Curso de História para o 1º Ano do Ensino Médio
MÓDULO 3 – AS PRIMEIRAS CIVILIZAÇÕES DO ORIENTE MÉDIO
Aula 35 – Os sumérios e os acádios: as primeiras cidades-Estado
Aula 35 – Os sumérios e os acádios: as primeiras cidades-Estado
Imagine que você mora em uma pequena aldeia às margens de um grande rio. Toda a sua família planta, colhe, pesca e cria animais para sobreviver. As pessoas ao redor fazem exatamente a mesma coisa que você. Não existe escola, não existe mercado, não existe prefeito, não existe rua calçada, não existe templo construído de pedra. Todos trabalham o dia inteiro apenas para garantir o alimento do dia seguinte. Agora imagine que, ao longo de muitos séculos, essa aldeia vai crescendo. Mais famílias chegam, mais pessoas nascem, mais trabalho é feito, mais alimento é produzido. E chega um momento em que a aldeia se torna algo completamente diferente: uma cidade. Uma cidade com ruas, com um governo, com templos imponentes, com mercados animados, com artesãos especializados, com escribas registrando tudo o que acontece em tábuas de argila. Esse foi exatamente o processo que aconteceu na Mesopotâmia, há mais de cinco mil anos, quando os sumérios construíram as primeiras cidades-Estado da história humana.
Hoje vamos estudar os sumérios e os acádios, dois povos que viveram na Mesopotâmia na Antiguidade e que foram responsáveis por algumas das conquistas mais extraordinárias da história. Vamos entender como eles viviam, como organizavam suas cidades, o que inventaram, como se relacionavam com os deuses e o que aconteceu quando os acádios surgiram e transformaram tudo. Esse é um tema fundamental para o primeiro ano do ensino médio e aparece com muita frequência nas provas do ENEM, então preste bem atenção a cada detalhe desta aula.
Vamos começar pelos sumérios, que são considerados o povo que deu início à civilização mesopotâmica da forma como conhecemos. Os sumérios se estabeleceram na parte sul da Mesopotâmia, a chamada Baixa Mesopotâmia, por volta de quatro mil anos antes da era cristã. Essa região era uma grande planície cortada pelos rios Tigre e Eufrates, com solo extremamente fértil, mas também com um ambiente muito desafiador, marcado por cheias violentas, calor intenso e ausência de madeira e pedra.
A origem dos sumérios é um dos grandes mistérios da história antiga. Os historiadores até hoje debatem de onde esse povo veio. Ao contrário dos povos vizinhos, cuja língua pertencia a grupos linguísticos conhecidos, como o semítico ou o indo-europeu, a língua sumeriana é completamente isolada: ela não tem nenhum parentesco comprovado com nenhuma outra língua do mundo. Isso torna os sumérios um enigma fascinante. O que sabemos com certeza é que, ao chegarem ao sul da Mesopotâmia ou ao se desenvolverem ali, eles encontraram condições naturais que, embora difíceis, eram excepcionais para quem soubesse aproveitá-las.
A chave para o desenvolvimento sumeriano foi o controle da água. Os rios Tigre e Eufrates transbordavam todos os anos, geralmente entre a primavera e o início do verão, quando as neves derretiam nas montanhas ao norte e a chuva aumentava. Essas cheias depositavam camadas ricas de sedimentos férteis nas margens dos rios, o que tornava o solo extremamente produtivo para a agricultura. Mas as cheias também podiam ser destrutivas, arrasando plantações e aldeias se não fossem controladas.
Para aproveitar a fertilidade sem sofrer as consequências das cheias, os sumérios desenvolveram ao longo de gerações um sistema sofisticado de controle das águas. Eles construíram diques para conter as inundações mais violentas. Construíram canais para levar a água dos rios até os campos de cultivo que ficavam mais afastados das margens. Construíram reservatórios para armazenar água nas épocas de cheia e usá-la durante os períodos de seca. Essa infraestrutura hídrica foi uma das maiores conquistas técnicas do mundo antigo e tornou possível a produção de alimentos em uma escala que nenhum povo havia alcançado antes.
