Curso de História para o 1º Ano do Ensino Médio
MÓDULO 10 – A FORMAÇÃO DA EUROPA MEDIEVAL
Aula 110 – A queda do Império Romano e os povos germânicos
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| Dados de Catalogação na Publicação: NORAT, Markus Samuel Leite. Curso de história para o 1º ano do ensino médio. João Pessoa: Editora Norat, 2026. Livro Digital, Formato: HTML5, Tamanho: 132,4125 gigabytes (132.412.500 kbytes) . ISBN: 978-65-80808-16-8 | Cutter: N825c | CDD-907.12 | CDU-94(100)”-04/17″:373.5 . Palavras-chave: História, Ensino Médio, Pré-História, Civilizações Antigas, Mesopotâmia, Egito Antigo, Grécia Antiga, Roma Antiga, África Antiga, Reinos Africanos, Mundo Árabe-Muçulmano, Idade Média, Feudalismo, Antigo Regime, Monarquias Absolutistas, Renascimento, Humanismo, ENEM, Vestibulares. . TODOS OS DIREITOS RESERVADOS. É proibida a cópia total ou parcial desta obra, por qualquer forma ou qualquer meio. A violação dos direitos autorais é crime tipificado na Lei n. 9.610/98 e artigo 184 do Código Penal. |
Aula 110 – A queda do Império Romano e os povos germânicos
Para entender o que aconteceu com o Império Romano, um dos maiores e mais poderosos que o mundo já conheceu, precisamos começar por uma pergunta que estudiosos debatem há séculos: como um império que durou quase mil anos, que construiu estradas por toda a Europa, que produziu grandes filósofos, juristas e engenheiros, que criou um sistema de leis que influencia o mundo até hoje, simplesmente deixou de existir? A resposta não é simples, porque não há uma única causa para um evento tão grande. A queda do Império Romano do Ocidente, que os historiadores convencionalmente marcam no ano de quatrocentos e setenta e seis depois de Cristo, foi o resultado de um processo longo, complexo e gradual, que envolveu crises internas, pressões externas e transformações profundas que redefiniram o mapa político, cultural e social de toda a Europa. E no centro desse processo estão os povos germânicos, que durante séculos foram vizinhos dos romanos, depois se tornaram aliados e por fim desempenharam o papel central no colapso do poder romano no Ocidente. É sobre tudo isso que vamos falar nesta aula.
Antes de tratar da queda em si, precisamos entender quem eram os romanos no momento em que o império começou a entrar em colapso, porque o Império Romano do século quarto era muito diferente do da época de Augusto ou de Júlio César. O apogeu do Império Romano pode ser situado no período entre os séculos primeiro e segundo depois de Cristo, especialmente durante o que o historiador inglês Edward Gibbon chamou de a era dos cinco bons imperadores: Nerva, Trajano, Adriano, Antonino Pio e Marco Aurélio, que governaram de noventa e seis a cento e oitenta depois de Cristo. Nesse período, o império atingiu sua maior extensão territorial, sua maior prosperidade econômica e um nível de estabilidade política que raramente havia conhecido. Desde o mar da Bretanha, no que hoje é o norte da Inglaterra, até as margens do Rio Eufrates no Oriente Médio, desde o deserto do Saara no norte da África até o Rio Reno e o Rio Danúbio na Europa central, o poder de Roma se estendia sobre um território de quase cinco milhões de quilômetros quadrados, habitado por talvez sessenta a setenta milhões de pessoas.
Mas já no final do século segundo e ao longo de todo o século terceiro, o império começou a dar sinais claros de crise. O período que vai do ano duzentos e trinta e cinco ao ano duzentos e oitenta e quatro é chamado pelos historiadores de Crise do Século Terceiro, e foi um período de instabilidade política extraordinária. Em cinquenta anos, o Império Romano teve mais de cinquenta imperadores diferentes, e a grande maioria morreu de forma violenta, assassinada por seus próprios soldados ou por rivais que tentavam tomar o poder. Essa instabilidade política refletia um problema estrutural que o Império Romano nunca havia resolvido de forma satisfatória: não existia um mecanismo claro e aceito por todos para a sucessão do poder imperial. Quando um imperador morria ou era derrubado, qualquer general com um exército suficientemente leal podia se proclamar imperador, e de fato muitos fizeram exatamente isso. O resultado era uma série interminável de guerras civis que enfraqueciam o exército, destruíam a produção econômica e impediam qualquer planejamento de longo prazo.
