Curso de História para o 1º Ano do Ensino Médio
MÓDULO 3 – AS PRIMEIRAS CIVILIZAÇÕES DO ORIENTE MÉDIO
Aula 48 – Os povos do Oriente Médio Antigo e suas contribuições para a civilização
Aula 48 – Os povos do Oriente Médio Antigo e suas contribuições para a civilização
Agora vamos tratar de um tema muito especial no nosso estudo do mundo antigo. Depois de conhecer em detalhes cada um dos grandes povos que viveram no Oriente Médio antigo, vamos dar um passo atrás e olhar para esse conjunto todo com uma visão mais ampla. Vamos entender o que cada um desses povos contribuiu para a humanidade, como essas contribuições chegaram até nós e por que, mesmo após milhares de anos, ainda carregamos no nosso cotidiano marcas profundas desses povos que viveram entre desertos, montanhas e rios de uma região que hoje chamamos de Oriente Médio.
Esse tema tem uma importância enorme para as provas do ENEM e dos vestibulares, porque exige que o aluno não apenas memorize fatos isolados, mas consiga compreender as relações entre os diferentes povos, perceber as continuidades e as influências que cruzaram culturas e séculos, e refletir sobre como a civilização humana é, na verdade, uma construção coletiva, feita por muitos povos diferentes ao longo de muito tempo.
Vamos começar do começo, literalmente: com os sumérios.
Os sumérios são considerados os criadores da primeira grande civilização urbana da história humana. Eles se estabeleceram no sul da Mesopotâmia, na região entre os rios Tigre e Eufrates, por volta de quatro mil anos antes de Cristo, e foram os primeiros a resolver de forma sistemática o problema de como organizar uma sociedade grande, complexa e diversificada. Suas contribuições para a humanidade foram várias e de enorme profundidade.
A primeira e mais importante contribuição dos sumérios foi a escrita. A escrita cuneiforme, que surgiu por volta de 3300 antes de Cristo nas cidades sumérias, começou como uma ferramenta de controle administrativo. Os administradores dos templos precisavam registrar quanto grão havia entrado e saído dos armazéns, quem havia pagado seus impostos e quais eram as dívidas de cada família. Para isso, criaram um sistema de marcas em tabuletas de argila, usando um estilete com ponta em forma de cunha. Com o tempo, esse sistema foi se tornando mais sofisticado, passando a representar não apenas objetos e quantidades, mas também sons, nomes e ideias abstratas. E o resultado foi que a escrita deixou de ser apenas contabilidade e se tornou um veículo para tudo que o pensamento humano pode criar: leis, poemas, mitos, hinos religiosos, receitas de comida e tratados científicos.
A importância da escrita para a civilização não pode ser subestimada. Sem ela, não há administração eficiente de territórios grandes. Não há transmissão precisa do conhecimento entre gerações. Não há lei escrita que todos possam conhecer. Não há literatura. Não há ciência acumulada. A escrita é a tecnologia que tornou possível tudo que chamamos de civilização complexa, e foram os sumérios que deram esse passo fundamental.
Os sumérios também contribuíram com um sistema matemático que ainda usamos hoje sem perceber. Eles usavam um sistema numérico baseado no número sessenta, chamado de sexagesimal. Quando você olha para o relógio e vê que uma hora tem sessenta minutos e que cada minuto tem sessenta segundos, você está usando uma divisão do tempo que foi criada pelos sumérios há mais de cinco mil anos. Quando você estuda que um círculo tem trezentos e sessenta graus, esse número também vem da matemática sumeriana. Eles escolheram o sessenta porque é um número que pode ser dividido por dois, três, quatro, cinco, seis, dez, doze, quinze, vinte e trinta, o que o torna muito prático para cálculos com frações. Uma escolha prática feita há cinco milênios que ainda governa o nosso dia a dia.
A astronomia foi outra área em que os sumérios e os povos mesopotâmicos que vieram depois deles se destacaram enormemente. Por razões religiosas, pois acreditavam que os astros transmitiam mensagens dos deuses, os sacerdotes mesopotâmicos observavam o céu com uma atenção e uma sistematização que não tinha precedentes no mundo antigo. Ao longo de séculos, registraram meticulosamente os movimentos dos planetas, as fases da lua, os eclipses solares e lunares e o aparecimento de cometas. Esse acúmulo de observações permitiu que desenvolvessem a capacidade de prever eclipses com grande precisão, de criar calendários sofisticados e de mapear as constelações que ainda usamos hoje. O zodíaco, aquele conjunto de doze constelações associadas às épocas do ano que você encontra nos horóscopes modernos, tem sua origem direta nas observações astronômicas dos sacerdotes mesopotâmicos. A astronomia moderna, que permitiu ao ser humano explorar o espaço, tem raízes num trabalho que começou nas planícies da Mesopotâmia há mais de cinco mil anos.