Com tanta comida disponível, a população cresceu rapidamente. E com o crescimento da população, a sociedade foi se tornando cada vez mais complexa. Surgiu a necessidade de organizar o trabalho de forma mais eficiente, de resolver conflitos entre vizinhos, de distribuir a água dos canais de forma justa, de armazenar e distribuir os excedentes da produção. Em outras palavras, surgiu a necessidade de um governo, de leis e de uma estrutura de poder capaz de coordenar tudo isso.
Foi nesse contexto que as primeiras cidades da história humana nasceram. Por volta do quarto milênio antes da era cristã, as aldeias sumérias do sul da Mesopotâmia foram crescendo e se transformando em algo completamente novo: cidades. E não cidades simples, mas centros urbanos complexos, com populações que podiam chegar a dezenas de milhares de habitantes, com arquitetura monumental, com economia diversificada e com formas de governo estruturadas.
Entre as primeiras e mais importantes cidades sumérias, podemos destacar Uruk, considerada por muitos historiadores como a primeira grande cidade da história, com uma população que pode ter chegado a quarenta ou cinquenta mil habitantes por volta de três mil e quinhentos anos antes da era cristã. Além de Uruk, outras cidades importantes foram Ur, Eridu, Lagash, Nippur e Kish, cada uma com sua própria identidade, seu próprio governante e sua própria divindade protetora.
E aqui chegamos a um conceito fundamental que você precisa dominar: a cidade-Estado. O que é uma cidade-Estado? Uma cidade-Estado é uma cidade que funciona como um Estado independente, ou seja, ela tem seu próprio governo, suas próprias leis, seu próprio exército e sua própria economia, sem estar subordinada a nenhuma autoridade externa. As cidades sumérias eram exatamente isso. Cada uma delas era uma unidade política autônoma, com um rei ou governante próprio, com seu templo central e com um território ao redor composto de campos de cultivo, pastagens e aldeias menores que dependiam da cidade principal.
Essa independência política entre as cidades sumérias tinha um lado positivo e um lado negativo. O lado positivo era que cada cidade podia se organizar da forma que melhor conviesse às suas condições locais, criando soluções criativas para os desafios que enfrentava. O lado negativo era que as cidades frequentemente entravam em conflito umas com as outras, disputando terras, recursos hídricos e rotas comerciais. As guerras entre cidades sumérias foram frequentes ao longo da história dessa civilização, e muitos líderes tentaram, em diferentes momentos, subjugar as cidades vizinhas e criar um domínio maior. Mas durante muito tempo nenhum conseguiu manter por muito tempo o controle sobre todas as cidades ao mesmo tempo, e a fragmentação política foi uma característica marcante do mundo sumeriano.
Agora vamos entender como era a organização interna de uma cidade-Estado sumeriana, porque ela é muito reveladora sobre como os sumérios enxergavam o mundo, o poder e a vida em sociedade.
O centro de qualquer cidade sumeriana era o templo. Mas não era apenas um local de oração. O templo sumeriano era ao mesmo tempo a morada do deus protetor da cidade, o principal armazém de alimentos e mercadorias, a sede da administração econômica da cidade e um centro de produção artesanal. Os sacerdotes que administravam o templo controlavam grandes extensões de terra, organizavam o trabalho coletivo de plantio e colheita, armazenavam os excedentes da produção e os redistribuíam entre a população conforme as necessidades.
Acima dos templos, tanto em termos físicos quanto em termos de visibilidade, estavam os zigurates. O zigurate era uma construção religiosa em forma de pirâmide escalonada, construída com tijolos de argila cozida, que se erguia no centro da cidade como a edificação mais alta e mais imponente. Cada degrau do zigurate representava um nível diferente do cosmos, e no topo havia um pequeno templo onde se acreditava que o deus da cidade residia. Do alto do zigurate, era possível ver toda a cidade e os campos ao redor, e o zigurate era visível de quilômetros de distância na planície plana da Mesopotâmia. Era uma afirmação poderosíssima da presença divina no coração da cidade.
Ao lado do templo e do zigurate, outro edifício central da cidade sumeriana era o palácio. O palácio era a residência e a sede do poder do rei. No começo da história sumeriana, o rei e o sacerdote eram muitas vezes a mesma pessoa, ou funções muito próximas. Com o tempo, especialmente à medida que as guerras entre cidades se intensificaram, a figura do rei guerreiro foi ganhando mais autonomia em relação ao sacerdote administrador, e o palácio foi se tornando um centro de poder distinto do templo.
