Curso de História para o 1º Ano do Ensino Médio
MÓDULO 3 – AS PRIMEIRAS CIVILIZAÇÕES DO ORIENTE MÉDIO
Aula 36 – Os amoritas e o Império Babilônico
Aula 36 – Os amoritas e o Império Babilônico
Agora nós vamos falar sobre o surgimento dos amoritas na Mesopotâmia e a formação do Primeiro Império Babilônico, aquele que colocou a cidade de Babilônia no centro do mundo antigo e nos presenteou com uma das mais antigas tentativas de organizar a vida em sociedade por meio de leis escritas.
Antes de entrar na história dos amoritas, é importante lembrar rapidamente o que estava acontecendo na Mesopotâmia antes deles chegarem. Como vimos em aulas anteriores, a região entre os rios Tigre e Eufrates foi palco de grandes civilizações. Os sumérios construíram as primeiras cidades, inventaram a escrita e organizaram as primeiras formas de governo urbano. Depois vieram os acádios, com Sargão de Acádia, que formaram o primeiro império da história ao unificar diversas cidades sob um único governante. Depois do declínio acádio, houve um renascimento sumério, especialmente com a cidade de Ur, que também acabou entrando em colapso. Foi justamente nesse cenário de instabilidade, de cidades disputando poder, de antigas estruturas desmoronando, que um novo povo entrou em cena: os amoritas.
Os amoritas eram um povo de origem semita, assim como os acádios, mas vinham de regiões a oeste da Mesopotâmia, de áreas desérticas e semiáridas que hoje correspondem aproximadamente à Síria e à parte do norte da Arábia. O nome que os povos mesopotâmicos davam a eles vinha de uma palavra que significava algo como “ocidentais” ou “povo do oeste”, o que já indica que eram vistos como estrangeiros, gente de fora que chegava de um lugar distante e desconhecido. Durante muito tempo, os mesopotâmicos os trataram com desconfiança. Textos antigos descrevem os amoritas como nômades, pessoas sem casas fixas, que não cultivavam a terra, que não conheciam o pão assado, que viviam de forma itinerante pelas estepes e desertos. Esses textos claramente refletem o preconceito dos povos urbanos da Mesopotâmia em relação a quem vinha de fora, mas nos dizem muito sobre como a chegada dos amoritas era percebida pelos habitantes das cidades.
Por volta do ano 2000 antes de Cristo, esses grupos começaram a penetrar cada vez mais profundamente no território mesopotâmico. E aqui está algo muito interessante: ao contrário do que se poderia imaginar, essa penetração não se deu apenas pela força das armas. Os amoritas chegaram de muitas formas, seja como guerreiros, seja como pastores que buscavam novas pastagens, seja como comerciantes que transitavam pelas rotas que cruzavam a região. Aos poucos, foram se instalando nas cidades, casando-se com mulheres locais, aprendendo a língua acádia, adotando os costumes mesopotâmicos e até mesmo assumindo cargos políticos e militares dentro das próprias cidades que antes os viam como invasores.
Isso é muito importante de entender, porque a história não é sempre uma história de batalhas e conquistas violentas. Muitas vezes, as transformações culturais e políticas acontecem de forma gradual, por meio de misturas, de trocas, de adaptações. Os amoritas são um exemplo perfeito disso. Eles chegaram como estranhos e terminaram como governantes.
Com o declínio da terceira dinastia de Ur, que havia sido o último grande poder sumério, a Mesopotâmia se fragmentou novamente em diversas cidades independentes que disputavam influência e território entre si. E foi nesse vácuo de poder que os chefes amoritas começaram a se destacar. Vários deles assumiram o controle de cidades importantes. Em Isin, em Larsa, em Eshnunna, em Mari, em Assur, e em diversas outras localidades, homens de origem amorita ou descendentes de amoritas tornaram-se reis. A região ficou por décadas em um estado de conflito constante entre essas diversas cidades-estado, cada uma tentando expandir seu território e dominar as demais.