Os sumérios foram também os criadores da primeira grande obra literária da história humana: a Epopeia de Gilgamesh. Esse poema épico narra as aventuras de Gilgamesh, rei da cidade de Uruk, que após a morte de seu melhor amigo Enkidu parte em busca da imortalidade. A Epopeia de Gilgamesh aborda temas que continuam sendo centrais para a existência humana: a amizade, o medo da morte, a busca por sentido, os limites do poder humano diante da mortalidade. E ela contém um relato de um grande dilúvio que é muito parecido com a história de Noé na Bíblia, o que mostra como as narrativas mesopotâmicas influenciaram os textos sagrados de outras culturas.
O fato de que podemos ler essa história hoje é em si mesmo um testemunho extraordinário do poder da escrita: um poema criado há mais de quatro mil anos chegou até nós porque foi gravado em tabuletas de argila que sobreviveram enterradas por milênios. A argila preservou o que qualquer outro suporte teria destruído há muito tempo.
Depois dos sumérios vieram os acádios, um povo semita que criou o primeiro império da história com Sargão de Acádia, por volta de 2350 antes de Cristo. A contribuição dos acádios é menos sobre invenções específicas e mais sobre um modelo político: a demonstração de que é possível unificar territórios grandes e diversificados sob um governo centralizado. Sargão não apenas conquistou as cidades sumérias: ele criou uma estrutura administrativa que permitia governar esse território imenso de forma razoavelmente eficiente, com governadores nomeados pelo rei, um sistema de comunicação baseado na escrita cuneiforme e uma ideia de poder que se estendia muito além dos limites de uma única cidade.
A língua acádia, que era a língua do povo de Sargão, acabou se tornando a língua franca do Oriente Médio antigo, ou seja, a língua que povos de diferentes origens usavam para se comunicar entre si no comércio e na diplomacia. Isso é muito significativo: assim como o inglês é hoje a língua internacional dos negócios e da diplomacia, o acádio desempenhou esse papel durante mais de mil anos no Oriente Médio antigo, facilitando o intercâmbio de ideias, de tecnologias e de produtos entre povos de culturas muito diferentes.
Os babilônios, especialmente sob o rei Hamurábi, deram ao mundo uma contribuição que foi revolucionária para a época: o primeiro código de leis escrito em caráter abrangente que chegou até nós de forma relativamente completa. O Código de Hamurábi, gravado em uma estela de pedra negra, estabelecia regras para os mais diferentes aspectos da vida cotidiana, desde contratos comerciais até casamentos, desde salários de trabalhadores até responsabilidades de construtores. A ideia por trás do código era simples mas poderosa: as leis devem ser escritas, públicas e conhecidas por todos, e as punições devem ser proporcionais aos crimes.
Claro que o código de Hamurábi não era justo do ponto de vista moderno. Ele tratava de forma diferente pessoas de classes sociais diferentes, aplicava punições físicas que hoje consideraríamos cruéis e não reconhecia a igualdade entre os seres humanos. Mas no seu contexto histórico, ele representou um avanço enorme: a substituição da vingança arbitrária por um sistema previsível de normas públicas. E essa ideia, a de que a sociedade deve ser regulada por leis escritas e conhecidas por todos, é a base do que hoje chamamos de Estado de Direito. Toda vez que se fala em constituições, em direitos legalmente garantidos, em igualdade perante a lei, estamos herdando, de forma transformada, uma ideia que começou a ser formulada na Babilônia há quatro mil anos.
Os babilônios também foram os continuadores da tradição astronômica e matemática que os sumérios haviam iniciado. Os sacerdotes e astrônomos babilônicos desenvolveram métodos muito precisos de previsão dos movimentos celestes e transmitiram esse conhecimento para os gregos, que o incorporaram e o desenvolveram ainda mais, formando a base da astronomia ocidental.
