Curso de História para o 1º Ano do Ensino Médio
MÓDULO 3 – AS PRIMEIRAS CIVILIZAÇÕES DO ORIENTE MÉDIO
Aula 47 – Os hebreus: história, religião monoteísta e a formação do judaísmo
Aula 47 – Os hebreus: história, religião monoteísta e a formação do judaísmo
Hoje vamos falar sobre um povo que, ao longo de milênios, enfrentou exílios, perseguições, guerras e dispersões, e mesmo assim manteve sua identidade cultural e religiosa com uma força que até hoje impressiona qualquer pessoa que estuda sua história. Estamos falando dos hebreus, um povo que não construiu o maior exército da Antiguidade, não ergueu as pirâmides mais altas nem criou o império mais extenso, mas que deixou na humanidade uma contribuição de uma profundidade que poucas civilizações podem reivindicar: o monoteísmo, a crença em um único deus, e um conjunto de textos sagrados que ainda hoje são lidos, debatidos e vividos por bilhões de pessoas em todo o mundo.
Antes de tudo, vamos entender quem eram os hebreus e como eles viviam.
Os hebreus eram um povo de origem semita, falantes de uma língua chamada hebraico, que pertencia à mesma família linguística do fenício, do aramaico e do árabe. Eles se estabeleceram numa região chamada Canaã, que corresponde aproximadamente ao que hoje conhecemos como Israel, a Palestina, o Líbano meridional e partes da Jordânia e da Síria. Essa região tinha uma posição geográfica de enorme importância estratégica: ficava numa espécie de corredor entre o Egito ao sul e as grandes civilizações da Mesopotâmia ao norte e ao leste. Por ela passavam as principais rotas comerciais e militares do Oriente Médio antigo, o que tornava Canaã um território constantemente disputado por povos e impérios poderosos.
As origens dos hebreus são um tema que combina história e tradição religiosa de uma forma muito rica e complexa. Segundo a narrativa bíblica, que é ao mesmo tempo um texto sagrado e uma das principais fontes que temos sobre esse povo, os hebreus descendiam de um homem chamado Abraão, que teria vivido em Ur, uma das grandes cidades da Mesopotâmia, provavelmente por volta do segundo milênio antes de Cristo. Deus teria chamado Abraão para deixar sua terra natal e partir em direção a Canaã, prometendo-lhe que seus descendentes se tornariam um povo numeroso e que aquela terra seria a herança deles. Abraão obedeceu, partiu com sua família e seus rebanhos, e desde então os hebreus se consideram o povo escolhido pelo seu deus para habitar aquela região.
Independentemente do caráter religioso dessa narrativa, ela nos diz coisas importantes do ponto de vista histórico. Ela fala de um povo de origem mesopotâmica que migrou para a região de Canaã, que viveu inicialmente como nômade ou seminômade, movendo-se com seus rebanhos em busca de pastagens e de água. E ela estabelece uma ligação fundamental entre a identidade do povo e a relação com seu deus, uma ligação que seria a espinha dorsal de toda a cultura hebraica dali em diante.
Abraão teve um filho chamado Isaac, Isaac teve um filho chamado Jacó, e Jacó teve doze filhos que se tornaram os ancestrais das doze tribos de Israel. O nome Israel, aliás, é o nome que Deus teria dado ao próprio Jacó após um episódio mítico em que ele teria lutado a noite inteira com um ser divino. A palavra Israel é interpretada como aquele que luta com Deus ou aquele que perseverou com Deus, o que já diz muito sobre o caráter dessa relação entre o povo e sua divindade: não é uma relação de submissão passiva, mas de um vínculo intenso, que inclui questionamentos, lutas e diálogos.
Um dos episódios mais importantes da história hebraica é o que a tradição bíblica chama de Êxodo, que significa literalmente saída. Segundo essa narrativa, em algum momento da história antiga, parte dos descendentes de Abraão acabou indo parar no Egito, onde foram escravizados pelos faraós e obrigados a trabalhar em grandes obras de construção. Essa escravidão teria durado por gerações, até que um homem chamado Moisés, guiado por deus, liderou os hebreus numa fuga do Egito em direção à liberdade.