Entre todas essas cidades, havia uma que até então não era das mais importantes, mas que estava prestes a se tornar o centro do mundo conhecido: Babilônia. A cidade de Babilônia ficava às margens do rio Eufrates, em uma posição geográfica estratégica que favorecia tanto o comércio quanto o controle militar das rotas que cruzavam a Mesopotâmia. O nome Babilônia vem de uma palavra acádia que significa “porta de Deus”, o que já diz muito sobre a importância simbólica e religiosa que a cidade tinha para seus habitantes. Uma cidade que é a porta de Deus não é qualquer cidade.
A ascensão de Babilônia como potência regional começou com uma dinastia de reis amoritas que governou a cidade a partir de aproximadamente 1894 antes de Cristo. Essa dinastia é chamada pela história como a Primeira Dinastia Babilônica, ou simplesmente a Dinastia Amorita de Babilônia. Vários reis se sucederam no trono durante esse período, cada um contribuindo de alguma forma para o crescimento do poder babilônico. Mas foi o sexto rei dessa dinastia que transformou Babilônia em um verdadeiro império e que entrou para a história com um nome que você provavelmente já ouviu falar: Hamurabi.
Antes de falar de Hamurabi, porém, é importante entender o que era esse mundo em que ele nasceu e cresceu. A Mesopotâmia do início do segundo milênio antes de Cristo era um lugar de grande complexidade política. Existiam várias cidades poderosas, cada uma com seu próprio rei, seu próprio deus protetor, seu próprio exército, sua própria estrutura administrativa. O comércio era intenso, com mercadores viajando entre cidades, trocando tecidos, metais, cereais, animais e escravos. A escrita cuneiforme era amplamente usada não só para registros religiosos, mas também para contratos comerciais, cartas, tratados e registros administrativos. Já existia nessa época algo parecido com o que hoje chamaríamos de burocracia, ou seja, um sistema de administração baseado em registros escritos e em funcionários responsáveis por diferentes áreas da gestão pública.
Hamurabi assumiu o trono de Babilônia por volta de 1792 antes de Cristo. No início de seu reinado, Babilônia era apenas uma das muitas cidades importantes da região, não necessariamente a mais poderosa. Os grandes rivais da época incluíam o reino de Larsa ao sul, o reino de Mari a noroeste, o reino de Eshnunna ao nordeste, e o reino de Assíria mais ao norte. Hamurabi era um político habilidoso, e os primeiros anos de seu reinado foram marcados mais pela diplomacia do que pela guerra. Ele firmou alianças, negociou tratados, se equilibrou entre os poderes existentes, às vezes apoiando um reino contra outro, às vezes fazendo acordos que garantiam a segurança de Babilônia sem provocar confrontos diretos. Existem cartas que sobreviveram até os dias de hoje, escritas em tabletes de argila, que mostram como Hamurabi conduzia sua política externa com grande habilidade e pragmatismo.
Mas chega um momento em que a diplomacia não é suficiente, e Hamurabi foi construindo progressivamente a capacidade militar de Babilônia. Depois de décadas de preparação e de manobras políticas, ele começou uma série de campanhas militares que transformaram completamente o mapa da região. Primeiro, ele se voltou contra Larsa, ao sul, uma cidade rica e poderosa que controlava boa parte do território sumeriano. Depois de uma longa campanha, Larsa foi conquistada. Em seguida, Hamurabi se voltou contra seus próprios aliados, incluindo o reino de Mari e o reino de Eshnunna, que foram igualmente derrotados e incorporados ao domínio babilônico. Em aproximadamente 40 anos de reinado, Hamurabi conseguiu unificar praticamente toda a Mesopotâmia sob o poder de Babilônia, criando o que os historiadores chamam de Primeiro Império Babilônico.