Os assírios, que dominaram o Oriente Médio entre os séculos nono e sétimo antes de Cristo, são frequentemente lembrados pela brutalidade militar e pelo terror com que dominavam os povos conquistados. E de fato essa foi uma característica marcante do seu método de governo. Mas os assírios também deixaram contribuições positivas importantes. Seu sistema administrativo, com províncias governadas por funcionários nomeados pelo rei, com estradas que facilitavam as comunicações e com um serviço de mensageiros eficiente, foi um modelo de administração imperial que influenciou os impérios que vieram depois, incluindo os persas.
O rei assírio Assurbanipal, considerado o último grande rei do Império Assírio, realizou algo que nenhum governante havia feito antes com a mesma sistemática: criou a Biblioteca de Nínive, uma coleção de mais de vinte mil tabuletas de argila com textos dos mais variados assuntos, incluindo mitos, hinos, textos astronômicos, matemáticos, médicos e históricos. Essa biblioteca foi uma das primeiras tentativas de reunir e preservar sistematicamente o conhecimento humano em um único lugar. A ideia de que o conhecimento deve ser coletado, organizado e preservado, que está na base de nossas bibliotecas modernas, tem um ancestral direto na Biblioteca de Nínive.
Foi ali, nessa biblioteca, que os arqueólogos do século dezenove encontraram a versão mais completa da Epopeia de Gilgamesh. Sem o projeto de Assurbanipal de reunir textos de todo o seu império em uma biblioteca sistemática, provavelmente nunca teríamos tido acesso a essa obra extraordinária. O rei guerreiro que destruía cidades foi também o preservador de um dos maiores tesouros culturais da humanidade. A história raramente é simples.
Os caldeus, que criaram o Novo Império Babilônico após a queda dos assírios, deixaram ao mundo as contribuições da astronomia mais desenvolvida, com os sacerdotes caldeus criando métodos cada vez mais precisos de observação e previsão dos movimentos celestes. Eles também foram responsáveis pela fundação de Cartago, não, essa foi dos fenícios. Os caldeus ficaram famosos pela grandiosidade de Babilônia sob Nabucodonosor II, com seus jardins suspensos, que foram considerados uma das sete maravilhas do mundo antigo, sua imponente Porta de Istar e seu vasto sistema de canais urbanos. A beleza de Babilônia tornou-se lendária no mundo antigo e permanece como um símbolo de grandeza e de ambição humana que atravessou milênios na imaginação coletiva.
Os fenícios, que habitavam a estreita costa mediterrânea do que hoje é o Líbano, deram à humanidade talvez a contribuição mais democraticamente transformadora de todas: o alfabeto. Antes do alfabeto fenício, os sistemas de escrita existentes, o cuneiforme mesopotâmico e os hieróglifos egípcios, tinham centenas de sinais diferentes e levavam anos de estudo intensivo para ser dominados. Apenas uma elite de especialistas, os escribas, tinha acesso à escrita. O alfabeto fenício, com apenas vinte e dois sinais representando os sons consonantais da língua fenícia, podia ser aprendido em dias ou semanas por qualquer pessoa. A escrita deixou de ser um privilégio de uma elite e passou a ser uma ferramenta potencialmente acessível a muito mais gente.
Os gregos adotaram o alfabeto fenício, acrescentaram as vogais que estavam ausentes no original e criaram o alfabeto grego. Dos gregos, o sistema passou para os etruscos e depois para os romanos, criando o alfabeto latino que usamos hoje em português e em muitas outras línguas. Os hebreus adaptaram o fenício para criar o alfabeto hebraico. Os árabes fizeram o mesmo para criar o árabe. Praticamente todos os sistemas de escrita alfabética do mundo, tanto ocidentais quanto orientais, têm sua raiz no alfabeto que os fenícios criaram há mais de três mil anos.
Os fenícios também foram os maiores navegadores do Mediterrâneo antigo, abrindo rotas que conectaram culturas antes separadas por enormes distâncias. Eles fundaram colônias em todo o Mediterrâneo, incluindo Cartago no norte da África, que viria a ser uma das maiores potências do mundo antigo. E há registros de que teriam circum-navegado o continente africano por volta de 600 antes de Cristo, uma façanha que só seria repetida pelos europeus quase dois mil anos depois. Os fenícios foram os responsáveis por difundir o alfabeto, as técnicas de tingimento de tecidos, o trabalho com vidro e muitas outras inovações tecnológicas pelo Mediterrâneo antigo. Sua vocação de intermediários entre culturas diferentes tornou-os agentes de uma globalização avant-garde que conectou o Mediterrâneo muito antes de qualquer outro povo.
