Curso de História para o 1º Ano do Ensino Médio
MÓDULO 9 – O MUNDO ÁRABE-MUÇULMANO
Aula 100 – A Península Arábica antes do islamismo: tribos, cidades-Estado e animismo
Aula 100 – A Península Arábica antes do islamismo: tribos, cidades-Estado e animismo
Para entender o surgimento do islamismo, uma das religiões mais importantes da história humana e que hoje conta com mais de um bilhão e oitocentos milhões de seguidores espalhados pelo mundo, é preciso antes entender o mundo que existia antes dele. Muitas pessoas aprendem sobre o islamismo como se ele tivesse surgido do nada, como se Maomé houvesse aparecido num vazio histórico e cultural e tudo houvesse começado com ele. Mas a realidade é muito mais rica e muito mais complexa do que isso. O islamismo surgiu num contexto histórico específico, numa região com uma longa história de civilizações, de rotas comerciais, de tradições religiosas profundas e de formas de vida social muito elaboradas. Para compreender como e por que o islamismo surgiu, precisamos mergulhar no mundo da Península Arábica de antes do século sete depois de Cristo, o mundo que os próprios muçulmanos chamam de jahiliyya, palavra árabe que pode ser traduzida como o período da ignorância ou o tempo do desconhecimento, em referência ao estado espiritual que o islamismo veio, na perspectiva muçulmana, iluminar e transformar. Nesta aula, vamos explorar esse mundo com curiosidade e respeito, entendendo suas características geográficas, sua organização social em tribos e em cidades-Estado, suas práticas econômicas, suas tradições culturais e artísticas, e especialmente sua vida religiosa, que era muito mais rica e muito mais diversa do que o rótulo simplificador de animismo poderia sugerir.
Comecemos pela geografia, porque ela é absolutamente fundamental para entender tudo o mais.
A Península Arábica é uma das maiores penínsulas do mundo, com uma área de aproximadamente dois milhões e trezentos mil quilômetros quadrados, o que é maior do que toda a Europa Ocidental. Está localizada no sudoeste da Ásia, entre o Mar Vermelho a oeste, o Golfo Pérsico a leste, o Mar Arábico ao sul e, ao norte, as regiões da Mesopotâmia e do Levante, ou seja, o atual Iraque, a Síria, a Jordânia e Israel. Hoje, a Arábia abriga países como a Arábia Saudita, o Iêmen, o Omã, os Emirados Árabes Unidos, o Kuwait, o Bahrein e o Qatar.
O elemento mais marcante da geografia da Península Arábica é o deserto. A maior parte do interior da península é coberta pelo Deserto Árabe, que inclui o Rub al-Khali, ou o Quarto Vazio, uma das maiores extensões de areia contínua do mundo, com mais de setecentos mil quilômetros quadrados de dunas imensuráveis onde as temperaturas chegam a cinquenta graus durante o dia e caem drasticamente à noite. O deserto árabe é um ambiente de extrema hostilidade à vida humana: poucas chuvas, calor brutal, tempestades de areia e fontes de água esparsas e imprevisíveis. Viver nesse ambiente era, e continua sendo, um desafio permanente que exigiu das populações humanas formas de adaptação extraordinariamente sofisticadas.
Mas a Arábia não é toda deserto. Ao longo das costas e em certas regiões do interior, há variações importantes. A costa ocidental da península, conhecida como o Hejaz, é uma região de terreno acidentado com colinas e vales onde nascentes de água permitem o estabelecimento de oásis e de assentamentos permanentes. É nessa região que ficam as cidades de Meca e de Medina, que serão centrais na história do islamismo. Ao sul, o Iêmen tem montanhas altas onde as chuvas das monções do Oceano Índico criam um clima muito mais úmido, com solos férteis e uma tradição agrícola que remonta a milênios. O Iêmen era conhecido pelo mundo antigo como Arabia Felix, a Arábia Feliz, por contraste com as regiões áridas do interior que eram chamadas de Arabia Deserta, a Arábia Deserta.
Essa diversidade geográfica dentro da Península Arábica gerou formas de vida muito diferentes. No interior desértico, viviam os beduínos, grupos nômades que desenvolveram ao longo de milênios uma cultura de adaptação ao deserto de extraordinária eficácia. No Hejaz e em torno dos oásis, viviam populações sedentárias ou seminômades que combinavam pastoreio, agricultura limitada e comércio. No Iêmen e nas costas do Golfo Pérsico e do Mar Vermelho, viviam populações com tradições agrícolas e marítimas antigas, conectadas às grandes rotas de comércio do mundo antigo.