É muito importante entender o que significava, para os povos da Antiguidade, essa unificação política. Não era apenas uma questão de fronteiras e territórios. Quando um rei conquistava uma região, ele também assumia o controle dos templos, dos recursos econômicos, das rotas comerciais e, de maneira muito significativa, da legitimidade religiosa. Na Mesopotâmia antiga, o poder de um rei estava profundamente ligado ao favor dos deuses. Um rei que vencia batalhas era um rei que tinha o apoio divino. E Hamurabi soube explorar isso de maneira muito inteligente.
O deus principal de Babilônia era Marduk. Com a ascensão de Babilônia ao domínio regional, Marduk foi progressivamente elevado ao posto de deus supremo do panteão mesopotâmico, superando até mesmo Enlil, que havia sido considerado o deus mais importante da região durante muito tempo. Essa transformação religiosa não era inocente. Ao promover Marduk ao topo do panteão, Hamurabi também justificava e reforçava sua própria autoridade política. Se o deus de Babilônia era o maior de todos os deuses, então o rei de Babilônia tinha uma missão divina de governar sobre todos os outros povos. Religião e política andavam absolutamente juntas no mundo antigo, e a história de Marduk e de Hamurabi é um exemplo perfeito disso.
Agora vamos falar sobre o que é provavelmente a maior contribuição histórica de Hamurabi e que é certamente o que mais aparece em provas do ENEM e de vestibulares: o Código de Hamurabi. Esse documento é uma das mais antigas coleções de leis escritas que chegou até nós de forma relativamente completa, e ele nos diz uma quantidade enorme de coisas sobre como a sociedade babilônica funcionava.
O Código de Hamurabi foi provavelmente criado por volta de 1754 antes de Cristo, portanto perto do fim do reinado do rei. Ele foi inscrito em uma estela, que é uma grande pedra vertical com formato arredondado no topo. Essa estela media aproximadamente dois metros e quarenta centímetros de altura e era feita de diorito, uma rocha muito dura e resistente. No topo da estela há um relevo em pedra que mostra Hamurabi de pé diante do deus Shamash, que era o deus da justiça e do sol. Shamash está representado em um trono e parece estar entregando a Hamurabi algo, possivelmente uma vara e um anel, que eram símbolos de autoridade real na iconografia mesopotâmica. A mensagem visual é clara: as leis que vêm a seguir não são apenas as leis de um homem, são leis de origem divina, dadas pelo próprio deus da justiça ao rei de Babilônia.
Abaixo desse relevo, o texto do código foi gravado em escrita cuneiforme em toda a superfície da estela. O texto começa com um prólogo, que é uma introdução em que Hamurabi se apresenta e descreve sua missão como rei. Ele diz que os grandes deuses, Anum e Enlil, o escolheram para proclamar a justiça na terra, para destruir os maus e os perversos, para impedir que os fortes oprimissem os fracos. Essa introdução é muito poderosa porque estabelece o propósito das leis não apenas como regras de convivência, mas como expressão de uma vontade divina de que haja justiça entre os seres humanos.
Em seguida vêm as leis propriamente ditas, que geralmente são contadas em aproximadamente duzentos e oitenta e dois artigos, embora o número exato varie um pouco dependendo de como os estudiosos classificam e dividem os textos. Cada lei segue uma estrutura padrão: primeiro descreve uma situação específica, e depois estabelece a punição ou a consequência para aquela situação. Por exemplo, a lei pode dizer que se alguém acusar outra pessoa de um crime e não conseguir provar a acusação, o acusador deve ser morto. Ou que se um pedreiro construiu uma casa e ela desabou matando o filho do dono, o filho do pedreiro deve ser morto. Ou que se um médico realizou uma operação com um bisturi de bronze e o paciente morreu, as mãos do médico devem ser cortadas.
Você provavelmente já reconheceu o princípio por trás dessas leis, que ficou famoso na história. Trata-se do chamado princípio de talião, que muitas vezes é resumido na frase olho por olho, dente por dente. A ideia central é que a punição deve ser proporcional ao dano causado. Quem matar alguém deve ser morto. Quem causar um ferimento deve receber o mesmo ferimento. Quem causar um prejuízo material deve ressarcir o mesmo valor. A punição deve refletir o crime.