Os persas, que no século sexto antes de Cristo criaram o maior império que o mundo antigo havia visto até então, contribuíram de várias formas importantes para a história da civilização.
Em primeiro lugar, o modelo administrativo persa foi uma referência para todos os grandes impérios que vieram depois. A divisão do território em satrapias administradas por sátrapas, o sistema de estradas que permitia comunicações rápidas entre as partes mais distantes do império, os inspetores reais que fiscalizavam os governadores sem aviso prévio, a moeda padronizada que facilitava o comércio em todo o território, tudo isso foi um modelo de administração imperial que os romanos estudaram e adotaram em muitos aspectos.
Em segundo lugar, a política de tolerância cultural e religiosa que os reis persas praticaram foi uma inovação extraordinária para o mundo antigo. Em vez de destruir as culturas dos povos conquistados, como faziam os assírios, os persas permitiam que cada povo mantivesse sua língua, sua religião e seus costumes locais, exigindo apenas lealdade política e o pagamento de impostos. Essa abordagem foi muito mais eficiente para manter um império estável por longo prazo e demonstrou que a diversidade cultural não precisa ser uma ameaça ao poder central quando gerenciada com inteligência política.
Em terceiro lugar, o zoroastrismo persa, a religião fundada pelo profeta Zaratustra, introduziu no mundo uma série de ideias que influenciaram profundamente o desenvolvimento das religiões monoteístas posteriores. A concepção dualista de um conflito cósmico entre o bem e o mal, a ideia de um julgamento das almas após a morte, a crença na ressurreição, a noção de um paraíso para os justos e de punição para os maus, tudo isso aparece no zoroastrismo antes de aparecer nas formas que conhecemos no judaísmo tardio, no cristianismo e no islamismo. O zoroastrismo foi, portanto, uma das religiões mais influentes da história, mesmo que hoje seja pouco conhecida pela maioria das pessoas.
E chegamos aos hebreus, cujas contribuições para a civilização humana são de uma profundidade difícil de subestimar.
A contribuição mais radical dos hebreus foi o monoteísmo: a afirmação de que existe apenas um único deus, criador de tudo, que não tem imagem visível, que não tem necessidades físicas e que não compartilha o poder com nenhuma outra divindade. Em um mundo de politeísmo universal, essa ideia foi revolucionária. E suas consequências foram gigantescas.
O deus dos hebreus é um deus que exige não apenas rituais, mas comportamento moral. Para ele não basta sacrificar animais e cantar hinos se você oprime os pobres, defraua os viúvos e mente nos negócios. Isso significa que a religião e a ética estão profundamente ligadas: ser religioso e ser justo são, nessa tradição, inseparáveis. Essa ligação entre religião e ética influenciou de forma decisiva o desenvolvimento moral do Ocidente.
A concepção hebraica do tempo como linear, com começo, direção e fim, em vez de cíclico como na maioria das culturas antigas, transformou a forma como as civilizações influenciadas pelo judaísmo entendem a história. A ideia de que a história caminha em direção a um propósito divino, que os eventos têm significado e não são apenas repetições eternas de ciclos cósmicos, foi absorvida pelo cristianismo e pelo islamismo e continua sendo a forma dominante como pensamos o tempo e a história no Ocidente.
Os textos sagrados hebraicos, reunidos no que chamamos de Bíblia hebraica ou Antigo Testamento, são uma das obras mais influentes que a humanidade já produziu. Eles moldaram a literatura, a filosofia, o direito, a ética e a arte do mundo ocidental por mais de dois mil anos. Histórias como a criação do mundo, o dilúvio, a saída do Egito, o rei Davi, o rei Salomão e os profetas fazem parte do imaginário cultural de civilizações inteiras, independentemente das crenças religiosas individuais de cada pessoa.
A tradição profética hebraica, com sua denúncia veemente das injustiças sociais em nome de um princípio divino superior, foi uma das primeiras formulações do que hoje chamaríamos de crítica social. Os profetas como Amós, Isaías e Jeremias denunciavam com uma linguagem poderosa e direta a exploração dos pobres, a corrupção dos governantes e a hipocrisia de quem realiza rituais religiosos enquanto pratica a injustiça no dia a dia. Essa tradição profética influenciou movimentos de libertação e de reforma social em muitos momentos da história, do medievalismo cristão até as teologias da libertação do século vinte.
Agora, olhando para todos esses povos juntos, o que aprendemos?