A posição geográfica da Península Arábica entre três grandes civilizações do mundo antigo, o Egito e o Mediterrâneo a oeste, a Mesopotâmia e o Império Persa a nordeste e o mundo do Índico com a Índia e a África Oriental a sul e a leste, foi um fator crucial em sua história. A Arábia ficava no cruzamento das rotas comerciais que conectavam essas civilizações, e esse papel de entreposto comercial moldou profundamente a economia, a cultura e o caráter dos seus habitantes.
Agora vamos entender a organização social que predominava na maior parte da Arábia no período que antecedeu o islamismo: a organização tribal.
A tribo era a unidade política e social fundamental da vida árabe pré-islâmica. Uma tribo era um grupo de pessoas que reivindicavam descender de um ancestral comum, real ou mítico, e que por isso se consideravam parentes e tinham obrigações mútuas de lealdade, de proteção e de solidariedade. A tribo não era uma estrutura rígida e estável como um Estado moderno: era uma realidade viva, que podia crescer pela incorporação de outros grupos, diminuir pela fragmentação em subgrupos e se transformar pelas alianças e pelos conflitos com outras tribos.
Dentro de cada tribo havia uma hierarquia, mas não uma hierarquia de poder absoluto no sentido de um rei que manda em tudo. O chefe tribal, chamado de sheikh, era geralmente o homem mais velho e mais respeitado da tribo, aquele que havia demonstrado ao longo da vida sabedoria nos conselhos, generosidade na distribuição de recursos, coragem nas batalhas e habilidade na negociação com outras tribos. O sheikh não era um déspota: sua autoridade dependia continuamente do respeito que a tribo lhe tinha, e um sheikh que tomasse decisões desastrosas ou que não honrasse as obrigações de hospitalidade e de generosidade que o cargo exigia podia perder sua posição.
As decisões importantes eram tomadas em conselho, chamado de majlis, uma reunião dos homens adultos da tribo onde todos tinham o direito de falar e onde se buscava o consenso antes de agir. O majlis era o espaço da democracia tribal, um ambiente onde a palavra contava mais do que a força, onde a eloquência e a sabedoria eram as maiores moedas de prestígio. A capacidade de falar bem, de argumentar com clareza, de lembrar os precedentes históricos e de usar a linguagem com beleza e precisão era uma das habilidades mais valorizadas na sociedade árabe pré-islâmica, e essa valorização da palavra elaborada e do argumento bem construído está na raiz da extraordinária tradição literária árabe que floresceria nos séculos seguintes.
O valor mais sagrado da cultura tribal árabe era a lealdade ao grupo. A honra de cada indivíduo estava ligada à honra de sua tribo, e a honra da tribo dependia da capacidade de seus membros de honrar seus compromissos, defender seus aliados e vingar seus mortos. A vendetta, ou seja, a obrigação de vingar a morte de um membro da tribo, era uma instituição central na vida tribal árabe. Se um membro de uma tribo fosse morto por alguém de outra tribo, a honra do grupo exigia que a morte fosse vingada, o que frequentemente gerava ciclos de violência que podiam durar gerações. Isso não era considerado barbarismo pelos árabes da época: era cumprimento de uma obrigação sagrada, a demonstração de que o sangue de seus membros tinha valor e seria defendido.
Para limitar os danos desse ciclo de vinganças, existia o instituto do diyya, a compensação em sangue, que permitia que em vez de uma morte por outra, a tribo ofendida aceitasse um pagamento em camelos, em ouro ou em outros bens como reparação pelo dano sofrido. A negociação dessa compensação era uma das funções mais importantes dos líderes tribais e dos mediadores respeitados, chamados de hakam, sábios reconhecidos por sua imparcialidade que podiam ser convidados por tribos em conflito para arbitrar disputas. A figura do hakam era uma forma primitiva mas real de sistema jurídico, baseada não em leis escritas e em instituições formais mas no prestígio pessoal e na aceitação comunitária do árbitro.
O camelo merece uma menção especial nessa descrição da vida árabe pré-islâmica, porque foi o animal que tornou possível a existência de toda uma civilização no deserto. O camelo árabe, ou dromedário, com sua única corcova, é um animal de adaptações biológicas excepcionais ao ambiente árido: pode ficar dias sem beber água, armazena gordura na corcova que pode ser metabolizada em energia e água em tempos de escassez, seus pés largos distribuem seu peso sobre a areia sem afundar, seus olhos e narinas têm estruturas que os protegem das tempestades de areia, e sua capacidade de carregar cargas pesadas por longas distâncias o torna o veículo de transporte ideal para o deserto. Os árabes chamavam o camelo de o navio do deserto, e com razão: sem o camelo, as rotas comerciais trans-árabes simplesmente não existiriam, e a civilização árabe pré-islâmica teria uma forma completamente diferente.