O rei sumeriano não era visto como um deus, como acontecia no Egito com o faraó. Ele era visto como um servo dos deuses, um intermediário entre o mundo humano e o mundo divino. Sua principal função era garantir a prosperidade da cidade, que incluía tanto a vitória nas guerras quanto a boa colheita, a manutenção dos canais de irrigação e a realização dos rituais religiosos corretamente. Se a cidade sofria uma derrota, uma seca ou uma epidemia, isso podia ser interpretado como sinal de que o rei havia falhado em seus deveres para com os deuses.
Agora vamos falar da organização social das cidades sumérias, porque ela também é muito importante para entender o funcionamento dessa civilização.
A sociedade sumeriana era hierárquica e estratificada, ou seja, dividida em grupos com posições, direitos e obrigações bastante diferentes. No topo da hierarquia estavam o rei e sua família, junto com os grandes sacerdotes que administravam os templos. Logo abaixo vinham os funcionários do palácio e do templo, os militares de alta patente, os grandes comerciantes e os artesãos mais especializados e habilidosos, como os ourives e os construtores de barcos.
A maior parte da população era composta por agricultores livres que trabalhavam nas terras do templo ou em suas próprias pequenas propriedades. Esses camponeses pagavam tributos ao templo e ao rei em forma de produtos agrícolas, de trabalho em obras coletivas ou de serviço militar. Embora fossem livres formalmente, suas vidas eram muito controladas e limitadas pelas obrigações que tinham com as autoridades.
Na base da sociedade sumeriana havia pessoas em condição de servidão ou escravidão. Ao contrário do que aconteceu séculos depois no mundo grego ou romano, a escravidão na Mesopotâmia antiga não era o motor central da economia, mas existia e era socialmente aceita. As pessoas podiam ser escravizadas como resultado de guerras, quando os prisioneiros de guerra se tornavam propriedade dos vencedores, ou por dívidas, quando alguém que devia mais do que podia pagar se via obrigado a trabalhar para o credor até quitar a dívida.
As mulheres na sociedade sumeriana tinham um status bastante variável conforme sua posição social. As mulheres das classes mais altas, especialmente as sacerdotisas ligadas aos grandes templos, podiam ter propriedades, participar de negócios e exercer funções religiosas importantes. As mulheres das classes mais baixas, por outro lado, tinham vidas muito limitadas, voltadas ao trabalho doméstico e à produção artesanal dentro dos templos e palácios.
Uma das características mais marcantes da economia sumeriana era a centralização. O templo e o palácio controlavam diretamente uma parte muito grande da produção econômica da cidade. O templo tinha suas próprias terras, cultivadas por trabalhadores sob sua supervisão. O templo também organizava a produção artesanal, com tecelagens, olarias e fundições funcionando dentro do seu complexo. E o templo era responsável pelo comércio externo, enviando caravanas e barcos para buscar em regiões distantes os materiais que faltavam na Mesopotâmia, como madeira, pedra e metais.
Esse comércio de longa distância foi fundamental para o desenvolvimento sumeriano. Como a planície mesopotâmica tinha argila e grãos em abundância, mas era praticamente desprovida de madeira, pedra e minerais, os sumérios precisavam exportar seus excedentes agrícolas e seus produtos artesanais para importar os materiais que precisavam. Essa necessidade criou redes comerciais que se estendiam até o Líbano, fonte de madeira de cedro, até a Anatólia e o atual Irã, fontes de cobre, estanho e pedras semipreciosas, e até a Índia, com quem os sumérios também mantinham contato comercial.
E agora chegamos a uma das invenções mais extraordinárias de toda a história humana, que nasceu precisamente para atender às necessidades desse comércio e dessa administração complexa: a escrita.
A escrita sumeriana é considerada uma das mais antigas formas de escrita do mundo, com os primeiros registros datando de aproximadamente três mil e quinhentos anos antes da era cristã. Ela não foi inventada de uma hora para outra por um gênio solitário. Foi o resultado de um longo processo de desenvolvimento que durou séculos.
