Curso de História para o 1º Ano do Ensino Médio
MÓDULO 10 – A FORMAÇÃO DA EUROPA MEDIEVAL
Aula 112 – Clóvis e os francos: a formação do reino franco
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| Dados de Catalogação na Publicação: NORAT, Markus Samuel Leite. Curso de história para o 1º ano do ensino médio. João Pessoa: Editora Norat, 2026. Livro Digital, Formato: HTML5, Tamanho: 132,4125 gigabytes (132.412.500 kbytes) . ISBN: 978-65-80808-16-8 | Cutter: N825c | CDD-907.12 | CDU-94(100)”-04/17″:373.5 . Palavras-chave: História, Ensino Médio, Pré-História, Civilizações Antigas, Mesopotâmia, Egito Antigo, Grécia Antiga, Roma Antiga, África Antiga, Reinos Africanos, Mundo Árabe-Muçulmano, Idade Média, Feudalismo, Antigo Regime, Monarquias Absolutistas, Renascimento, Humanismo, ENEM, Vestibulares. . TODOS OS DIREITOS RESERVADOS. É proibida a cópia total ou parcial desta obra, por qualquer forma ou qualquer meio. A violação dos direitos autorais é crime tipificado na Lei n. 9.610/98 e artigo 184 do Código Penal. |
Aula 112 – Clóvis e os francos: a formação do reino franco
Para entender a Europa medieval, é preciso entender os francos. E para entender os francos, é preciso começar por um ponto que muitas pessoas não imaginam: ao contrário de vários outros povos germânicos que percorreram longas distâncias antes de se estabelecer dentro do Império Romano, os francos estavam relativamente perto de seus territórios de origem quando começaram a construir o que se tornaria o reino mais poderoso da Europa ocidental. Eles não vieram de muito longe. Habitavam há séculos as regiões do atual noroeste da Alemanha, da Holanda e da Bélgica, às margens do Rio Reno, que era a grande fronteira norte do Império Romano. Eram, portanto, vizinhos antigos de Roma, não invasores vindos do fim do mundo. Essa proximidade com o mundo romano desde muito cedo influenciou profundamente os francos, e quando chegou o momento de expandirem seu poder para o interior da Gália, eles o fizeram com um conhecimento da realidade romana muito maior do que outros povos germânicos possuíam.
Os francos não eram um único povo unificado com um único rei. Eram uma confederação de tribos de origem germânica que compartilhavam língua, costumes e tradições mas que eram lideradas por diferentes chefes em diferentes regiões. Isso é muito importante de entender, porque um dos maiores feitos de Clóvis foi exatamente unificar essas tribos dispersas sob um único comando, transformando o que era uma confederação fragmentada num reino coeso e poderoso. Sem essa unificação, os francos provavelmente teriam permanecido como mais um dentre os muitos grupos germânicos que habitavam as bordas do mundo romano sem conseguir criar um poder duradouro.
Os historiadores medievais dividiram os francos em dois grandes grupos principais: os francos sálios, que viviam mais ao norte e ao oeste, nas regiões próximas ao Mar do Norte, e os francos ripuários, que viviam mais ao leste, ao longo das margens do Reno. Quando falamos dos francos que construíram o reino franco, estamos falando principalmente dos francos sálios, que foram o núcleo em torno do qual a unificação se deu. E foi de entre os francos sálios que surgiu a linhagem que governaria os francos por mais de dois séculos: a dinastia merovíngia, cujo nome vem de um ancestral lendário chamado Meroveu, sobre o qual pouco se sabe com certeza, mas que os francos celebravam como o fundador mítico de sua linhagem real.
Antes de Clóvis, o mais importante rei merovíngio foi seu pai, Childerico I, que morreu por volta de quatrocentos e oitenta e um. Childerico é uma figura histórica de grande interesse porque sua vida já demonstra o processo de fusão entre o mundo germânico e o mundo romano que seria levado muito mais longe por seu filho. Childerico lutou como aliado de generais romanos contra outros grupos germânicos que ameaçavam a Gália, foi exilado por seus próprios guerreiros em algum momento de seu reinado por razões que as fontes não esclarecem completamente, viveu na corte do rei dos turíngios durante esse exílio e depois retornou para reconquistar seu posto. Sua tumba foi descoberta acidentalmente em seiscentos e cinquenta e três em Tournai, no atual território da Bélgica, e revelou uma mistura riquíssima de objetos: joias e ornamentos de tradição germânica, mas também objetos de clara influência romana, incluindo moedas de ouro, um anel signatário gravado com a inscrição em latim Childerici Regis, que significa do rei Childerico, e uma estátua equestre em miniatura. Esse conjunto de objetos é um exemplo material perfeito de como os reis francos já circulavam entre os dois mundos antes mesmo de Clóvis.
