Curso de História para o 1º Ano do Ensino Médio
MÓDULO 7 – ROMA ANTIGA
Aula 89 – O surgimento do Cristianismo e sua expansão no Império Romano
Aula 89 – O surgimento do Cristianismo e sua expansão no Império Romano
Para entender o surgimento do Cristianismo, precisamos primeiro entender o mundo em que ele nasceu. E esse mundo era o Império Romano do século primeiro depois de Cristo, um império que se espalhava do norte da África até as ilhas britânicas, do Atlântico até as fronteiras com a Pérsia, unindo povos de línguas, culturas e tradições religiosas completamente diferentes sob uma mesma estrutura de poder político e militar. Era um mundo onde conviviam centenas de religiões, cultos e divindades diferentes, onde o sincretismo religioso era comum e onde os romanos em geral toleravam as práticas religiosas dos povos conquistados desde que esses povos não perturbassem a ordem pública e respeitassem a autoridade do Estado. Nesse contexto imenso e plural, numa região pequena e politicamente insignificante do extremo oriente do Mediterrâneo, nasceu uma religião que em menos de quatro séculos se tornaria a religião oficial do próprio Império Romano, e que nos séculos seguintes se espalharia por praticamente todos os cantos da Terra.
A região onde o Cristianismo nasceu era a Palestina, mais especificamente a Judeia, um território que havia sido conquistado pelos romanos no ano sessenta e três antes de Cristo, quando o general Pompeu tomou Jerusalém. Os judeus que viviam nessa região tinham uma característica muito diferente dos outros povos do Império: eram monoteístas, ou seja, acreditavam em um único Deus, e esse monoteísmo era o centro de uma identidade cultural e religiosa extremamente forte. Enquanto a maioria dos povos do Império Romano aceitava a ideia de que havia muitos deuses e que os deuses dos diferentes povos poderiam coexistir e até ser identificados uns com os outros, os judeus rejeitavam completamente essa ideia. Para eles, havia apenas um Deus verdadeiro, o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó, o Deus que havia feito uma aliança com o povo de Israel. Todos os outros deuses que os outros povos adoravam eram falsos.
Essa posição causava tensões constantes com a autoridade romana. Os romanos exigiam que todos os povos do Império reconhecessem a divindade dos imperadores e participassem dos cultos oficiais do Estado. Para a maioria dos povos, isso não era um problema: adorar o imperador como um deus a mais, além dos próprios deuses locais, era algo perfeitamente natural dentro de um sistema religioso politeísta. Mas para os judeus, reconhecer a divindade do imperador seria uma blasfêmia, uma violação do princípio fundamental de que só havia um Deus. Os romanos, pragmáticos como sempre foram, acabaram concedendo aos judeus uma isenção especial: eles não precisavam participar dos cultos imperiais, mas em troca faziam sacrifícios e orações no Templo de Jerusalém pelo bem do imperador e do Império. Era um arranjo político engenhoso que preservava a paz religiosa, mas que nunca apagou completamente as tensões.
Dentro da sociedade judaica da Palestina no século primeiro depois de Cristo havia uma grande variedade de grupos e de tendências políticas e religiosas. Os saduceus eram o grupo mais próximo do poder romano e da elite sacerdotal que controlava o Templo de Jerusalém; eles defendiam uma interpretação conservadora da Lei judaica e rejeitavam as doutrinas mais recentes como a crença na ressurreição dos mortos. Os fariseus eram o grupo mais influente entre o povo comum, dedicados ao estudo rigoroso da Lei e ao cumprimento detalhado de todos os seus preceitos no cotidiano. Os essênios eram um grupo ascético que vivia em comunidades separadas do restante da sociedade, esperando o fim dos tempos e um julgamento divino iminente. E havia ainda os zelotes, que defendiam a resistência armada contra a dominação romana e esperavam por um libertador enviado por Deus, um Messias, que restauraria a soberania do povo judeu.
A palavra Messias, em hebraico, significa o ungido, o escolhido. Em grego, essa mesma ideia é traduzida pela palavra Christos, que em português nos deu Cristo. A expectativa messiânica era muito forte na Palestina do século primeiro: muitos judeus acreditavam que Deus enviaria em breve um líder extraordinário que livraria o povo judeu da dominação estrangeira e inauguraria um novo tempo de justiça e de paz. Essa expectativa foi o contexto em que surgiu o movimento fundado por Jesus de Nazaré.