Aprendemos em primeiro lugar que a civilização humana é uma construção coletiva. Nenhum dos grandes avanços que mencionamos foi criado por um único povo em isolamento. A escrita cuneiforme dos sumérios foi adaptada pelos acádios, pelos babilônios, pelos assírios e pelos caldeus. O alfabeto fenício foi transformado pelos gregos, pelos hebreus, pelos árabes e pelos romanos. A astronomia mesopotâmica foi transmitida para os gregos. As leis babilônicas influenciaram o pensamento jurídico de muitos povos. As ideias religiosas dos hebreus foram mediadas pelo contexto mesopotâmico em que muitos de seus textos foram escritos ou editados. Cada avanço foi construído sobre algo anterior, e cada povo recebeu de seus predecessores e contemporâneos algo que transformou e transmitiu adiante.
Aprendemos também que as contribuições mais duradouras de um povo frequentemente não são as suas conquistas militares. Os impérios que pareciam invencíveis, dos assírios aos babilônios aos persas, desapareceram da história como poderes ativos muito mais rapidamente do que as ideias, as tecnologias e as obras culturais que esses povos produziram. O Império Assírio não existe mais há mais de dois mil anos, mas o zodíaco babilônico ainda aparece nos jornais de todo o mundo. O Novo Império Babilônico de Nabucodonosor caiu diante dos persas em 539 antes de Cristo, mas o Código de Hamurábi é estudado nas faculdades de direito até hoje. O Império Persa foi destruído por Alexandre, o Grande, mas o zoroastrismo ainda tem seguidores e suas ideias vivem no interior de três das maiores religiões do mundo. Os fenícios como povo e como civilização política independente desapareceram há mais de dois mil anos, mas as letras do alfabeto que criaram continuam sendo usadas para escrever em inglês, em português, em francês, em espanhol e em dezenas de outras línguas.
Isso nos ensina algo muito importante sobre o que realmente importa na história: não é o poder militar, não é o tamanho do território, não é a riqueza acumulada por um governante. O que realmente importa, o que realmente dura, são as ideias, as tecnologias, as obras culturais e as formas de organização social que um povo cria e que outros encontram suficientemente úteis ou significativas para adotar, adaptar e transmitir.
Aprendemos também que o Oriente Médio antigo não era um conjunto de civilizações isoladas umas das outras. Era um sistema dinâmico de trocas, influências, conflitos e intercâmbios. Os povos que viveram nessa região estavam constantemente em contato uns com os outros, seja pelo comércio, seja pela guerra, seja pela diplomacia, seja pela migração. Ideias, tecnologias, práticas religiosas, técnicas artesanais e formas de governo circulavam por esse sistema de contatos com uma velocidade e uma fluidez que muitas vezes surpreende quem imagina o mundo antigo como estático e compartimentalizado.
Agora vamos fazer as conexões com o ENEM que são fundamentais para a sua preparação.
O ENEM frequentemente apresenta questões que pedem ao aluno para identificar as contribuições dos povos do Oriente Médio antigo e para reconhecer a presença dessas contribuições no mundo contemporâneo. Saber que o sistema sexagesimal dos sumérios ainda governa a forma como dividimos o tempo, que o alfabeto fenício é a origem do alfabeto que usamos hoje, que o Código de Hamurábi foi um precursor dos sistemas jurídicos modernos, que o monoteísmo hebraico é a raiz de três das maiores religiões do mundo atual: tudo isso são conexões que o ENEM explora com frequência.
O ENEM também gosta de apresentar questões que pedem ao aluno para analisar a relação entre as condições materiais e geográficas de existência de um povo e as suas criações culturais. A escassez de madeira e pedra na Mesopotâmia foi o motor que impulsionou o desenvolvimento do comércio de longa distância e da diplomacia. A posição geográfica dos fenícios na estreita costa mediterrânea foi o que os empurrou para o mar e os tornou os maiores navegadores da Antiguidade. A posição de Canaã como corredor entre grandes impérios foi um dos fatores que moldaram a história turbulenta dos hebreus. Saber identificar essas relações de causa e efeito entre geografia e cultura é uma habilidade analítica central para o ENEM.
O tema da diversidade cultural e da relação entre diferentes povos também aparece com frequência. O Oriente Médio antigo é um exemplo perfeito de como o contato entre culturas diferentes produz inovação: o alfabeto fenício foi criado a partir de sistemas de escrita anteriores. A astronomia grega foi construída sobre as observações dos mesopotâmicos. O zoroastrismo influenciou o judaísmo. O Código de Hamurábi influenciou o direito hebreu e, por meio dele, o direito romano e depois o direito ocidental. Reconhecer essas redes de influência é a forma mais sofisticada de entender a história.