Quando Childerico morreu, por volta de quatrocentos e oitenta e um, seu filho Clóvis tinha em torno de quinze anos de idade e assumiu o controle do território paterno, que era relativamente pequeno: abrangia uma faixa de terra ao norte do Rio Soma, na região da atual Bélgica e do nordeste da França. Ninguém que observasse esse jovem chefe num território limitado poderia imaginar que em apenas três décadas ele controlaria a maior parte do que hoje é a França e a Alemanha ocidental. Mas Clóvis revelou-se um líder de capacidades excepcionais, combinando habilidade militar, inteligência política e uma compreensão notável de como usar a religião como instrumento de poder.
A primeira grande campanha de Clóvis foi contra Siagrio, um nome que merece atenção especial. Siagrio era o filho de um general romano chamado Égidio, e depois da morte de seu pai havia mantido no norte da Gália um domínio romano residual, um pedaço do antigo Império Romano que continuava a existir isolado, sem ligação com o Império do Oriente, sem ligação com Roma, mas que ainda funcionava com uma administração de estilo romano, com leis romanas e com uma população que se identificava como romana. Os habitantes desse domínio chamavam Siagrio de rei dos romanos, embora ele provavelmente não usasse esse título oficialmente. Esse domínio, com capital em Soissons, era o último resquício do poder romano no noroeste da Gália.
Em quatrocentos e oitenta e seis, Clóvis atacou Siagrio com seus guerreiros francos. Siagrio foi derrotado em batalha e fugiu para se refugiar com o rei dos visigodos, Alarico II, no sudoeste da Gália. Clóvis mandou uma mensagem ameaçando os visigodos de guerra se não entregassem o fugitivo, e os visigodos, não querendo um conflito com os francos naquele momento, cederam e entregaram Siagrio. Clóvis o mandou executar. Com a queda de Siagrio e a conquista de Soissons, o domínio romano residual do norte da Gália foi absorvido pelo reino franco. Clóvis tinha em torno de vinte anos e já havia dobrado ou triplicado o tamanho de seu território.
A conquista do domínio de Siagrio foi importante não apenas pelo território ganho, mas também pelo que revelou sobre a estratégia política de Clóvis. Ao contrário do que poderíamos esperar, Clóvis não tratou a população romano-cristã da região como povo conquistado a ser espoliado. Ao contrário, tratou-a com respeito e manteve muito da estrutura administrativa romana que já existia. Uma história famosa preservada por Gregório de Tours, bispo e historiador que escreveu sobre esse período algumas décadas depois, conta o episódio do vaso de Soissons: após a conquista da cidade, quando o butim estava sendo dividido entre os guerreiros francos, Clóvis pediu que fosse separado para ele um vaso litúrgico precioso que havia sido tomado de uma Igreja e que o bispo de Reims havia pedido de volta. Um guerreiro franco, furioso por não querer que o chefe recebesse uma parte maior do butim do que a que lhe cabia pelas regras da repartição, destruiu o vaso com sua lança. Clóvis não reagiu imediatamente. Mas um ano depois, numa revista militar, Clóvis identificou aquele mesmo guerreiro, pegou suas armas e as jogou no chão, e quando o homem se abaixou para apanhar as armas, Clóvis o matou com sua própria lança, dizendo que era exatamente assim que ele havia tratado o vaso de Soissons.
Essa história, seja completamente verdadeira ou parcialmente lendária, revela algo muito importante sobre Clóvis: sua consciência de que a aliança com a Igreja cristã era fundamental para seu projeto político, e sua disposição de exercer autoridade firme mesmo contra seus próprios guerreiros quando necessário para manter essa aliança. Um rei que respeita os bens da Igreja, que pune quem os desrespeita e que corresponde às expectativas dos bispos cristãos é um rei que pode contar com o apoio da Igreja. E o apoio da Igreja significava o apoio moral, administrativo e político sobre a população romano-cristã que havia de compor a maioria dos súditos de qualquer rei que governasse a Gália.