Jesus de Nazaré é uma das figuras históricas mais estudadas e mais discutidas da história humana. Para os cristãos, ele é o Filho de Deus, o Messias prometido e o Salvador da humanidade. Para os historiadores que o estudam do ponto de vista estritamente acadêmico, ele foi um pregador judeu da Galileia que desenvolveu um ensinamento religioso e moral poderoso, reuniu um grupo de seguidores e foi executado pelas autoridades romanas por volta do ano trinta depois de Cristo.
As fontes históricas sobre Jesus são complexas. As principais fontes são os quatro Evangelhos, escritos entre os anos setenta e cem depois de Cristo por autores que conhecemos pelos nomes de Mateus, Marcos, Lucas e João. Os Evangelhos são fontes religiosas, escritas por crentes para transmitir a fé cristã, não documentos históricos neutros, e por isso precisam ser analisados com cuidado. Além dos Evangelhos, há menções a Jesus em outros escritos cristãos do primeiro e segundo séculos, e também algumas referências em autores romanos não-cristãos, como o historiador Tácito e o funcionário imperial Plínio, o Jovem, que confirmam que havia um movimento chamado de Cristianismo baseado na figura de Cristo, e que esse movimento havia se espalhado suficientemente para preocupar as autoridades romanas já no início do século segundo.
O que sabemos com razoável certeza histórica é que Jesus cresceu na Galileia, uma região do norte da Palestina, provavelmente aprendeu o ofício de carpinteiro, como era o ofício de seu pai adotivo José, e iniciou sua atividade pública de pregação após ter sido batizado por um profeta chamado João, que ficou conhecido como João Batista. João pregava no deserto, chamando as pessoas ao arrependimento e ao batismo no Rio Jordão como sinal de purificação interior. Quando as autoridades judaicas fizeram João ser preso e depois executado por ordem do rei Herodes Antipas, Jesus continuou e expandiu o movimento.
Os ensinamentos de Jesus tinham características que o diferenciavam de outros pregadores de sua época. Ele falava com uma autoridade pessoal incomum, não como um intérprete da Lei que cita os ensinamentos anteriores, mas como alguém que se apresentava como capaz de revelar por si mesmo a verdade sobre Deus e sobre o comportamento humano. Ele ensinava que Deus era um pai amoroso, não uma figura distante e severa que exigia cumprimento mecânico de regras, mas uma presença próxima e misericordiosa que se importava com cada ser humano individualmente. Ensinava que os dois maiores mandamentos eram amar a Deus acima de tudo e amar o próximo como a si mesmo, e que toda a Lei poderia ser resumida nessa dupla exigência de amor.
Jesus pregava em parábolas, que são histórias curtas com uma mensagem moral ou espiritual. A parábola do filho pródigo, que foge de casa, desperdiça sua herança e volta arrependido para encontrar um pai que o recebe com alegria; a parábola do bom samaritano, que socorre um viajante ferido à beira da estrada quando os representantes da religiosidade oficial passam sem ajudar; a parábola do semeador, que lança sementes em diferentes tipos de solo e colhe diferentes resultados dependendo da qualidade da terra: essas histórias simples e memoráveis continham mensagens profundas sobre a relação com Deus, sobre a responsabilidade pelo outro e sobre a condição humana.
Uma das características mais marcantes do ensinamento de Jesus era sua atenção aos marginalizados. Numa sociedade rigidamente hierarquizada, Jesus se aproximava dos pobres, dos doentes, dos leprosos que eram obrigados a viver separados do restante da sociedade, das mulheres que tinham status jurídico e social muito inferior ao dos homens, dos cobradores de impostos que eram considerados colaboradores da ocupação romana e portanto odiados pelos compatriotas, dos estrangeiros e dos pecadores de toda espécie. Para ele, nenhuma dessas pessoas estava excluída do amor de Deus. Essa mensagem de inclusão radical era ao mesmo tempo atraente para os de baixo da hierarquia social e perturbadora para os que se consideravam superiores por origem, por riqueza ou por cumprimento rigoroso das regras religiosas.
Jesus reuniu um grupo íntimo de seguidores chamados de apóstolos, do grego apostolos, que significa enviado. Os Evangelhos mencionam doze apóstolos, um número que tinha uma ressonância simbólica para os judeus, por remeter às doze tribos de Israel. Entre eles estavam Simão, que Jesus chamou de Pedro, o que significa rocha; André, irmão de Pedro; Tiago e João, filhos de Zebedeu; Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé, Tiago filho de Alfeu, Tadeu, Simão, o zelote, e Judas Iscariotes. Esses homens vinham principalmente da Galileia e de origens humildes, muitos deles eram pescadores.