Mas há uma complicação muito importante aqui, e ela é fundamental para entender como a sociedade babilônica funcionava. O Código de Hamurabi não aplicava as mesmas regras para todos da mesma forma. A sociedade babilônica era dividida em categorias distintas, e as punições variavam de acordo com o status social das pessoas envolvidas. Existiam três categorias principais. A primeira era a dos homens livres de posição elevada, chamados awilum, que eram os nobres, os ricos, os proprietários de terras, os funcionários importantes do Estado. A segunda categoria era a dos chamados mushkenum, que eram pessoas livres, mas de posição social mais baixa, talvez dependentes do palácio ou de grandes proprietários. E a terceira categoria era a dos escravos, chamados wardum, que eram considerados propriedade de seus donos.
Quando duas pessoas de categorias diferentes estavam envolvidas em um conflito, as punições eram diferentes. Por exemplo, se um awilum, ou seja, um nobre, golpeasse um awilum de posição semelhante, ele deveria pagar uma multa em prata. Mas se um awilum golpeasse um mushkenum de posição mais baixa, a multa era menor. E se um escravo golpeasse um homem livre, a punição era física, geralmente o corte da orelha. Isso nos mostra que, embora o código buscasse estabelecer uma justiça, essa justiça era profundamente desigual segundo os padrões modernos, porque aplicava punições diferentes a pessoas diferentes com base não no crime em si, mas no status social de quem estava envolvido.
Isso é algo que aparece muito no ENEM, então preste bastante atenção. O Código de Hamurabi é frequentemente citado como um exemplo de avanço na história da humanidade porque representa uma tentativa de substituir a vingança privada e arbitrária por um sistema de justiça regulado pelo Estado. Antes de haver leis escritas, se alguém te prejudicasse, dependia da força de sua família ou de seu grupo para obter reparação. Não havia um padrão, não havia uma autoridade imparcial, não havia previsibilidade. Com o código, passou a existir um conjunto de regras escritas, públicas, que todo mundo podia conhecer e que estabeleciam de antemão o que aconteceria em cada situação. Isso é um avanço civilizatório enorme. Mas ao mesmo tempo, esse sistema não tratava todos como iguais perante a lei, e isso é uma limitação que também é historicamente muito significativa.
O código também nos diz muito sobre a vida cotidiana da Babilônia. Há leis sobre casamento e divórcio. Sobre adoção de crianças. Sobre o que acontece quando um marido é feito prisioneiro de guerra e a esposa se casa com outra pessoa. Sobre a herança de bens entre filhos de diferentes esposas. Sobre contratos de aluguel de terras e de animais. Sobre salários de trabalhadores e artesãos. Sobre empréstimos e juros. Sobre a responsabilidade de tavernas que serviam bebidas alcoólicas. Sobre médicos e cirurgiões. Sobre carpinteiros, pedreiros e barqueiros. O código revela uma sociedade complexa, urbana, comercial, com múltiplas profissões e relações econômicas sofisticadas.
Um ponto especialmente interessante do Código de Hamurabi é o que ele diz sobre as mulheres. Em geral, a posição das mulheres na sociedade babilônica era subordinada à dos homens, o que era típico das sociedades antigas. As mulheres eram, em grande parte, definidas pela sua relação com homens, seja como filhas, esposas ou mães. Mas o código também reconhece certos direitos das mulheres. Uma mulher casada tinha direitos sobre os bens que trouxera para o casamento. Uma esposa que fosse maltratada pelo marido tinha, em certas condições, o direito de se divorciar. Uma sacerdotisa tinha direitos patrimoniais específicos. Isso não significa que havia igualdade de gênero, claro que não havia, mas mostra que o sistema legal reconhecia que as mulheres tinham interesses que mereciam alguma forma de proteção.
