Curso de História para o 1º Ano do Ensino Médio
MÓDULO 7 – ROMA ANTIGA
Aula 90 – A crise e a queda do Império Romano do Ocidente (476 d.C.)
Aula 90 – A crise e a queda do Império Romano do Ocidente (476 d.C.)
Por quase oitocentos anos, Roma foi o centro do mundo ocidental. Começou como uma pequena aldeia de pastores e agricultores às margens do Rio Tibre, na Itália central, e cresceu até se tornar o maior império que o mundo mediterrâneo já havia visto: um território que se estendia da Bretanha, no atual território do Reino Unido, até a Mesopotâmia, no atual Iraque; do deserto do Saara até o Rio Reno e o Rio Danúbio, na Europa central. Dentro dessa extensão imensa viviam dezenas de milhões de pessoas de origens, línguas, culturas e tradições completamente diferentes, unidas por uma mesma estrutura política, militar e administrativa. Roma havia construído estradas, aquedutos e cidades por toda essa extensão. Havia difundido a língua latina e a cultura greco-romana por boa parte do mundo conhecido. Havia criado um sistema jurídico que ainda hoje influencia os códigos de leis de dezenas de países. Era, de todos os ângulos que se observasse, uma das maiores realizações da história humana.
E então desapareceu.
No ano de quatrocentos e setenta e seis depois de Cristo, um chefe militar de origem germânica chamado Odoacro depôs o último imperador romano do Ocidente, um jovem chamado Rômulo Augústulo, sem combate, sem drama aparente, com uma frieza quase burocrática. Não houve uma batalha final épica, não houve um momento único de grande catástrofe. Odoacro simplesmente comunicou ao imperador do Oriente, em Constantinopla, que a parte ocidental do Império não precisava mais de um imperador próprio, e devolveu as insígnias imperiais. Rômulo Augústulo foi exilado para um castelo na Campânia, no sul da Itália, com uma pensão generosa, e desapareceu da história. Era o fim oficial do Império Romano do Ocidente.
Mas como uma civilização tão poderosa chegou a esse ponto? Como um império que havia durado séculos, que havia derrotado Cartago, que havia conquistado a Grécia, o Egito e a Britânia, que havia resistido a invasões, guerras civis e crises de toda espécie, acabou se fragmentando e desaparecendo como entidade política? Essa é uma das perguntas mais discutidas de toda a história, e os historiadores debatem as causas da queda de Roma há séculos, sem chegar a um consenso completo. O que podemos fazer aqui é examinar os principais processos que enfraqueceram progressivamente o Império ao longo de dois e três séculos antes do momento final de quatrocentos e setenta e seis.
Para entender a crise do Império Romano, precisamos recuar até o século terceiro depois de Cristo, que os historiadores chamam de crise do século terceiro. Entre os anos duzentos e dezoito e duzentos e oitenta e quatro depois de Cristo, em um período de apenas sessenta e seis anos, o Império teve aproximadamente cinquenta imperadores diferentes. A maioria deles morreu de forma violenta, assassinada por rivais ou pelos próprios soldados. Esse número por si só já diz muito sobre a instabilidade política que o Império estava vivendo.
O problema fundamental era estrutural: o Império Romano nunca havia criado um sistema claro e estável de sucessão do poder. Na teoria, o Senado tinha a autoridade para nomear o imperador. Na prática, quem nomeava o imperador eram as legiões. Um general que tivesse o apoio do exército podia proclamar-se imperador, marchar sobre Roma e tomar o poder. E se outro general, em outra fronteira do vasto Império, conseguisse o apoio das suas tropas, ele também se proclamava imperador e marchava contra o primeiro. O resultado eram guerras civis contínuas, que enfraqueciam as fronteiras, esgotavam os recursos e tornavam impossível qualquer planejamento de longo prazo.