A atividade pública de Jesus durou provavelmente entre um e três anos. Em algum momento, ele e seus seguidores viajaram de Galileia até Jerusalém por ocasião da Páscoa judaica, a festa que comemorava a libertação do Egito narrada no Êxodo. Essa viagem a Jerusalém precipitou o conflito que levaria à sua morte. A entrada de Jesus em Jerusalém foi recebida com entusiasmo por parte da multidão, e dentro do Templo ele expulsou os comerciantes e os cambistas que faziam negócios no recinto sagrado, um gesto provocativo que lhe valeu a hostilidade definitiva das autoridades religiosas do Templo.
A elite sacerdotal de Jerusalém, os chefes dos sacerdotes e os líderes dos fariseus, viam Jesus como uma ameaça à ordem religiosa e social. Se o povo o seguia em grandes números e o aclamava como Messias, isso poderia provocar uma revolta que atrairia a repressão brutal dos romanos. As autoridades judaicas decidiram que era melhor eliminar Jesus antes que a situação escapasse de controle. Judas Iscariotes, um dos doze apóstolos, entregou Jesus às autoridades, que o prenderam durante a noite no Jardim do Getsêmani. Depois de um processo sumário diante das autoridades judaicas, Jesus foi levado ao governador romano Pôncio Pilatos.
Pilatos, segundo os relatos dos Evangelhos, não encontrou razão jurídica suficiente para condenar Jesus à morte, mas cedeu à pressão das autoridades judaicas e da multidão. Jesus foi condenado à crucificação, a forma de execução que os romanos usavam para criminosos de baixa condição e para os que eram acusados de ameaçar a ordem política, neste caso, sob a acusação de se apresentar como rei dos judeus, o que era interpretado como pretensão de liderança de uma revolta política. Sua morte por crucificação ocorreu provavelmente no ano trinta depois de Cristo, durante o governo de Pilatos, que durou de vinte e seis a trinta e seis depois de Cristo.
Se a história de Jesus tivesse terminado aqui, provavelmente ele seria hoje uma nota de rodapé nos estudos sobre os movimentos religiosos da Palestina do século primeiro. O que transformou radicalmente o destino do movimento que ele havia iniciado foi o que os seus seguidores proclamaram que havia acontecido depois de sua morte: a ressurreição.
Os discípulos afirmavam que Jesus havia ressuscitado dos mortos três dias após a crucificação e aparecido a eles e a outros seguidores várias vezes antes de ascender ao céu. Essa proclamação da ressurreição era o coração da fé cristã primitiva. Para os primeiros cristãos, a ressurreição de Jesus não era uma metáfora nem um símbolo: era um evento real que provava que ele era de fato o Filho de Deus e o Messias prometido, e que sua morte havia sido não uma derrota, mas o cumprimento de um plano divino para a salvação da humanidade. Paulo de Tarso, o mais importante teólogo do Cristianismo primitivo, escreveu explicitamente que se Cristo não ressuscitou, então a fé cristã é vã e vazia. A ressurreição era, para os primeiros cristãos, a fundação sobre a qual todo o resto se apoiava.
Após a experiência que descreviam como ressurreição e ascensão de Jesus, os apóstolos e os outros discípulos começaram a pregar ativamente em Jerusalém. O Livro dos Atos dos Apóstolos, outro texto do Novo Testamento, narra como na festa de Pentecostes, cinquenta dias após a Páscoa, o Espírito Santo desceu sobre os discípulos reunidos num cenáculo em Jerusalém, e eles saíram para as ruas pregando o Evangelho, que é a palavra grega para boa notícia, para as multidões de judeus de diversas regiões que haviam vindo a Jerusalém para a festa. Nesse dia, segundo o relato do Atos, três mil pessoas se converteram.
A comunidade cristã primitiva de Jerusalém tinha características muito particulares. Era uma comunidade de judeus que acreditavam que Jesus era o Messias prometido pelas Escrituras judaicas. Eles continuavam frequentando o Templo e observando os preceitos da Lei judaica, mas se reuniam também em casas particulares para partir o pão e rezar juntos, num rito que celebrava a última refeição de Jesus com os apóstolos na véspera de sua prisão. Eles compartilhavam seus bens, com os mais ricos ajudando os mais pobres da comunidade. Eram liderados por Pedro e pelos outros apóstolos, e também por Tiago, irmão de Jesus, que se tornou uma figura de grande autoridade na comunidade de Jerusalém.