No começo, os administradores do templo usavam pequenas fichas de argila com diferentes formas para representar os produtos que entravam e saíam dos armazéns. Uma ficha em forma de esfera podia representar uma determinada quantidade de grãos. Outra forma representava um animal. Essas fichas eram guardadas dentro de bolas de argila que funcionavam como espécie de envelopes lacrados, garantindo que os registros não podiam ser alterados sem deixar evidência. Com o tempo, os administradores perceberam que podiam simplificar o processo fazendo marcas na superfície da bola de argila que representassem o conteúdo de dentro, em vez de guardar as fichas físicas. Essa foi a semente da escrita.
Aos poucos, essas marcas foram se tornando mais abstratas e mais eficientes. Em vez de desenhar uma cabeça de boi para representar um boi, os escribas passaram a usar um símbolo simplificado que evoluiu até se tornar um sinal completamente abstrato. O instrumento usado para escrever era um estilete de cana ou de madeira com a extremidade cortada em ângulo, criando uma ponta triangular. Quando pressionada contra a argila úmida, essa ponta deixava marcas em forma de cunha. Por isso, esse sistema de escrita recebeu o nome de cuneiforme, que vem do latim cuneus, que significa cunha.
A escrita cuneiforme começou sendo usada exclusivamente para registros administrativos e comerciais: quantas sacas de grão entraram no armazém, quantos animais foram sacrificados no templo, quanto de prata foi trocado por mercadorias. Mas com o tempo ela foi se tornando cada vez mais sofisticada, capaz de representar não apenas objetos e quantidades, mas também sons, ideias abstratas e narrativas complexas. Foi graças a essa evolução que os sumérios puderam escrever suas leis, seus hinos religiosos, seus registros históricos e suas histórias, incluindo a mais famosa obra literária da Antiguidade, a Epopeia de Gilgamesh.
A Epopeia de Gilgamesh é um poema épico que narra as aventuras de Gilgamesh, rei da cidade de Uruk, que parte em busca da imortalidade depois da morte de seu melhor amigo Enkidu. É uma história extraordinariamente rica, que trata de temas profundamente humanos como a amizade, o medo da morte, a busca por sentido e os limites da ambição humana. O que muita gente não sabe é que a Epopeia de Gilgamesh contém um episódio com um grande dilúvio, no qual um homem justo é avisado pelos deuses para construir um barco e salvar sua família e os animais da destruição. Essa narrativa é muito anterior ao texto bíblico do dilúvio de Noé, o que mostra como as histórias e os mitos das civilizações mesopotâmicas influenciaram profundamente culturas que vieram depois.
Quem dominava a escrita na sociedade sumeriana? Uma classe de especialistas chamados escribas. Os escribas eram profissionais treinados desde a infância nas escolas de escrita chamadas edubba, que significa literalmente casa das tabuletas. Aprender a escrita cuneiforme era um processo longo e difícil, que exigia anos de prática, porque o sistema tinha centenas de sinais diferentes, cada um com significados e usos específicos. Por isso, os escribas eram uma elite do conhecimento, que controlava o acesso à informação escrita e ocupava posições de grande poder e prestígio nas cortes reais e nos templos.
Além da escrita, os sumérios fizeram outras contribuições extraordinárias para a humanidade. Eles foram pioneiros no desenvolvimento da matemática, criando um sistema numérico baseado no número sessenta, que chamamos de sistema sexagesimal. Esse sistema pode parecer estranho para nós, que usamos o sistema decimal baseado no dez, mas ele tem vantagens práticas muito interessantes: o número sessenta pode ser dividido por dois, três, quatro, cinco, seis, dez, doze, quinze, vinte e trinta, o que o torna muito versátil para cálculos fracionários. Herança direta do sistema numérico sumeriano, nós ainda hoje dividimos uma hora em sessenta minutos, um minuto em sessenta segundos e um círculo em trezentos e sessenta graus. Toda vez que você olha para um relógio, está usando um sistema que foi inventado há mais de cinco mil anos.
Os sumérios também foram pioneiros na astronomia. Os sacerdotes observavam o céu noturno com atenção, identificavam os movimentos dos astros e criaram calendários baseados nos ciclos da Lua e do Sol. Esse conhecimento astronômico não era apenas científico: ele tinha funções práticas imediatas, porque permitia prever quando as cheias dos rios estavam chegando, quando era a hora certa de plantar e quando era a hora de colher.