O Êxodo é o evento fundador da identidade hebraica por excelência. É a história da libertação de um povo oprimido, conduzida pela mão do seu deus. Durante a travessia do deserto do Sinai, segundo a narrativa bíblica, Deus apareceu a Moisés no Monte Sinai e lhe entregou as Dez Tábuas da Lei, que incluíam os famosos Dez Mandamentos, um conjunto de preceitos morais e religiosos que deveriam guiar o comportamento do povo. Esse momento é considerado pelos judeus como o momento da aliança, o berit, entre Deus e o povo de Israel: Deus prometia proteção e bênçãos, e o povo prometia fidelidade exclusiva a esse único deus e obediência às suas leis.
É importante mencionar que os historiadores debatem muito sobre o grau de historicidade do Êxodo. Não existem registros egípcios que confirmem diretamente a saída em massa de um grande grupo de escravos hebreus. Alguns estudiosos acreditam que o Êxodo pode ser baseado em eventos reais menores, que foram ampliados e sacralizado pela tradição oral ao longo dos séculos. Outros acreditam que é essencialmente uma narrativa teológica. O que é certo é que o Êxodo, independentemente de sua historicidade exata, foi o evento que moldou profundamente a consciência coletiva dos hebreus e continua sendo central para o judaísmo até hoje.
Após a travessia do deserto, segundo a narrativa bíblica, os hebreus chegaram à Terra Prometida, que era Canaã. O processo de ocupação dessa região foi gradual e conflituoso, envolvendo guerras contra os povos que já viviam ali, incluindo os cananeus e os filisteus. Durante um longo período, as tribos hebraicas viveram de forma relativamente descentralizada, sem um rei unificado, sendo lideradas por figuras chamadas juízes, que eram líderes militares e espirituais convocados em momentos de crise.
Com o tempo, a pressão dos povos vizinhos, especialmente dos filisteus, que eram um povo de origem mediterrânea que habitava a costa sul de Canaã e que tinha uma organização militar muito eficiente, levou as tribos hebraicas a demandar um rei que as unificasse. O primeiro rei unificado dos hebreus foi Saul, que governou por volta do ano 1020 antes de Cristo. Mas foi o segundo rei, Davi, que consolidou o poder hebraico de forma mais duradoura. Davi derrotou os filisteus, conquistou a cidade de Jerusalém e a estabeleceu como capital do reino. Jerusalém havia sido uma cidade cananeia até então, mas Davi a transformou no centro político e religioso do povo hebraico, trazendo para lá a Arca da Aliança, o objeto sagrado que continha as tábuas da lei entregues a Moisés.
O filho e sucessor de Davi foi Salomão, que governou de aproximadamente 970 a 930 antes de Cristo. O reinado de Salomão é descrito na tradição bíblica como a época de maior esplendor do reino hebraico. Salomão era famoso por sua sabedoria, por sua riqueza e por sua habilidade diplomática. Ele estabeleceu relações comerciais com vários povos vizinhos, recebeu embaixadas de reinos distantes e mandou construir o Templo de Jerusalém, que se tornou o centro religioso mais sagrado do povo hebraico e a morada terrena do seu deus.
O Templo de Salomão não era apenas um edifício religioso. Era o símbolo mais poderoso da identidade nacional e religiosa dos hebreus. Dentro do Templo ficava o Santo dos Santos, o lugar mais sagrado de todo o judaísmo, onde estava guardada a Arca da Aliança. O acesso ao Santo dos Santos era permitido apenas ao sumo sacerdote, e apenas uma vez por ano, no Dia do Perdão, o Yom Kippur. Destruir o Templo era, simbolicamente, destruir o coração do povo hebraico. E essa destruição aconteceu não uma, mas duas vezes na história, com consequências devastadoras que moldaram profundamente a identidade judaica.
Após a morte de Salomão, o reino hebraico se dividiu em dois. O reino do norte, que manteve o nome de Israel, tinha sua capital em Samaria. O reino do sul, chamado de Judá, tinha Jerusalém como capital. Essa divisão enfraqueceu politicamente os hebreus num momento em que grandes impérios se formavam ao redor deles.
O primeiro golpe veio do norte. Em 722 antes de Cristo, o Império Assírio sob o rei Sargão II conquistou o reino do norte de Israel e deportou uma parte significativa da sua população para outras regiões do império. As dez tribos do norte foram assim dispersadas e perderam sua identidade coletiva ao longo das gerações, o que gerou na tradição judaica a referência às dez tribos perdidas de Israel.
O segundo e mais devastador golpe veio em 586 antes de Cristo, quando o rei babilônico Nabucodonosor II destruiu Jerusalém, incendiou o Templo de Salomão e deportou a elite do povo do reino de Judá para a Babilônia. Esse evento é conhecido como o Cativeiro da Babilônia ou o Exílio Babilônico, e representou um momento de crise profunda e ao mesmo tempo de extraordinária criatividade espiritual e intelectual para o povo hebraico.