Essa comunidade judaico-cristã de Jerusalém logo enfrentou as primeiras perseguições. As autoridades religiosas judaicas viam os seguidores de Jesus como uma seita perigosa que pregava doutrinas heréticas, especialmente a ideia de que um homem crucificado pelos romanos era o Messias. O primeiro mártir cristão de que os Atos dos Apóstolos falam foi Estevão, um diácono, ou seja, um servidor da comunidade, que foi apedrejado por blasfêmia segundo a lei judaica. A perseguição que se seguiu dispersou muitos dos discípulos para outras regiões, mas essa dispersão, que poderia ter sufocado o movimento, acabou espalhando a mensagem cristã para além de Jerusalém.
Entre os que participaram da perseguição a Estevão estava um jovem chamado Saulo, de Tarso, uma cidade da Cilícia, região que hoje é parte da Turquia. Saulo era judeu da diáspora, ou seja, de uma família que vivia fora da Palestina, mas era também cidadão romano por nascimento, o que era um privilégio valioso. Ele havia recebido uma educação rigorosa na tradição dos fariseus e era um adversário fervoroso do novo movimento cristão. A caminho de Damasco, para onde ia com autorização das autoridades judaicas para prender os cristãos que haviam fugido para lá, Saulo teve uma experiência que mudou completamente sua vida: segundo seu próprio relato, uma luz intensa o cegou e ele ouviu uma voz que se identificava como Jesus e perguntava por que ele o estava perseguindo.
Depois de recuperar a visão, Saulo se converteu ao Cristianismo e mudou seu nome para Paulo. Essa conversão de um perseguidor feroz em missionário apaixonado é um dos episódios mais dramaticamente impactantes da história religiosa da humanidade. Paulo passou os anos seguintes viajando incansavelmente pelo Mediterrâneo, pregando o Evangelho em sinagogas judaicas, praças públicas, casas particulares e até na famosa colina do Areópago em Atenas. Ele fundou comunidades cristãs em cidades como Antioquia, Éfeso, Corinto, Filipos, Tessalônica e chegou a pregar em Roma.
Paulo foi a figura mais decisiva na transformação do Cristianismo de um movimento interno ao judaísmo em uma religião universal aberta a todos os povos. Ele formulou com clareza teológica a ideia de que a mensagem de Jesus era para todos os seres humanos, judeus ou não, e que os não-judeus que se convertiam ao Cristianismo não precisavam cumprir todos os preceitos da Lei judaica, incluindo a circuncisão e as regras alimentares. Essa posição de Paulo foi alvo de debate intenso dentro do Cristianismo primitivo: os cristãos judaizantes de Jerusalém argumentavam que os convertidos não-judeus precisavam cumprir a Lei de Moisés. O debate foi parcialmente resolvido por um encontro em Jerusalém por volta do ano quarenta e nove depois de Cristo, chamado de Concílio de Jerusalém, onde os líderes apostólicos concordaram que os não-judeus convertidos precisavam apenas de alguns requisitos básicos, sem a obrigação da circuncisão ou de toda a lei cerimonial judaica.
Essa decisão abriu o caminho para a universalização do Cristianismo. Ao não exigir a conversão prévia ao judaísmo, o Cristianismo se tornou acessível a homens e mulheres de qualquer origem étnica, cultural ou social. Paulo em suas cartas, que são os documentos cristãos mais antigos que chegaram até nós, escreveu uma frase que resume essa visão universalista: não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher, pois todos são um em Cristo Jesus. Essa declaração de igualdade essencial entre todos os seres humanos diante de Deus era algo radicalmente novo para o mundo antigo.
As cartas de Paulo, escritas entre os anos cinquenta e seis antes de sua morte por volta do ano sessenta e cinco depois de Cristo, foram enviadas às comunidades cristãs que ele havia fundado ou com as quais mantinha contato, para resolver problemas práticos, para aprofundar pontos doutrinários e para encorajar os cristãos diante das dificuldades. As cartas aos Romanos, aos Coríntios, aos Gálatas, aos Filipenses e às outras comunidades constituem a parte mais antiga do Novo Testamento e revelam um teólogo de enorme capacidade intelectual que sistematizou os fundamentos da fé cristã de uma forma que moldaria para sempre a teologia da Igreja.
Por que o Cristianismo se espalhou com tanta rapidez pelo Império Romano? Essa é uma das perguntas mais interessantes da história, e os historiadores identificaram vários fatores que contribuíram para essa expansão extraordinária.