A estela original do Código de Hamurabi ficou em Babilônia por muitos anos, mas em algum momento do segundo milênio antes de Cristo foi levada para a cidade de Susa, na atual região do Irã, provavelmente como troféu de guerra por um rei elamita que havia derrotado os babilônicos. Foi em Susa que a estela foi encontrada por arqueólogos franceses no início do século vinte, entre 1901 e 1902, e desde então ela se encontra em exposição no Museu do Louvre, em Paris, onde qualquer visitante pode vê-la até hoje.
Agora, vamos continuar nossa análise do Império Babilônico além do código. Hamurabi não foi apenas um legislador. Ele foi também um grande administrador. Sob seu reinado, a cidade de Babilônia se tornou o maior centro urbano da Mesopotâmia e provavelmente um dos maiores do mundo inteiro naquele período. A cidade era protegida por enormes muralhas. Havia templos grandiosos, palácios imponentes, mercados movimentados e canais de irrigação que tornavam fértil a terra ao redor. O sistema de irrigação era um elemento fundamental da economia babilônica, porque a região entre o Tigre e o Eufrates, embora irrigada pelos rios, não tinha chuvas suficientes para garantir a agricultura sem um trabalho humano intenso de construção e manutenção de canais. O Estado controlava e supervisionava esse sistema de irrigação, e isso era uma das formas mais concretas de poder que o rei exercia sobre a população.
A economia do Império Babilônico era baseada principalmente na agricultura. Os principais produtos cultivados eram cereais como a cevada e o trigo, além de tâmaras, que eram a fruta mais importante da região, e sesamo, utilizado para a produção de óleo. Havia também uma intensa atividade comercial. Os mercadores babilônicos, chamados tamkaru, eram figuras importantes da sociedade, responsáveis por organizar expedições comerciais que levavam produtos da Mesopotâmia para regiões distantes, como a Anatólia, o atual território da Turquia, e a região do golfo Pérsico. Em troca, traziam madeira, metais e outros produtos que a Mesopotâmia não produzia localmente. Existia até um sistema que se parecia com o que hoje chamaríamos de crédito ou financiamento, em que o tamkaru adiantava mercadorias ou dinheiro para um comerciante viajante, que depois lhe pagava os lucros da viagem.
A religião continuou sendo um pilar central da sociedade babilônica. O templo de Marduk em Babilônia, chamado Esagila, era um dos maiores e mais ricos da Mesopotâmia. Associado ao templo havia o zigurate de Babilônia, chamado Etemenanki, que significa “casa da fundação do céu e da terra”. Esse zigurate era uma enorme torre em degraus que se elevava para o céu, e é possível que ele tenha inspirado a lenda bíblica da Torre de Babel, já que os hebreus estiveram em contato com a Babilônia em épocas posteriores. O templo não era apenas um centro de culto. Era também um centro econômico, pois acumulava riquezas, emprestava grãos, armazenava excedentes agrícolas e geria terras. A instituição religiosa e a instituição política estavam profundamente entrelaçadas na vida babilônica.
Além de Marduk, outros deuses eram cultuados na Babilônia. Shamash, o deus do sol e da justiça, já mencionado na estela do código, era especialmente importante. Ishtar, a deusa do amor e da guerra, era uma das divindades mais populares de toda a Mesopotâmia. Anu, o deus do céu, e Enlil, o deus do vento e das tempestades, completavam o núcleo das divindades principais. Os babilônicos acreditavam que os deuses tinham personalidades, preferências, ciúmes e vinganças, muito parecidos com os humanos, só que com poderes infinitamente maiores. Manter os deuses satisfeitos, por meio de rituais, sacrifícios de animais, oferendas de alimentos e a realização correta das cerimônias religiosas, era uma obrigação coletiva de toda a sociedade.