Ao mesmo tempo, o sistema econômico do império estava entrando em colapso. A economia romana dependia muito da escravidão, e a fonte principal de escravos era a guerra e a conquista de novos territórios. Quando o império parou de expandir e passou a se defender, o fluxo de novos escravos diminuiu, e com ele a produtividade das grandes propriedades agrícolas que eram a base da economia. O comércio, que havia conectado todas as partes do império num sistema de trocas muito lucrativo, foi perturbado pelas guerras civis e pelas invasões externas que começaram a pressionar as fronteiras. A inflação cresceu de forma descontrolada à medida que os imperadores mandavam cunhar moedas cada vez mais desvalorizadas para pagar seus soldados. A carga de impostos sobre os camponeses e os pequenos proprietários aumentou a ponto de arruinar muitos deles.
As epidemias também desempenharam um papel importante no enfraquecimento do Império Romano. Entre os anos cento e sessenta e cinco e cento e oitenta, uma grande epidemia que os historiadores chamam de Peste Antonina, provavelmente varíola, matou talvez cinco milhões de pessoas no império. Entre duzentos e cinquenta e duzentos e sessenta e dois, outra epidemia ainda mais devastadora, conhecida como Peste de Cipriano, matou talvez um terço da população do império. Quando um quinto ou um terço da população de uma região morre em poucos anos, o impacto sobre a agricultura, o comércio, o exército e o aparato administrativo é catastrófico. As epidemias do século terceiro enfraqueceram o império de formas que vão muito além do simples número de mortos.
O imperador Diocleciano, que governou de duzentos e oitenta e quatro a trezentos e cinco, tentou salvar o império através de uma série de reformas radicais. Reconhecendo que o território era simplesmente grande demais para ser governado por um único homem, ele criou o sistema chamado de Tetrarquia, que em grego significa governo dos quatro, dividindo o império em duas partes, ocidental e oriental, cada uma governada por um imperador sênior chamado augusto e um imperador júnior chamado césar. Diocleciano também reorganizou o exército, a administração e o sistema fiscal, e tentou controlar a inflação através de um famoso Édito de Preços Máximos, que fixava limites para os preços de centenas de produtos. Essas reformas tiveram algum sucesso em estabilizar o império temporariamente, mas não resolveram os problemas estruturais mais profundos.
O imperador Constantino, que governou de trezentos e seis a trezentos e trinta e sete e que reunificou o império sob seu comando único depois de uma série de guerras civis, foi responsável por outras duas mudanças de enorme importância histórica. Em trezentos e treze, através do Édito de Milão, ele concedeu liberdade religiosa ao Cristianismo, que havia sido perseguido pelos imperadores anteriores, e deu início ao processo que tornou o Cristianismo a religião dominante do império. E em trezentos e trinta, ele fundou uma nova capital para o império na antiga cidade grega de Bizâncio, no estreito que separa a Europa da Ásia. Essa nova capital, que ele chamou de Constantinopla em sua própria homenagem, seria o símbolo e o centro do poder romano oriental por mais de mil anos.
Depois de Constantino, o Império Romano nunca voltou a ser governado de forma permanente por um único imperador. Seu filho mais jovem, Constâncio II, e depois o imperador Teodósio I, que governou de trezentos e setenta e nove a trezentos e noventa e cinco, fizeram tentativas de manter a unidade, mas ao morrer Teodósio dividiu oficialmente o império entre seus dois filhos: Arcádio ficou com o Império do Oriente, com capital em Constantinopla, e Honório ficou com o Império do Ocidente, com capital em Milão e depois em Ravena. Essa divisão de trezentos e noventa e cinco seria permanente. O Império do Oriente sobreviveria por mais de mil anos, até mil quatrocentos e cinquenta e três, como o que os historiadores modernos chamam de Império Bizantino. O Império do Ocidente desmoronaria em menos de um século.
Mas quem eram os povos germânicos que desempenharam papel tão central nesse desmoronamento? Os germânicos eram um conjunto de povos que falavam línguas relacionadas entre si, pertencentes à família linguística que os linguistas modernos chamam de germânica e que inclui os ancestrais do alemão, do inglês, do holandês, do sueco, do dinamarquês e do norueguês modernos. Esses povos habitavam originalmente as regiões a leste e ao norte do Rio Reno e ao norte do Rio Danúbio, ou seja, a região que hoje corresponde aproximadamente à Alemanha, à Áustria, à Escandinávia, à Polônia e às regiões vizinhas.
