baseadas nas leis dos diferentes povos que habitavam o território, continuavam a existir ao lado das leis imperiais. Com a divisão, cada reino passou a desenvolver suas próprias tradições jurídicas de forma mais independente, o que ao longo dos séculos produziu sistemas de direito bastante distintos: o direito consuetudinário do norte da França, baseado em costumes locais não escritos; o direito romano do sul da França, onde a herança jurídica romana havia sobrevivido com mais força; o direito germânico das regiões orientais; e o complexo mosaico jurídico da Itália.
Quando os historiadores falam sobre o Tratado de Verdun como um dos documentos fundadores da Europa moderna, não estão exagerando. Estão reconhecendo que aquele acordo de agosto de oitocentos e quarenta e três não foi apenas uma solução temporária para uma disputa dinástica: foi o momento em que a unidade artificial do Império Franco foi definitivamente abandonada em favor de uma pluralidade de reinos que, embora continuassem a compartilhar a herança cultural, religiosa e linguística latina de Carlos Magno, foram desenvolvendo identidades cada vez mais distintas.
A comparação com outras divisões imperiais pode ser útil para entender a importância do tratado. Quando o Império Romano foi dividido em Ocidente e Oriente no final do século quatro, as duas metades compartilhavam a mesma língua de administração, as mesmas leis, as mesmas instituições, mas foram se diferenciando cada vez mais ao longo dos séculos. O Tratado de Verdun foi para o Império Franco o que a divisão de Teodósio foi para o Romano: o ponto de não retorno, o momento a partir do qual a reunificação se tornou cada vez mais improvável e por fim impossível.
Houve tentativas posteriores de reunificar pelo menos partes do império dividido. Carlos o Gordo, neto de Luís o Germânico, conseguiu reunir brevemente sob seu controle quase todo o território carolíngio no final do século nono, mas seu reinado foi breve e terminou com sua deposição em oitocentos e oitenta e oito. Depois de Carlos o Gordo, nenhum governante conseguiu reunificar as partes do antigo Império Franco.
Para os estudantes que se preparam para o ENEM e os vestibulares, o Tratado de Verdun aparece em várias possibilidades de questão. Pode aparecer em questões sobre a formação dos estados nacionais europeus, em que é importante entender que as nações europeias não surgiram prontas, mas foram o resultado de um longo processo de diferenciação política, linguística e cultural que tem uma de suas origens na divisão carolíngia. Pode aparecer em questões sobre o feudalismo, em que o enfraquecimento do poder central após o tratado é um dos fatores que explicam a dispersão do poder político entre os senhores locais. Pode aparecer em questões sobre a história das línguas europeias, em que o Juramento de Estrasburgo é o documento mais antigo que registra formas primitivas do francês e do alemão. E pode aparecer em questões sobre a história da Igreja medieval, em que o enfraquecimento do poder imperial após o tratado criou as condições para o crescimento da independência e da autoridade papal.
A questão que muitas vezes os exames fazem é: por que o Império Franco não sobreviveu como unidade depois de Carlos Magno? E a resposta que a história nos dá é complexa, porque envolve várias causas que se reforçam mutuamente. Havia a lógica patrimonial da herança que tornava a divisão quase inevitável em qualquer morte de um rei com vários filhos. Havia as tensões entre as diferentes populações do império, que falavam línguas diferentes e tinham tradições diferentes e que não tinham uma identidade comum forte o suficiente para superar as divisões políticas. Havia o poder crescente da aristocracia local, que preferia monarcas fracos a um imperador forte que pudesse limitar seus privilégios. E havia o problema prático de governar um território tão vasto com as tecnologias de comunicação e de administração disponíveis no século nove, sem estradas rápidas, sem comunicação instantânea e sem burocracia profissional suficientemente desenvolvida.
Carlos Magno havia conseguido manter esse território unido pela força de sua personalidade extraordinária, pela intensidade de sua ação pessoal, por sua presença constante em diferentes partes do império, pelas suas campanhas militares que reafirmavam sua autoridade com regularidade. Seus sucessores não tinham nem a mesma força pessoal nem as mesmas condições políticas, e o resultado foi o que vimos: um processo gradual de desintegração que o Tratado de Verdun formalizou mas não criou.
O que o tratado criou, no entanto, foi algo de importância histórica enorme: o quadro geopolítico básico a partir do qual a Europa medieval se desenvolveu. Os três reinos de Verdun não são as três nações europeias modernas, mas são seus antepassados diretos, os embriões a partir dos quais a França, a Alemanha e a Itália foram crescendo ao longo de séculos de transformação política, cultural e linguística. A história da Europa, com suas guerras, suas alianças, suas rivalidades e suas cooperações, é em parte a história das relações entre esses três herdeiros do império de Carlos Magno e dos estados que deles descenderam.
Quando você olha hoje para o mapa da Europa e vê a fronteira entre a França e a Alemanha, quando você pensa nas línguas francesa e alemã como línguas distintas, quando você considera a rica e complexa história cultural italiana: tudo isso tem raízes que chegam até aquele agosto de oitocentos e quarenta e três em Verdun, quando três netos de Carlos Magno assinaram um tratado que dividiu o maior império do Ocidente medieval e, sem saber, estabeleceram os fundamentos do mundo em que vivemos.