Os beduínos, que eram os habitantes nômades do deserto, organizavam toda a sua vida em torno da criação e da utilização dos camelos, além de cabras e ovelhas. Os beduínos moviam-se com suas tendas e seus rebanhos seguindo os ciclos das chuvas e das pastagens disponíveis, conhecendo intimamente cada oásis, cada fonte de água, cada caminho entre as dunas de um território imenso que para olhos não treinados parecia uniforme e sem referências. Esse conhecimento do território era um tesouro coletivo da tribo, transmitido oralmente de geração em geração, e era parte essencial da sobrevivência no ambiente hostil do deserto.
A poesia era a grande arte dos árabes pré-islâmicos, e seu papel na sociedade ia muito além do que consideramos arte hoje. A poesia era o jornal, o arquivo histórico, a propaganda política e a expressão de identidade coletiva de cada tribo. Cada tribo importante tinha seu poeta, chamado de shair, cuja função era celebrar as vitórias da tribo em batalha, lamentar os mortos, insultar os inimigos, elogiar os aliados e preservar na memória os eventos importantes da vida do grupo. O shair era considerado um ser de poderes especiais, alguém que tinha acesso a forças sobrenaturais que lhe ditavam os versos, e por isso era ao mesmo tempo respeitado e temido. Um poema de insulto lançado por um shair famoso contra uma tribo adversária era considerado uma arma tão real quanto uma espada: atacava a honra do grupo de uma forma que exigia resposta.
A mais famosa manifestação dessa tradição poética era o Suq Ukaz, uma feira que se realizava perto de Taif, na região do Hejaz, durante os meses sagrados em que as guerras tribais eram proibidas. No Suq Ukaz, tribos de toda a Arábia se reuniam não apenas para o comércio mas também para competições poéticas, onde os melhores poetas de cada grupo competiam pela glória de ter o seu poema reconhecido como o mais belo e o mais poderoso da reunião. Os sete poemas que foram considerados os mais excelentes de toda a tradição pré-islâmica são conhecidos como as Muallaqat, que significa literalmente os suspensos, porque segundo a tradição esses poemas foram escritos em letras douradas e suspensos nas paredes da Caaba em Meca, o santuário sagrado que ficava no coração da cidade mais importante da Arábia. As Muallaqat são um tesouro literário de extraordinária beleza, cheio de imagens da natureza do deserto, de reflexões sobre o tempo e a perda, de celebrações do amor e da coragem, e elas nos revelam muito sobre o mundo mental e emocional dos árabes antes do islamismo.
Agora precisamos falar sobre as cidades e os centros urbanos da Arábia pré-islâmica, porque a imagem de que toda a Arábia era de nômades beduínos sem nenhuma vida urbana é incorreta.
Meca, que em árabe se escreve Makkah, era a cidade mais importante da Arábia pré-islâmica, e sua importância vinha de dois fatores que se reforçavam mutuamente: era um centro comercial crucial e ao mesmo tempo um santuário religioso de importância regional.
A importância comercial de Meca derivava de sua posição geográfica estratégica. Estava localizada no Hejaz, na costa ocidental da Arábia, no cruzamento das rotas comerciais que iam do sul da Arábia, onde os produtos do Índico chegavam ao litoral iemenita, até a Síria e o Egito ao norte, e das rotas que conectavam o interior do deserto com a costa. Caravanas de camelos carregando incenso, mirra, especiarias da Índia, seda da China, ouro e marfim da África, e tecidos e outros manufaturados do Mediterrâneo passavam por Meca ou tinham Meca como destino ou ponto de redistribuição.
A tribo que controlava Meca e se beneficiava de sua posição privilegiada era a tribo dos coraixitas, em árabe os Quraysh, a mesma tribo à qual o futuro profeta Maomé pertenceria. Os coraixitas haviam se estabelecido em Meca por volta do século quinto depois de Cristo e organizaram o comércio da cidade com grande habilidade, estabelecendo acordos de segurança e de livre-passagem com as tribos ao longo das rotas comerciais. Esses acordos, chamados de ilafs, garantiam que as caravanas coraixitas podiam viajar pelo território de tribos aliadas sem ser atacadas, em troca de uma parcela dos lucros do comércio ou de outros benefícios. O sistema dos ilafs foi um dos mecanismos que permitiu o florescimento do comércio árabe no período pré-islâmico.
