Curso de História para o 1º Ano do Ensino Médio
MÓDULO 10 – A FORMAÇÃO DA EUROPA MEDIEVAL
Aula 113 – Carlos Magno e o Império Carolíngio: unificação e poder
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| Dados de Catalogação na Publicação: NORAT, Markus Samuel Leite. Curso de história para o 1º ano do ensino médio. João Pessoa: Editora Norat, 2026. Livro Digital, Formato: HTML5, Tamanho: 132,4125 gigabytes (132.412.500 kbytes) . ISBN: 978-65-80808-16-8 | Cutter: N825c | CDD-907.12 | CDU-94(100)”-04/17″:373.5 . Palavras-chave: História, Ensino Médio, Pré-História, Civilizações Antigas, Mesopotâmia, Egito Antigo, Grécia Antiga, Roma Antiga, África Antiga, Reinos Africanos, Mundo Árabe-Muçulmano, Idade Média, Feudalismo, Antigo Regime, Monarquias Absolutistas, Renascimento, Humanismo, ENEM, Vestibulares. . TODOS OS DIREITOS RESERVADOS. É proibida a cópia total ou parcial desta obra, por qualquer forma ou qualquer meio. A violação dos direitos autorais é crime tipificado na Lei n. 9.610/98 e artigo 184 do Código Penal. |
Aula 113 – Carlos Magno e o Império Carolíngio: unificação e poder
Imagine um homem que, no espaço de pouco mais de quarenta anos, transformou um reino germânico em algo que a Europa ocidental não havia visto desde a queda de Roma: um império. Um homem que governou um território que abrangia a atual França, a Alemanha, a Áustria, a Suíça, a Bélgica, os Países Baixos, boa parte da Itália e pedaços da Espanha. Um homem que foi coroado imperador pelo próprio Papa numa cerimônia em Roma que sacudiu os equilíbrios políticos de toda a cristandade. Um homem que promoveu uma renovação da educação e da cultura tão profunda que os historiadores a chamam de Renascimento Carolíngio. Esse homem é Carlos Magno, e a história de seu reinado e do Império Carolíngio é um dos temas mais importantes de toda a Idade Média europeia.
Para entender Carlos Magno, porém, precisamos primeiro entender de onde ele veio, porque ele não surgiu do nada: era o herdeiro de uma família que havia construído seu poder de forma gradual ao longo de mais de um século, até finalmente conquistar o próprio trono do reino franco. Essa família é a dos carolíngios, nome que os historiadores modernos lhes deram em homenagem ao seu membro mais célebre, o próprio Carlos Magno, cujo nome em latim é Carolus Magnus, que significa Carlos, o Grande.
Como vimos na aula anterior, o poder efetivo no reino franco havia migrado progressivamente dos reis merovíngios para os administradores-chefes dos palácios reais, os chamados maiores do palácio. Foi a família carolíngia que dominou esse cargo ao longo do século sete e início do século oito. O bisavô de Carlos Magno, Pepino de Herstal, havia unificado o cargo de maior do palácio de todo o reino franco em seiscentos e oitenta e sete. Seu filho, Carlos Martel, que em língua franca antiga o sobrenome Martel significa martelo, consolidou ainda mais esse poder e ganhou fama duradoura ao derrotar os exércitos muçulmanos que haviam cruzado os Pireneus vindos da Hispânia, na Batalha de Poitiers em setecentos e trinta e dois. Essa vitória foi interpretada por toda a cristandade ocidental como uma defesa providencial da Europa cristã contra a expansão islâmica, e deu a Carlos Martel um prestígio imenso que beneficiou toda a sua descendência.
Mas foi o filho de Carlos Martel, Pepino III, chamado de Pepino o Breve por causa de sua baixa estatura segundo as fontes medievais, quem finalmente deu o passo decisivo que seus predecessores não haviam ousado dar: tomar o trono. Como mencionamos na aula anterior, Pepino consultou o Papa Zacarias sobre a legitimidade de que um homem detivesse o poder real sem ter o título de rei, e o Papa respondeu favoravelmente. Em setecentos e cinquenta e um, Pepino depôs o último rei merovíngio, Childerico III, mandou-o para um mosteiro, e foi eleito rei pelos nobres francos e ungido pelos bispos. Alguns anos depois, em setecentos e cinquenta e quatro, o novo Papa Estevão II viajou pessoalmente à França para ungir Pepino uma segunda vez, num gesto de reconhecimento ainda mais solene e público, reforçando a aliança entre a Igreja de Roma e a dinastia carolíngia que se tornaria um dos eixos centrais da história europeia medieval.
