Curso de História para o 1º Ano do Ensino Médio
MÓDULO 10 – A FORMAÇÃO DA EUROPA MEDIEVAL
Aula 116 – As novas invasões: vikings, magiares e sarracenos
Como fazer referência ao conteúdo:
| Dados de Catalogação na Publicação: NORAT, Markus Samuel Leite. Curso de história para o 1º ano do ensino médio. João Pessoa: Editora Norat, 2026. Livro Digital, Formato: HTML5, Tamanho: 132,4125 gigabytes (132.412.500 kbytes) . ISBN: 978-65-80808-16-8 | Cutter: N825c | CDD-907.12 | CDU-94(100)”-04/17″:373.5 . Palavras-chave: História, Ensino Médio, Pré-História, Civilizações Antigas, Mesopotâmia, Egito Antigo, Grécia Antiga, Roma Antiga, África Antiga, Reinos Africanos, Mundo Árabe-Muçulmano, Idade Média, Feudalismo, Antigo Regime, Monarquias Absolutistas, Renascimento, Humanismo, ENEM, Vestibulares. . TODOS OS DIREITOS RESERVADOS. É proibida a cópia total ou parcial desta obra, por qualquer forma ou qualquer meio. A violação dos direitos autorais é crime tipificado na Lei n. 9.610/98 e artigo 184 do Código Penal. |
Aula 116 – As novas invasões: vikings, magiares e sarracenos
Imagine que você está vivendo no século nono da era cristã, numa aldeia pequena às margens de um rio no que hoje chamamos de França. Você acorda de manhã, cuida de seus animais, trabalha no campo, vai à missa aos domingos, paga os impostos ao senhor do lugar. É uma vida difícil, como a de quase todas as pessoas da época, mas é uma vida que tem uma certa ordem, uma certa previsibilidade. E então um dia alguém chega correndo, com o rosto branco de medo, gritando que há barcos no rio. Barcos com velas listradas e proas em forma de cabeça de dragão. Barcos cheios de guerreiros do norte que não falam nenhuma língua que você conhece, que não respeitam a Cruz, que vieram para matar, saquear e levar. Em poucos minutos, sua aldeia está em chamas. Em poucas horas, o mosteiro que ficava a um dia de caminho dali foi destruído, seus monges mortos, seus tesouros levados. E você, se tiver sorte, estará escondido numa floresta, olhando a fumaça subir de tudo aquilo que era a sua vida.
Essa cena, com variações, aconteceu centenas de vezes ao longo dos séculos nono e dez em toda a Europa ocidental. E os homens dos barcos eram apenas um dos três grandes grupos que, nesse período, lançaram invasões devastadoras sobre as terras fragmentadas do antigo Império Franco. Esses grupos eram os vikings, que vinham do norte; os magiares, que vinham do leste; e os sarracenos, que vinham do sul. Juntos, eles transformaram a Europa num campo de turbulência que acelerou mudanças políticas e sociais profundas, e que moldou de forma decisiva o mundo medieval que se seguiu.
Para entender por que essas invasões foram tão devastadoras e por que aconteceram justamente nesse período, precisamos lembrar do que falamos na aula anterior: o Tratado de Verdun, de oitocentos e quarenta e três, havia partido o Império Franco em três pedaços que passaram a brigar entre si, enfraquecendo enormemente a capacidade de defesa coletiva que havia existido no tempo de Carlos Magno. Um império unificado podia mobilizar recursos de um extremo ao outro de seu território para defender qualquer ponto ameaçado. Três reinos rivais, cada um desconfiando dos outros, raramente conseguiam cooperar de forma eficaz. E os invasores perceberam isso, às vezes de forma intuitiva e às vezes de forma bastante calculada: a Europa enfraquecida era uma presa disponível.
Comecemos pelos vikings, que são provavelmente os mais conhecidos dos três grupos, em parte por causa da sua imagem popular na cultura moderna e em parte porque suas incursões atingiram uma área geográfica extraordinariamente ampla.