Antes de falar da conversão de Clóvis, precisamos entender mais um pouco o contexto religioso. Os francos, como a maioria dos povos germânicos que ainda não haviam passado por contato intenso com o mundo romano, eram politeístas: adoravam um panteão de deuses germânicos, muitos dos quais compartilhavam características com os deuses nórdicos conhecidos por nomes como Odin e Thor em tradições escandinavas posteriores. Ao contrário dos visigodos, dos ostrogodos, dos vândalos e dos burgúndios, que haviam se convertido ao Arianismo, uma forma de Cristianismo que considerava Jesus como uma criatura de Deus e não como igual a Deus, os francos ainda eram pagãos politeístas quando Clóvis chegou ao poder. Isso é muito importante, porque significava que Clóvis, ao contrário dos outros reis germânicos, não tinha uma posição religiosa prévia que o colocasse em conflito com o Catolicismo romano.
A esposa de Clóvis, Clotilde, era uma princesa burgúndia que havia sido criada no Catolicismo, não no Arianismo que era a religião oficial de seu povo. Clotilde pediu a Clóvis que seu filho fosse batizado, ao que ele concordou, mas o filho morreu pouco depois do batismo, o que Clóvis interpretou como um mau presságio. Um segundo filho também adoeceu gravemente após o batismo mas sobreviveu. Segundo a tradição, Clóvis foi gradualmente sendo influenciado pela fé de Clotilde, que constantemente intercedia com ele para que se convertesse.
O evento que os relatos tradicionais apresentam como o ponto de virada foi uma batalha. A data exata é incerta, mas aconteceu em algum momento entre quatrocentos e noventa e seis e quinhentos e um: os alamanos, um povo germânico que habitava as regiões do atual sudoeste da Alemanha e norte da Suíça, invadiram o território dos francos ripuários, parentes e aliados de Clóvis. Clóvis marchou para enfrentá-los na batalha que ficou conhecida como Batalha de Tolbiac, cujo local exato também é debatido pelos historiadores mas que se situava provavelmente nas proximidades da atual cidade alemã de Colônia. A batalha correu mal para os francos num primeiro momento, e segundo a narrativa de Gregório de Tours, que foi escrita décadas depois e que combina informações históricas com elementos hagiográficos típicos das histórias de santos e de heróis cristãos, Clóvis, vendo seus guerreiros recuarem, invocou o Deus de Clotilde e prometeu que se saísse vitorioso se converteria ao Cristianismo. Os francos então reverteram o resultado da batalha e venceram os alamanos.
Independentemente de quanto dessa narrativa é factualmente preciso e quanto é o resultado da reconstituição posterior que buscava moldar a conversão de Clóvis em termos heroicos e providenciais, o fato histórico é que Clóvis foi batizado pelo bispo Remígio de Reims, provavelmente na véspera do Natal de quatrocentos e noventa e seis, embora alguns historiadores defendam datas ligeiramente diferentes. O relato diz que junto com Clóvis foram batizados naquele dia mais de três mil guerreiros francos, um número que pode ser simbólico mais do que preciso, mas que indica que a conversão não foi apenas pessoal: foi uma conversão da elite guerreira franca, que seguiu seu rei no batismo como seguia em tudo o mais.
Para entender a enorme importância histórica desse evento, é preciso notar o que o distinguia das conversões dos outros reis germânicos: Clóvis não se converteu ao Arianismo, como os visigodos, ostrogodos, vândalos e burgúndios haviam feito. Converteu-se ao Catolicismo romano, a mesma forma de Cristianismo defendida pelo Papa de Roma e professada pela esmagadora maioria da população romano-cristã da Gália. Isso é fundamental. Os outros reis germânicos que governavam regiões do antigo Ocidente romano tinham uma barreira religiosa entre eles e suas populações: o rei era ariano, o povo era católico, e os bispos católicos eram desconfiados ou mesmo hostis ao poder de um rei cuja fé eles consideravam herética. Clóvis, ao se tornar católico, eliminou essa barreira de um só golpe. Os bispos católicos da Gália passaram a vê-lo não como um invasor herético mas como um defensor da fé verdadeira, como um rei escolhido por Deus para governar e proteger a Igreja.