Por fim, o ENEM frequentemente usa fontes históricas primárias, como trechos do Código de Hamurábi, imagens da estela de Hamurabi, reproduções de tabuletas de argila com texto cuneiforme, relevos de Persépolis ou fragmentos da Epopeia de Gilgamesh, e pede ao aluno que as analise e as contextualize. Para isso, é fundamental conhecer o contexto histórico de cada um desses documentos: quando foram produzidos, por quem, com que finalidade e o que eles nos dizem sobre a sociedade que os criou.
Vamos fazer agora um resumo final de tudo que estudamos.
Os sumérios criaram a escrita cuneiforme, o sistema numérico sexagesimal, as primeiras cidades da história e a primeira grande obra literária com a Epopeia de Gilgamesh. Os acádios criaram o primeiro império da história com Sargão e difundiram a língua acádia como língua franca do Oriente Médio. Os babilônios produziram o Código de Hamurábi e contribuíram para o desenvolvimento da astronomia e da matemática. Os assírios desenvolveram modelos de administração imperial e a Biblioteca de Nínive como primeiro grande projeto sistemático de preservação do conhecimento. Os caldeus do Novo Império Babilônico desenvolveram ainda mais a astronomia e construíram a grandiosidade de Babilônia. Os fenícios criaram o alfabeto, foram os maiores navegadores do Mediterrâneo antigo e difundiram tecnologias e culturas por todo o mundo mediterrâneo. Os persas criaram o maior império do Oriente Antigo, desenvolveram um modelo sofisticado de administração imperial, praticaram uma política de tolerância cultural inovadora e contribuíram com o zoroastrismo, cujas ideias influenciaram as três grandes religiões monoteístas. E os hebreus desenvolveram o monoteísmo de forma mais radical e consistente do que qualquer povo anterior, produziram os textos sagrados que moldaram a ética e a cultura do Ocidente por mais de dois mil anos e deixaram ao mundo a tradição profética de denúncia das injustiças sociais em nome de um princípio moral superior.
Juntos, esses povos foram os construtores dos alicerces sobre os quais a civilização ocidental e boa parte da civilização oriental foi erguida. Quando você escreve com o alfabeto, quando divide seu dia em horas e minutos, quando consulta um advogado sobre seus direitos, quando lê um livro de ética, quando olha para o céu e reconhece constelações, quando debate sobre justiça e igualdade, você está, de formas que talvez não perceba imediatamente, em contato com o pensamento e com as criações de pessoas que viveram na região entre os rios Tigre e Eufrates e no litoral mediterrâneo há três, quatro e cinco mil anos. Essa continuidade, esse fio que conecta o presente ao passado mais remoto, é uma das coisas mais extraordinárias que o estudo da história nos revela. E entender isso não é apenas uma questão de preparação para provas, embora seja muito importante para isso também. É uma forma de compreender melhor quem somos, de onde viemos e como o mundo que habitamos foi sendo construído ao longo de milênios de esforço, criatividade e colaboração entre povos que raramente se reconhecem como ancestrais uns dos outros, mas que estão todos ligados por uma cadeia contínua de trocas e de influências que chegou até os nossos dias.
Como fazer referência ao conteúdo:
| Dados de Catalogação na Publicação: NORAT, Markus Samuel Leite. Curso de história para o 1º ano do ensino médio. João Pessoa: Editora Norat, 2026. Livro Digital, Formato: HTML5, Tamanho: 132,4125 gigabytes (132.412.500 kbytes) . ISBN: 978-65-80808-16-8 | Cutter: N825c | CDD-907.12 | CDU-94(100)”-04/17″:373.5 . Palavras-chave: História, Ensino Médio, Pré-História, Civilizações Antigas, Mesopotâmia, Egito Antigo, Grécia Antiga, Roma Antiga, África Antiga, Reinos Africanos, Mundo Árabe-Muçulmano, Idade Média, Feudalismo, Antigo Regime, Monarquias Absolutistas, Renascimento, Humanismo, ENEM, Vestibulares. . TODOS OS DIREITOS RESERVADOS. É proibida a cópia total ou parcial desta obra, por qualquer forma ou qualquer meio. A violação dos direitos autorais é crime tipificado na Lei n. 9.610/98 e artigo 184 do Código Penal. |