Os vikings eram povos originários da Escandinávia, a região que hoje corresponde à Noruega, à Suécia e à Dinamarca. Viviam numa terra de invernos longos e severos, de terreno acidentado e de poucos recursos agrícolas, onde a costa do mar e os fiordes eram caminhos naturais de comunicação e de subsistência. Durante séculos, esses povos haviam desenvolvido uma cultura de navegação de qualidade extraordinária: construíam barcos que eram obras-primas da engenharia naval medieval, os chamados drakkars ou longships, que eram ao mesmo tempo muito rápidos, muito manobráveis e capazes de navegar tanto em alto mar quanto em rios de pouca profundidade. Essa versatilidade era a chave do poder viking: os mesmos barcos que cruzavam o Atlântico Norte eram capazes de remontar rios como o Sena, o Loire, o Reno e o Tâmisa para chegar a cidades e mosteiros que ficavam bem no interior do continente.
A palavra viking não designava um povo específico nem uma nação: era um termo que descrevia uma atividade, que era a de ir em expedição marítima para saques e comércio. Nem todos os escandinavos eram vikings no sentido de participar dessas expedições; a maioria da população escandinava era de camponeses e pescadores que ficavam em casa. Mas a aristocracia guerreira escandinava e os homens jovens em busca de fortuna e de aventura participavam regularmente dessas expedições, que eram vistas na cultura escandinava não como crime mas como uma forma legítima e honrosa de enriquecer.
As incursões viking no Ocidente europeu começaram já no final do século oito. O ataque mais famoso desse período inicial foi o saque do mosteiro de Lindisfarne, numa ilha ao largo da costa nordeste da Inglaterra, em setecentos e noventa e três. Lindisfarne era um dos mais importantes centros religiosos da Bretanha, fundado pelos missionários irlandeses séculos antes, e seu saque causou um choque enorme na cristandade ocidental. Para os cristãos da época, era incompreensível que pagãos pudessem atacar impunemente um lugar sagrado; parecia um sinal de que algo estava profundamente errado no mundo. Os relatos da época descrevem os vikings de Lindisfarne como dragões que cuspiam fogo do céu, misturando o impacto real do ataque com a linguagem religiosa da catástrofe.
Depois de Lindisfarne, os ataques foram se multiplicando e se intensificando. No início do século nono, os vikings estavam atacando regularmente as costas da Inglaterra, da Irlanda, da Escócia, da Bretanha e do continente europeu. Com o passar das décadas, passaram dos simples ataques de saque, que duravam poucos dias, para expedições mais longas e ambiciosas. Começaram a passar os invernos nas regiões atacadas, estabelecendo acampamentos temporários que às vezes se tornavam permanentes. Subiram os rios europeus cada vez mais fundo no continente: o Sena chegava a Paris, o Loire atingia o coração da Aquitânia, o Reno levava às regiões germânicas.
Paris foi atacada pelos vikings várias vezes ao longo do século nono. O cerco mais famoso foi o de oitocentos e oitenta e cinco a oitocentos e oitenta e seis, quando uma frota imensa de barcos vikings, que segundo algumas fontes medievais chegava a quase setecentas embarcações, bloqueou o Sena e sitiou a cidade durante meses. A defesa de Paris foi organizada principalmente por Eudes, o conde de Paris, enquanto o rei da França Ocidental, Carlos o Gordo, levava meses para aparecer com um exército de socorro. Quando finalmente chegou, Carlos não atacou os vikings mas negociou com eles, pagando um resgate e permitindo que passassem para saquear a Borgonha. Essa atitude inflamou a aristocracia franca, que via o rei como covarde e incompetente, e contribuiu para a deposição de Carlos o Gordo no ano seguinte. E Eudes, o herói da defesa de Paris, foi eleito rei da França Ocidental em oitocentos e oitenta e oito, o que mostra como a crise das invasões estava transformando as estruturas do poder.
Essa história é ilustrativa de um padrão que se repetiu em toda a Europa diante das invasões: quando o poder central não conseguia defender as populações, eram os poderes locais que assumiam essa função e ganhavam autoridade e prestígio. Os condes, os duques, os bispos e os abades que organizavam a defesa de seus territórios com seus próprios recursos tornavam-se as figuras mais importantes na vida de suas regiões, muito mais próximas e muito mais relevantes para o camponês comum do que um rei distante que chegava tarde ou não chegava. Era o feudalismo em ação, não como sistema teórico inventado por alguém, mas como resposta prática às necessidades concretas de defesa e de ordem.