Em troca do apoio papal, Pepino prestou um serviço fundamental à Igreja: atacou militarmente o povo dos lombardos, que havia conquistado grande parte do norte da Itália e ameaçava Roma. Pepino venceu os lombardos, tomou deles um conjunto de territórios no centro da Itália e doou esses territórios ao Papa, não ao Império de Constantinopla, que teoricamente ainda tinha direitos sobre a Itália. Essa doação ficou conhecida na história como a Doação de Pepino, e foi o ato fundador do que se chamaria de Estados Pontificios, o território governado diretamente pelo Papa que existiu na Itália até o século dezenove. A Doação de Pepino criou uma realidade nova e decisiva: o Papa não era apenas o chefe espiritual da Igreja, mas também um soberano territorial, um governante político que administrava um pedaço da Itália como qualquer outro rei administrava seu reino. Essa duplicidade de funções do papado, ao mesmo tempo autoridade espiritual e poder político, seria uma fonte inesgotável de conflitos e de negociações ao longo de toda a Idade Média.
Pepino III morreu em setecentos e sessenta e oito, e dividiu seu reino entre seus dois filhos, Carlos e Carlomano, seguindo a tradição franca. Carlomano morreu jovem, em setecentos e setenta e um, e Carlos assumiu o controle de todo o reino franco com cerca de vinte e três anos de idade. Era esse Carlos que se tornaria Carlos Magno.
Fisicamente, Carlos Magno era impressionante pelos padrões de sua época. Seu biógrafo Einhard, que o conheceu pessoalmente e escreveu uma biografia chamada Vida de Carlos Magno algumas décadas após a morte do imperador, descreve-o como um homem de estatura excepcional, com pescoço grosso e curto, olhos grandes e vivos, cabelo louro avermelhado e uma expressão que transmitia alegria e autoridade ao mesmo tempo. Os estudiosos que analisaram seus ossos no século dezenove estimaram que Carlos tinha em torno de um metro e oitenta e oito de altura, o que para o século oito era uma estatura verdadeiramente extraordinária. Einhard também descreve que Carlos era um cavaleiro excelente, um caçador entusiasta que passava horas nas florestas, um nadador hábil e um homem de apetite generoso que apreciava a comida e o vinho, embora os médicos eventualmente lhe pedissem para moderar.
Mas o que realmente impressionava nos contemporâneos de Carlos não era apenas sua presença física: era sua energia incansável, sua capacidade de conduzir campanhas militares durante anos a fio, de administrar um território imenso, de receber embaixadores de lugares distantíssimos como a corte dos califas árabes em Bagdá e o Império Tang na China, e ainda assim reservar tempo para aprender, para estudar, para conversar com sábios e para promover a educação em seu reino.
As campanhas militares de Carlos Magno foram o instrumento através do qual o Império Carolíngio foi construído, e elas foram numerosas, longas e muitas vezes brutais. A mais longa e difícil de todas foi a guerra contra os saxões, um povo germânico que habitava as regiões do norte da atual Alemanha, entre o Rio Reno e o Rio Elba, e que havia permanecido pagão enquanto os francos e outros povos se convertiam ao Cristianismo. A guerra contra os saxões durou trinta e dois anos, de setecentos e setenta e dois a oitocentos e quatro, e foi marcada por avanços e recuos, por levantes saxões contra a ocupação franca que destruíam o que havia sido conquistado, e por momentos de extrema violência como o episódio que ficou conhecido como o Massacre de Verden, em setecentos e oitenta e dois, quando Carlos ordenou a execução de quatrocentos e cinquenta guerreiros saxões que haviam se revoltado e morto um grupo de nobres francos. Esse episódio foi criticado até mesmo por contemporâneos, incluindo o erudito Alcuíno de Iorque, um dos intelectuais mais próximos de Carlos, que argumentou que ninguém se tornava verdadeiramente cristão pela força da espada, mas pela convicção do coração.