Os romanos conheciam os germânicos há séculos. Júlio César havia guerreado contra tribos germânicas na Gália no século primeiro antes de Cristo, e no ano nove depois de Cristo ocorreu um dos maiores desastres militares da história romana: o general Publio Quinto Varo e três legiões romanas, talvez vinte mil ou vinte e cinco mil soldados, foram completamente destruídos por uma coalizão de tribos germânicas liderada por Armínio, um líder germânico que havia servido no exército romano e conhecia bem as táticas militares romanas, na Floresta de Teutoburgo, na atual Alemanha. Conta-se que o imperador Augusto, ao receber a notícia do desastre, passou dias em que não cortava os cabelos nem se barbeava de dor e repetia obsessivamente: Varo, devolve-me as minhas legiões. Após essa catástrofe, os romanos desistiram de conquistar a Germânia a leste do Reno e fixaram essa fronteira como limite permanente do império.
Durante os séculos seguintes, romanos e germânicos mantiveram uma relação ambivalente, que combinava conflito e coexistência. As fronteiras do Reno e do Danúbio, chamadas em conjunto de limes, eram não apenas linhas defensivas militares mas também zonas de intenso comércio e intercâmbio cultural. Mercadores trocavam produtos de ambos os lados. Jovens germânicos serviam no exército romano como auxiliares e às vezes chegavam a altos postos militares e administrativos. Famílias germânicas se estabeleciam em território romano com autorização imperial, em troca de trabalhar as terras ou servir no exército. Ao mesmo tempo, o conhecimento que os germânicos adquiriam sobre táticas militares romanas, sobre as fraquezas das fronteiras e sobre a riqueza do interior do império tornava-os adversários cada vez mais temíveis.
É importante entender que os germânicos não eram um povo uniforme. Eram dezenas de grupos distintos com suas próprias tradições, lideranças e territórios. Os godos, que se dividiam em dois grandes ramos chamados visigodos e ostrogodos, habitavam as regiões a norte do Mar Negro, na área que hoje é a Ucrânia e a Romênia. Os francos habitavam a região do atual noroeste da Alemanha e dos Países Baixos. Os saxões habitavam o norte da atual Alemanha. Os vândalos habitavam a região do atual sul da Polônia. Os burgúndios habitavam a área do atual leste da Alemanha. Os lombardos, também chamados de longobardos, habitavam a região da atual Dinamarca e do norte da Alemanha. Os anglos e os jutos habitavam a atual Dinamarca e o sul da Escandinávia. Cada um desses grupos tinha seu próprio dialeto, seus próprios costumes, suas próprias estruturas sociais e seus próprios reis ou chefes.
A organização social dos germânicos era muito diferente da romana. Os romanos tinham um Estado centralizado, com um imperador, um senado, uma burocracia profissional, um sistema de leis escritas aplicado por juízes, e um exército permanente e profissional. Os germânicos, em contraste, viviam em sociedades muito mais descentralizadas, organizadas em torno de laços de parentesco e de lealdade pessoal. A unidade básica era o clã ou a linhagem, e as decisões importantes eram tomadas em assembleias dos guerreiros livres, chamadas de thing entre vários povos germânicos. O rei germânico era muito mais um chefe de guerra eleito por seus pares do que um soberano absoluto no modelo romano: sua autoridade dependia de sua capacidade de liderar com sucesso nas guerras e de distribuir generosamente o butim entre seus seguidores. Um rei germânico que não ganhasse guerras e não enriquecesse seus guerreiros muito rapidamente perdia o apoio deles.
A economia germânica era baseada principalmente na pastagem de gado, na agricultura de subsistência, na caça e em algum artesanato. Os germânicos não tinham cidades no sentido romano da palavra, embora tivessem aldeias e alguns centros religiosos e comerciais de importância regional. O comércio de longa distância existia, mas era muito menos desenvolvido do que no mundo romano. Os germânicos não tinham escrita própria: os runas, que eram sinais gravados usados principalmente para fins religiosos e mágicos, existiam, mas não eram usados para registrar textos longos ou documentos administrativos. Quando os germânicos precisavam de textos escritos, usavam o latim, que aprendiam através do contato com o mundo romano.
