Curso de História para o 1º Ano do Ensino Médio
MÓDULO 9 – O MUNDO ÁRABE-MUÇULMANO
Aula 102 – Os pilares do islamismo: doutrina, práticas e fé
Aula 102 – Os pilares do islamismo: doutrina, práticas e fé
Para entender o islamismo como religião, não basta saber que ele surgiu na Península Arábica no século sete depois de Cristo e que foi fundado pela pregação do profeta Maomé. É preciso compreender o que o islamismo ensina, o que ele exige de seus seguidores, como ele organiza a relação entre o ser humano e Deus, e como ele molda a vida cotidiana de mais de um bilhão e oitocentos milhões de pessoas no mundo contemporâneo. Afinal, o islamismo não é apenas uma religião no sentido restrito da palavra, ou seja, um conjunto de crenças sobre Deus e sobre o destino da alma depois da morte. O islamismo é, para seus seguidores, um modo de vida completo, um sistema que orienta não apenas a espiritualidade individual mas também a ética, o direito, a política, a alimentação, a higiene, as relações familiares, o comércio e praticamente todas as outras dimensões da existência humana. Compreender sua doutrina e suas práticas é fundamental para qualquer estudante de história que queira entender o mundo medieval, o mundo moderno e o mundo contemporâneo, porque o islamismo é uma das forças mais transformadoras que já atuaram sobre a humanidade.
Vamos começar pelo conceito mais fundamental de toda a doutrina islâmica, aquele que está na raiz de tudo o mais: a ideia de Deus.
O islamismo é uma religião estritamente monoteísta, o que significa que afirma com toda a clareza e sem nenhuma possibilidade de ambiguidade que existe um único Deus, e que adorar qualquer coisa ou qualquer ser além desse Deus único é o maior dos pecados possíveis. O nome de Deus em árabe é Allah, que é simplesmente a contração das palavras al-ilah, que significam literalmente o deus, com o artigo definido, indicando o único Deus verdadeiro. É importante esclarecer que Allah não é um nome especial nem um deus diferente do Deus dos cristãos e dos judeus: é o mesmo Deus que criou o céu e a terra, o mesmo Deus que se revelou a Abraão, a Moisés e a Jesus, e os cristãos árabes, por exemplo, também usam a palavra Allah para se referir ao Deus que adoram. A diferença está na forma como o islamismo concebe esse Deus, e é aí que a especificidade islâmica se manifesta com clareza.
O conceito islâmico de Deus é resumido na palavra árabe tawhid, que significa a unicidade ou a unidade absoluta de Deus. Deus é uno não apenas no sentido de que é o único Deus existente, mas também no sentido de que sua natureza é absolutamente simples e indivisível: não tem partes, não tem aspectos que se possam separar uns dos outros, não tem parceiros, não tem iguais, não tem filhos no sentido literal da palavra, e não pode ser representado por nenhuma forma física, porque é radicalmente diferente de tudo o que existe no mundo criado. O islamismo rejeita explicitamente e com grande ênfase qualquer forma de associação de outros seres ou entidades à divindade, pecado que em árabe se chama shirk e que é considerado o único pecado que Deus não perdoa se a pessoa morrer sem ter se arrependido. O shirk inclui não apenas a adoração de ídolos, que o islamismo combateu desde o início, mas também, segundo a teologia islâmica, a crença cristã de que Jesus é simultaneamente Deus e homem, e a doutrina da Trindade que ensina que Deus existe em três pessoas. Para o islamismo, essas doutrinas cristãs, por mais respeitáveis que sejam como tradição, constituem formas de shirk, de associação de outros seres à unicidade divina.