O bispo Remígio de Reims, que batizou Clóvis, teria lhe dito no momento do batismo que curvasse o pescoço, pois o que ele havia adorado deveria ser queimado e o que havia queimado deveria ser adorado. Essa frase, que resume dramaticamente a ruptura com o passado pagão e a adoção do Cristianismo, foi preservada pela tradição e se tornou um dos momentos simbólicos mais celebrados da história medieval francesa. A cidade de Reims, onde Clóvis foi batizado, tornou-se por essa razão o lugar sagrado da monarquia francesa: durante toda a Idade Média e até o fim do Antigo Regime, os reis da França eram coroados e ungidos em Reims, num ritual que remetia simbolicamente ao batismo de Clóvis e que afirmava a ligação especial dos reis francos com Deus e com a Igreja.
As consequências políticas imediatas da conversão de Clóvis foram enormes. A Igreja Católica da Gália, que tinha enorme influência sobre as populações locais e controlava vastas propriedades e recursos, passou a apoiar ativamente a expansão do poder franco. Os bispos correspondiam-se com Clóvis, aconselhavam-no, legitimavam suas campanhas militares e usavam sua autoridade moral para facilitar a submissão das populações locais. Ao mesmo tempo, o próprio papa expressou apoio a Clóvis, e o imperador de Constantinopla, Anastácio I, enviou ao rei franco os títulos honoríficos de cônsul e de patricius, que eram os títulos da aristocracia imperial romana mais alta. Clóvis foi celebrado publicamente com esses títulos em Tours, vestindo as roupas imperiais e sendo aclamado pela multidão, numa cerimônia que o apresentava diante de seus súditos romano-cristãos como um governante com legitimidade imperial, não apenas como um chefe de guerra germânico.
Com essa legitimação religiosa e simbólica consolidada, Clóvis passou à fase seguinte de sua expansão: a luta contra os reinos germânicos arianos que dominavam outras partes da Gália. Em quinhentos e um, ajudou seu sogro burgúndio Gundobaldo numa guerra de sucessão interna, estabelecendo influência sobre parte do território burgúndio. Mas a campanha mais importante foi a que empreendeu contra os visigodos.
O Reino Visigótico, com capital em Tolosa, no sudoeste da Gália, era o mais poderoso dos reinos germânicos na região naquele momento. Seu rei, Alarico II, governava sobre um vasto território que abrangia o sudoeste da Gália e a maior parte da Península Ibérica. A tensão entre os francos e os visigodos vinha crescendo há anos, alimentada por conflitos de fronteira, pelo apoio que Alarico havia temporariamente dado a Siagrio depois de sua derrota, e pela diferença religiosa: Clóvis, católico, e Alarico, ariano. Os bispos católicos do sudoeste da Gália viviam sob o governo de um rei ariano e ansiavam por um governante de sua própria fé.
Clóvis apresentou sua campanha contra os visigodos em termos explicitamente religiosos, declarando que não suportava ver arianos possuírem parte da Gália e que Deus o ajudaria a expulsá-los. Essa linguagem religiosa era ao mesmo tempo uma convicção genuína e uma hábil jogada política: transformava uma guerra de expansão territorial numa guerra santa, numa missão de purificação da Gália do erro herético, e garantia o apoio entusiasmado do clero católico e da população romano-cristã do sudoeste.
A batalha decisiva contra os visigodos aconteceu em quinhentos e sete, em Vouillé, perto da atual cidade de Poitiers, no centro-oeste da França. Os francos venceram de forma esmagadora, e Alarico II morreu no combate, possivelmente morto pelo próprio Clóvis segundo algumas fontes. Com a derrota de Vouillé, o Reino Visigótico foi expulso de quase toda a Gália: restou-lhe apenas uma pequena faixa de território no extremo sul, próxima ao Mar Mediterrâneo, chamada de Septimânia, e suas posses na Península Ibérica, onde o centro de gravidade do reino visigótico se transferiu para sempre. A maior parte do sudoeste da Gália, incluindo regiões ricas como a Aquitânia e a Provença, foi integrada ao reino franco.
Mas Clóvis não parou por aí. Nos anos seguintes, voltou sua atenção para a unificação das tribos francas que ainda estavam sob o controle de outros chefes merovíngios, parentes seus que governavam diferentes regiões. Clóvis utilizou uma combinação de meios para eliminar esses rivais: às vezes a guerra aberta, às vezes a diplomacia, às vezes a traição. Fez com que chefes francos rivais fossem assassinados por seus próprios filhos ou parentes, que ele depois eliminava também. Fez guerras contra outros chefes que se recusavam a submeter-se. Ao final desse processo de consolidação, por volta de quinhentos e onze, quando Clóvis morreu, não havia mais nenhum outro chefe merovíngio independente: todos os que não haviam sido subjugados pela força estavam mortos.