A religião dos germânicos era politeísta, baseada em um panteão de deuses que os estudiosos conhecem principalmente através das fontes escandinavas medievais tardias, como as sagas e a mitologia nórdica. Os principais deuses germânicos incluíam Wotan ou Odin, o deus supremo da sabedoria, da guerra e da morte; Thor, o deus do trovão, que empunhava um martelo mágico; Freya, a deusa do amor e da fertilidade; e muitos outros. Os rituais incluíam sacrifícios de animais e às vezes de humanos, realizados em espaços sagrados ao ar livre ou em bosques consagrados, chamados de sacra silvas pelos romanos. Ao longo dos séculos quatro e cinco, à medida que os germânicos entravam em contato mais intenso com o mundo romano, muitos deles se converteram ao Cristianismo. Mas a maioria não se converteu ao Catolicismo ortodoxo: converteu-se a uma versão do Cristianismo chamada de arianismo, que ensinava que Jesus Cristo era uma criatura criada por Deus Pai e inferior a ele, e não igual ao Pai como afirmava o Catolicismo. O arianismo havia sido condenado como heresia pelo Concílio de Niceia em trezentos e vinte e cinco, mas continuou sendo professado pela maioria dos povos germânicos por muito tempo, o que criaria tensões religiosas com as populações católicas romanas das regiões que eles conquistaram.
A grande pressão que colocaria os germânicos em movimento e precipitaria a queda do Império Romano do Ocidente veio do leste, de um povo que não era germânico: os hunos. Os hunos eram um povo nômade das estepes da Ásia Central, provavelmente de origem centro-asiática ou mongólica, que havia construído uma confederação guerreira de enorme poder militar. Guerreiros extraordinários a cavalo, usavam arcos compostos de grande poder e alcance que podiam disparar com precisão enquanto galopavam em velocidade máxima, uma habilidade que impressionava e aterrorizava os povos que encontravam. No final do século quarto, os hunos avançaram para o oeste a partir das estepes do que hoje é o Cazaquistão e a Rússia meridional, e esse avanço desencadeou um efeito dominó que empurrou os povos germânicos uns contra os outros e todos eles contra as fronteiras do Império Romano.
Os primeiros a serem atingidos pelos hunos foram os ostrogodos, que habitavam as planícies ao norte do Mar Negro. Os hunos derrotaram os ostrogodos e incorporaram muitos deles à sua confederação como povos submetidos, obrigados a fornecer guerreiros para as campanhas dos hunos. Depois, os hunos se voltaram contra os visigodos, que habitavam a região entre o Rio Danúbio e o Mar Negro, na atual Romênia e Bulgária. Os visigodos, apavorados com a perspectiva de serem subjugados como os ostrogodos, pediram autorização ao imperador romano Valente para atravessar o Danúbio e se instalar em território romano como refugiados, prometendo em troca fornecer soldados para o exército imperial.
O imperador Valente concordou com o pedido, e em trezentos e setenta e seis uma enorme quantidade de visigodos atravessou o Danúbio para o território romano. Os números exatos são incertos, mas provavelmente centenas de milhares de pessoas fizeram essa travessia, tornando-se o maior movimento de refugiados que o Império Romano havia visto até então. A situação que se seguiu foi desastrosa devido à corrupção e à incompetência dos funcionários romanos encarregados de receber e de acomodar os recém-chegados. Em vez de fornecer alimentos e terras conforme havia sido prometido, os funcionários romanos extorquiram os visigodos com preços absurdos por alimentos básicos, chegando ao ponto de, segundo fontes da época, trocar pão e carne de cachorro por filhos de visigodos que se tornavam escravos.
Os visigodos, reduzidos ao desespero pela fome e pelo tratamento humilhante dos funcionários romanos, se rebelaram. Em trezentos e setenta e oito ocorreu uma das batalhas mais importantes da história romana: a Batalha de Adrianópolis, travada na Trácia, que hoje é parte da Turquia europeia, Bulgária e Grécia do norte. O resultado foi uma catástrofe total para Roma. O exército romano do Oriente foi destruído pelos visigodos, e o próprio imperador Valente morreu no campo de batalha, o primeiro imperador romano a morrer em batalha contra inimigos externos em mais de um século. Dos romanos que participaram da batalha, estima-se que dois terços morreram. Adrianópolis foi um choque enorme para o mundo romano, e muitos contemporâneos sentiram que algo fundamental havia mudado.
O sucessor de Valente, Teodósio I, concluiu a paz com os visigodos através de um acordo sem precedentes na história romana: em vez de serem submetidos ao controle romano como sempre havia acontecido com os povos instalados em território imperial, os visigodos foram reconhecidos como um povo autônomo dentro das fronteiras do império, com o direito de manter seus próprios chefes e suas próprias leis, em troca apenas de fornecer soldados para o exército romano quando necessário. Esse acordo, chamado de foedus, que é a origem da nossa palavra feudo, era uma mudança revolucionária na relação entre Roma e os povos bárbaros. Na prática, significava que havia agora, dentro das fronteiras do império, um povo armado que não estava completamente sujeito à autoridade imperial.