Ao mesmo tempo, o islamismo ensina que Deus não é um ser distante e indiferente que criou o mundo e o abandonou à própria sorte. O Alcorão descreve Deus com noventa e nove atributos ou nomes, que os muçulmanos chamam de os belos nomes de Deus, e que revelam diferentes dimensões de sua relação com a criação. Entre esses nomes estão al-Rahman, o infinitamente misericordioso, al-Rahim, o que tem misericórdia continuamente, al-Ghafur, o que perdoa muito, al-Wadud, o amoroso, al-Latif, o gentil e subtil, al-Hakim, o sábio, al-Adil, o justo. A fórmula com que todo capítulo do Alcorão começa, exceto um, é Bismi Allahi al-Rahmani al-Rahim, que significa em nome de Deus, o infinitamente misericordioso, o que tem misericórdia continuamente, e essa fórmula, chamada de bismillah, é repetida pelos muçulmanos ao começar qualquer atividade importante, desde comer uma refeição até iniciar uma viagem ou abrir um livro. A misericórdia é, para o islamismo, o atributo mais central e mais revelador de Deus, e o Alcorão ensina que a misericórdia de Deus abrange todas as coisas.
Agora precisamos entender o que é o Alcorão, porque para os muçulmanos o Alcorão não é simplesmente um livro sagrado no sentido em que a Bíblia é sagrada para os cristãos. A posição do Alcorão no islamismo é de uma natureza completamente diferente e muito mais absoluta.
O Alcorão, cujo nome em árabe significa a recitação ou a leitura, é considerado pelos muçulmanos a palavra literal de Deus, não inspirada nem interpretada por nenhum ser humano, mas ditada diretamente pelo anjo Gabriel ao profeta Maomé ao longo de vinte e dois anos, de aproximadamente seiscentos e dez a seiscentos e trinta e dois depois de Cristo. Cada palavra, cada sílaba, cada letra do Alcorão é considerada palavra de Deus, e por isso o Alcorão em língua árabe tem um estatuto de sacralidade que ultrapassa qualquer outro texto da tradição islâmica. Traduzir o Alcorão para outro idioma é possível e necessário para que pessoas que não falam árabe possam compreender seu conteúdo, mas as traduções são consideradas apenas interpretações do significado, nunca o Alcorão propriamente dito, que existe apenas em árabe. Por essa razão, muçulmanos de todo o mundo, independentemente de sua língua materna, aprendem a recitar o Alcorão em árabe, e a memorização completa do texto, que tem cento e catorze capítulos, chamados de suras, e mais de seis mil versos, chamados de ayat, é considerada uma das maiores realizações espirituais que um muçulmano pode alcançar. Quem memoriza o Alcorão integralmente recebe o título honroso de hafiz, que significa o que guarda.
O Alcorão não é um livro organizado cronologicamente nem tematicamente de forma que um leitor ocidental contemporâneo reconheceria facilmente. As suras não estão ordenadas pela ordem em que foram reveladas mas geralmente por comprimento, com as mais longas no início e as mais curtas no final, com algumas exceções. O conteúdo é extremamente variado: há passagens de grande beleza poética que evocam as maravilhas da criação como sinais da existência e do poder de Deus, há narrativas dos profetas anteriores como Adão, Noé, Abraão, Moisés, Jesus e muitos outros, há legislação detalhada sobre questões jurídicas como herança, casamento e contratos, há reflexões éticas sobre a conduta humana, há descrições do Paraíso e do Inferno, há polêmicas com os politeístas, com os judeus e com os cristãos, e há conselhos práticos para a comunidade muçulmana sobre como lidar com situações específicas que surgiam durante a vida do profeta em Medina.
Além do Alcorão, a segunda fonte mais importante da doutrina e da lei islâmica é a Sunnah, que em árabe significa o caminho ou o modo de agir, e que se refere ao conjunto dos ditos, das ações e das aprovações silenciosas do profeta Maomé. Os relatos que descrevem a Sunnah são chamados de hadith, que significa relato ou narrativa. Os hadith foram transmitidos inicialmente de forma oral, de pessoa a pessoa, por aqueles que tinham convivido com Maomé, chamados de sahabah, os companheiros. No século seguinte à morte do profeta, estudiosos muçulmanos se dedicaram ao enorme trabalho de coletar, verificar e classificar esses relatos, investigando a cadeia de transmissão de cada um deles, ou seja, quem havia relatado o hadith, quem havia relatado àquele pessoa, e assim por diante até chegar a um companheiro do profeta que havia testemunhado diretamente o que era descrito. Esse sistema de verificação da autenticidade dos hadith, chamado de isnad, a cadeia de transmissão, foi um dos primeiros sistemas de crítica histórica da humanidade, e chegou a um nível de sofisticação metodológica extraordinário para a época.