No final, a conversão forçada dos saxões foi o instrumento que Carlos usou para solidificar a conquista: os saxões foram obrigados a se batizar, a pagar dízimo à Igreja, e a adotar as leis francas. Quem resistisse à conversão era punido com a morte. Esse aspecto da política de Carlos Magno é algo que os historiadores modernos olham com visão crítica, porque revela que por trás do discurso de propagação da fé havia também o objetivo muito concreto de destruir a identidade cultural dos saxões e integrá-los ao mundo carolíngio por eliminação de suas tradições próprias.
Além dos saxões, Carlos Magno conduziu campanhas em muitas outras direções. Na Hispânia, cruzou os Pireneus em setecentos e setenta e oito para lutar contra os muçulmanos que controlavam a Península Ibérica, embora essa campanha não tenha produzido grandes conquistas e acabou com sua retaguarda sendo atacada por vascos na Passagem de Roncesvales, onde morreu um nobre chamado Rolando, prefeito das Marcas da Bretanha. Esse episódio, relativamente menor do ponto de vista militar, tornou-se a base de uma das obras mais importantes da literatura medieval francesa, a Chanson de Roland, a Canção de Rolando, em que os vascos da história real foram transformados em mouros, e o pequeno combate de retaguarda foi transformado numa epopeia de heroísmo cristão contra os infiéis. Carlos estabeleceu depois uma fronteira militar no nordeste da Hispânia, chamada de Marca Hispânica, que seria o núcleo do futuro Reino de Aragão e depois da Catalunha.
Na Itália, Carlos completou o que seu pai Pepino havia iniciado: em setecentos e setenta e quatro, respondendo a um novo pedido de ajuda do Papa, atacou os lombardos, derrotou seu rei Desidério e assumiu pessoalmente o título de Rei dos Lombardos, integrando o norte da Itália ao reino franco. A visita a Roma que se seguiu a essa conquista foi o início de uma relação pessoal intensa entre Carlos e o papado que culminaria na coroação de oitocentos.
No leste, Carlos lutou contra os ávaros, um povo de origem mongólica que havia se instalado na planície panônica, a região do atual território da Hungria, e que fazia incursões devastadoras para o oeste. Carlos organizou uma série de campanhas entre setecentos e noventa e um e setecentos e noventa e seis que destruíram o poder dos ávaros e incorporaram ao reino franco as regiões que hoje formam a Áustria e parte da Hungria. O butim recolhido do anel, como era chamado o grande acampamento circular dos ávaros onde acumulavam suas riquezas, foi tão imenso que, segundo as fontes, os carros que o transportavam para a corte carolíngia ocupavam quinze carretas enormes. Essa riqueza em ouro e prata financiou muitas das iniciativas políticas e culturais de Carlos nas décadas seguintes.
Ao final de todas essas guerras, o território controlado por Carlos Magno era imensamente maior do que o reino que havia herdado de seu pai. Abrangia o que hoje é a França quase inteira, a Bélgica, os Países Baixos, a Suíça, a Alemanha a oeste do Rio Elba, a Áustria, o norte da Itália até Roma e um pouco além, e uma faixa do nordeste da Espanha. Era de longe o maior estado político da Europa ocidental desde o Império Romano, e sua existência colocou uma questão que era ao mesmo tempo prática e simbólica: como chamar o homem que governava tudo isso, se o título de rei parecia pequeno demais para o tamanho de seu poder?
A resposta para essa questão veio numa noite de Natal do ano oitocentos, numa das cenas mais dramaticamente importantes de toda a história medieval. Carlos havia ido a Roma para ajudar o Papa Leão III, que havia sido atacado e humilhado por uma facção de nobres romanos que o acusavam de vários crimes. Carlos restaurou a autoridade do Papa, presidiu um tribunal que examinou as acusações contra ele, e o Papa foi absolvido. No dia vinte e cinco de dezembro do ano oitocentos, Carlos foi à Basílica de São Pedro para participar da missa de Natal. Durante a cerimônia, quando se ajoelhou diante do altar, o Papa Leão III aproximou-se e colocou sobre sua cabeça uma coroa de ouro, proclamando-o Imperador dos Romanos. A multidão de romanos que estava presente na basílica aclamou Carlos três vezes com as palavras em latim que eram o grito tradicional de saudação aos imperadores de Constantinopla.