Mas além da função comercial, Meca tinha uma importância religiosa que atraía peregrinos de toda a Arábia. No centro da cidade ficava a Caaba, um santuário construído na forma de um cubo de pedra que abrigava uma coleção de ídolos e de objetos sagrados pertencentes a diferentes tribos da Arábia. A Caaba era considerada um lugar de neutralidade e de sagrado, um espaço onde as rivalidades tribais eram suspensas e onde pessoas de grupos diferentes podiam se encontrar e fazer negócios sem o risco de violência. A peregrinação anual à Caaba era uma instituição que beneficiava enormemente os coraixitas, porque os peregrinos que vinham de longe para visitar o santuário também compravam e vendiam mercadorias nos mercados de Meca.
A pedra negra que está embutida num canto da Caaba e que os muçulmanos de hoje continuam reverenciando durante a peregrinação a Meca é provavelmente um meteorito, uma rocha que caiu do céu em algum momento do passado remoto e que por isso foi considerada sagrada, um presente ou uma mensagem das forças divinas. A reverência por essa pedra é anterior ao islamismo e continua sendo um elemento central do ritual islâmico de peregrinação, o que é um exemplo de como o islamismo incorporou e ressignificou elementos da tradição religiosa pré-islâmica que foram considerados compatíveis com a nova fé.
Outras cidades importantes da Arábia pré-islâmica incluíam Yathrib, que depois da chegada de Maomé seria rebatizada de Medina ou al-Madinah, que significa simplesmente a cidade. Yathrib ficava ao norte de Meca e era um oásis importante, com uma agricultura de palmeiras datileiras e outras culturas irrigadas que produzia alimentos suficientes para sustentar uma população sedentária considerável. Yathrib tinha uma composição étnica e religiosa muito variada: havia tribos árabes politeístas, mas também uma comunidade significativa de judeus, divididos em várias tribos, que eram importantes produtores e comerciantes. A diversidade de Yathrib era tanto uma fonte de riqueza econômica e cultural quanto uma fonte de tensões políticas que a cidade não conseguia resolver pelos mecanismos tribais tradicionais, e foi precisamente essa situação de conflito crônico que levaria Yathrib a convidar Maomé a vir governar a cidade, mas isso é história para as próximas aulas.
Taif era outra cidade importante, localizada numa altitude mais elevada do que Meca, com um clima mais ameno e solos mais férteis onde se produziam vinhas, romãzeiras e outros produtos agrícolas apreciados nas regiões mais áridas. Taif era associada à tribo dos Thaqif e ao culto de al-Lat, uma das grandes deusas do panteão árabe pré-islâmico.
No sul da Arábia, no atual Iêmen, existiam civilizações muito mais antigas e muito mais desenvolvidas do que as do interior da península. O Reino de Saba, cujo nome é célebre pela história bíblica da Rainha de Sabá que visitou o rei Salomão de Israel, foi um Estado organizado que floresceu por volta do primeiro milênio antes de Cristo e que controlava o comércio de incenso e de mirra do sul da Arábia. O incenso e a mirra eram produtos de valor extraordinário no mundo antigo: eram usados em rituais religiosos em todo o Mediterrâneo, no Oriente Médio e no Egito, e por isso eram artigos de luxo de grande valor comercial. O controle das rotas de exportação desses produtos tornou os reinos do sul da Arábia extraordinariamente ricos.
A Barragem de Marib, construída pelo Reino de Saba por volta do século oito antes de Cristo, foi uma das maiores obras de engenharia hidráulica do mundo antigo. Essa barragem represava as águas das chuvas sazonais e criava um sistema de irrigação que permitia a agricultura numa região que de outra forma seria semiárida, sustentando uma população considerável e uma economia agrícola próspera. O colapso parcial e eventual abandono da Barragem de Marib, que segundo estudos aconteceu em torno do século sexto depois de Cristo, causou a dispersão de populações e a migração de tribos iemenitas para outras partes da Arábia, e esse evento é mencionado no Alcorão como um sinal da punição divina sobre um povo que havia se desviado do caminho correto.
Outros reinos do sul da Arábia, como os mineanos, os qatabanitas e os hadhramitas, também floresceram em diferentes períodos e contribuíram para o desenvolvimento de uma tradição urbana, agrícola e comercial no sul da península que contrastava fortemente com o nomadismo beduíno do interior.
Agora chegamos ao aspecto que talvez seja mais importante para entender o contexto do surgimento do islamismo: a vida religiosa da Arábia pré-islâmica, que costumamos chamar de animismo ou de politeísmo árabe, mas que na verdade era um sistema complexo com muitas camadas e muitas nuances.