As coleções de hadith consideradas mais autênticas e mais respeitadas pelos muçulmanos sunitas são as de dois estudiosos do século nono chamados al-Bukhari e Muslim, e juntas formam o que se conhece como as duas coleções corretas, em árabe al-Sahihayn. Cada uma dessas coleções contém milhares de hadith classificados por tema e avaliados quanto à sua confiabilidade. A Sunnah complementa e detalha o Alcorão: enquanto o Alcorão ordena que os muçulmanos façam a oração, é a Sunnah que explica exatamente como a oração deve ser realizada, quais palavras devem ser pronunciadas e quais movimentos devem ser feitos. Enquanto o Alcorão ordena a peregrinação a Meca, é a Sunnah que detalha os rituais específicos da peregrinação. A combinação do Alcorão e da Sunnah forma a base da sharia, a lei islâmica, que abordaremos mais adiante.
Agora chegamos ao coração prático do islamismo: os cinco pilares, que em árabe são chamados de arkan al-islam, literalmente as colunas do islamismo. Esses cinco pilares são as práticas religiosas obrigatórias fundamentais que cada muçulmano adulto e capaz deve observar, e constituem a estrutura básica sobre a qual a vida religiosa islâmica é construída.
O primeiro pilar é a Shahada, a declaração de fé. Em árabe, a shahada é a frase ash-hadu an la ilaha illa Allah wa ash-hadu anna Muhammadan rasul Allah, que significa testemunho que não há deus senão Deus e testemunho que Maomé é o mensageiro de Deus. Essa frase simples é o ato de entrada no islamismo: pronunciá-la com sinceridade e convicção diante de testemunhas transforma alguém em muçulmano. Mas a shahada não é apenas o ato de entrada: é também uma afirmação que os muçulmanos repetem várias vezes ao dia, que é incorporada no chamado à oração que ecoa dos minaretes das mesquitas cinco vezes por dia, e que é a última coisa que um muçulmano piedoso deveria pronunciar no momento de sua morte. A shahada tem duas partes indissociáveis: a afirmação da unicidade de Deus, que é a parte doutrinária central do islamismo, e o reconhecimento de Maomé como mensageiro, que é a afirmação de que a revelação islâmica é autêntica e deve ser seguida. As duas partes juntas definem o que é ser muçulmano.
O segundo pilar é o Salat, a oração ritual. Os muçulmanos têm a obrigação de orar cinco vezes por dia em horários específicos determinados pela posição do sol: ao amanhecer, ao meio-dia, no meio da tarde, ao pôr do sol e à noite. Cada uma dessas cinco orações tem um nome específico: a oração do amanhecer é o Fajr, a do meio-dia é o Zuhr, a da tarde é o Asr, a do pôr do sol é o Maghrib, e a da noite é o Isha. Antes de orar, o muçulmano deve realizar uma purificação ritual com água, chamada de wudu, que consiste em lavar as mãos, a boca, o nariz, o rosto, os braços até os cotovelos, passar a mão molhada pela cabeça e lavar os pés até os tornozelos. Essa purificação não é apenas higiênica: é um ato de preparação espiritual, de transição do estado comum da vida cotidiana para o estado de presença diante de Deus.
A oração islâmica não é simplesmente falar com Deus em silêncio, como uma conversa interior. É um ato físico e verbal preciso que envolve uma sequência de posições corporais chamadas de rakaat: de pé, inclinado com as mãos nos joelhos, de pé novamente, prostrado com a testa tocando o chão, sentado sobre os calcanhares, e prostrado de novo. Cada posição é acompanhada de recitações específicas do Alcorão e de fórmulas de louvor a Deus. A prostração, chamada de sujud, com a testa tocando o chão, é considerada a posição de maior proximidade com Deus, o momento em que o ser humano se encontra na posição mais humilde possível diante do criador. A direção para a qual os muçulmanos se voltam durante a oração é chamada de qibla, e é a direção da Caaba em Meca, o santuário que os muçulmanos consideram o centro espiritual do mundo. A oração do meio-dia das sextas-feiras tem um caráter especial: é realizada coletivamente na mesquita, precedida de um sermão chamado de khutba, e é o equivalente islâmico do serviço religioso semanal obrigatório. O chamado à oração, em árabe al-adhan, é pronunciado por um muezzin, que em árabe se escreve muadhdhin, e começa sempre com as palavras Allahu akbar, Deus é maior ou Deus é o maior, seguidas da shahada e do convite ao sucesso e à oração.