A religião sumeriana era politeísta, ou seja, acreditava em muitos deuses ao mesmo tempo. O panteão sumeriano era vastíssimo, com centenas de divindades, mas havia alguns deuses principais que eram venerados em todo o mundo sumeriano. Anu era o deus do céu e o pai de todos os deuses. Enlil era o senhor do ar e do vento, e era considerado o rei dos deuses na Terra. Enki era o deus da sabedoria, da água doce e da criação. Inanna, chamada também de Ishtar pelos acádios, era a deusa do amor, da beleza e da guerra, uma das figuras mais complexas e fascinantes do panteão mesopotâmico.
Cada cidade sumeriana tinha uma divindade protetora específica, que era considerada a proprietária real da cidade e de todas as suas terras. O rei governava em nome desse deus, e o templo central da cidade era literalmente a casa dessa divindade. Os rituais religiosos eram realizados diariamente pelos sacerdotes, que alimentavam a estátua do deus com oferendas de comida, bebida e incenso, como se estivessem cuidando de um ser vivo. Em ocasiões especiais, grandes festivais religiosos mobilizavam toda a população da cidade, com procissões, músicas, danças e sacrifícios de animais.
A religião sumeriana tinha uma visão bastante pessimista sobre a condição humana. Os seres humanos, segundo os mitos sumérios, foram criados pelos deuses para trabalhar em seu lugar, para realizar as tarefas pesadas que os deuses não queriam fazer. A vida humana era vista como algo precário e cheio de sofrimento, e a morte era encarada como inevitável e terrível. O mundo dos mortos, chamado de Kigal, era descrito como um lugar sombrio e desolado, onde as almas levavam uma existência cinzenta e sem alegria. Essa visão pessimista sobre o destino humano após a morte é muito diferente da visão egípcia, que prometia uma vida plena no além para quem vivesse de forma correta neste mundo.
Agora chegamos a um ponto crucial da história mesopotâmica: o surgimento dos acádios e a criação do primeiro império da história. Para entender esse acontecimento, precisamos voltar um pouco no tempo e entender quem eram os acádios.
Os acádios eram um povo de língua semítica que habitava a parte central da Mesopotâmia, ao norte das cidades sumérias. A língua semítica dos acádios pertencia à mesma família linguística do árabe, do hebraico e do aramaico, o que significa que, ao contrário dos sumérios, os acádios faziam parte de um grande grupo de povos espalhados pelo Oriente Médio que compartilhavam línguas com parentesco entre si.
Durante muitos séculos, os acádios e os sumérios coexistiram na Mesopotâmia, com um grau enorme de intercâmbio cultural entre eles. Os acádios adotaram muitos elementos da cultura sumeriana, incluindo a escrita cuneiforme, as formas de construção, os costumes religiosos e as práticas agrícolas. Ao mesmo tempo, a língua acádia foi gradualmente se espalhando pela região, ao ponto de se tornar a língua franca do Oriente Médio, ou seja, a língua usada por diferentes povos para se comunicar entre si no comércio e na diplomacia.
Por volta de dois mil e trezentos e cinquenta anos antes da era cristã, um acontecimento extraordinário transformou para sempre o cenário político da Mesopotâmia. Um rei acádio chamado Sargão, que governava a cidade de Acad, no norte, liderou um conjunto de conquistas militares que unificou pela primeira vez todas as cidades-Estado da Mesopotâmia sob um único governante. Sargão conquistou as cidades sumérias do sul uma a uma, submeteu os povos das montanhas ao leste e ao norte e criou o que os historiadores chamam de Império Acadiano, considerado o primeiro império da história da humanidade.
Sargão foi uma figura lendária já em sua própria época. Sua história de origem, que chegou até nós por meio de textos cuneiformes, é surpreendentemente parecida com histórias de figuras heróicas de outras culturas: ele teria nascido de mãe humilde, sido abandonado no rio em uma cesta de junco e criado por um jardineiro antes de se tornar o servo de um rei local e, eventualmente, o conquistador do mundo conhecido. Essa narrativa de origem de um herói abandonado e que se torna grande está presente em muitas culturas, desde Moisés nos textos bíblicos até Rômulo e Remo na mitologia romana.