Durante a crise do século terceiro, esse problema se multiplicou porque o Império enfrentava simultaneamente ameaças externas muito sérias nas suas fronteiras. No leste, o Império Parta havia sido substituído pelo muito mais agressivo Império Sassânida, fundado em duzentos e vinte e quatro depois de Cristo. Os sassânidas eram governantes persas que queriam restaurar o antigo Império Aquemênida e que viam Roma como o obstáculo principal a essa ambição. Em duzentos e sessenta depois de Cristo, o exército sassânida derrotou as forças romanas na batalha de Edessa e capturou o próprio imperador romano Valeriano, que passou o resto de seus dias como prisioneiro na Pérsia. Para os romanos, acostumados a ver seu imperador como o ser mais poderoso do mundo, a imagem do imperador capturado e humilhado pelos inimigos foi um choque psicológico enorme.
Ao mesmo tempo em que os sassânidas pressionavam no leste, os povos germânicos pressionavam nas fronteiras do Reno e do Danúbio. Os godos, os francos, os alamanos e outros povos faziam incursões cada vez mais profundas dentro do território imperial, saqueando cidades e aldeias, levando cativos e riquezas. Em alguns momentos, grupos desses povos chegaram à Itália central, à Grécia e à Espanha. As defesas fronteiriças, que dependiam de recursos que a guerra civil interna estava consumindo, não conseguiam mais conter essas pressões com a eficiência de antes.
A crise do século terceiro teve também uma dimensão econômica gravíssima. As guerras civis e as invasões externas interromperam o comércio de longa distância que era a base da prosperidade romana. As estradas eram menos seguras. Os portos eram menos frequentados. As redes de troca que ligavam as diferentes regiões do Império se enfraqueceram. Para financiar os exércitos e as guerras, os imperadores recorreram a uma medida que em curto prazo resolvia o problema imediato mas em longo prazo criava um problema muito maior: a desvalorização da moeda. Começaram a reduzir progressivamente o conteúdo de prata das moedas de prata do Império, o denário, mantendo o valor nominal mas diminuindo o valor real. O resultado foi uma inflação acelerada que corroeu o poder de compra da população, desequilibrou as finanças do Estado e gerou uma desconfiança generalizada nas moedas oficiais. Em algumas regiões, as trocas em espécie substituíram o dinheiro, o que representa um recuo enorme na sofisticação econômica que o Império havia atingido.
A crise do século terceiro foi superada de forma bastante impressionante por uma série de imperadores enérgicos, especialmente o imperador Diocleciano, que governou de duzentos e oitenta e quatro a trezentos e cinco depois de Cristo. Diocleciano reconheceu que o Império havia crescido demais para ser governado por uma única pessoa a partir de um único centro, e criou o sistema chamado de Tetrarquia, que em grego significa governo de quatro. Na Tetrarquia, o Império era governado simultaneamente por quatro imperadores: dois com o título de Augusto, que eram os imperadores sênior, e dois com o título de César, que eram os imperadores júnior e sucessores designados dos Augustos. Cada um dos quatro governava uma parte do Império e tinha um exército sob seu comando. O sistema pretendia resolver o problema de sucessão, garantir que cada fronteira tivesse um comandante supremo próximo e dividir o peso da administração de um território imenso.
Diocleciano também reorganizou o exército, a burocracia e o sistema fiscal do Império de formas que trouxeram maior estabilidade por algumas décadas. Mas a Tetrarquia entrou em colapso logo depois de sua abdicação, em trezentos e cinco, com guerras entre os vários pretendentes ao poder. Foi desse caos que emergiu Constantino, que se tornou o único senhor do Império em trezentos e vinte e quatro depois de Cristo.