O terceiro pilar é o Zakat, a esmola purificadora ou o imposto de solidariedade. O nome zakat em árabe significa purificação e crescimento, e isso reflete a crença islâmica de que dar parte de sua riqueza aos necessitados não empobrece quem dá mas purifica os bens que ficam e traz bênção e aumento sobre a vida do doador. O zakat é obrigatório para todo muçulmano que possua riqueza acima de um nível mínimo chamado de nisab, equivalente ao valor de aproximadamente oitenta e cinco gramas de ouro ou quinhentos e noventa e cinco gramas de prata. Quem tem riqueza acima desse nível durante um ano lunar completo deve pagar o zakat equivalente a dois e meio por cento do total de suas posses, incluindo dinheiro, mercadorias de comércio, ouro e prata. O Alcorão especifica oito categorias de pessoas que podem receber o zakat: os pobres que não têm o suficiente para suas necessidades básicas, os que têm alguma renda mas ainda são vulneráveis, os coletores e administradores do zakat, aqueles cujos corações se quer aproximar do islamismo, os escravos que estão tentando comprar sua liberdade, os devedores oprimidos por dívidas, os que viajam pelo caminho de Deus em sentido amplo, e os viajantes que ficaram sem recursos. O zakat é, portanto, um sistema de redistribuição de riqueza embutido na estrutura religiosa do islamismo, uma forma de garantir que a prosperidade dos ricos beneficie os mais vulneráveis da comunidade.
O quarto pilar é o Sawm, o jejum do mês do Ramadã. O Ramadã é o nono mês do calendário lunar islâmico, e é o mês em que, segundo o Alcorão, a revelação do Alcorão teve início. Durante todo o mês do Ramadã, os muçulmanos adultos saudáveis se abstêm, desde o início do amanhecer até o pôr do sol, de comer, de beber qualquer líquido, incluindo água, de fumar, de manter relações sexuais e de qualquer outra atividade considerada impura. O jejum começa com uma refeição antes do amanhecer chamada de suhur e é interrompido ao pôr do sol com uma refeição chamada de iftar, que começa tradicionalmente com a ingestão de algumas tâmaras e de água, em memória da forma como o profeta Maomé costumava interromper seu jejum. O Ramadã é ao mesmo tempo um período de austeridade física e de intensificação espiritual: as orações se multiplicam, a recitação do Alcorão se intensifica, a caridade aumenta e o espírito comunitário se fortalece. A última terça parte do Ramadã é considerada especialmente sagrada, e nela se encontra a Noite do Poder, em árabe Laylat al-Qadr, que segundo o Alcorão é mais preciosa do que mil meses e que foi a noite em que a primeira revelação desceu ao profeta Maomé. Muitos muçulmanos passam os últimos dez dias do Ramadã em retiro espiritual intensivo na mesquita, numa prática chamada de itikaf. O fim do Ramadã é celebrado com uma grande festa chamada de Eid al-Fitr, a festa do encerramento do jejum, que é um dos dois grandes feriados religiosos do islamismo, com orações especiais, reunião da família, troca de presentes e distribuição de alimentos aos pobres numa forma específica de caridade chamada de zakat al-fitr.