É importante não romantizar esse processo. Clóvis foi um governante extremamente eficaz, mas também extremamente implacável com seus rivais. Gregório de Tours relata que o próprio Clóvis, em algum momento depois de ter eliminado todos os chefes francos rivais, lamentou em voz alta em meio a seus seguidores que havia ficado sozinho, sem parentes que pudessem ajudá-lo nos momentos de necessidade. Gregório comenta que Clóvis disse isso não por sentimento genuíno de solidão, mas esperando encontrar mais parentes ainda vivos que pudesse eliminar. Se essa interpretação de Gregório é precisa, mostra um líder completamente frio e calculista em seu exercício do poder.
No mesmo período da expansão territorial, Clóvis também organizou a administração de seu reino de maneiras que revelam a profunda influência romana em seu pensamento político. Manteve muito da estrutura administrativa romana que encontrou nas regiões conquistadas, continuando a utilizar as antigas circunscrições territoriais romanas chamadas de pagi como base da organização local e nomeando para administrá-las funcionários chamados de condes, um título de origem latina que significa companheiro ou associado, os quais acumulavam funções militares, judiciais e fiscais. Esses condes eram responsáveis por coletar os impostos, julgar os conflitos locais, recrutar guerreiros quando necessário e manter a ordem nas regiões sob seu controle.
A capital do reino franco foi estabelecida em Paris, uma cidade que os romanos haviam chamado de Lutetia Parisiorum, que em latim significa cidade dos parisii, referindo-se ao povo gaulês que habitava a ilha no meio do Rio Sena onde a cidade havia crescido. Clóvis escolheu Paris como sua base principal provavelmente por razões estratégicas: a cidade estava no coração geográfico do território franco e era protegida pelo Rio Sena. Lá ele construiu uma basílica em honra aos Apóstolos Pedro e Paulo, onde foi enterrado junto com sua esposa Clotilde, e que se tornaria depois a Igreja de Santa Genoveva, padroeira de Paris.
Outro feito importantíssimo de Clóvis foi a promulgação de um código legal escrito para os francos, conhecido como Lei Sálica, cujo nome em latim é Lex Salica. Esse código foi compilado provavelmente nos últimos anos do reinado de Clóvis, por volta de quinhentos e um a quinhentos e seis, em latim, embora incluísse também alguns termos em língua franca para designar realidades que não tinham equivalente em latim. A Lei Sálica codificou por escrito os costumes e as práticas legais que os francos seguiam oralmente até então, estabelecendo as penalidades para uma longa lista de crimes e conflitos, com o sistema de compensações monetárias chamado de wergeld que mencionamos na aula anterior, segundo o qual matar alguém ou causar dano físico a alguém era punido com o pagamento de uma soma em dinheiro para a vítima ou para sua família, soma essa que variava conforme a condição social da pessoa afetada.
A Lei Sálica é um documento histórico de enorme importância, não apenas como registro das práticas legais francas do período, mas também porque uma de suas cláusulas estabelecia que as mulheres não podiam herdar terras. Essa cláusula, originalmente pensada apenas em relação à herança de terras entre famílias francas, seria invocada séculos depois, já na França medieval avançada, para argumentar que mulheres também não podiam herdar o trono da França, o que influenciou profundamente a história francesa durante a Idade Média tardia, especialmente durante a Guerra dos Cem Anos, quando a questão da sucessão ao trono e o papel que uma mulher ou o filho de uma mulher poderia desempenhar nela tornou-se central para o conflito entre França e Inglaterra.
Clóvis morreu em quinhentos e onze, em Paris, provavelmente com em torno de quarenta e cinco anos de idade. Foi enterrado na basílica que havia construído. Seu reino era o maior e mais poderoso de toda a Europa ocidental no momento de sua morte, abrangendo a maior parte do que hoje é a França, a Bélgica, os Países Baixos e partes da Alemanha ocidental.