Essa solução se tornaria cada vez mais comum nas décadas seguintes. À medida que a pressão dos hunos empurrava mais e mais povos germânicos para dentro das fronteiras do império, os imperadores romanos, cada vez mais fracos e dependentes de soldados bárbaros para defender o território, eram forçados a aceitar acordos semelhantes com diversos grupos. O exército romano do final do século quatro e do século cinco era composto em grande parte por soldados de origem bárbara, inclusive nos postos de comando mais altos. Generais de origem germânica, como Estilicão, que era filho de um oficial vândalo, e Aécio, que havia crescido como refém entre os hunos, tornaram-se os verdadeiros detentores do poder militar no Ocidente enquanto os imperadores eram frequentemente crianças ou homens sem capacidade de liderança.
Após a morte de Teodósio I em trezentos e noventa e cinco e a divisão do império entre seus filhos, o Império do Ocidente entrou em um período de crise cada vez mais profunda. Honório, o imperador do Ocidente, era um homem sem talento ou energia para governar, e o poder real estava nas mãos de seus generais, primeiro Estilicão e depois outros. Os visigodos, liderados por Alarico, um chefe de guerra de grande habilidade que havia servido no exército romano antes de se tornar o líder de seu povo, começaram a pressionar o Ocidente, exigindo terras e postos de comando para si e seu povo. Depois de anos de negociações fracassadas e de campanhas militares inconclussivas, Alarico tomou uma decisão que chocou o mundo romano até os alicerces.
No ano de quatrocentos e dez depois de Cristo, os visigodos de Alarico sitiaram Roma e a saquearam por três dias. O saque de Roma em quatrocentos e dez foi um evento de enorme impacto psicológico e simbólico. A cidade de Roma não havia sido tomada por inimigos estrangeiros em oitocentos anos, desde a invasão dos gauleses em trezentos e noventa antes de Cristo. Para muitos romanos, Roma não era apenas uma cidade: era a cidade eterna, o centro do mundo, a capital da civilização. A notícia do saque se espalhou pelo mundo romano e criou um clima de terror e de descrença. O filósofo cristão Jerônimo, que estava em Belém na época, escreveu que ao ouvir a notícia ficou tão perturbado que por dias não conseguiu dizer uma palavra. O teólogo Agostinho de Hipona, que estava no norte da África, escreveu sua obra mais importante, A Cidade de Deus, em parte como resposta às acusações de que o Cristianismo havia enfraquecido Roma ao substituir os deuses tradicionais romanos, que a teria protegido por séculos.
É importante notar que o saque de Roma em quatrocentos e dez não foi um massacre ou uma destruição total. Alarico era um cristão ariano e ordenou que as igrejas e seus refugiados fossem respeitados. O saque durou apenas três dias e foi comparativamente brando para os padrões da época. Mas o impacto simbólico foi imenso. O próprio Alarico morreu logo depois, ainda na Itália, e os visigodos eventualmente se estabeleceram no sudoeste da Gália, na atual França, e na Península Ibérica, fundando o Reino Visigótico que existiria até a conquista islâmica do século oito.
Enquanto os visigodos se moviam para o Ocidente, outros povos germânicos aproveitavam o enfraquecimento das fronteiras romanas para penetrar em território imperial. No final do ano quatrocentos e seis e início de quatrocentos e sete, uma enorme migração de vândalos, alanos e suevos atravessou o Rio Reno gelado, invadindo a Gália e depois a Hispânia. Os vândalos, liderados por seus reis, atravessaram a Hispânia, chegaram ao estreito que hoje leva o nome de Gibraltar, que é uma corruptela do árabe Jabal al-Tariq mas isso é outra história, e cruzaram para o norte da África. Na África, os vândalos conquistaram a região que hoje é a Tunísia e parte da Argélia, a mais rica e mais produtiva das províncias africanas do Império Romano Ocidental, e fundaram um reino que controlou o comércio do Mediterrâneo ocidental por décadas.
Em quatrocentos e cinquenta e cinco, os vândalos realizaram outro saque de Roma ainda mais famoso do que o de Alarico. Sob o rei Genserico, uma frota vândala veio da África, entrou no Tibre e saqueou Roma por catorze dias, levando não apenas ouro e prata mas também as imensas colegiadas de arte e os tesouros do Templo de Jerusalém que os romanos haviam trazido para Roma séculos antes. O saque foi tão extenso e sistemático que deu origem à palavra vandalismo, que usamos até hoje para designar a destruição deliberada de bens e obras de arte.