O quinto pilar é o Hajj, a peregrinação à cidade sagrada de Meca, na Arábia Saudita. O Hajj é obrigatório pelo menos uma vez na vida para todo muçulmano adulto que tenha saúde física suficiente para realizá-lo e recursos financeiros para cobrir os custos da viagem sem prejudicar sua família. O Hajj acontece nos dias oito, nove e dez do décimo segundo mês do calendário islâmico, chamado de Dhu al-Hijjah, e envolve uma série de rituais realizados em lugares específicos ao redor de Meca. Os peregrinos, chamados de hajji, chegam a Meca vestindo o ihram, um traje simples de dois pedaços de tecido branco não costurado para os homens, e roupas simples e modestas para as mulheres, que simboliza a igualdade de todos diante de Deus: rico e pobre, rei e mendigo, todos vestem o mesmo branco simples e se apresentam diante do criador sem distinção de status. Os rituais incluem a circum-ambulação da Caaba, ou seja, dar sete voltas ao redor do cubo de pedra no centro da Grande Mesquita de Meca; a corrida sete vezes entre os dois montes de Safa e Marwa, em memória de Agar, mãe do profeta Ismael, que correu entre esses montes em busca de água para seu filho; o estacionamento no planalto de Arafat, a alguns quilômetros de Meca, onde os peregrinos passam a tarde em oração e reflexão, num ritual que é considerado o coração do Hajj; a coleta de pedras para o ritual de lapidação dos pilares que representam o diabo em Mina; e o sacrifício de um animal, que é dividido entre os peregrinos e os pobres. O segundo grande feriado do islamismo, o Eid al-Adha, a festa do sacrifício, acontece no mundo inteiro na mesma data do sacrifício do Hajj, em memória da disposição de Abraão de sacrificar seu filho por ordem de Deus, filho que segundo a tradição islâmica era Ismael, não Isaque como afirma a tradição hebraica. O Hajj é a maior reunião humana organizada e regular do mundo: atualmente, entre dois e três milhões de pessoas de todos os cantos do planeta convergem para Meca durante os dias do Hajj.
Além dos cinco pilares da prática, o islamismo tem um conjunto de crenças fundamentais que cada muçulmano deve aceitar, conhecidas como os seis artigos da fé ou, em árabe, arkan al-iman. Esses seis artigos são a crença em Deus, a crença nos anjos, a crença nas escrituras reveladas, a crença nos profetas, a crença no Dia do Julgamento e a crença no decreto divino.
A crença em Deus já foi discutida, mas vale acrescentar que o islamismo ensina que o conhecimento de Deus é ao mesmo tempo acessível e limitado: os nomes e atributos de Deus revelados no Alcorão permitem ao ser humano se aproximar de Deus e desenvolver uma relação de amor, de temor reverencial e de gratidão, mas a essência de Deus, o que Deus é em si mesmo, permanece completamente além da capacidade de compreensão humana.
A crença nos anjos é o segundo artigo da fé. Os anjos, em árabe malaika, são seres criados por Deus a partir de luz, que cumprem missões específicas e não têm vontade própria contrária à vontade divina. O Alcorão menciona vários anjos por nome: Gabriel, que transmite as revelações divinas aos profetas, Miguel, que é responsável pelo sustento da natureza, Israfil, que soprará a trombeta no Dia do Julgamento, e Azrael, o anjo da morte que recolhe as almas no momento do falecimento. Há também anjos que registram as ações de cada ser humano, chamados de kiraman katibin, os escribas honrados, que segundo o islamismo acompanham cada pessoa e escrevem em dois livros separados todas as suas boas e más ações, livros que serão apresentados no Dia do Julgamento.
A crença nas escrituras reveladas é o terceiro artigo da fé. O islamismo ensina que Deus revelou sua palavra não apenas a Maomé mas também a outros profetas antes dele: a Abraão foram revelados textos chamados de os pergaminhos de Abraão, a Moisés foi revelada a Torah, a Davi foram revelados os Salmos, chamados em árabe de Zabur, e a Jesus foi revelado o Evangelho, chamado em árabe de Injil. O islamismo reconhece todas essas escrituras como originalmente revelações divinas autênticas, mas ensina que os textos que chegaram até nós foram ao longo do tempo corrompidos ou alterados por mãos humanas, razão pela qual o Alcorão foi revelado como a revelação final e definitiva, preservada intacta na língua original de sua revelação. Essa crença na corrupção das escrituras anteriores é um dos pontos de maior controvérsia entre o islamismo e o Judaísmo e o Cristianismo, cujos seguidores naturalmente discordam dessa avaliação de seus textos sagrados.