O termo animismo, quando usado para descrever as crenças religiosas dos árabes pré-islâmicos, é uma simplificação que pode enganar. O animismo no sentido estrito se refere à crença de que seres inanimados como pedras, árvores, rios e outros elementos da natureza têm espíritos ou almas. Essa crença estava presente na religiosidade árabe pré-islâmica, mas havia muito mais do que isso.
Os árabes pré-islâmicos tinham um panteão de divindades bem definidas, com personalidades, domínios e mitos específicos, que eram cultuadas de formas elaboradas. Essas divindades eram ao mesmo tempo parte de uma tradição religiosa comum a toda a Arábia e objetos de cultos específicos de determinadas tribos ou regiões. Havia uma distinção entre as divindades maiores, reconhecidas amplamente, e os idivindades menores ou os espíritos locais, conhecidos como jinn, que eram seres sobrenaturais de natureza ambígua, nem completamente divinos nem completamente humanos, que habitavam lugares específicos como oásis, grutas e cruzamentos de caminhos.
As três divindades femininas mais importantes do panteão árabe pré-islâmico eram al-Lat, al-Uzza e Manat. Essas três deusas eram conhecidas e veneradas amplamente em toda a Arábia, embora com variações locais em seus atributos e nos rituais a elas dedicados.
Al-Lat era uma das mais antigas e mais veneradas divindades da Arábia. Seu nome deriva provavelmente da mesma raiz que al-Lah, que mais tarde se tornaria Allah, o nome do deus único no islamismo, e significa literalmente a deusa. Al-Lat era associada ao sol, à terra fértil, à proteção e ao sustento. Seu principal centro de culto ficava em Taif, onde uma rocha sagrada a representava. Era especialmente venerada pela tribo dos Thaqif e por outras tribos da região do Hejaz. Alguns estudiosos identificam al-Lat com a Grande Mãe das religiões do Oriente Médio antigo, uma divindade feminina que personifica a fertilidade e o poder da terra.
Al-Uzza era a deusa mais jovem das três, e seu nome significa a mais poderosa ou a mais gloriosa. Era associada ao planeta Vênus, às estrelas e ao poder celestial, e era especialmente reverenciada pela tribo dos coraixitas de Meca. Seu santuário ficava numa região chamada Nakhla, entre Meca e Taif, onde havia uma palmeira sagrada e onde os rituais em sua honra eram realizados. Al-Uzza era também associada à proteção dos viajantes e dos guerreiros.
Manat era a deusa do destino e da morte, e seu nome está ligado à palavra árabe para morte ou destino. Era especialmente venerada pelas tribos de Medina e pelas tribos que habitavam a costa do Mar Vermelho entre Meca e Medina. Era considerada a mais antiga das três deusas, e seu culto era talvez o mais austero e o mais ligado a práticas funerárias e à reflexão sobre a mortalidade humana.
O Alcorão menciona essas três deusas explicitamente num verso que ficou famoso na história do islamismo e que é conhecido como o verso das garças ou dos pombos, em árabe al-gharaniq. Segundo alguns relatos históricos muito debatidos, teria havido um momento no início da pregação de Maomé em que ele teria pronunciado um verso reconhecendo essas três deusas como intercessoras, um verso que foi depois apagado e substituído por uma rejeição absoluta delas. Esse episódio, chamado de o incidente dos versos satânicos, é um dos mais controvertidos e debatidos de toda a história do islamismo primitivo, e foi imortalizado pelo título do famoso romance de Salman Rushdie que causou enorme controvérsia em mil novecentos e oitenta e oito. Independentemente de como se interprete esse episódio, ele mostra o quanto as três deusas eram centrais na vida religiosa da Meca que o islamismo surgiu para transformar.
Além dessas divindades maiores, o panteão árabe pré-islâmico incluía Hubal, que era o principal deus masculino do santuário da Caaba em Meca. Hubal era representado por uma estátua de ágata vermelha em forma humana, com uma mão de ouro que havia sido adicionada depois de um dano. Era associado à adivinhação e ao destino, e seu culto incluía uma prática oracular em que flechas eram lançadas diante da estátua para revelar a vontade do deus sobre questões como a partilha de herança, o sucesso de uma expedição comercial ou o resultado de uma viagem. Hubal era especialmente reverenciado pelos coraixitas e era provavelmente a divindade mais importante da Caaba antes do islamismo.