No mesmo período, os hunos atingiram seu pico de poder sob o comando de Átila, que governou de quatrocentos e trinta e quatro a quatrocentos e cinquenta e três. Átila era um líder de capacidade extraordinária que unificou as diversas tribos hunas e povos submetidos numa confederação de poder militar sem paralelo na época. Ele lançou duas grandes invasões do Império Romano, primeiro contra o Oriente e depois contra o Ocidente. Em quatrocentos e cinquenta e um, Átila invadiu a Gália com um exército imenso que devastou cidades e campos por onde passou. Foi detido na grande Batalha dos Campos Cataláunicos, no atual nordeste da França, por um exército romano-bárbaro aliado liderado pelo general romano Aécio e que incluía visigodos, burgundos e outras tribos. Foi uma das batalhas mais importantes da história da Europa, e o rei visigodo Teodórico I morreu nela. No ano seguinte, em quatrocentos e cinquenta e dois, Átila invadiu a Itália e ameaçou diretamente Roma, mas retirou-se sem chegar a atacar a cidade, possivelmente por causa de uma epidemia que estava devastando seu exército e possivelmente também em razão das negociações lideradas pelo papa Leão I, que foi pessoalmente ao encontro de Átila. A morte repentina de Átila em quatrocentos e cinquenta e três, de causas que as fontes descrevem de forma confusa, desfez rapidamente sua confederação e removeu o perigo huno de forma quase tão súbita quanto havia surgido.
Mas o Império Romano do Ocidente estava agora tão enfraquecido que a remoção do perigo huno não o salvou. As décadas entre quatrocentos e cinquenta e três e quatrocentos e setenta e seis foram um período de agonia em que os imperadores do Ocidente se sucediam rapidamente, cada um mais impotente do que o anterior, enquanto o poder real estava nas mãos dos generais de origem bárbara. Em quatrocentos e cinquenta e quatre, o general Aécio, o homem que havia derrotado Átila, foi assassinado pelo próprio imperador Valentiniano III, que depois foi assassinado por partidários de Aécio. O assassinato de Aécio foi fatal para o Ocidente: como um observador romano notou na época, o imperador havia cortado com sua mão direita a própria mão direita.
Os últimos imperadores do Ocidente eram na prática marionetes nas mãos dos generais bárbaros que controlavam o exército. O mais poderoso desses generais foi Ricímero, um homem de origem visigótico-sueva que não podia ele mesmo tornar-se imperador porque era de origem bárbara, mas que durante dezasseis anos, de quatrocentos e cinqüenta e seis a quatrocentos e setenta e dois, instalou, controlou e depôs imperadores à sua vontade. Depois de Ricímero, o poder passou para outro general bárbaro, Orestes, que depôs o imperador e colocou no trono seu próprio filho adolescente, a quem deu o nome de Rômulo Augústulo, que é uma junção dos nomes dos dois maiores heróis da história romana: Rômulo, o fundador mítico de Roma, e Augusto, o primeiro imperador. A escolha do nome era irônica na crueldade, porque esse jovem com o nome mais grandioso da história romana seria o último imperador do Ocidente.
Em quatrocentos e setenta e seis, os soldados bárbaros que compunham a maior parte do exército de Orestes se rebelaram contra ele. Queriam ser instalados na Itália como proprietários de terra, da mesma forma que seus irmãos visigodos e burgúndios tinham sido instalados em partes da Gália e da Hispânia. Orestes recusou e foi derrotado e morto. O líder da rebelião era Odoacro, um homem de origem hérula ou rugiana, mais um dos muitos povos germânicos menores da época. Em setembro de quatrocentos e setenta e seis, Odoacro depôs o jovem Rômulo Augústulo e, num gesto que revelava tanto seu realismo político quanto o esvaziamento que havia ocorrido no poder imperial, não se proclamou imperador do Ocidente. Em vez disso, enviou as insígnias imperiais do Ocidente para Constantinopla, reconhecendo simbolicamente que havia apenas um imperador romano, o do Oriente, e passou a governar a Itália com o título de rei.
Esse momento, setembro de quatrocentos e setenta e seis, é o que os historiadores convencionalmente usam como data da queda do Império Romano do Ocidente. Mas é importante entender que essa data é mais uma convenção do que um momento de ruptura dramática e imediata. Para a maioria das pessoas que viviam na Itália ou no resto do que havia sido o Império do Ocidente, a vida de setembro para outubro de quatrocentos e setenta e seis mudou muito pouco. Odoacro governou a Itália de forma mais ou menos similar aos últimos imperadores, mantendo as instituições administrativas romanas, usando o latim na administração, e respeitando os senadores e as elites locais que cooperassem com ele. Em muitas regiões, a transição do poder imperial para o poder bárbaro foi gradual e relativamente pacífica.