A defesa contra os vikings levou também à construção de uma nova geração de castelos e de muralhas. As cidades que podiam pagar ergueram muros de pedra. Os senhores locais construíram fortalezas de madeira sobre colinas artificiais, chamadas de mottas, que podiam ser defendidas por poucos homens contra um grupo de invasores que raramente se dava ao trabalho de fazer cercos longos e tecnicamente exigentes. As pontes dos rios foram equipadas com torres defensivas para bloquear a passagem dos barcos vikings para o interior. Toda essa infraestrutura defensiva transformou a paisagem da Europa e reforçou a lógica feudal: o castelo era o centro do poder local, o lugar para onde a população fugia em caso de perigo, e o senhor do castelo era a autoridade que oferecia proteção em troca de serviço e de lealdade.
Mas seria um erro pensar nos vikings apenas como destruidores. Eram também comerciantes de grande habilidade e exploradores de audácia impressionante. Enquanto os vikings dinamarqueses e noruegueses atacavam as costas ocidentais da Europa, os vikings suecos penetravam pelo leste, navegando pelos rios da atual Rússia, como o Volga e o Dnieper, e chegando ao mar Cáspio e ao mar Negro. Estabeleceram rotas comerciais que ligavam a Escandinávia a Bizâncio e ao mundo islâmico, trocando peles, âmbar, escravos e produtos do norte por seda, especiarias e prata. Os principais centros dessas rotas orientais, como Nóvgorod e Kiev, foram fundados ou transformados pelos vikings suecos, que as fontes eslavas e bizantinas chamavam de varegues ou russ, e é desse último nome que veio o nome Rússia.
No Atlântico, os vikings expandiram os limites do mundo conhecido. Colonizaram a Islândia a partir de oitocentos e setenta, fundaram colônias na Groenlândia no final do século dez, e em torno do ano mil chegaram à costa da América do Norte, que chamaram de Vinlândia, cinquenta anos antes de qualquer outra expedição europeia. O navegador Leif Eriksson foi o viking que chegou à América, embora as colônias que tentou estabelecer não tenham sobrevivido por muito tempo.
No Ocidente europeu, a presença viking foi gradualmente se transformando de pura atividade de saque em algo mais permanente. Em muitas regiões da Inglaterra, os vikings dinamarqueses estabeleceram assentamentos tão numerosos que toda a região nordeste da ilha ficou conhecida como Danelaw, que significa a lei dos dinamarqueses, onde as tradições jurídicas e a língua escandinava coexistiam com as saxônicas. Na Irlanda, os vikings fundaram cidades portuárias como Dublin, Waterford e Limerick, que se tornaram centros de comércio de grande importância. E na própria França, o rei Carlos o Simples, em novecentos e onze, concedeu ao chefe viking Rollo e a seus seguidores uma vasta região no noroeste do país, que passou a ser chamada de Normandia, que vem de Nortmanni, que significa homens do norte. Os normandos, como os descendentes desses vikings instalados na França passaram a ser chamados, foram rapidamente se misturando com a população local, adotando a língua francesa e o Cristianismo, e se tornando uma das forças mais importantes da história medieval: foram os normandos que conquistaram a Inglaterra em mil e sessenta e seis, que lideraram cruzadas no Mediterrâneo e que fundaram reinos na Itália meridional e na Sicília.
Passemos agora para o segundo grupo de invasores: os magiares, que são os ancestreiros do povo húngaro moderno.
Os magiares eram um povo de origem fino-úgrica, relacionado linguisticamente aos finlandeses e aos estonianos de hoje, embora sua cultura fosse muito mais próxima dos povos das estepes da Ásia Central, entre os quais haviam vivido e com os quais haviam se misturado durante séculos. No final do século nono, pressionados por outros povos das estepes, como os pechenegos, os magiares migraram para o oeste e se instalaram na planície da Panônia, que é o território do atual estado da Hungria, entre oitocentos e noventa e cinco e novecentos.
A forma de combater dos magiares era radicalmente diferente da dos vikings. Enquanto os vikings eram guerreiros navais que atacavam ao longo de costas e rios, os magiares eram cavaleiros das estepes de habilidade extraordinária, que usavam cavalos leves e velozes, arcos potentes disparados em alta velocidade mesmo durante o galope, e táticas de movimento rápido, de simulação de retirada e de golpe surpresa que desconcertavam completamente os exércitos pesados da cavalaria franca. Eram guerreiros que nunca ficavam parados para combater num campo de batalha aberto se podiam evitar: atacavam, disparavam suas flechas, recuavam, atraíam o inimigo para posições desvantajosas e então voltavam quando o inimigo estava em desordem. Eram a infantaria e a cavalaria pesada dos reinos carolíngios que simplesmente não conseguiam perseguir cavaleiros tão rápidos e tão difíceis de fixar num único lugar.