O Império Acadiano de Sargão representou uma mudança fundamental no conceito de poder político na Mesopotâmia e, em certo sentido, na história do mundo. Antes de Sargão, o mundo mesopotâmico era composto de cidades-Estado independentes, com territórios limitados e poderes locais. Com Sargão, surgiu pela primeira vez a ideia de um único rei governando um vasto território com muitas cidades e muitos povos diferentes. Esse modelo imperial seria repetido e aperfeiçoado por muitas civilizações nos séculos e milênios seguintes.
Para administrar seu enorme território, Sargão desenvolveu inovações administrativas muito importantes. Ele colocou funcionários de confiança, muitas vezes membros de sua própria família, como governadores das cidades conquistadas. Ele padronizou os pesos e as medidas usadas no comércio por todo o império, o que facilitou enormemente as transações entre regiões distantes. Ele criou um sistema de correios, com mensageiros que percorriam as estradas do império levando ordens e informações. E ele construiu a cidade de Acad como uma capital imperial suntuosa, infelizmente ainda não localizada pelos arqueólogos, que deve estar enterrada em algum lugar ainda não escavado do Iraque atual.
Sargão também nomeou sua filha, Enheduanna, como sacerdotisa-mor do grande templo da lua em Ur. Enheduanna é uma das pessoas mais extraordinárias da Antiguidade: ela é considerada a primeira autora da história cujo nome conhecemos. Os hinos que ela escreveu para a deusa Inanna chegaram até nós em cópias feitas séculos depois de sua morte, e são textos de uma beleza e de uma profundidade extraordinárias.
O Império Acadiano durou cerca de cento e cinquenta a dois mil anos, dependendo das diferentes estimativas, e foi enfraquecido por uma combinação de rebeliões internas, pressão dos povos das montanhas e possivelmente por uma grande seca que devastou a agricultura da região. Após a queda do império, a Mesopotâmia voltou a ser um mosaico de cidades-Estado competindo entre si, até que novos impérios surgissem nos séculos seguintes.
O que os acádios deixaram para a história da Mesopotâmia? Em primeiro lugar, a língua acádia se tornou dominante na região e permaneceu como a principal língua da Mesopotâmia por mais de dois mil anos. O sumeriano sobreviveu como língua religiosa e acadêmica, usada nos templos e nas escolas de escribas, de maneira parecida com o latim na Europa medieval. Em segundo lugar, o modelo imperial criado por Sargão se tornou um modelo a ser seguido e superado por todos os grandes reis mesopotâmicos que vieram depois, como Hamurabi da Babilônia, os reis assírios e Nabucodonosor. Em terceiro lugar, o contato profundo entre a cultura sumeriana e a acádia produziu uma síntese cultural extraordinariamente rica, que foi a base sobre a qual toda a civilização mesopotâmica subsequente se desenvolveu.
Vamos agora fazer as conexões com o ENEM que são tão importantes para a sua formação e para a sua preparação para as provas.
O ENEM frequentemente apresenta questões que pedem ao estudante para analisar a relação entre as condições materiais de existência de um povo, ou seja, a geografia, a economia e a tecnologia, e as formas de organização social e política que esse povo desenvolveu. O exemplo dos sumérios é perfeito para esse tipo de análise: a necessidade de controlar as cheias dos rios criou a necessidade de organização coletiva, que levou ao surgimento das cidades, do governo, da escrita e do Estado. Saber estabelecer essa cadeia de causas e consequências é exatamente o tipo de raciocínio histórico que o ENEM valoriza.
O ENEM também gosta de trazer questões sobre a escrita e o poder. Quem controlava a escrita na Mesopotâmia? Os escribas, que faziam parte da elite do conhecimento ligada ao templo e ao palácio. Isso significa que a escrita não era apenas uma ferramenta neutra de comunicação: ela era um instrumento de poder, que permitia ao Estado registrar, controlar e cobrar impostos, criar leis e perpetuar a memória dos governantes. Questões do ENEM sobre o tema frequentemente pedem que o estudante reflita sobre como o controle da informação e do conhecimento é uma forma de exercer poder social e político, tanto no passado quanto no presente.