A coroação de Carlos Magno como imperador em oitocentos é um dos eventos mais debatidos e mais ricos em consequências de toda a Idade Média. Há várias camadas de significado e de questão histórica envolvidas nesse episódio que merecem ser examinadas com atenção.
A primeira questão é: Carlos Magno foi realmente surpreendido, como seu biógrafo Einhard afirma? Einhard diz que Carlos declarou que se soubesse de antemão o que o Papa estava planejando não teria entrado na basílica naquele dia, mesmo sendo a maior festa do ano cristão. Essa declaração pode ser verdadeira, no sentido de que Carlos pode realmente ter preferido que a iniciativa da coroação parecesse vir de baixo para cima, das aclamações do povo, em vez de aparecer como algo que ele havia planejado. A coroação pelo Papa levantava um problema sério: sugeria que o poder imperial derivava da concessão papal, que era o Papa quem fazia os imperadores, o que colocaria o poder espiritual acima do poder temporal. Carlos pode ter preferido a narrativa de que foi aclamado pelo povo e apenas ungido pelo Papa, uma distinção que parece sutil mas que tinha implicações políticas enormes para as relações entre o poder imperial e o poder eclesiástico nos séculos seguintes.
A segunda questão é a reação de Constantinopla. No momento da coroação de Carlos, havia uma imperatriz governando em Constantinopla, Irene, que havia usurpado o poder de seu próprio filho ao mandá-lo cegar e prender. Por razões técnicas do direito imperial bizantino, alguns no Ocidente argumentavam que não havia imperador legítimo no momento, e que portanto a restauração de um imperador no Ocidente não constituía uma afronta a Constantinopla. Mas os imperadores de Constantinopla não viam assim: eles consideravam-se os únicos herdeiros legítimos da tradição imperial romana, e o título de Imperador dos Romanos assumido por Carlos era, do ponto de vista deles, uma usurpação. Levou anos de negociações diplomáticas até que Constantinopla reconhecesse Carlos com um título imperial, embora não com o exato título de Imperador dos Romanos.
O que é inegável é que a coroação de oitocentos criou uma nova realidade política e simbólica que teria consequências profundas para séculos. O Ocidente europeu tinha novamente um imperador. O Papa tinha um protetor poderoso. E havia agora dois impérios que se reclamavam herdeiros de Roma: um no Oriente, em Constantinopla, e um no Ocidente, no reino franco. Essa divisão e essa competição marcariam a história europeia por séculos.
Mas a grandeza de Carlos Magno não se mediu apenas pelas campanhas militares e pela coroação imperial. Mediu-se também pela forma como organizou e administrou o imenso território que havia conquistado, e pelas iniciativas culturais e educacionais que promoveu e que os historiadores chamam de Renascimento Carolíngio. Vamos examinar esses dois aspectos com a atenção que merecem.
O desafio administrativo que Carlos Magno enfrentava era enorme. Como governar um território tão vasto numa época em que não havia telefone, não havia estradas asfaltadas, não havia correio regular e confiável, em que uma mensagem de Paris para Roma podia levar semanas para chegar, e em que enviar um exército de um extremo ao outro do império podia levar meses? Esse desafio levou Carlos a desenvolver um conjunto de soluções administrativas que, embora imperfeitas, foram notáveis para seu tempo.
A base da administração carolíngia eram os condes, herdados da tradição franca anterior, que administravam as circunscrições territoriais chamadas de condados. Cada conde era responsável por manter a ordem em seu condado, julgar os conflitos locais, recrutar guerreiros quando o rei os convocava para a guerra e coletar os impostos e tributos devidos ao palácio real. Os condes eram nomeados pelo rei e teoricamente podiam ser destituídos por ele, mas na prática eram sempre homens das famílias aristocráticas locais mais poderosas, e tendiam a tratar seus cargos como propriedades pessoais que transmitiam a seus filhos. A tendência dos condes a se tornarem cada vez mais independentes e a tratar o poder que lhes havia sido delegado como propriedade própria foi um dos problemas estruturais do sistema carolíngio que se aprofundaria nas gerações seguintes.