Outro aspecto fascinante da civilização babilônica é o desenvolvimento do conhecimento. Os babilônicos foram grandes observadores do céu. Ao longo de séculos, acumularam registros detalhados sobre os movimentos dos planetas, das estrelas e da lua. Esses registros tinham inicialmente um propósito religioso e adivinhatório, porque acreditavam que os eventos celestes anunciavam o que aconteceria na terra. Mas ao longo do tempo, essa observação sistemática do céu gerou um conhecimento astronômico impressionante. Os babilônicos foram capazes de prever eclipses com grande precisão. Identificaram e nomearam planetas. Dividiram o céu em constelações que ainda usamos hoje, porque foram eles que criaram os fundamentos do que mais tarde se tornaria o zodíaco. A matemática babilônica também era muito avançada. Eles usavam um sistema numérico baseado no número sessenta, que é por isso que dividimos uma hora em sessenta minutos e um minuto em sessenta segundos, uma divisão que herdamos de seus trabalhos matemáticos de milhares de anos atrás.
O Primeiro Império Babilônico durou além do reinado de Hamurabi, mas nenhum de seus sucessores conseguiu manter o mesmo nível de poder e coesão que ele havia alcançado. O império começou a enfraquecer lentamente após a sua morte, por volta de 1750 antes de Cristo. Povos vizinhos aproveitaram a oportunidade para se rebelar ou para atacar. Os cassitas, um povo de origem ainda debatida pelos estudiosos, que viviam nas montanhas a leste da Mesopotâmia, foram gradualmente ganhando influência na região. E por volta de 1595 antes de Cristo, um evento dramático colocou um ponto final na Primeira Dinastia Babilônica: os hititas, um poderoso povo da Anatólia que havia construído um grande império na região da atual Turquia, realizaram uma audaciosa expedição militar que chegou até Babilônia, saqueou a cidade e retirou-se rapidamente, levando consigo riquezas e escravos.
Esse saque hitita foi devastador, mas curiosamente não resultou em uma ocupação permanente, porque os hititas se retiraram logo em seguida, provavelmente porque estavam longe demais de sua base para manter o controle da região. O que aconteceu a seguir foi que os cassitas, que já estavam presentes na região, aproveitaram o vácuo de poder deixado pelo colapso da Primeira Dinastia Babilônica e assumiram o controle da cidade e de boa parte da Mesopotâmia. A chamada Dinastia Cassita governou Babilônia por cerca de quatro séculos, um período surpreendentemente longo que demonstra que a cidade de Babilônia havia se tornado importante demais para ser abandonada. Qualquer grupo que quisesse ser reconhecido como um poder regional na Mesopotâmia precisava controlar Babilônia.
Agora, por que tudo isso é importante para você, aluno do primeiro ano, e especialmente para quem vai prestar o ENEM? Primeiro, porque o Código de Hamurabi aparece frequentemente em questões que pedem a análise de fontes históricas, e você precisa saber contextualizar esse documento dentro do seu tempo e espaço. Segundo, porque a história dos amoritas e da Babilônia é um exemplo perfeito de como as civilizações não surgem do nada, mas se constroem a partir de encontros, misturas e conflitos entre povos diferentes. Terceiro, porque conceitos como organização do Estado, sistema de leis, desigualdade social, papel da religião no poder político e desenvolvimento econômico baseado na agricultura e no comércio aparecem nessa história de forma muito concreta e podem ser relacionados com outras épocas e outros lugares.
Pense, por exemplo, na relação entre lei e justiça. O Código de Hamurabi estabelecia regras escritas, o que era um avanço, mas aplicava essas regras de forma desigual. O rico era tratado diferente do pobre, o homem livre diferente do escravo. Isso gerou uma reflexão histórica que continua relevante até hoje: uma lei que existe formalmente é suficiente para garantir justiça, ou é preciso que essa lei seja aplicada de forma igualitária para todos? Essa é exatamente o tipo de questão que o ENEM adora explorar, conectando situações históricas antigas com reflexões sobre a cidadania e os direitos humanos no mundo contemporâneo.