O Cativeiro da Babilônia durou aproximadamente cinquenta anos, até que o rei persa Ciro II, o Grande, conquistou a Babilônia em 539 antes de Cristo e emitiu um decreto autorizando os hebreus e outros povos deportados a retornarem às suas terras de origem. Esse retorno, celebrado como mais um ato de libertação divina comparável ao próprio Êxodo do Egito, marca o início do período que os historiadores chamam de período pós-exílico.
Mas por que o Cativeiro da Babilônia foi tão importante para a formação do judaísmo? Aqui chegamos a um dos pontos mais ricos e mais importantes de toda a história religiosa da humanidade.
Quando os hebreus foram levados para a Babilônia, eles enfrentaram uma crise existencial sem precedentes. O Templo havia sido destruído. Eles estavam longe de sua terra. O ritual de adoração no Templo, que era o centro da sua vida religiosa, era impossível de ser realizado no exílio. Como manter a fé? Como continuar sendo o povo de Deus sem a terra, sem o Templo, sem os rituais habituais?
A resposta que os hebreus encontraram para essa crise foi uma das mais criativas da história religiosa humana. Em vez de se dissolverem como identidade cultural, como havia acontecido com as dez tribos do norte, os hebreus do exílio se voltaram para a escrita e para a memória coletiva. Foi durante e pouco depois do Cativeiro que grande parte dos textos que formam o que os cristãos chamam de Antigo Testamento foi escrita, compilada e organizada. Textos que existiam em versões orais ou em fragmentos escritos foram reunidos, editados e sistematizados por escribas e sacerdotes que queriam garantir que a memória do povo, suas histórias, suas leis, suas orações e suas profecias, não se perdessem no exílio.
O Cativeiro também foi o momento em que o monoteísmo hebraico se tornou mais claro e mais absoluto. Antes do exílio, há indicações em vários textos bíblicos de que os hebreus às vezes adoravam outros deuses além do seu, ou misturavam o culto ao seu deus com práticas religiosas cananéias. Os profetas bíblicos, como Isaías, Jeremias e Ezequiel, aparecem repetidamente nos textos denunciando essas práticas e chamando o povo de volta à fidelidade exclusiva ao seu único deus. Foi justamente durante o exílio, quando o povo estava longe de sua terra e privado de seu Templo, que essa fidelidade exclusiva se tornou o centro absoluto da identidade hebraica. No exílio, o que fazia alguém ser hebraico não era mais morar em Canaã nem adorar no Templo. Era crer em um único deus e seguir suas leis.
E agora chegamos ao coração teológico desta aula: o monoteísmo hebraico e sua originalidade no contexto do mundo antigo.
Praticamente todos os povos da Antiguidade eram politeístas. Os egípcios adoravam dezenas de deuses. Os mesopotâmicos tinham um panteão imenso. Os gregos tinham seus olímpicos. Os romanos adotaram os deuses gregos e ainda adicionaram os seus próprios. Em praticamente todas as culturas antigas, o mundo era governado por muitas divindades diferentes, cada uma responsável por um aspecto da natureza ou da vida humana.
Os hebreus foram o povo que desenvolveu de forma mais radical e mais consistente a ideia de que existe apenas um único deus, criador de tudo, governador de toda a história, que não tem imagem, não tem forma visível, não tem necessidades físicas como os deuses politeístas, e que está em uma relação especial e exclusiva com seu povo.
Esse deus dos hebreus tem características muito diferentes dos deuses das religiões politeístas. Ele não é apenas o deus mais poderoso de um panteão. Ele é o único deus que existe. Todos os outros não são deuses menores: são simplesmente falsos, não existem. Ele não tem forma humana que possa ser representada em estátuas. Na tradição hebraica, fazer uma imagem de deus é não apenas um erro: é uma ofensa gravíssima. Ele não tem esposa, não tem filhos no sentido literal, não tem rivalidades com outros deuses, não come nem bebe. Ele é absolutamente transcendente, completamente diferente de tudo o que existe no mundo criado.
E ao mesmo tempo, esse deus absolutamente transcendente se interessa profundamente pelos seres humanos. Ele chama Abraão pelo nome. Ele ouve o choro dos escravos hebreus no Egito. Ele fala com Moisés. Ele intervém na história para libertar seu povo. Ele estabelece uma aliança pessoal com os hebreus. Ele exige comportamento moral e não apenas rituais. Ele se preocupa com justiça, com o tratamento dos pobres e dos estrangeiros, com a honestidade nas relações humanas.