Mas aqui surgiu um problema que seria recorrente ao longo de toda a história dos reinos germânicos e que é fundamental para entender o que aconteceu depois de Clóvis: a questão da sucessão. Na tradição germânica, o reino não era uma entidade abstrata que pertencia ao estado ou à nação: era considerado propriedade pessoal do rei e de sua família, assim como uma fazenda era propriedade de um camponês. E assim como um camponês que morria dividia sua fazenda entre seus filhos, o rei que morria dividia seu reino entre seus filhos. Clóvis tinha quatro filhos no momento de sua morte, e o reino foi dividido entre os quatro: Teodorico recebeu as regiões orientais, com capital em Reims; Clodômero recebeu a região do Loire, com capital em Orléans; Childeberto recebeu as regiões do noroeste, com capital em Paris; e Clotário recebeu as regiões setentrionais, com capital em Soissons.
Essa divisão transformou o reino franco unificado por Clóvis em quatro reinos separados que passaram a competir entre si. Ao longo das décadas seguintes, esses quatro reinos se envolveram em guerras, traições, assassinatos e reunificações temporárias que tornam a história dos merovíngios posteriores extraordinariamente complexa e violenta. Clodômero morreu numa batalha em quinhentos e vinte e quatro, e seus filhos foram assassinados por seus tios Childeberto e Clotário para que não precisassem dividir o território do reino de Orléans com eles. Clotário acabou sobrevivendo a todos os seus irmãos e reunificando temporariamente o reino em quinhentos e cinquenta e oito, antes de morrer em quinhentos e sessenta e um, quando o processo de divisão se repetiu entre seus próprios filhos.
Esse ciclo de divisão, guerra, reunificação e nova divisão repetiria-se ao longo de toda a história da dinastia merovíngia. A instabilidade que ele gerava era enorme, mas o reino franco sobreviveu a ela por séculos porque tinha recursos territoriais e humanos suficientes para absorver os danos que as guerras internas causavam. O que essa instabilidade criou, porém, foi uma progressiva transferência de poder efetivo dos reis para os grandes aristocratas que os serviam, e especialmente para os administradores-chefes dos palácios reais.
O cargo mais poderoso dentro do governo franco era o de maior do palácio, em latim maior domus ou maior palatii, que literalmente significa o maior da casa ou o maior do palácio. O maior do palácio era originalmente o administrador-chefe da residência e dos bens do rei, responsável por supervisionar toda a estrutura doméstica e administrativa da corte real. Mas à medida que os reis merovíngios do período posterior foram se tornando progressivamente mais fracos, seja por morte prematura que deixava o trono nas mãos de crianças, seja por incompetência pessoal, seja pelas divisões internas do reino que enfraqueciam cada ramo da família real, o maior do palácio foi assumindo funções cada vez mais amplas.
Nos séculos seis e sete, os maiores do palácio transformaram-se nos verdadeiros governantes do reino franco, enquanto os reis merovíngios se tornavam figuras cada vez mais decorativas. Os historiadores medievais chamaram esses reis tardios de reges criniti, que significa reis cabeludos, uma referência ao cabelo longo que os merovíngios usavam como símbolo de sua realeza, e depois as fontes posteriores os chamaram, de forma irônica, de reis preguiçosos. Mas o declínio dos reis merovíngios não foi simplesmente preguiça ou incompetência: foi o resultado de estruturas políticas que concentravam o poder real nas terras e nos homens que o rei conseguia reunir pessoalmente, e quando essas terras foram sendo doadas à Igreja e à aristocracia para comprar lealdade, os reis foram ficando cada vez mais dependentes de seus administradores.
A família que mais se destacou no cargo de maior do palácio foi a que os historiadores modernos chamam de carolíngios, por causa de seu membro mais famoso, Carlos Magno, que viveria no século oito. O avô de Carlos Magno, Pepino de Herstal, tornou-se maior do palácio de todo o reino franco em seiscentos e oitenta e sete após a Batalha de Tertry, em que derrotou os outros aristocratas rivais. Seu filho Carlos Martel, cujo nome em francês antigo significa Carlos Martelo, consolidou ainda mais o poder da família ao derrotar os muçulmanos que haviam cruzado os Pireneus na Batalha de Poitiers em setecentos e trinta e dois, uma vitória que lhe valeu enorme prestígio na cristandade ocidental. E o filho de Carlos Martel, Pepino III, foi aquele que finalmente deu o passo que todos sabiam que seria inevitável: em setecentos e cinquenta e um, com o apoio do Papa, depôs o último rei merovíngio, Childerico III, mandou-o para um mosteiro, e assumiu formalmente o trono do reino franco, fundando a dinastia carolíngia que estudaremos nas próximas aulas.