Em primeiro lugar, a mensagem cristã tinha um apelo emocional e espiritual poderoso para muitas pessoas em várias camadas da sociedade romana. O Império Romano era uma sociedade de desigualdades enormes, onde a maioria da população vivia em condições de pobreza, de insegurança e de dependência. Para os escravos, os pobres livres, os trabalhadores das cidades, as mulheres sem direitos plenos, os imigrantes sem cidadania, uma religião que proclamava que todos eram iguais diante de Deus, que Deus se importava com os pequenos e com os marginalizados, que havia uma vida além da morte onde as injustiças seriam corrigidas e os sofrimentos recompensados, essa mensagem tinha uma força extraordinária. Não era apenas uma filosofia abstrata; era uma esperança concreta que dava sentido ao sofrimento presente.
Em segundo lugar, a comunidade cristã oferecia uma rede de solidariedade concreta que era muito atraente num mundo sem sistemas de seguridade social. Quando alguém se tornava cristão, entrava numa comunidade que cuidava dos seus membros: os ricos ajudavam os pobres, os doentes eram visitados e assistidos, os mortos eram sepultados com dignidade, os viajantes encontravam acolhida e hospitalidade nas comunidades cristãs das cidades por onde passavam. Essa prática concreta da fraternidade era uma das coisas que mais impressionavam os observadores externos, incluindo os críticos do Cristianismo, que reconheciam que os cristãos cuidavam dos seus próprios com uma dedicação incomum.
Em terceiro lugar, a infraestrutura do Império Romano facilitou a difusão do Cristianismo. As estradas que os romanos haviam construído para fins militares e comerciais permitiam que os missionários cristãos se deslocassem com mais rapidez e segurança do que em qualquer época anterior. As rotas comerciais do Mediterrâneo, que ligavam portos de uma ponta à outra do mar, eram os caminhos pelos quais viajavam mercadores que levavam junto com suas mercadorias também suas crenças religiosas. Paulo e outros missionários aproveitaram essas redes de mobilidade para se deslocar de uma cidade a outra pregando o Evangelho.
Em quarto lugar, a difusão do grego como língua comum no Mediterrâneo oriental facilitou enormemente a comunicação. Os Evangelhos e as cartas de Paulo foram escritos em grego, a língua que a maioria das pessoas cultas do Mediterrâneo oriental entendia, fosse sua língua materna ou não. Isso permitia que um texto escrito em Antioquia pudesse ser lido e compreendido em Alexandria, em Éfeso ou em Corinto sem necessidade de tradução.
Em quinto lugar, o Judaísmo já havia preparado um terreno favorável. Nas sinagogas das cidades de todo o Mediterrâneo havia não apenas judeus da diáspora, mas também um número significativo de não-judeus que eram chamados de tementes a Deus ou prosélitos, pessoas que se haviam aproximado do monoteísmo judaico, da ética elevada da Lei judaica e das Escrituras, mas que não haviam dado o passo de se converter completamente ao judaísmo com todos os seus requisitos. Para essas pessoas, o Cristianismo oferecia uma forma de adesão ao monoteísmo ético de inspiração judaica sem a exigência da circuncisão e das leis cerimoniais: era um Judaísmo, por assim dizer, mais acessível para os de origem não-judaica.
A expansão do Cristianismo não foi, porém, um processo pacífico. Os cristãos enfrentaram perseguições periódicas tanto por parte das autoridades judaicas quanto, e com muito mais violência, por parte do Estado romano.
A relação do Cristianismo com o Império Romano foi desde o início complicada. Os cristãos se recusavam a participar dos cultos oficiais do Estado e a reconhecer a divindade do imperador, o que era interpretado pelas autoridades como deslealdade política e irreligiosidade perigosa. O Império Romano era tolerante com as religiões dos povos conquistados, mas esperava que os habitantes do Império participassem dos cultos cívicos como expressão de lealdade ao Estado. A recusa cristã nesse ponto era vista como subversiva. Além disso, os cristãos eram frequentemente mal compreendidos pelo público em geral: os rumores mais absurdos circulavam sobre suas reuniões secretas, suas práticas e suas crenças.