Para contrariar essa tendência e manter algum controle efetivo sobre os condes, Carlos Magno criou ou aperfeiçoou uma instituição de grande importância: os missi dominici, que em latim significa os enviados do senhor. Os missi dominici eram pares de funcionários reais, geralmente um bispo e um nobre laico, que percorriam regularmente as regiões do império em circuitos que os levavam a diferentes condados a cada vez. Sua função era verificar se os condes estavam cumprindo suas obrigações, ouvir as queixas dos habitantes contra abusos dos condes, supervisionar a aplicação das leis e dos capitulários, e enviar relatórios ao palácio real sobre o que encontravam. Os missi dominici eram uma espécie de fiscais itinerantes do império, e sua existência era um reconhecimento implícito de que sem alguma forma de supervisão externa, os condes tenderiam a abusar de seu poder ou a simplesmente ignorar as ordens que vinham do palácio.
Os capitulários eram outro instrumento fundamental do governo carolíngio. Eram textos legislativos emitidos pelo rei e posteriormente pelo imperador que regulavam os mais variados aspectos da vida do reino: desde questões de governo e de administração da justiça até assuntos eclesiásticos, práticas agrícolas nas propriedades imperiais, comportamento dos clérigos e até os preços que podiam ser cobrados nos mercados. O nome capitulário vem do latim capitulum, que significa capítulo ou item, porque esses textos eram organizados em itens numerados, cada um tratando de um assunto específico. Os capitulários são documentos históricos de enorme valor, porque nos permitem ver com grande detalhe o que Carlos Magno queria que seu império fosse, mesmo que a realidade em muitos casos ficasse aquém do ideal.
Um dos capitulários mais famosos é o Capitulare de Villis, que regulava a administração das propriedades rurais que pertenciam diretamente ao imperador, chamadas de villae ou fiscos imperiais. Esse documento estabelecia com impressionante detalhe tudo o que o administrador de cada propriedade imperial deveria fazer: quais culturas plantar, como cuidar dos animais, como registrar os rendimentos, o que produzir para vender e o que produzir para consumo próprio, como tratar os trabalhadores, o que fazer com os excedentes. O Capitulare de Villis revela que Carlos Magno entendia a importância econômica de suas propriedades diretas como base material de seu poder, e que tratava sua administração com uma atenção ao detalhe notável para um soberano de sua época.
A capital do Império Carolíngio foi estabelecida em Aquisgrana, que em alemão se chama Aachen e em francês Aix-la-Chapelle, uma cidade no extremo oeste da atual Alemanha, perto da fronteira com a Bélgica e os Países Baixos. Carlos escolheu esse local em parte pelas fontes termais quentes que havia na região e que ele adorava usar para nadar, e em parte porque era uma localização geográfica central em relação ao núcleo do poder franco. Em Aquisgrana, Carlos mandou construir um palácio de pedra que foi o edifício secular mais ambicioso construído no Ocidente desde a queda do Império Romano. O palácio incluía uma grande sala de recepções, dependências residenciais, oficinas e uma Capela Palatina, uma igreja octogonal de dois andares construída por arquitetos que vieram da Itália e que se inspirava na Igreja de São Vital de Ravena, um dos monumentos mais belos da arquitetura cristã tardia. Essa Capela Palatina ainda existe hoje, incorporada à catedral de Aachen, e é um Patrimônio Mundial da UNESCO. Visitá-la é olhar para um edifício que Carlos Magno conheceu pessoalmente, onde assistiu a missas, presidiu assembleias e recebeu embaixadores de todo o mundo conhecido.
Ao redor do palácio de Aquisgrana gravitava a corte imperial, e no coração intelectual da corte estava o que ficou conhecido como a Academia Palatina, um círculo de sábios que Carlos reuniu de vários lugares da Europa para trabalhar junto a ele, para ensiná-lo e para promover o renascimento cultural que ele valorizava. Carlos recrutou ativamente os melhores intelectuais de seu tempo, independentemente de onde viessem. De Inglaterra veio Alcuíno de Iorque, que se tornou o principal conselheiro intelectual de Carlos e que reformou o sistema de ensino do império. Da Itália veio Paulo Diácono, que escreveu uma História dos Lombardos. Da Hispânia veio Teodulfo de Orleães, que se tornou um dos melhores poetas em latim da época. Da própria corte vinha Einhard, que além de ser biógrafo de Carlos era também arquiteto e artista. Esses homens discutiam filosofia, teologia e literatura, escreviam poemas e tratados, correspondiam-se com intelectuais de outras regiões e criavam um ambiente de efervescência cultural que contrastava fortemente com a imagem de brutalidade que as guerras de Carlos também produziam.