As incursões magiaras começaram logo após sua chegada à Panônia. Entre novecentos e novecentos e cinquenta, realizaram expedições de saque por quase todo o território que havia sido o Império Franco. Percorreram a Germânia, chegando até o Reno. Cruzaram os Alpes e saquearam a Itália do norte várias vezes. Contornaram os Alpes pelo sul e chegaram à Provença, no sul da França. Numa expedição particularmente ousada, em novecentos e vinte e seis, chegaram à própria cidade de Pavia, capital do reino da Itália, e saquearam a catedral de Saint-Gallen na atual Suíça. Eram expedições que duravam meses, cobriam milhares de quilômetros e deixavam um rastro de destruição, escravidão e terror por onde passavam.
O terror que os magiares inspiravam nas populações europeias era comparável ao que os hunos de Átila haviam inspirado quatro séculos antes. Não é por acidente que muitos contemporâneos medievais chamavam os magiares de hunos, como se fossem os mesmos destruidores que haviam devastado o mundo antigo. E assim como os hunos, os magiares pareciam invencíveis enquanto o Ocidente não encontrou a forma certa de combatê-los.
A derrota definitiva das incursões magiaras veio em novecentos e cinquenta e cinco, numa batalha que ficou conhecida como a Batalha do Lechfeld, travada às margens do rio Lech, perto da cidade de Augsburgo, na atual Bavária. O exército que enfrentou os magiares foi organizado por Otão I, o rei da Germânia, que conseguiu reunir um exército de cavalaria pesada grande o suficiente para enfrentar os cavaleiros das estepes em campo aberto. A batalha foi decisiva: os magiares foram completamente derrotados, seus líderes foram capturados e executados, e a capacidade de realizar grandes expedições de saque no Ocidente foi definitivamente destruída.
A derrota do Lechfeld teve consequências enormes. Para Otão I, foi o triunfo que o legitimou como o maior governante do Ocidente, e em novecentos e sessenta e dois foi coroado imperador em Roma pelo papa João XII, dando início ao que viria a ser o Sacro Império Romano-Germânico. Para os magiares, foi o ponto de virada que transformou um povo de nômades guerreiros num povo sedentário e, gradualmente, cristão. O líder magiar Géza, neto de um dos que haviam sido derrotados no Lechfeld, iniciou o processo de conversão ao Cristianismo e de sedentarização, e seu filho, que ficou conhecido como Estêvão I e que foi canonizado pela Igreja, fundou o reino cristão da Hungria no ano mil, recebendo uma coroa do papa Silvestre II. A Hungria cristã tornou-se parte do mundo da cristandade ocidental, e os magiares, que haviam sido um terror para a Europa por décadas, tornaram-se um de seus povos constituintes.
O terceiro grupo de invasores são os sarracenos, que é o nome genérico que os cristãos medievais usavam para designar os muçulmanos, independentemente de sua origem étnica específica. No contexto das invasões do século nono, os sarracenos que ameaçavam a Europa ocidental vinham principalmente do norte da África e da Hispânia muçulmana, e tinham como área de operação prioritária o Mediterrâneo e suas costas.
A presença islâmica no Mediterrâneo ocidental havia começado muito antes: a conquista da Hispânia pelos muçulmanos havia acontecido entre setecentos e onze e setecentos e dezoito, e os muçulmanos haviam chegado até o sul da França antes de serem derrotados por Carlos Martel em Tours em setecentos e trinta e dois. No século nono, a dinâmica mudou: o califado abássida estava em declínio, e as províncias periféricas do mundo islâmico estavam se tornando cada vez mais autônomas, o que significava que grupos de guerreiros muçulmanos podiam agir de forma bastante independente em busca de riqueza e de território.