A primeira perseguição em grande escala foi a do imperador Nero, em sessenta e quatro depois de Cristo. Nesse ano, um grande incêndio destruiu grande parte de Roma, e Nero, para desviar as suspeitas que recaíam sobre ele mesmo, culpou os cristãos pelo desastre. Tácito, um dos maiores historiadores romanos, descreveu a crueldade das punições impostas aos cristãos de Roma: foram cobertos com peles de animais selvagens e atirados aos cães para que os dilacerassem; foram crucificados; foram cobertos de material inflamável e usados como tochas vivas nos jardins de Nero durante a noite. Foi nessa perseguição que, segundo a tradição cristã, foram martirizados tanto Pedro, o principal dos apóstolos, quanto Paulo, o grande missionário. Pedro teria sido crucificado de cabeça para baixo, por não se considerar digno de morrer da mesma forma que Jesus; Paulo, por ser cidadão romano, teria sido decapitado.
Essa perseguição de Nero foi local, concentrada em Roma, e durou pouco. Mas ela estabeleceu um padrão que se repetiria em outras épocas: a identificação dos cristãos como inimigos da ordem pública, como uma seita supersticiosa e perigosa que merecia perseguição. A palavra usada por Tácito para descrever o Cristianismo era superstitio exitiabilis, superstição funesta, um termo que expressava o desprezo das elites romanas cultas por uma religião que consideravam primitiva e irresponsável.
Nos séculos seguintes, as perseguições foram irregulares e localizadas, dependendo muito da atitude de cada imperador e de cada governador provincial. Domiciano, no final do século primeiro, promoveu perseguições. Trajano, no início do segundo século, estabeleceu uma política curiosamente ambígua: numa famosa troca de cartas com Plínio, o Jovem, governador da Bitínia, determinou que os cristãos não deveriam ser buscados ativamente, mas que, se fossem acusados e se recusassem a abjurar sua fé e a honrar os deuses romanos, deveriam ser punidos. Marco Aurélio, que era filósofo estoico e é frequentemente idealizado como um governante iluminado e sábio, permitiu perseguições em sua época, incluindo o martírio dos cristãos de Lyon na Gália em cento e setenta e sete depois de Cristo.
A maior e mais sistemática perseguição foi a do imperador Diocleciano, no início do século quarto depois de Cristo. Diocleciano era um reformador enérgico que tentou reorganizar o Império em crise em todos os seus aspectos, inclusive o religioso. Em trezentos e três depois de Cristo, ele emitiu uma série de éditos contra os cristãos: ordenou a destruição das igrejas, a queima dos textos sagrados cristãos, a cassação dos direitos civis dos cristãos e a exigência de que todos os funcionários do Estado sacrificassem aos deuses romanos. Essa perseguição, que a tradição cristã chamou de a Grande Perseguição, foi a mais intensa e mais organizada que o Império havia desencadeado contra o Cristianismo. Durou cerca de dez anos, com intensidades diferentes nas diferentes partes do Império.
Mas a Grande Perseguição não conseguiu erradicar o Cristianismo. Ao contrário, os mártires, ou seja, os que preferiam morrer a negar sua fé, se tornavam figuras de admiração e de inspiração para outros cristãos e até para não-cristãos que observavam aquela firmeza extraordinária. A palavra mártir, em grego, significa testemunha: o mártir testemunhava com a própria vida a autenticidade de sua fé. Os relatos dos martírios circulavam entre as comunidades cristãs e serviam de estímulo para a perseverança na fé.
A virada decisiva na relação entre o Cristianismo e o Império Romano veio com o imperador Constantino. Em trezentos e doze depois de Cristo, na véspera de uma batalha decisiva contra seu rival Magêncio, perto da Ponte Mílvio sobre o Rio Tibre em Roma, Constantino afirmou ter tido uma visão: viu no céu um sinal que os cristãos interpretavam como o monograma de Cristo, formado pelas letras gregas chi e rho, as duas primeiras letras da palavra Christos, acompanhado de uma inscrição que em latim dizia, neste sinal vencerás. Constantino mandou colocar esse símbolo nos escudos de seus soldados, venceu a batalha e atribuiu a vitória ao deus dos cristãos.
No ano seguinte, trezentos e treze depois de Cristo, Constantino e seu co-imperador Licínio assinaram em Milão um documento que ficou conhecido como o Edito de Milão. Esse documento não tornava o Cristianismo a religião oficial do Império, como às vezes é equivocadamente dito. O que ele fazia era proclamar a liberdade religiosa completa para todos os habitantes do Império, incluindo explicitamente os cristãos, que tinham suas propriedades confiscadas restituídas e tinham garantido o direito de praticar sua fé abertamente. Para os cristãos que haviam vivido sob ameaça de perseguição por séculos, o Edito de Milão foi uma transformação radical das condições de sua existência.