Mas em termos estruturais, a mudança era profunda e irreversível. O que havia sido um território unificado sob uma única autoridade política, com um único sistema de leis, uma única moeda, uma única língua administrativa e um único exército, se transformou em um mosaico de reinos germânicos independentes que competiam entre si pelo território e pela influência. Na Hispânia, os visigodos controlavam a maior parte da península. Na Gália, os francos estavam se expandindo a partir do nordeste e os burgúndios controlavam o sudeste. Na África do Norte, os vândalos mantinham seu reino. Na Itália, Odoacro foi substituído em quatrocentos e oitenta e oito pelos ostrogodos liderados por Teodorico, um rei de grande capacidade política que havia crescido como refém em Constantinopla e admirava a civilização romana. Na Britânia, os romanos haviam retirado suas legiões ainda em quatrocentos e dez, e as tribos anglas, saxônicas e jutas da Alemanha e da Dinamarca estavam colonizando a ilha, empurrando os britânicos celtas para o País de Gales e a Cornualha.
Quais foram as consequências da queda do Império Romano do Ocidente para a Europa? As mudanças foram profundas e afetaram todos os aspectos da vida das pessoas. A primeira e mais imediata consequência foi o colapso do comércio de longa distância que havia integrado o Mediterrâneo e a Europa num único sistema econômico. Sem segurança nas estradas, sem uma moeda comum, sem o aparato legal romano que garantia os contratos, o comércio de longa distância diminuiu drasticamente. As cidades, que dependiam desse comércio e da administração imperial para sua existência, também diminuíram em tamanho e em importância. Roma em si, que havia tido talvez um milhão de habitantes no auge do império, se reduziu a talvez vinte ou trinta mil habitantes nos séculos seguintes. Muitos edifícios públicos foram abandonados e se tornaram ruínas ou foram desmontados para usar seus materiais na construção de novas estruturas mais modestas.
A população da Europa ocidental diminuiu significativamente entre os séculos quinto e oitavo, resultado de guerras, epidemias e fome. A expectativa de vida diminuiu. A alfabetização diminuiu, porque sem as escolas romanas e sem a burocracia imperial que havia empregado tantos letrados, poucas pessoas tinham razão ou oportunidade de aprender a ler e escrever em latim. A produção intelectual, artística e literária também diminuiu, embora não tenha desaparecido: a Igreja Católica tornou-se o principal guardião da cultura letrada, e nos mosteiros que se espalharam pela Europa nos séculos seguintes monges copiavam manuscritos e preservavam algo do conhecimento romano.
Essa diminuição generalizada das condições de vida é o que deu ao período que se seguiu à queda do Império Romano o nome de Idade das Trevas, expressão usada pelos humanistas do Renascimento para contrastar o que eles consideravam o esplendor da Antiguidade Clássica com a aparente regressão dos séculos seguintes. Os historiadores modernos tendem a rejeitar o termo Idade das Trevas como excessivamente negativo e impreciso, preferindo usar a expressão Alta Idade Média para o período entre aproximadamente quatrocentos e setenta e seis e o ano mil. É verdade que esse período foi de transformações difíceis e de condições de vida muito mais duras para a maioria das pessoas do que haviam sido no apogeu romano. Mas também é verdade que esse período viu o surgimento de novas culturas, novas instituições e novas formas de organização social que formariam a base da Europa medieval e, por extensão, da Europa moderna.
O que aconteceu com a língua e a cultura romana após a queda? O latim não desapareceu: ele se transformou. Nas diferentes regiões onde os romanos haviam se estabelecido, o latim popular foi evoluindo de formas distintas ao longo dos séculos, influenciado pelas línguas dos povos que ocuparam essas regiões, e dando origem às chamadas línguas românicas ou neolatinas: o português, o espanhol, o francês, o italiano, o romeno e o catalão, entre outras. Quando você fala português, está falando uma língua derivada diretamente do latim que os romanos levaram à Península Ibérica e que lá evoluiu durante séculos. Essa conexão é uma das provas mais concretas de que a queda do Império Romano não apagou a civilização romana: ela a transformou.