Wadd era um deus lunar venerado especialmente no norte da Arábia. Suwa era uma deusa também lunar. Yaghuth era uma divindade associada ao leão e venerada por certas tribos do sul da Arábia. Yauq era outra divindade, representada na forma de um cavalo. Nasr, que significa abutre, era um deus cujo culto existia no Iêmen. O Alcorão menciona todos esses deuses numa passagem em que descreve os ídolos que os ancestrais de Noé veneravam, ligando o politeísmo árabe a uma tradição de desvio espiritual que, na perspectiva islâmica, precisava ser corrigida pela revelação monoteísta.
A questão dos jinn merece uma explicação mais detalhada porque é um elemento da tradição árabe pré-islâmica que o islamismo absorveu e resignificou de forma muito particular.
Os jinn, no pensamento árabe pré-islâmico, eram seres sobrenaturais que habitavam o mundo de formas não visíveis aos humanos comuns, mas que podiam se manifestar e interagir com os seres humanos em certas circunstâncias. Eram seres de natureza ambígua: podiam ser benevolentes ou malevolentes, poderosos ou limitados, associados a lugares específicos ou capazes de se mover livremente. Os poetas eram frequentemente associados aos jinn: acreditava-se que o poder de criar poesia de grande beleza e impacto não vinha do poeta sozinho, mas de um jinn que habitava o poeta e lhe ditava os versos. O jinn do poeta era chamado de seu shaytan, palavra que mais tarde seria traduzida como demônio mas que originalmente tinha um significado mais neutro de companheiro sobrenatural.
O islamismo não negou a existência dos jinn. Pelo contrário, o Alcorão dedica toda uma sura, ou capítulo, chamada simplesmente de al-Jinn, aos jinn, e descreve um grupo de jinn que ouviu a recitação do Alcorão e se converteu ao islamismo. Na teologia islâmica, os jinn são criaturas de Deus, criadas do fogo, que vivem num mundo paralelo ao mundo humano e que, como os humanos, serão julgadas por seus atos no dia do julgamento. Essa incorporação dos jinn na cosmologia islâmica é mais um exemplo de como o islamismo dialogou de forma complexa com as tradições religiosas que existiam antes dele, mantendo alguns elementos, rejeitando outros e resignificando outros ainda.
Os lugares sagrados eram outro elemento central da religiosidade árabe pré-islâmica. Certos lugares, especialmente grutas, fontes, árvores antigas e rochas de formas incomuns, eram considerados habitados por poderes sobrenaturais e eram cercados de tabus e de práticas rituais. A peregrinação a esses lugares sagrados era uma prática comum, e muitos dos santuários locais eram centros de encontro tribal e de celebração comunitária além de centros de culto propriamente ditos.
A Caaba em Meca era o maior e o mais importante desses santuários regionais. Segundo a tradição árabe pré-islâmica, a Caaba havia sido construída num tempo primordial e era habitada por um poder sagrado que transcendia qualquer divindade particular. Os ídolos que ficavam dentro e ao redor da Caaba representavam as divindades de diferentes tribos, mas a sacralidade do lugar era independente de qualquer um desses ídolos. Os meses em que a peregrinação à Caaba era realizada eram meses sagrados, chamados de meses proibidos, durante os quais a guerra e o derramamento de sangue eram proibidos em toda a Arábia. Essa instituição dos meses sagrados era uma forma de trégua regular e universal que beneficiava especialmente o comércio e que demonstra um nível de organização supra-tribal que ia além da lógica puramente tribal de guerra permanente entre grupos.
Os rituais da peregrinação pré-islâmica a Meca incluíam práticas que foram em grande parte mantidas e resignificadas pelo islamismo: a circum-ambulação da Caaba, ou seja, dar voltas ao redor do cubo sagrado; a corrida entre dois montes próximos chamados de Safa e Marwa; e o sacrifício de animais em determinadas datas. Essas práticas, que no islamismo receberam interpretações relacionadas à história de Abraão, Agar e Ismael, têm origens que são anteriores ao islamismo e que estavam enraizadas na religiosidade árabe pré-islâmica.
A cosmologia árabe pré-islâmica incluía também uma crença vaga num ser supremo chamado de al-Lah, que significava simplesmente o deus, com artigo definido, indicando o mais importante dos deuses. Esse al-Lah era reconhecido pelos árabes pré-islâmicos como o criador do céu e da terra, como o ser mais poderoso do universo, mas era considerado distante dos assuntos humanos cotidianos, e por isso as pessoas recorriam às outras divindades, especialmente às três deusas, como mediadoras entre elas e esse ser supremo. Quando o Alcorão questiona os politeístas árabes sobre quem criou o céu e a terra, e eles respondem que foi al-Lah, o Alcorão usa esse reconhecimento como argumento contra a adoração das divindades menores: se vocês já reconhecem que al-Lah é o criador supremo, por que adoram outros além dele? Essa é uma das estratégias retóricas mais eficazes do Alcorão, e ela só faz sentido nesse contexto de uma crença árabe pré-islâmica já existente num al-Lah criador supremo.