Constantino foi além da simples tolerância. Ele favoreceu ativamente o Cristianismo: concedeu privilégios ao clero cristão, isentando-o de obrigações civis que recaíam sobre o restante da população; fez doações ricas às igrejas cristãs; mandou construir grandes basílicas em Roma e em outras cidades, incluindo a Igreja do Santo Sepulcro em Jerusalém e a basílica de São Pedro no Vaticano; e interferiu nos debates teológicos internos do Cristianismo, convocando o Concílio de Niceia em trezentos e vinte e cinco depois de Cristo, o primeiro grande concílio ecumênico da Igreja.
O Concílio de Niceia foi convocado para resolver uma disputa teológica que estava dividindo profundamente as comunidades cristãs: a controvérsia ariana. Um sacerdote de Alexandria chamado Ário havia ensinado que Jesus, sendo o Filho de Deus, era uma criatura de Deus, e portanto não era da mesma substância que o Pai, mas era subordinado a ele e havia existido antes de tudo mais mas não existia eternamente como o Pai. Contra essa posição, o bispo Alexandre de Alexandria e seu diácono Atanásio argumentavam que o Filho era da mesma substância que o Pai, igual e eterno a ele. O Concílio de Niceia, com mais de trezentos bispos reunidos na cidade de Niceia na atual Turquia, condenou o arianismo e afirmou na fórmula do Credo Niceno que o Filho era da mesma substância que o Pai, consubstancial, em latim consubstantialis. Essa definição doutrinária se tornou a base da teologia cristã ortodoxa sobre a Trindade.
Constantino se converteu formalmente ao Cristianismo apenas no leito de morte, em trezentos e trinta e sete depois de Cristo, e sua motivação religiosa pessoal é debatida pelos historiadores. Mas o efeito prático de seu reinado foi colocar o Império Romano ao lado do Cristianismo, favorecendo-o materialmente e institucionalmente de formas que transformaram rapidamente a relação de forças entre o Cristianismo e as religiões tradicionais.
O passo final dessa transformação foi dado pelo imperador Teodósio, que em trezentos e oitenta depois de Cristo publicou um édito chamado de Cunctos Populos, que tornava o Cristianismo niceno a religião oficial e obrigatória do Império Romano. Com esse édito, a situação se havia invertido completamente: em menos de duzentos anos, a religião que havia sido perseguida pelo Estado passou a ser a religião do Estado, e agora eram os pagãos, os adoradores dos deuses antigos, que passavam a sofrer discriminação e, em alguns casos, perseguição.
Teodósio ordenou o fechamento dos templos pagãos e a proibição dos sacrifícios aos deuses antigos. Em trezentos e noventa e três depois de Cristo, proibiu também os Jogos Olímpicos, por serem uma celebração religiosa dedicada a Zeus. Séculos de tradição pagã foram sendo sistematicamente desmontados pela autoridade imperial, agora comprometida com a nova fé.
Dentro do próprio Cristianismo, esses séculos de expansão haviam produzido uma grande variedade de interpretações e de comunidades. Para além do debate sobre o arianismo, havia outras controvérsias: o donatismo, no norte da África, que debatia o que fazer com os cristãos que haviam abjurado a fé durante a perseguição de Diocleciano; o gnosticismo, que misturava elementos cristãos com tradições filosóficas e religiosas diversas, propondo uma interpretação do Cristianismo muito diferente da que se tornou ortodoxa; o maniqueísmo, que via o universo como um campo de batalha entre princípios iguais do bem e do mal. A Igreja foi se definindo em oposição a essas tendências, estabelecendo o que chamava de ortodoxia, a doutrina correta, e condenando as outras posições como heresias, palavras do grego que significava escolha ou facção, com o sentido pejorativo de desvio da verdade.
A estrutura interna da Igreja cristã também foi se organizando ao longo desses séculos. No início, as comunidades cristãs eram relativamente igualitárias, lideradas por um conjunto de responsáveis chamados de bispos, do grego episkopos, que significa supervisor ou inspetor; presbíteros, que nos deu a palavra padre; e diáconos. Com o tempo, a hierarquia foi se tornando mais clara: o bispo era a autoridade máxima de cada comunidade local, e os bispos das grandes cidades, especialmente Roma, Antioquia, Alexandria, Constantinopla e Jerusalém, passaram a ter autoridade sobre os bispos das cidades menores da região. O bispo de Roma, por ser o bispo da capital do Império e por estar associado às memórias de Pedro e de Paulo, foi gradualmente sendo reconhecido como uma autoridade de prestígio especial entre todos os bispos, o que seria o fundamento histórico do papado.