O direito romano também sobreviveu. Os reinos germânicos que se instalaram no Ocidente adotaram elementos do direito romano em seus próprios códigos legais, e as igrejas continuaram usando o direito romano como base para seu próprio direito canônico. Os princípios jurídicos romanos, como a presunção de inocência, o direito ao contraditório, a distinção entre direito público e privado, continuaram presentes no pensamento jurídico europeu e chegaram até nós. O sistema jurídico brasileiro, como o de todos os países de origem ibérica, tem raízes profundas no direito romano.
A Igreja Católica merece atenção especial nesse contexto, porque foi a instituição que mais claramente preservou a continuidade com o mundo romano após a queda do império. O papa, que residia em Roma, tornou-se a principal autoridade moral e espiritual do Ocidente num momento em que o poder político estava fragmentado entre os reinos germânicos. Os bispos católicos frequentemente assumiram funções administrativas nas cidades, tornando-se os principais defensores das populações locais perante os novos governantes. Os mosteiros tornaram-se centros de preservação da cultura letrada, de produção agrícola e de assistência social. A Igreja transmitiu o latim, a teologia, a filosofia e boa parte da memória histórica romana para os séculos seguintes.
Os próprios germânicos, ao entrarem em contato com a civilização romana, foram se romanizando de formas progressivas. Os reis germânicos adotaram títulos romanos, usaram o latim na administração, admiraram a arquitetura romana, casaram suas filhas com senadores romanos e seus filhos com mulheres da aristocracia romana. O rei ostrogodo Teodorico, que governou a Itália de quatrocentos e noventa e três a quinhentos e vinte e seis, é um exemplo notável: ele manteve a administração romana quase intacta, nomeou romanos para os postos administrativos mais importantes, financiou a construção de edifícios no estilo romano e promoveu uma cultura de diálogo entre as tradições romanas e as germânicas. Seu ministro mais famoso foi o romano Boécio, que escreveu em latim obras filosóficas e matemáticas fundamentais enquanto servia a um rei germânico, antes de ser executado acusado de traição.
O processo de fusão entre a cultura romana e as culturas germânicas daria origem, ao longo dos séculos seguintes, à civilização medieval europeia, que é ao mesmo tempo filha de Roma e produto das transformações que os povos germânicos trouxeram. A Europa medieval que estudaremos nas próximas aulas, com seus reinos, sua Igreja, seu feudalismo e suas cidades, só pode ser entendida tendo em mente esse processo de fusão que começou com a chegada dos povos germânicos e com a queda do Império Romano.
Para o ENEM e os vestibulares, a queda do Império Romano e os povos germânicos aparecem em questões de vários tipos. Há questões que pedem a identificação das causas da queda, exigindo que o aluno saiba distinguir as causas internas, como a crise política, a crise econômica e as epidemias, das causas externas, como as invasões bárbaras e a pressão dos hunos, e que compreenda como essas causas se combinaram num processo de longo prazo. Há questões que pedem a identificação das consequências da queda, incluindo o surgimento dos reinos germânicos, a fragmentação política, o declínio das cidades e do comércio e o papel crescente da Igreja. Há questões sobre as relações entre romanos e bárbaros, que frequentemente são mais complexas do que a imagem de simples invasão e destruição sugere. E há questões sobre a continuidade cultural entre Roma e a Europa medieval, pedindo que o aluno reconheça os elementos romanos que sobreviveram e se transformaram ao longo dos séculos.
Uma questão de pensamento histórico que frequentemente aparece é a seguinte: a queda do Império Romano foi uma catástrofe ou uma transformação? A resposta que os historiadores modernos tendem a dar é que foi as duas coisas ao mesmo tempo, dependendo do ponto de vista e do aspecto que se analisa. Para as pessoas que viveram a transição, especialmente nas regiões mais afetadas pelas guerras e pelas invasões, foi sem dúvida uma catástrofe. Cidades destruídas, campos devastados, famílias separadas, vidas perdidas: esses são fatos reais e concretos que não devem ser minimizados. Mas para a história de longa duração da civilização europeia, o processo foi também uma transformação que gerou novas formas culturais, novas instituições e novas identidades que foram igualmente constitutivas do mundo em que vivemos.
Essa capacidade de ver ao mesmo tempo a ruptura e a continuidade, a catástrofe e a transformação, é uma das características mais importantes do pensamento histórico maduro. A história raramente é apenas destruição ou apenas progresso, apenas fim ou apenas começo. Ela é quase sempre as duas coisas ao mesmo tempo, e aprender a enxergar essa complexidade é o que distingue quem compreende o passado de quem apenas memorizou datas e nomes.