O próprio Carlos Magno participava ativamente dessas discussões. Segundo Einhard, o imperador havia aprendido a ler já adulto, algo incomum para um nobre laico de seu tempo, e tentou aprender a escrever, embora nunca tenha conseguido dominar bem a escrita, porque havia começado muito tarde. Aprendeu latim a ponto de usá-lo com facilidade, e tinha algum conhecimento de grego. Fazia perguntas constantes aos sábios de sua corte, participava dos debates teológicos, e mandava os intelectuais de Aquisgrana corresponderem-se com os melhores estudiosos de outros reinos para manter-se atualizado sobre o pensamento de seu tempo.
O Renascimento Carolíngio, como os historiadores chamam esse florescimento cultural, não foi apenas uma questão de alguns sábios discutindo ideias numa corte requintada. Teve consequências muito práticas e muito amplas. A reforma mais importante foi a reforma educacional que Alcuíno liderou sob orientação de Carlos. Um capitulário emitido por Carlos Magno ordenava que em todo o império, em cada catedral e em cada mosteiro, fosse estabelecida uma escola que ensinasse pelo menos leitura, escrita, canto, aritmética e gramática latina. O objetivo era garantir que houvesse em todo o território imperial um número mínimo de pessoas capazes de ler e escrever em latim, que era a língua da Igreja, da administração e do conhecimento.
Esse projeto educacional era movido por razões práticas além das culturais: Carlos havia percebido que muitos clérigos de seu reino mal sabiam ler, e que os textos religiosos que usavam estavam repletos de erros introduzidos por copistas pouco qualificados. Se os sacerdotes não liam bem, como podiam entender a Bíblia e as orações que recitavam? Como podiam transmitir o ensinamento cristão com clareza? Carlos queria uma Igreja competente e bem-educada não apenas por devoção, mas porque sabia que a Igreja era parte essencial da estrutura de seu governo.
A reforma da escrita foi outro aspecto fundamental do Renascimento Carolíngio. No século oito, a escrita latina havia se fragmentado em várias variantes regionais muito diferentes entre si, o que tornava difícil a comunicação escrita entre diferentes partes do império. Os escribas de Aquisgrana, sob influência de Alcuíno e seus colegas, desenvolveram uma nova forma de escrever as letras, mais clara e mais uniforme, que os paleógrafos, os especialistas em escrita antiga, chamam de minúscula carolíngia. Essa nova letra era mais legível, usava menos abreviações confusas e podia ser lida por qualquer pessoa treinada naquele sistema em qualquer parte do império. A minúscula carolíngia foi tão bem-sucedida que sobreviveu ao Império Carolíngio e influenciou profundamente a escrita europeia dos séculos seguintes. E aqui está um detalhe que muita gente não sabe: quando os humanistas do século quinze e do século dezesseis procuravam modelos de escrita clara e elegante para suas obras, encontraram os manuscritos carolíngios, acharam que eram escritos antigos da Roma clássica, e os imitaram. Assim, as letras que usamos hoje em nossos livros impressos, as chamadas letras minúsculas, derivam em grande parte da minúscula carolíngia do século nove, que por sua vez foi criada nos scriptoria dos mosteiros carolíngios.
Os mosteiros desempenharam um papel central no Renascimento Carolíngio. Foram os monges que copiaram os manuscritos antigos, que preservaram textos de autores greco-romanos que de outra forma teriam se perdido, que ensinaram nas escolas que Carlos ordenou estabelecer e que produziram as obras teológicas, históricas e literárias do período. Carlos apoiou os mosteiros com doações de terras e de recursos, e os mosteiros em troca funcionavam como os principais centros intelectuais de seu império. Os grandes mosteiros carolíngios, como Saint-Gallen na atual Suíça, Fulda na atual Alemanha e Tours na atual França, eram ao mesmo tempo centros religiosos, centros educacionais, centros de cópia de manuscritos e centros de produção artística.