A crença nos profetas é o quarto artigo da fé. O islamismo ensina que Deus enviou ao longo da história da humanidade uma série de profetas para guiar os seres humanos ao caminho correto. O Alcorão menciona pelo nome vinte e cinco profetas, mas a tradição islâmica fala de cento e vinte e quatro mil profetas no total, enviados a todos os povos da terra em diferentes épocas. Todos esses profetas pregaram essencialmente a mesma mensagem: a unicidade de Deus e a necessidade de submissão à sua vontade. Os mais importantes são Adão, Noé, Abraão, Moisés, Jesus e Maomé. Maomé é chamado de Khatam al-Anbiya, o selo dos profetas, o último da série, depois de quem não haverá mais revelações nem profetas. O islamismo tem grande respeito por Jesus, chamado em árabe de Isa ibn Maryam, Jesus filho de Maria, e ensina que ele nasceu de uma virgem por milagre divino, realizou milagres como curar os doentes e ressuscitar mortos, e não foi crucificado mas foi elevado por Deus ao céu, onde permanece vivo até hoje. O islamismo ensina que Jesus voltará no fim dos tempos para combater o anticristo e estabelecer a justiça na terra. A diferença fundamental entre o islamismo e o Cristianismo não está em quase nada mais do que numa coisa: o islamismo rejeita que Jesus seja Deus ou filho de Deus no sentido literal.
A crença no Dia do Julgamento é o quinto artigo da fé e ocupa um lugar de enorme destaque no Alcorão, que contém centenas de referências ao fim dos tempos, à ressurreição e ao julgamento. O islamismo ensina que este mundo terá um fim, que num momento determinado somente por Deus o anjo Israfil soprará a trombeta, toda a criação será destruída, e depois soprará novamente e todos os que morreram desde o início do mundo serão ressuscitados para comparecer diante do trono de Deus e prestar contas de suas ações durante a vida. Nesse julgamento, os livros que os anjos escribas foram preenchendo ao longo de toda a vida de cada pessoa serão apresentados, e cada ser humano receberá seu livro na mão direita, se for salvo, ou na mão esquerda e atrás das costas, se for condenado. A balança de justiça pesará o bem e o mal de cada pessoa, e o resultado determinará se ela irá ao Paraíso, chamado em árabe de Jannah, um lugar de felicidade perfeita, de jardins, de rios de água, leite e mel, de paz absoluta e da presença de Deus, ou ao Inferno, chamado em árabe de Jahannam ou al-Nar, o fogo, um lugar de sofrimento para os que rejeitaram Deus e cometeram o mal sem arrependimento. Essa crença no Dia do Julgamento tem consequências práticas profundas sobre a ética islâmica: o muçulmano age bem não apenas porque a sociedade aprova mas porque sabe que cada ação, por menor que seja, é registrada e será pesada no julgamento final.
O sexto e último artigo da fé é a crença no decreto divino, em árabe al-qadar. Essa é uma das doutrinas mais complexas do islamismo e que gerou ao longo da história debates teológicos intensos. O qadar se refere à crença de que Deus tem conhecimento completo de tudo o que aconteceu, acontece e acontecerá, e que nada ocorre no universo sem seu conhecimento e sua permissão. Deus conhece cada ação de cada pessoa antes mesmo de ela acontecer. Mas isso não significa que o ser humano não tenha liberdade nem responsabilidade: o islamismo ensina que Deus criou os seres humanos com a capacidade de escolher entre o bem e o mal, e é essa capacidade de escolha que torna o julgamento final justo. A relação entre a onisciência e a onipotência divinas e a liberdade humana é um problema filosófico com que os teólogos islâmicos, como os teólogos cristãos e judeus, lidaram ao longo de séculos sem chegar a uma solução que satisfizesse a todos, e as diferentes soluções propostas deram origem a diferentes escolas teológicas no interior do islamismo.