Além do politeísmo tribal que acabamos de descrever, havia outras tradições religiosas presentes na Arábia pré-islâmica.
O Judaísmo estava presente na Arábia, especialmente em Yathrib, que tinha uma comunidade judaica significativa, e também em outras partes da Arábia, especialmente no Iêmen e nas cidades do norte. Os judeus árabes eram em grande parte arabizados ao longo de gerações, falavam árabe como língua cotidiana e estavam plenamente integrados à vida social e econômica árabe, mas mantinham suas práticas religiosas específicas, incluindo a observância do Shabat, as leis alimentares e a crença no monoteísmo estrito. A presença judaica na Arábia introduziu na região conceitos monoteístas, a tradição dos profetas, a ideia de um livro sagrado revelado por Deus e a noção de um povo escolhido com uma aliança especial com o criador. Esses conceitos certamente influenciaram o ambiente intelectual e espiritual em que Maomé cresceu e desenvolveu sua mensagem.
O Cristianismo também estava presente na Arábia, embora de forma mais dispersa e geograficamente concentrada. A região do Najran, no sul da Arábia, tinha uma comunidade cristã significativa que havia sofrido perseguição por parte de um rei judaico do Iêmen chamado Yusuf Dhu Nuwas no século sexto, episódio que é mencionado no Alcorão como o massacre dos companheiros da vala. Havia também cristãos nas cidades do norte da Arábia, próximas às fronteiras dos Impérios Bizantino e Persa, e comerciantes cristãos que frequentavam os mercados de Meca e de outras cidades. A prima de Khadija, a primeira esposa de Maomé, chamada Waraqua ibn Nawfal, era cristão e conhecedor das escrituras bíblicas, e é mencionado como o primeiro a reconhecer que a experiência de Maomé na caverna de Hira era semelhante às experiências dos profetas bíblicos.
O Zoroastrismo, a antiga religião da Pérsia fundada pelo profeta Zaratustra e baseada na crença num deus supremo do bem chamado Ahura Mazda em conflito eterno com o princípio do mal chamado Ahriman, estava presente nas regiões da Arábia próximas ao Império Persa, especialmente no Bahrein e em algumas partes do norte e do leste da península. O Zoroastrismo era a religião oficial do poderoso Império Sassânida persa, que era o grande rival do Império Bizantino e uma das duas superpotências do mundo no período imediatamente anterior ao islamismo.
Havia também um grupo de pessoas que os árabes chamavam de hanifes, uma palavra cuja origem é debatida pelos estudiosos mas que designava indivíduos que haviam se afastado do politeísmo tribal em busca de uma espiritualidade mais pura e monoteísta sem ter se convertido ao Judaísmo nem ao Cristianismo. Os hanifes eram uma espécie de monoteístas independentes que acreditavam na existência de um deus único e rejeitavam a adoração de ídolos, mas que não seguiam as práticas e rituais das religiões monoteístas estabelecidas. O próprio Maomé, antes de receber a revelação que marcaria o início do islamismo, passava longos períodos de retiro e de meditação numa caverna na montanha chamada Hira, próxima a Meca, numa prática que se assemelhava à espiritualidade dos hanifes.
A economia árabe pré-islâmica estava intimamente ligada ao comércio de longa distância, e isso também moldou profundamente a vida cultural e religiosa da região. As rotas do incenso, que transportavam o incenso e a mirra do sul da Arábia para o Mediterrâneo, e as rotas das especiarias, que traziam pimenta, canela, seda e outros produtos do Oriente para o Ocidente passando pela Arábia, eram algumas das mais lucrativas do mundo antigo e medieval. As cidades que controlavam essas rotas acumulavam riquezas consideráveis, e os mercadores que viajavam por elas estavam em contato constante com diferentes culturas, diferentes línguas e diferentes tradições religiosas, o que tornava a Arábia um ponto de encontro de ideias e de crenças de origens diversas.
A classe mercantil árabe pré-islâmica, especialmente os coraixitas de Meca, era cosmopolita de uma forma que os beduínos do deserto não eram. Eles viajavam para a Síria e para o Egito ao norte, para o Iêmen ao sul, para a Etiópia do outro lado do Mar Vermelho, e tinha contato com comerciantes persas, indianos, africanos e mediterrâneos. Esse cosmopolitismo comercial criou uma abertura cultural e intelectual que foi provavelmente um dos fatores que tornaram possível o surgimento do islamismo como uma religião com ambições universalistas, ou seja, uma religião que não era para uma tribo específica ou para um povo eleito, mas para toda a humanidade.