O Cristianismo desenvolveu também uma rica cultura intelectual e literária. Os Padres da Igreja, como são chamados os grandes teólogos e escritores cristãos dos primeiros séculos, produziram obras de filosofia, de teologia, de apologética, que é a defesa racional da fé, e de espiritualidade que combinavam a tradição bíblica cristã com os instrumentos intelectuais da filosofia grega. Justino Mártir, no século segundo, argumentou que o Logos, o princípio racional que os filósofos gregos haviam identificado como a razão ordenadora do universo, era o mesmo que o Verbo divino que se havia encarnado em Jesus. Orígenes, no século terceiro, produziu uma obra teológica de erudição e de profundidade extraordinárias. Agostinho de Hipona, no século quarto e quinto, que havia passado por um longo período de busca intelectual e espiritual antes de se converter ao Cristianismo, escreveu obras como Confissões e A Cidade de Deus que são monumentos da literatura e do pensamento ocidental.
Ao final do século quarto depois de Cristo, o Cristianismo havia percorrido um caminho que há três séculos e meio antes pareceria impossível: de uma pequena seita perseguida dentro do judaísmo palestino à religião do maior império do mundo ocidental. Esse percurso envolveu figuras extraordinárias como Paulo, Pedro e os outros apóstolos; o sangue dos mártires que morreram recusando abjurar sua fé; os teólogos que formularam as doutrinas; os missionários anônimos que pregavam nas estradas, nos mercados e nas casas; e os imperadores que, por razões que misturavam convicção religiosa, cálculo político e oportunismo, colocaram o poder do Estado a serviço da nova religião.
O Cristianismo não saiu dessa experiência de séculos sem ser profundamente transformado. A religião que Teodósio tornou oficial em trezentos e oitenta era muito mais complexa, muito mais institucionalizada e muito mais intimamente ligada ao poder político e à cultura greco-romana do que a fé simples e intensa das primeiras comunidades de Jerusalém ou das igrejas domésticas que Paulo havia fundado ao longo do Mediterrâneo. Essa transformação gerou tensões que nunca se apagaram completamente: a tensão entre a mensagem evangélica de pobreza, de serviço e de amor ao marginalizado e a realidade de uma instituição rica, poderosa e aliada do Estado; a tensão entre a universalidade da mensagem cristã e as divisões doutrinárias que produziram heresias e cismas; a tensão entre a fé e a razão, entre a revelação e a filosofia.
Mas a presença do Cristianismo no mundo, a partir daquele momento, era um fato irreversível. Quando o Império Romano Ocidental entrou em colapso no século quinto depois de Cristo, a Igreja sobreviveu e se tornou a principal instituição de continuidade entre o mundo antigo e o mundo medieval que estava nascendo. Ela preservou textos, organizou comunidades, educou as novas gerações e transmitiu elementos da civilização greco-romana às culturas bárbaras que estavam se estabelecendo nas antigas províncias do Império. O Cristianismo havia começado como uma resposta às aspirações espirituais de homens e mulheres comuns numa província marginal do Oriente romano. Havia se tornado, em menos de quatro séculos, a espinha dorsal espiritual e institucional de toda uma civilização.
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| Dados de Catalogação na Publicação: NORAT, Markus Samuel Leite. Curso de história para o 1º ano do ensino médio. João Pessoa: Editora Norat, 2026. Livro Digital, Formato: HTML5, Tamanho: 132,4125 gigabytes (132.412.500 kbytes) . ISBN: 978-65-80808-16-8 | Cutter: N825c | CDD-907.12 | CDU-94(100)”-04/17″:373.5 . Palavras-chave: História, Ensino Médio, Pré-História, Civilizações Antigas, Mesopotâmia, Egito Antigo, Grécia Antiga, Roma Antiga, África Antiga, Reinos Africanos, Mundo Árabe-Muçulmano, Idade Média, Feudalismo, Antigo Regime, Monarquias Absolutistas, Renascimento, Humanismo, ENEM, Vestibulares. . TODOS OS DIREITOS RESERVADOS. É proibida a cópia total ou parcial desta obra, por qualquer forma ou qualquer meio. A violação dos direitos autorais é crime tipificado na Lei n. 9.610/98 e artigo 184 do Código Penal. |