Um elemento importante da vida religiosa islâmica que precisa ser mencionado é o conceito de halal e haram, que significam respectivamente o permitido e o proibido. O islamismo estabelece um código detalhado de conduta que define o que é lícito e o que não é lícito em praticamente todas as esferas da vida. Em matéria alimentar, o islamismo proíbe a carne de porco e seus derivados, o sangue, os animais mortos por causas que não sejam o abate ritual, as bebidas alcoólicas e qualquer substância intoxicante. O abate de animais para consumo deve ser feito de uma forma específica, com uma incisão na garganta precedida da pronúncia do nome de Deus, produzindo o que se chama de carne halal. Além das proibições alimentares, o islamismo proíbe a usura, ou seja, cobrar juros sobre empréstimos, o jogo de azar, a mentira, o adultério, o homicídio injusto, o roubo, a falsidade e uma série de outros comportamentos. A lei islâmica, a sharia, é um sistema abrangente baseado no Alcorão e na Sunnah que os juristas islâmicos elaboraram ao longo de séculos para cobrir todas as situações imagináveis da vida humana.
A sharia é frequentemente mal entendida no Ocidente, onde é associada quase exclusivamente com punições físicas severas como o corte da mão do ladrão ou a lapidação do adúltero. Essas punições existem de fato na lei islâmica clássica e são chamadas de hudud, que significa os limites de Deus, mas são aplicáveis apenas em condições de prova extremamente rigorosas: para a lapidação por adultério, por exemplo, são necessárias quatro testemunhas que tenham presenciado diretamente o ato, condição que os próprios juristas islâmicos clássicos reconheciam como quase impossível de satisfazer na prática. A esmagadora maioria das questões que a sharia regula não tem absolutamente nada a ver com punições físicas: trata de herança, de contratos, de divórcio, de alimentos, de oração, de relações comerciais e de centenas de outras questões da vida cotidiana. As quatro principais escolas jurídicas do islamismo sunita, chamadas de madhab, são a escola Hanafi, fundada por Abu Hanifa, a escola Maliki, fundada por Malik ibn Anas, a escola Shafi’i, fundada por Muhammad al-Shafi’i, e a escola Hanbali, fundada por Ahmad ibn Hanbal. Cada uma dessas escolas tem sua metodologia específica para derivar regras jurídicas das fontes, e embora cheguem frequentemente a conclusões semelhantes, divergem em muitos detalhes importantes.
O islamismo se dividiu historicamente em duas grandes correntes principais logo após a morte do profeta Maomé, numa divisão que persiste até hoje e que tem implicações religiosas, políticas e culturais enormes. Essa divisão é entre os sunitas e os xiitas, e sua origem está numa questão de sucessão política: quem deveria liderar a comunidade muçulmana depois da morte de Maomé?
A maioria dos companheiros do profeta apoiou Abu Bakr, o amigo íntimo de Maomé e um dos primeiros convertidos, que foi eleito o primeiro califa, ou seja, o sucessor de Maomé na liderança política da comunidade. Abu Bakr foi sucedido por Umar ibn al-Khattab, depois por Uthman ibn Affan, e finalmente por Ali ibn Abi Talib, o primo e genro de Maomé. Mas uma parte da comunidade acreditava desde o início que a liderança deveria ter ido diretamente para Ali, que era não apenas parente de sangue do profeta mas também seu filho adotivo e o marido de sua filha Fátima. Esses seguidores de Ali foram chamados de Shiat Ali, os partidários de Ali, e desse nome veio a palavra xiita. Para os xiitas, os três califas que antecederam Ali eram usurpadores, e a história do islamismo primitivo é uma história de injustiça que foi corrigida tardiamente e de forma trágica quando Ali finalmente se tornou califa, mas foi assassinado depois de apenas cinco anos no poder. O filho de Ali e de Fátima, Husayn, neto de Maomé, foi massacrado junto com sua família e um pequeno grupo de seguidores na Batalha de Karbala, no atual Iraque, no ano sessenta e um da Hégira, correspondente a seiscentos e oitenta depois de Cristo. O martírio de Husayn em Karbala é o evento mais sagrado e mais carregado emocionalmente do islamismo xiita, comemorado anualmente durante o mês de Muharram na cerimônia chamada de Ashura, com procissões de luto, dramatizações da batalha e expressões de dor e de solidariedade com o sofrimento de Husayn. Hoje, os sunitas representam cerca de oitenta e cinco a oitenta e oito por cento dos muçulmanos do mundo, e os xiitas representam os doze a quinze por cento restantes, com maior presença no Irã, no Iraque, no Bahrein e no Líbano.