Pense também na relação entre religião e poder. Hamurabi não dizia apenas “sou o rei e portanto minhas leis devem ser obedecidas”. Ele dizia “sou o rei escolhido pelos deuses para estabelecer a justiça e por isso minhas leis são sagradas”. Isso é algo que aparece em todas as épocas da história, de formas diferentes. No Egito Antigo, o faraó era ele próprio um deus. Na Europa medieval, os reis afirmavam governar por direito divino. Em diversas culturas do mundo, o poder político buscou legitimidade na autoridade religiosa. Reconhecer esse padrão histórico ajuda a entender muito sobre como o poder funciona, não só no passado, mas também no presente.
E por fim, pense no papel da escrita na construção do Estado. O Código de Hamurabi só foi possível porque havia uma escrita desenvolvida, havia escribas treinados para redigir e copiar textos, havia uma administração capaz de utilizar esses registros. A escrita cuneiforme, que os sumérios inventaram e que os babilônicos aperfeiçoaram e continuaram usando, foi a base tecnológica que permitiu construir impérios, registrar leis, controlar tributos e manter a comunicação entre regiões distantes. Sem a escrita, não haveria burocracia. Sem burocracia, não haveria império. Essa é uma conexão fundamental entre tecnologia e organização social que aparece várias vezes ao longo da história da humanidade.
Para resumir o que vimos nesta aula: os amoritas eram um povo semita do ocidente que gradualmente penetrou na Mesopotâmia durante o segundo milênio antes de Cristo, aproveitando o declínio das antigas potências sumérias e acádias. Um de seus grupos assumiu o controle de Babilônia e criou uma dinastia que culminou no reinado de Hamurabi, o sexto rei, que unificou praticamente toda a Mesopotâmia sob o poder babilônico. Durante seu reinado, Hamurabi promoveu o deus Marduk ao topo do panteão mesopotâmico, construiu uma cidade poderosa e próspera, e criou o Código de Hamurabi, uma das primeiras coleções de leis escritas da história, gravada em uma imensa estela de pedra que pode ser visitada hoje no Museu do Louvre. Esse código aplicava o princípio da proporcionalidade na punição, mas de forma diferente para pessoas de status sociais diferentes. O Primeiro Império Babilônico durou até por volta de 1595 antes de Cristo, quando foi saqueado pelos hititas, abrindo caminho para o domínio cassita.
A civilização babilônica contribuiu enormemente para o desenvolvimento humano, com avanços na astronomia, na matemática, no direito e na administração pública. Muitos desses avanços foram transmitidos para civilizações posteriores, chegando de formas transformadas até nós. A divisão da hora em sessenta minutos, a constelação do zodíaco, a ideia de que um rei justo tem a obrigação de proteger os fracos dos fortes, todas essas coisas têm raízes nas margens do rio Eufrates, há quatro mil anos. Na próxima aula, continuaremos tratando sobre a Mesopotâmia, conheceremos os assírios, um povo guerreiro que construiu um dos impérios mais temidos do mundo antigo, e o chamado Segundo Império Babilônico, com um rei que ficou tão famoso quanto Hamurabi e que mandou construir uma das sete maravilhas do mundo antigo. Até lá!
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| Dados de Catalogação na Publicação: NORAT, Markus Samuel Leite. Curso de história para o 1º ano do ensino médio. João Pessoa: Editora Norat, 2026. Livro Digital, Formato: HTML5, Tamanho: 132,4125 gigabytes (132.412.500 kbytes) . ISBN: 978-65-80808-16-8 | Cutter: N825c | CDD-907.12 | CDU-94(100)”-04/17″:373.5 . Palavras-chave: História, Ensino Médio, Pré-História, Civilizações Antigas, Mesopotâmia, Egito Antigo, Grécia Antiga, Roma Antiga, África Antiga, Reinos Africanos, Mundo Árabe-Muçulmano, Idade Média, Feudalismo, Antigo Regime, Monarquias Absolutistas, Renascimento, Humanismo, ENEM, Vestibulares. . TODOS OS DIREITOS RESERVADOS. É proibida a cópia total ou parcial desta obra, por qualquer forma ou qualquer meio. A violação dos direitos autorais é crime tipificado na Lei n. 9.610/98 e artigo 184 do Código Penal. |