A conquista da Sicília foi o empreendimento mais sistemático dos sarracenos no Mediterrâneo ocidental. Os muçulmanos norte-africanos da dinastia aglebida, com base em Cartago, lançaram a conquista da ilha em oitocentos e vinte e sete, quando um almirante bizantino dissidente chamou os muçulmanos para intervir numa guerra civil. A conquista foi lenta e custosa, durando décadas, mas em novecentos e dois o último grande bastião cristão da ilha, a cidade de Taormina, caiu, e toda a Sicília estava sob controle islâmico. A Sicília muçulmana tornou-se um centro de grande importância cultural e econômica: Palermo, sua capital, tornou-se uma das maiores e mais ricas cidades do Mediterrâneo, com uma população que conviviam muçulmanos, cristãos e judeus, e onde a ciência, a filosofia e a literatura árabes floresciram num ambiente de relativa tolerância.
Da Sicília e do norte da África, os sarracenos conduziam expedições de saque pela Itália meridional, que estava então dividida entre os principados lombardos do sul e os territórios do Império Bizantino. Algumas cidades do sul da Itália, como Bari, chegaram a cair temporariamente em mãos muçulmanas: Bari foi um emirado sarraceno de oitocentos e quarenta e sete a oitocentos e setenta e um. Mesmo Roma foi atacada em oitocentos e quarenta e seis, quando uma frota muçulmana desembarcou no estuário do Tíbre e saqueou as basílicas de São Pedro e de São Paulo, que ficavam fora das muralhas da cidade. O saque das basílicas mais sagradas do Ocidente cristão foi um trauma enorme, e o papa Leão IV respondeu mandando construir a chamada Cidade Leonina, as muralhas que pela primeira vez protegiam o Vaticano e a basílica de São Pedro.
No sul da França atual, os sarracenos estabeleceram uma base permanente no lugar chamado Fraxinetum, que fica perto da atual cidade de Fréjus, em Provença, por volta de oitocentos e oitenta e oito. Durante décadas, essa base foi o ponto de partida de incursões que penetravam pelo interior da Provença e pelos Alpes, chegando até o norte da Itália e à atual Suíça. Os sarracenos de Fraxinetum controlavam as passagens alpinas por um tempo, cobrando pedágio de quem queria passar e saqueando os que não pagavam. Essa presença foi finalmente eliminada em novecentos e setenta e dois, quando uma coalizão de lordes locais com apoio do bispo de Marselha destruiu a base.
Enquanto os ataques terrestres e fluviais continuavam, os sarracenos também dominavam grandes trechos do Mediterrâneo com sua frota. As ilhas de Córsega, Sardenha e as Baleares eram frequentemente atacadas, e o comércio marítimo no Mediterrâneo ocidental foi enormemente perturbado. O mare nostrum, como os romanos haviam chamado o Mediterrâneo, o nosso mar, havia se tornado muito mais perigoso e difícil de navegar. Esse bloqueio parcial do comércio mediterrâneo contribuiu para o enfraquecimento das cidades portuárias europeias e para o deslocamento do eixo econômico do Mediterrâneo para o norte, um processo de longa duração cujas raízes estão em parte nesse período de turbulência.
Agora que vimos cada um dos três grupos de invasores em detalhe, é importante entender as consequências que essas invasões simultâneas tiveram sobre a Europa como um todo, porque essas consequências moldaram profundamente a história medieval subsequente.
A primeira e mais imediata consequência foi humana: as invasões causaram mortes em grande número, destruição de colheitas e de habitações, fome, doenças e deslocamento de populações. Os mosteiros, que eram muitas vezes os maiores centros de riqueza e de cultura das regiões em que se situavam, foram alvos preferenciais dos vikings e às vezes dos sarracenos, o que causou uma perda significativa de manuscritos, de obras de arte e de memória cultural. Muitas das escolas que Carlos Magno havia ordenado estabelecer foram destruídas ou ficaram sem recursos e sem pessoal.
A segunda consequência foi política, e foi a mais duradoura. O enfraquecimento do poder real diante das invasões acelerou enormemente o processo de feudalismo que já estava em marcha desde a divisão carolíngia. Os reis que não conseguiam defender seus reinos perdiam autoridade moral e prática. Os condes, os marqueses, os duques e os bispos que organizavam a defesa local ganhavam autoridade correspondente. A obrigação de defesa e a troca de lealdade por proteção, que é o coração do sistema feudal, foi solidificada durante essas décadas de invasões em algo muito mais concreto e urgente do que qualquer teoria política: era uma necessidade de sobrevivência.