Essa combinação de transcendência absoluta com envolvimento pessoal na história humana é uma das características mais originais do deus bíblico e é o que diferencia o monoteísmo hebraico de qualquer outra concepção religiosa da Antiguidade.
Essa ideia de que deus age na história, que ele dirige os eventos do mundo com um propósito, é chamada de concepção histórica do tempo. Para os gregos e para muitos outros povos antigos, o tempo era cíclico: as estações se repetiam, as gerações se repetiam, tudo voltava ao mesmo ponto. Para os hebreus, o tempo é linear: ele tem um começo, uma direção e um fim. A história não é um ciclo sem sentido. É um drama com começo, desenvolvimento e conclusão, dirigido pela mão de Deus. Essa concepção linear da história, que herdamos do judaísmo por meio do cristianismo, ainda é a forma dominante como pensamos o tempo no Ocidente moderno.
A Lei, em hebraico Torah, ocupa um lugar absolutamente central no judaísmo. A Torah é o nome dado especificamente aos cinco primeiros livros da Bíblia hebraica, atribuídos na tradição à autoria de Moisés: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio. Mas em sentido mais amplo, Torah significa toda a instrução divina, todo o conjunto de leis, de mandamentos e de ensinamentos que regulam a vida do povo judeu.
A Torah contém não apenas as famosas Dez Palavras ou Dez Mandamentos, que são os princípios mais gerais da conduta moral exigida pelo deus dos hebreus, mas centenas de outras normas que regulam aspectos muito específicos da vida cotidiana: o que se pode ou não comer, como devem ser tratados os trabalhadores, como celebrar os dias sagrados, como purificar-se após certos tipos de contato, como tratar os estrangeiros que vivem entre o povo hebreu, como garantir que os pobres tenham acesso a alimentos. É um sistema jurídico e moral extremamente detalhado, que cobre praticamente todas as dimensões da existência humana.
Essa ênfase na lei como expressão da vontade divina tem uma consequência muito importante: ela torna a religião hebraica intrinsecamente ética. A relação com Deus não é mantida apenas por rituais. É mantida pela forma como você trata seu vizinho, como você faz negócios, como você cuida dos pobres, como você age com honestidade. A ideia de que a religião e a ética estão profundamente ligadas, que não é possível ser religioso e ao mesmo tempo injusto, é uma das contribuições mais poderosas do judaísmo ao pensamento moral da humanidade.
Os profetas hebraicos foram as vozes que mais insistiram nesse ponto. Figuras como Amós, Oseia, Isaías, Jeremias e Miquéias aparecem nos textos bíblicos denunciando com uma contundência extraordinária as injustiças sociais do seu tempo: a exploração dos pobres pelos ricos, a corrupção dos juízes, os rituais religiosos realizados por pessoas que ao mesmo tempo oprimiam os trabalhadores e defraudavam os viúvos e os órfãos. Para os profetas, Deus não se impressiona com sacrifícios e cerimônias realizados por pessoas que vivem na injustiça. O que Deus quer é justiça, misericórdia e honestidade. Essa tradição profética de denúncia da injustiça social em nome de um princípio divino superior é uma das raízes mais profundas do pensamento ético e social do Ocidente.
Agora vamos falar sobre os textos sagrados hebraicos e sua importância histórica e cultural.
O conjunto de textos sagrados dos hebreus é chamado em hebraico de Tanakh, um acrônimo formado pelas iniciais das três partes que o compõem: Torah, que são os cinco livros de Moisés, Nevi’im, que são os livros dos profetas, e Ketuvim, que são os demais escritos, incluindo os Salmos, os Provérbios, o Livro de Jó e outros textos poéticos, sapienciais e narrativos. Esse mesmo conjunto de textos é chamado pelos cristãos de Antigo Testamento, e muitos dos seus livros são também reconhecidos pelo islamismo como textos sagrados ou como narrativas de profetas reconhecidos.
A importância cultural desses textos não pode ser exagerada. Eles influenciaram a literatura, a filosofia, a ética, o direito e a arte do mundo ocidental durante mais de dois mil anos. Histórias como a da criação do mundo, do dilúvio, de Adão e Eva, de Noé, de Abraão, de Moisés, de Davi, do rei Salomão e dos profetas são parte do patrimônio cultural de praticamente toda a civilização ocidental, independentemente das crenças religiosas individuais de cada pessoa.