A arte carolíngia produzida nesses mosteiros e na corte de Aquisgrana é de alta qualidade e de grande interesse histórico. Os evangeliários carolíngios, que são as cópias dos quatro evangelhos ricamente iluminadas com pinturas em ouro e cores vibrantes, estão entre os mais belos manuscritos da história medieval. As capas de marfim esculpido, as obras em ourivesaria, as mosaicos e as pinturas murais do período revelam uma arte que procurava conscientemente retomar e superar a herança da Antiguidade romana, inspirando-se em modelos clássicos mas adaptando-os a uma estética e a uma espiritualidade cristãs.
Outro aspecto muito importante do governo de Carlos Magno foi sua relação com a Igreja e com o papado. Carlos entendia a Igreja como parte integrante de seu sistema de governo: os bispos e os abades dos mosteiros eram, em muitas regiões, os funcionários mais poderosos e mais letrados disponíveis, e Carlos os nomeava, controlava suas eleições e esperava deles a mesma lealdade que esperava de seus condes laicos. Em troca, a Igreja recebeu proteção, doações de terra e o prestígio de ser associada ao poder imperial. Carlos convoqu assembleias religiosas, os chamados concílios, onde questões de doutrina e de prática eclesiástica eram debatidas e resolvidas, e participava ativamente dessas discussões com uma segurança que revelava que considerava sua função imperial como incluindo responsabilidade sobre a saúde espiritual de seu povo.
Essa relação com a Igreja não era sem tensões. O episódio da coroação de oitocentos levantou a questão de quem tinha mais autoridade, o Papa ou o Imperador, e essa questão nunca foi definitivamente resolvida no tempo de Carlos. O que ficou estabelecido na prática foi uma espécie de parceria em que nenhum dos dois lados admitia a subordinação ao outro, mas ambos precisavam da cooperação do outro para funcionar. Carlos precisava da legitimidade religiosa que o Papa fornecia; o Papa precisava da força militar e do poder político que Carlos representava. Essa parceria de mútua necessidade e de latente tensão seria uma das características estruturais de toda a política europeia medieval.
Economicamente, o reinado de Carlos Magno também foi marcado por iniciativas importantes. Carlos promoveu a padronização dos pesos e medidas em todo o império, para facilitar o comércio e reduzir a confusão que a existência de sistemas locais diferentes criava. Reformou o sistema monetário, estabelecendo uma libra de prata como unidade de conta dividida em vinte soldos, cada soldo dividido em doze dinheiros. Esse sistema de libras, soldos e dinheiros, com suas proporções de um para vinte para duzentos e quarenta, foi a base dos sistemas monetários de toda a Europa ocidental por séculos: o sistema de libras, xelins e pences que a Inglaterra usou até o século vinte deriva diretamente do sistema monetário carolíngio. Carlos também promoveu a construção de pontes e a abertura de rotas comerciais, e tentou, sem sucesso completo, construir um canal entre o Reno e o Danúbio que teria ligado o Mar do Norte ao Mar Negro. A tentativa fracassou, mas o fato de ter sido planejada mostra a ambição da visão de Carlos.
Carlos Magno morreu em vinte e oito de janeiro do ano oitocentos e catorze, em Aquisgrana, com cerca de sessenta e cinco anos de idade, de uma pleurisia, que era uma inflamação grave dos pulmões. Havia governado por mais de quarenta anos e transformado completamente o mapa político da Europa ocidental. Seu filho Luís, chamado de Luís o Piedoso, assumiu o trono e o título imperial sem dificuldades, pois Carlos havia providenciado a coroação de Luís como coimperador alguns anos antes de sua morte, evitando a crise de sucessão que a tradição franca de divisão entre os filhos poderia ter provocado.