Outro tema recorrente no ENEM relacionado a essa aula é a comparação entre civilizações e o reconhecimento das contribuições de diferentes povos para a humanidade. Os sumérios contribuíram com a escrita, com o sistema sexagesimal, com a astronomia, com o direito escrito e com uma das primeiras grandes obras literárias da humanidade. Reconhecer e valorizar essas contribuições é parte de uma visão histórica crítica e plural que o ENEM incentiva.
Por fim, o surgimento do primeiro império com Sargão é um tema excelente para questões sobre as origens do Estado, do poder centralizado e da dominação política. O ENEM pode pedir que o estudante compare o modelo de cidade-Estado sumeriana, baseado na autonomia local, com o modelo imperial acadiano, baseado na centralização do poder, e reflita sobre as vantagens e desvantagens de cada um.
Vamos fazer agora uma revisão completa de tudo que aprendemos nesta aula, para garantir que você ficou com todas as informações bem fixadas.
Os sumérios se estabeleceram no sul da Mesopotâmia por volta de quatro mil anos antes da era cristã e desenvolveram a agricultura irrigada por meio de um complexo sistema de canais, diques e reservatórios. Esse controle da água permitiu a produção de excedentes alimentares, o crescimento populacional e o surgimento das primeiras cidades da história, como Uruk, Ur, Eridu e Lagash.
Essas cidades eram chamadas de cidades-Estado porque eram politicamente independentes, cada uma com seu próprio governo, seu próprio rei, seu próprio templo e sua própria divindade protetora. O templo era o centro econômico, religioso e administrativo da cidade, e os zigurates, enormes torres em forma de pirâmide escalonada, eram os monumentos mais imponentes do mundo sumeriano.
A sociedade sumeriana era hierárquica, com reis, sacerdotes e funcionários no topo, seguidos de artesãos e comerciantes, depois de agricultores livres e, na base, de pessoas em condição de servidão. A economia era em grande parte controlada pelo templo e pelo palácio, que organizavam a produção, o armazenamento e o comércio.
Os sumérios inventaram a escrita cuneiforme, um sistema de marcas em forma de cunha feitas em tábuas de argila úmida, que começou como instrumento de controle administrativo e evoluiu para uma das mais ricas tradições literárias da Antiguidade, incluindo a Epopeia de Gilgamesh. Eles também desenvolveram um sistema numérico baseado no sessenta, que ainda hoje está presente na divisão do tempo e dos ângulos, e foram pioneiros em astronomia e em direito.
Por volta de dois mil e trezentos e cinquenta anos antes da era cristã, o rei acádio Sargão conquistou todas as cidades-Estado da Mesopotâmia e criou o Império Acadiano, considerado o primeiro império da história humana. Os acádios adotaram e transmitiram a cultura sumeriana, especialmente a escrita cuneiforme, e sua língua se tornou a principal língua da Mesopotâmia por mais de dois mil anos. O Império Acadiano, embora relativamente curto, estabeleceu o modelo do poder centralizado sobre um vasto território que todos os grandes impérios seguintes buscariam reproduzir e superar.
Na próxima aula vamos continuar nossa exploração da Mesopotâmia, conhecendo os amoritas e o Primeiro Império Babilônico, onde encontraremos o rei Hamurabi e seu famoso código de leis.
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| Dados de Catalogação na Publicação: NORAT, Markus Samuel Leite. Curso de história para o 1º ano do ensino médio. João Pessoa: Editora Norat, 2026. Livro Digital, Formato: HTML5, Tamanho: 132,4125 gigabytes (132.412.500 kbytes) . ISBN: 978-65-80808-16-8 | Cutter: N825c | CDD-907.12 | CDU-94(100)”-04/17″:373.5 . Palavras-chave: História, Ensino Médio, Pré-História, Civilizações Antigas, Mesopotâmia, Egito Antigo, Grécia Antiga, Roma Antiga, África Antiga, Reinos Africanos, Mundo Árabe-Muçulmano, Idade Média, Feudalismo, Antigo Regime, Monarquias Absolutistas, Renascimento, Humanismo, ENEM, Vestibulares. . TODOS OS DIREITOS RESERVADOS. É proibida a cópia total ou parcial desta obra, por qualquer forma ou qualquer meio. A violação dos direitos autorais é crime tipificado na Lei n. 9.610/98 e artigo 184 do Código Penal. |