O ciclo que se fechou com Pepino III havia sido aberto por Clóvis dois séculos e meio antes. Para compreender por que os carolíngios puderam chegar ao trono com a bênção papal e a aceitação dos aristocratas francos, é preciso entender como a aliança entre o reino franco e a Igreja, iniciada por Clóvis, havia se aprofundado ao longo de todas essas décadas. A Igreja tornou-se o principal parceiro ideológico e administrativo do reino franco: seus bispos eram os funcionários mais letrados e os administradores mais capazes do período; seus mosteiros eram os centros de ensino e de preservação cultural; e o Papa de Roma tinha uma influência crescente sobre toda a cristandade ocidental, influência que qualquer rei precisava levar em conta.
Quando Pepino III quis substituir os merovíngios pelos carolíngios no trono franco, teve o bom senso de perguntar primeiro ao Papa se era legítimo que um homem fosse rei de facto enquanto outro homem levava o nome de rei sem exercer nenhum poder real. O Papa Zacarias respondeu que era melhor que quem detivesse o poder também tivesse o título. Com essa bênção papal, a transição de dinastia foi apresentada não como uma simples usurpação mas como a concretização de uma ordem providencial, e o novo rei Pepino foi ungido pelos bispos num ritual que remetia ao batismo de Clóvis e que afirmava que também ele governava com a aprovação de Deus.
Toda essa história só foi possível porque Clóvis havia criado as bases da parceria franco-eclesiástica dois séculos e meio antes. A conversão ao Catolicismo não foi apenas uma decisão religiosa pessoal: foi o ato fundador de uma aliança política que moldaria toda a história da Europa medieval. Sem Clóvis e sua conversão, não há aliança franca-papal. Sem essa aliança, não há a dinâmica que levaria à deposição dos merovíngios e à ascensão dos carolíngios com bênção pontifical. E sem Carlos Magno, coroado imperador pelo Papa em Roma no Natal do ano oitocentos, a história política da Europa ocidental seria profundamente diferente. Tudo começa, em algum sentido, com aquele batismo em Reims que aconteceu provavelmente numa noite fria de dezembro de quatrocentos e noventa e seis, quando um jovem rei fraco pagão se converteu ao Deus de sua esposa e mudou o rumo da história.
Para os alunos que estão se preparando para o ENEM e os vestibulares, o tema dos francos e de Clóvis aparece com frequência em questões sobre a formação da Europa medieval, sobre as relações entre poder político e religião na Idade Média, sobre o papel da Igreja na organização social do período e sobre as origens do feudalismo. É muito importante saber distinguir os francos dos outros povos germânicos, especialmente em relação à questão religiosa: a diferença entre o Catolicismo dos francos e o Arianismo dos visigodos e dos outros reinos germânicos é um tema recorrente em provas. Também são importantes as consequências políticas da conversão de Clóvis, a aliança entre o reino franco e a Igreja, a Lei Sálica como exemplo de código legal germânico e o processo de divisão do reino entre os herdeiros que foi uma causa importante do enfraquecimento dos reis merovíngios.
Questões que pedem para o aluno identificar elementos de continuidade romana no período medieval frequentemente fazem referência à utilização do latim, à manutenção das estruturas administrativas romanas, à influência do direito romano nas leis bárbaras e ao papel da Igreja como guardiã da cultura clássica. Os francos oferecem exemplos concretos de todos esses elementos, o que os torna um estudo de caso especialmente útil para compreender o período de transição entre a Antiguidade e a Idade Média.
O que fica ao final desta aula é a compreensão de que o reino franco não foi apenas mais um entre os muitos reinos germânicos que surgiram nas ruínas do Império Romano do Ocidente. Foi o reino que sobreviveu, que cresceu, que unificou uma parte decisiva da Europa, e que criou as estruturas políticas, religiosas e culturais sobre as quais o resto da história medieval europeia foi construído. Clóvis foi o homem que deu a esse reino sua forma inicial, sua direção política e sua identidade religiosa. Não foi um homem simples nem um homem suave: foi um político implacável, um guerreiro determinado e um estrategista inteligente que soube combinar a tradição guerreira de seu povo com o pragmatismo da aliança com a Igreja para construir algo maior do que qualquer chefe franco havia conseguido antes. E o que ele construiu resistiu ao tempo, transformou-se, passou de mão em mão e de geração em geração, e tornou-se, séculos depois, a França e a Alemanha que hoje conhecemos.