Mas a estabilidade durou pouco. Luís o Piedoso tinha três filhos do primeiro casamento, Lotário, Pepino e Luís o Germânico, e depois de enviuvar casou-se novamente e teve um quarto filho, Carlos, que ficou conhecido como Carlos o Calvo. O problema de como dividir o império entre os filhos tornou os últimos anos do reinado de Luís marcados por conflitos violentos: os três filhos mais velhos chegaram a se rebelar contra o pai e a fazê-lo prisioneiro em oitocentos e trinta e três, num episódio que os contemporâneos chamaram horrorizado de o campo da mentira.
Luís o Piedoso morreu em oitocentos e quarenta, e a guerra entre seus filhos continuou. A longa crise foi finalmente resolvida em oitocentos e quarenta e três pelo Tratado de Verdun, um dos documentos mais importantes da história europeia, porque foi o ato que criou a divisão política fundamental entre o que se tornaria a França e o que se tornaria a Alemanha. O tratado dividiu o império entre os três filhos sobreviventes de Luís: Lotário ficou com o título imperial e com uma faixa central de território que ia da atual Holanda pela Lorena, pela Borgonha, pela Suíça e pela Itália; Luís o Germânico ficou com as regiões a leste do Rio Reno, que seriam o núcleo da futura Alemanha; e Carlos o Calvo ficou com as regiões a oeste, que seriam o núcleo da futura França.
O Tratado de Verdun é frequentemente apresentado como a certidão de nascimento da França e da Alemanha como entidades políticas distintas, embora essa afirmação deva ser entendida como metáfora: as nações modernas levaram séculos para se desenvolver a partir dessas divisões carolíngias. Mas o fato é que a fronteira estabelecida em Verdun entre o reino de Luís o Germânico a leste e o reino de Carlos o Calvo a oeste, com a faixa central de Lotário entre eles, estabeleceu uma divisão geopolítica que persistiu de formas variadas por toda a história europeia posterior, e que ainda se reflete nas fronteiras políticas e linguísticas da Europa atual.
O Império Carolíngio, no sentido de unidade política governada por um único imperador, sobreviveu apenas uma geração plena depois de Carlos Magno. Mas seu impacto sobre a história europeia foi imenso e duradouro. Criou um modelo de monarquia cristã e imperial que influenciou toda a teoria política medieval. Estabeleceu a aliança estrutural entre o papado e o poder imperial que definiria a política europeia por séculos. Promoveu a disseminação do Cristianismo latino na Europa central e setentrional. Preservou e transmitiu grande parte do conhecimento clássico que de outra forma poderia ter se perdido. E criou as divisões políticas fundamentais da Europa ocidental que, em suas formas transformadas, ainda existem.
Para os estudantes que se preparam para o ENEM e os vestibulares, Carlos Magno e o Império Carolíngio são temas que aparecem com frequência em várias perspectivas. Questões sobre a relação entre poder político e religião na Idade Média quase sempre passam pela coroação de oitocentos e pelo que ela significou para as relações entre papas e imperadores. Questões sobre feudalismo frequentemente remetem ao sistema carolíngio de condes, de missi dominici e de concessão de terras em troca de serviço militar como fase importante na formação das estruturas feudais. Questões sobre cultura medieval frequentemente mencionam o Renascimento Carolíngio e o papel dos mosteiros na preservação do conhecimento. E questões sobre a formação das nações europeias modernas frequentemente apontam o Tratado de Verdun de oitocentos e quarenta e três como momento fundador da divisão entre França e Alemanha.
O que Carlos Magno construiu foi algo paradoxal: um império tão pessoal, tão dependente de sua energia individual e de suas relações pessoais com os bispos, os condes e os guerreiros, que não pôde sobreviver plenamente à sua morte. Mas ao mesmo tempo, as estruturas que ele criou, os costumes que estabeleceu, as alianças que forjou e os ideais que promoveu sobreviveram ao império e moldaram o mundo que veio depois. A Europa medieval que se desenvolverá ao longo dos séculos dez, onze e doze é, em muitos aspectos, uma Europa que ainda vive no horizonte de referências que Carlos Magno criou. A ideia de uma Europa cristã unida sob um imperador e um papa, a ideia de que o governante tem responsabilidade pela educação e pela cultura de seu povo, a divisão entre reinos que prefiguram as nações modernas: tudo isso tem raízes profundas no reinado de Carlos Magno e no experimento político grandioso e imperfeito que foi o Império Carolíngio.