A condição das mulheres na Arábia pré-islâmica era marcada por grandes contradições. Por um lado, havia aspectos de organização social que eram extremamente opressivos: o infanticídio feminino, ou seja, o assassinato de bebês recém-nascidas, era praticado por algumas tribos que consideravam o nascimento de uma menina uma desonra ou um fardo econômico. O Alcorão condena essa prática explicitamente e descreve com horror a imagem do pai que se envergonha ao saber que sua esposa teve uma filha. O casamento poligâmico era praticado sem limite de número de esposas, e as mulheres tinham poucos direitos de herança ou de propriedade em muitos contextos tribais.
Por outro lado, havia mulheres de grande poder e prestígio na Arábia pré-islâmica. A primeira esposa de Maomé, Khadija, era uma viúva de família abastada que administrava com sucesso seus próprios negócios de caravanas comerciais e que foi a empregadora de Maomé antes de se tornar sua esposa. Khadija tinha poder econômico real e tomava decisões independentes sobre seus negócios e sua vida, o que sugere que a situação das mulheres das classes mercantis era mais favorável do que a das mulheres das tribos beduínas mais pobres. Havia também figuras femininas com papel religioso importante, como as sacerdotisas de certas divindades e as mulheres com poderes divinatórios.
A guerra era uma realidade constante na Arábia pré-islâmica, e não apenas as guerras de vingança entre tribos rivais. Havia guerras por controle de oásis e de rotas comerciais, guerras por pastos e por fontes de água, guerras por honra e por riqueza. As guerras mais famosas do período pré-islâmico árabe são chamadas de Ayyam al-Arab, os dias dos árabes, e eram preservadas na memória coletiva através da poesia e da narrativa oral. Algumas dessas guerras duraram décadas e devastaram tribos inteiras, e a memória delas era uma fonte constante de identidade e de orgulho tribal mas também de ódio e de desejo de vingança.
É nesse mundo complexo, contraditório e vivo que o islamismo surgiu. Um mundo de beduínos e de comerciantes, de poetas e de guerreiros, de santuários e de ídolos, de monoteístas solitários e de politeístas tradicionais, de tribos em conflito permanente e de feiras anuais onde a paz era mantida. Um mundo que tinha suas próprias formas de sabedoria, sua própria beleza, seus próprios valores, e que também tinha suas próprias formas de injustiça, de crueldade e de desequilíbrio que criavam sofrimento real para as pessoas mais vulneráveis.
Quando Maomé começou a pregar em Meca por volta do ano seiscentos e dez depois de Cristo, ele não estava pregando no vazio. Estava falando para pessoas que já tinham crenças, que já conheciam conceitos como al-Lah, que já ouviam falar de profetas e de livros sagrados, que já experimentavam a inadequação das formas de organização tribal para os desafios de uma sociedade cada vez mais urbana e comercial. A mensagem que ele pregava dialogava diretamente com esse mundo, desafiando algumas de suas práticas mais fundamentais e ao mesmo tempo reconhecendo e incorporando elementos que eram considerados válidos. E é por isso que entender a Arábia pré-islâmica é tão essencial para entender o islamismo: porque uma mensagem só pode ser entendida plenamente quando se entende o mundo para o qual ela foi dirigida.
Como fazer referência ao conteúdo:
| Dados de Catalogação na Publicação: NORAT, Markus Samuel Leite. Curso de história para o 1º ano do ensino médio. João Pessoa: Editora Norat, 2026. Livro Digital, Formato: HTML5, Tamanho: 132,4125 gigabytes (132.412.500 kbytes) . ISBN: 978-65-80808-16-8 | Cutter: N825c | CDD-907.12 | CDU-94(100)”-04/17″:373.5 . Palavras-chave: História, Ensino Médio, Pré-História, Civilizações Antigas, Mesopotâmia, Egito Antigo, Grécia Antiga, Roma Antiga, África Antiga, Reinos Africanos, Mundo Árabe-Muçulmano, Idade Média, Feudalismo, Antigo Regime, Monarquias Absolutistas, Renascimento, Humanismo, ENEM, Vestibulares. . TODOS OS DIREITOS RESERVADOS. É proibida a cópia total ou parcial desta obra, por qualquer forma ou qualquer meio. A violação dos direitos autorais é crime tipificado na Lei n. 9.610/98 e artigo 184 do Código Penal. |