Os textos hebraicos também têm uma riqueza literária extraordinária que frequentemente não é percebida quando lemos apenas tradução. O livro de Jó é uma das grandes obras de literatura universal, uma meditação profunda sobre o sofrimento humano e a justiça divina. Os Salmos são uma coleção de poemas e cânticos de uma beleza e de uma profundidade emocionais que atravessam culturas e séculos. O livro de Rute é uma história curta de lealdade, generosidade e amor que tem uma elegância narrativa comparável às melhores obras da literatura mundial. O Cântico dos Cânticos é um poema de amor de uma sensualidade intensa e de uma beleza que surpreende qualquer leitor.
Agora vamos falar sobre um período muito importante da história hebraica que aparece com frequência nas provas: o período do segundo templo e a diáspora.
Quando os hebreus retornaram do exílio babilônico, liderados por figuras como Esdras e Neemias sob a permissão do rei persa Ciro, eles reconstruíram Jerusalém e o Templo, que é chamado de Segundo Templo para distingui-lo do Templo original de Salomão. Durante os séculos seguintes, a região de Judá ficou sob dominação persa, depois sob dominação dos sucessores de Alexandre, o Grande, e finalmente sob dominação romana a partir do século um antes de Cristo.
Foi durante o período romano que ocorreu o episódio mais decisivo da história judaica após o Cativeiro da Babilônia. Os judeus, insatisfeitos com a dominação romana e motivados por expectativas messiânicas, ou seja, pela esperança de um messias, um rei ungido enviado por Deus para libertar o povo e restaurar o reino de Israel, se revoltaram contra Roma em várias ocasiões. A maior dessas revoltas ocorreu entre 66 e 73 depois de Cristo e terminou com a destruição de Jerusalém e do Segundo Templo pelo exército romano sob o comando do general Tito em 70 depois de Cristo.
A destruição do Segundo Templo foi um trauma de proporções inimagináveis para o povo judeu. O Templo era o centro absoluto da vida religiosa judaica, o único lugar onde determinados sacrifícios e rituais podiam ser realizados. Sem o Templo, como manter a religião? A resposta que os sábios judeus encontraram foi, mais uma vez, criativa e revolucionária: em vez do Templo e dos sacrifícios, o estudo e a interpretação dos textos sagrados, a oração e a prática das leis cotidianas se tornaram o centro da vida religiosa. A sinagoga, que é a casa de reunião para o estudo e a oração, substituiu o Templo como espaço comunitário central. O rabino, o mestre da lei, substituiu o sacerdote como figura de autoridade religiosa.
Com a destruição de Jerusalém e a dispersão que se seguiu, os judeus se espalharam por um território vastíssimo, do Mediterrâneo até a Babilônia e além. Esse fenômeno de dispersão é chamado de diáspora, uma palavra grega que significa dispersão ou espalhamento. Na diáspora, os judeus mantiveram sua identidade cultural e religiosa por meio do estudo dos textos sagrados, da prática das leis e do calendário de festas religiosas, e da vida comunitária em torno das sinagogas. Essa capacidade de manter uma identidade coletiva sem um território específico, sem um templo, sem um rei, baseada exclusivamente nos textos e nas práticas religiosas, é uma das coisas mais extraordinárias da história judaica.
Durante os séculos seguintes, os sábios judeus compilaram um corpus imenso de discussões, interpretações e aplicações da lei religiosa. O resultado mais importante desse trabalho foi o Talmude, uma obra monumental que registra séculos de debates entre diferentes mestres da lei sobre a interpretação e a aplicação dos textos sagrados. O Talmude é, junto com a Torah, o fundamento da vida religiosa e intelectual judaica e é um dos documentos mais ricos e mais complexos que a humanidade já produziu.
Agora vamos fazer as conexões com o ENEM que são tão importantes para a sua preparação.
O ENEM frequentemente apresenta questões sobre os hebreus dentro de um contexto mais amplo sobre as origens das religiões monoteístas e sua influência sobre o mundo ocidental. Você precisa saber explicar com clareza o que significa o monoteísmo hebraico, como ele se diferenciava das religiões politeístas que dominavam o mundo antigo e como as suas ideias fundamentais, especialmente a concepção de um deus único, transcendente e ao mesmo tempo envolvido na história humana, influenciaram o desenvolvimento do cristianismo e do islamismo.