A terceira consequência foi a transformação da paisagem. A construção de castelos, de muralhas urbanas e de pontes fortificadas mudou o aspecto físico da Europa e criou a paisagem típica da Europa medieval que ainda podemos ver hoje em inúmeros sítios históricos. O castelo não era apenas uma estrutura militar: era um centro de poder econômico, social e político que organizava o território ao seu redor. E os burgos, as pequenas comunidades que se formavam às sombras das muralhas das cidades ou dos castelos, foram o embrião das cidades medievais que floresceriam a partir do século onze.
A quarta consequência, que é menos óbvia mas muito importante, foi a seleção de lideranças. Os reis e os líderes que conseguiram responder eficazmente às invasões ganharam uma legitimidade enorme que reforçou seus reinos e suas dinastias. Otão I da Germânia, que derrotou os magiares no Lechfeld, tornou-se o fundador do Sacro Império. Alfredo, o Grande, rei da Wessex na Inglaterra, que resistiu com extraordinária tenacidade às invasões dinamarquesas no final do século nono, tornou-se o herói fundador do reino inglês. Eudes de Paris, que defendeu a cidade dos vikings, tornou-se rei da França. Os invasores, ao forçarem a Europa a se reorganizar defensivamente, acabaram por criar as condições para o surgimento de lideranças mais fortes e mais eficazes do que as que haviam existido imediatamente após o colapso carolíngio.
A quinta consequência é a que fica mais invisível mas que é igualmente importante: a integração progressiva de muitos dos invasores ao mundo europeu. Os vikings normandos tornaram-se um dos povos mais dinâmicos e criativos do Ocidente medieval. Os magiares tornaram-se os húngaros, membros plenos da cristandade europeia. Os sarracenos da Sicília contribuíram, quando a ilha foi reconquistada pelos normandos no século onze, para a transmissão de conhecimentos científicos e filosóficos do mundo árabe para a Europa cristã, contribuição que foi parte do processo que levou ao Renascimento intelectual europeu dos séculos doze e treze.
Para os estudantes que se preparam para o ENEM e os vestibulares, as invasões do século nono aparecem com frequência em questões que relacionam fenômenos históricos de longa duração. Uma questão pode perguntar sobre as causas do feudalismo, e as invasões são uma das respostas importantes. Outra pode perguntar sobre as consequências da fragmentação carolíngia, e as invasões são ao mesmo tempo consequência e causa de aprofundamento dessa fragmentação. Questões sobre a formação da identidade cultural europeia podem mencionar como os vikings normandos se integraram e se tornaram agentes de expansão cristã. E questões sobre a relação entre o Oriente e o Ocidente no período medieval podem envolver os sarracenos e sua influência tanto destrutiva quanto construtiva sobre a cultura europeia.
O que mais impressiona, quando olhamos para esse período de invasões do século nono com um pouco de distância, é perceber que o que parecia o fim de uma civilização foi na verdade um momento doloroso de transformação que levou a algo novo. As instituições carolíngias que foram destruídas ou enfraquecidas pelas invasões foram substituídas por formas novas de organização política e social, mais adaptadas às condições de um mundo sem um grande império centralizado. As populações que sobreviveram às invasões foram forçadas a desenvolver novas formas de cooperação, de organização militar e de liderança que se mostraram mais robustas e mais adaptáveis do que a estrutura imperial que havia precedido.
E os próprios invasores, ao se instalarem nas terras que haviam atacado, trouxeram sangue novo, energias novas e perspectivas novas para a cultura europeia. Os normandos do norte da França foram conquistadores da Inglaterra, líderes de cruzadas, fundadores de reinos no Mediterrâneo. Os húngaros tornaram-se os guardiões da fronteira oriental da cristandade. Os árabes e berberes da Sicília e da Hispânia foram os transmissores de um patrimônio científico e filosófico de imenso valor que a Europa sorveu com sede nos séculos seguintes.
A história das invasões do século nono é, portanto, muito mais complexa do que a imagem simples do bárbaros que destroem e dos cristãos que sofrem. É a história de como uma Europa enfraquecida pela fragmentação política foi forçada a se reinventar, de como o caos das invasões gerou, paradoxalmente, as condições para uma nova ordem. É a história de como povos que chegaram como inimigos foram, em muitos casos, absorvidos e se tornaram parte da própria Europa que haviam ameaçado. E é a história de como a adversidade, quando não destrói completamente, às vezes tem a capacidade estranha de fortalecer aquilo que sobrevive.