Dentro do islamismo existe também uma corrente espiritual e mística chamada de sufismo, cujo nome em árabe é tasawwuf. Os sufis são muçulmanos que buscam uma experiência mais íntima, mais direta e mais interior de Deus, que vai além da observância exterior dos rituais e busca uma transformação profunda do coração e da consciência. O sufismo produziu algumas das figuras intelectuais e literárias mais extraordinárias da civilização islâmica, como o poeta persa Rumi, cujo nome completo é Jalal al-Din Muhammad Rumi, que no século treze escreveu poesias de amor místico a Deus de beleza literária excepcional que continuam sendo amplamente lidas e traduzidas no mundo inteiro até hoje. Os sufis se organizam frequentemente em irmandades chamadas de tariqa, ordens sufis com seus próprios mestres, seus próprios métodos de treinamento espiritual e suas próprias tradições de recitação, de música sagrada e de contemplação.
O islamismo tem também uma visão específica sobre os não muçulmanos, especialmente sobre os judeus e os cristãos, a quem o Alcorão chama de Ahl al-Kitab, o povo do livro, em reconhecimento de que são seguidores de revelações divinas anteriores. Nas sociedades muçulmanas históricas, os membros do povo do livro eram protegidos e podiam praticar sua fé, mas pagavam um imposto especial chamado de jizya em troca dessa proteção e da isenção do serviço militar. Essa condição, chamada de dhimmi, era inferior à dos muçulmanos em termos de direitos civis e políticos, mas era radicalmente diferente da perseguição sistemática que as minorias religiosas frequentemente sofriam em outros contextos históricos, e durante séculos as comunidades judaicas e cristãs viveram e floresceram no interior de impérios islâmicos com um grau de tolerância que era incomum no mundo pré-moderno.
Compreender os pilares do islamismo, suas doutrinas fundamentais e suas práticas cotidianas é essencial para entender a história do mundo nos últimos catorze séculos. Quando olhamos para a expansão do islamismo, para a criação do Califado, para as cruzadas, para a civilização islâmica de Bagdá e de Córdoba, para o Império Otomano, para o mundo árabe contemporâneo e para a presença muçulmana em praticamente todos os países do mundo, estamos olhando para consequências diretas e indiretas dessas crenças e dessas práticas que uma comunidade de algumas centenas de pessoas começou a viver em Meca e em Medina no século sete depois de Cristo. O islamismo não é uma realidade distante ou exótica: está presente na língua portuguesa, nas palavras de origem árabe que usamos todos os dias, nas tradições culturais do mundo que o tráfico de pessoas escravizadas trouxe para o Brasil, nos algarismos que usamos para fazer qualquer conta, nos nomes de estrelas do céu que astrônomos árabes catalogaram séculos antes dos europeus. Entender o islamismo é entender uma parte fundamental do que nós mesmos somos como civilização.
Como fazer referência ao conteúdo:
| Dados de Catalogação na Publicação: NORAT, Markus Samuel Leite. Curso de história para o 1º ano do ensino médio. João Pessoa: Editora Norat, 2026. Livro Digital, Formato: HTML5, Tamanho: 132,4125 gigabytes (132.412.500 kbytes) . ISBN: 978-65-80808-16-8 | Cutter: N825c | CDD-907.12 | CDU-94(100)”-04/17″:373.5 . Palavras-chave: História, Ensino Médio, Pré-História, Civilizações Antigas, Mesopotâmia, Egito Antigo, Grécia Antiga, Roma Antiga, África Antiga, Reinos Africanos, Mundo Árabe-Muçulmano, Idade Média, Feudalismo, Antigo Regime, Monarquias Absolutistas, Renascimento, Humanismo, ENEM, Vestibulares. . TODOS OS DIREITOS RESERVADOS. É proibida a cópia total ou parcial desta obra, por qualquer forma ou qualquer meio. A violação dos direitos autorais é crime tipificado na Lei n. 9.610/98 e artigo 184 do Código Penal. |