O ENEM também gosta de explorar a relação entre os textos bíblicos e o contexto histórico em que foram produzidos. O Cativeiro da Babilônia, por exemplo, é muitas vezes apresentado como o evento histórico que catalisou a sistematização dos textos sagrados hebraicos e o aprofundamento do monoteísmo. Entender que os textos religiosos têm uma história, que foram escritos em contextos específicos e que refletem as experiências e os desafios dos povos que os produziram, é uma habilidade analítica muito valorizada pelo ENEM.
A tradição profética hebraica de denúncia da injustiça social é outro tema que o ENEM explora, frequentemente pedindo ao aluno que identifique a continuidade entre essa tradição antiga e movimentos sociais e religiosos mais recentes que usaram a linguagem profética para denunciar opressões.
Por fim, o conceito de diáspora é muito importante. O ENEM pode usar o caso da diáspora judaica como modelo para analisar outros fenômenos de dispersão e de manutenção de identidade cultural fora do território de origem, o que é um tema muito relevante para pensar migrações, refugiados e identidades culturais no mundo contemporâneo.
Vamos agora fazer um resumo completo de tudo que estudamos nesta aula.
Os hebreus eram um povo de origem semita que se estabeleceu na região de Canaã, no que hoje corresponde a Israel e à Palestina. Segundo a tradição bíblica, descendiam de Abraão, que migrou da Mesopotâmia para Canaã, e passaram por um período de escravidão no Egito do qual foram libertados por Moisés, episódio chamado de Êxodo, que é o evento fundador da identidade hebraica. Após se estabelecerem em Canaã, os hebreus formaram um reino unificado sob os reis Saul, Davi e Salomão. Davi estabeleceu Jerusalém como capital e Salomão construiu o Templo, que se tornou o centro religioso do povo.
Após a morte de Salomão, o reino se dividiu em Israel ao norte e Judá ao sul. O reino do norte foi destruído pelos assírios em 722 antes de Cristo. O reino do sul foi destruído pelos babilônios em 586 antes de Cristo, quando Nabucodonosor II destruiu Jerusalém e o Templo e deportou a elite judaica para a Babilônia, iniciando o período do Cativeiro. Esse exílio foi um momento de crise e ao mesmo tempo de extraordinária criatividade religiosa e intelectual: foi nele que grande parte dos textos bíblicos foi escrita e organizada e que o monoteísmo hebraico se tornou mais radical e mais definitivo.
O monoteísmo hebraico foi a contribuição religiosa mais original dos hebreus ao mundo antigo. Em um contexto de politeísmo universal, os hebreus afirmavam que existe apenas um único deus, criador de tudo, que não tem forma visível, que age na história com propósito e que exige de seu povo não apenas rituais, mas comportamento moral justo. Essa concepção influenciou profundamente o desenvolvimento do cristianismo e do islamismo.
Após o retorno do exílio babilônico sob a autorização do rei persa Ciro, o Segundo Templo foi construído em Jerusalém. A destruição desse templo pelos romanos em 70 depois de Cristo provocou a diáspora, a dispersão do povo judeu pelo mundo, e levou ao desenvolvimento do judaísmo rabínico, baseado no estudo dos textos sagrados, na oração e na prática das leis religiosas, sem necessidade de um templo ou de um território específico. Os textos sagrados hebraicos, reunidos no Tanakh, são uma das obras culturais mais influentes da história humana, moldando a literatura, a filosofia, a ética e o direito do mundo ocidental por mais de dois mil anos.
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| Dados de Catalogação na Publicação: NORAT, Markus Samuel Leite. Curso de história para o 1º ano do ensino médio. João Pessoa: Editora Norat, 2026. Livro Digital, Formato: HTML5, Tamanho: 132,4125 gigabytes (132.412.500 kbytes) . ISBN: 978-65-80808-16-8 | Cutter: N825c | CDD-907.12 | CDU-94(100)”-04/17″:373.5 . Palavras-chave: História, Ensino Médio, Pré-História, Civilizações Antigas, Mesopotâmia, Egito Antigo, Grécia Antiga, Roma Antiga, África Antiga, Reinos Africanos, Mundo Árabe-Muçulmano, Idade Média, Feudalismo, Antigo Regime, Monarquias Absolutistas, Renascimento, Humanismo, ENEM, Vestibulares. . TODOS OS DIREITOS RESERVADOS. É proibida a cópia total ou parcial desta obra, por qualquer forma ou qualquer meio. A violação dos direitos autorais é crime tipificado na Lei n. 9.610/98 e artigo 184 do Código Penal. |