Constantino tomou uma decisão que mudaria permanentemente a geografia política do Império: fundou uma nova capital no extremo oriental da Europa, numa posição estratégica extraordinária na entrada do Estreito de Bósforo, que separa a Europa da Ásia. Essa nova capital se chamou Constantinopla, a cidade de Constantino, em homenagem ao seu fundador, e foi solenemente inaugurada em trezentos e trinta depois de Cristo no local de uma antiga cidade grega chamada Bizâncio. A nova capital era ao mesmo tempo mais defensável geograficamente que Roma, por estar numa península naturalmente protegida, e mais próxima das fronteiras orientais do Império, que eram as mais ameaçadas pelos sassânidas.
A fundação de Constantinopla teve um efeito que provavelmente Constantino não pretendia, mas que se revelou irreversível: acentuou a diferença entre a metade oriental e a metade ocidental do Império. O oriente era mais populoso, mais urbanizado, mais rico economicamente, com uma rede comercial mais desenvolvida e uma classe de proprietários e de comerciantes mais próspera. O ocidente era comparativamente mais rural, mais dependente da agricultura de subsistência e mais vulnerável às pressões externas nas suas fronteiras do Reno e do Danúbio. Com o centro político do Império se deslocando gradualmente para o oriente, o ocidente foi recebendo cada vez menos atenção e recursos.
Depois de Constantino, o Império foi governado ora de forma unificada por um único imperador, ora dividido entre dois ou mais imperadores que governavam de forma paralela. A divisão foi se tornando progressivamente mais permanente. Em trezentos e noventa e cinco depois de Cristo, o imperador Teodósio morreu e dividiu formalmente o Império entre seus dois filhos: Arcádio ficou com o Oriente e Honório ficou com o Ocidente. Essa divisão de trezentos e noventa e cinco é frequentemente citada pelos historiadores como o momento em que a separação entre os dois impérios se tornou definitiva. Nunca mais o Império foi governado por um único imperador de forma estável.
Foi precisamente nesse período que aconteceu um dos eventos mais importantes para entender a crise final do Ocidente: a chegada dos hunos à Europa.
Os hunos eram um povo de guerreiros nômades das estepes da Ásia central, extraordinariamente habilidosos na guerra a cavalo, que começaram a pressionar os povos germânicos que viviam nas planícies ao norte do Mar Negro e do Rio Danúbio a partir do final do século quarto depois de Cristo. A chegada dos hunos foi um choque enorme para os povos germânicos que estavam no caminho deles. Os godos, que viviam nessa região, tinham dois grandes grupos: os ostrogodos, a leste, e os visigodos, a oeste. Os ostrogodos foram rapidamente subjugados pelos hunos. Os visigodos, aterrorizados, fugiram para o sul e pediram autorização ao imperador romano para atravessar o Rio Danúbio e se estabelecer no interior do Império, na região da Trácia, que hoje é parte da Bulgária e da Turquia europeia.
O imperador Valente, que governava o Oriente em trezentos e setenta e seis depois de Cristo, autorizou a travessia. Era uma decisão que tinha uma lógica política e militar: os visigodos poderiam se tornar soldados do Império, reforçando os exércitos romanos que já tinham dificuldade em recrutar soldados suficientes dentro da população civil. Mas a implementação do acordo foi desastrosa. Os funcionários romanos responsáveis por acomodar os visigodos que haviam atravessado o Danúbio os trataram com brutalidade e os extorquiram, exigindo subornos e alimentos em troca de qualquer assistência. A situação chegou a um ponto em que os visigodos passavam fome dentro do território imperial enquanto os funcionários romanos se enriqueciam com sua exploração. Os visigodos se revoltaram e começaram a saquear as regiões ao redor.
O imperador Valente decidiu esmagar a revolta pessoalmente e marchou com seu exército para a Trácia. Em agosto de trezentos e setenta e oito depois de Cristo, os dois exércitos se encontraram perto da cidade de Adrianópolis. A Batalha de Adrianópolis foi uma das derrotas militares mais graves que Roma havia sofrido em sua longa história. A cavalaria visigoda destruiu a infantaria romana, e o próprio imperador Valente morreu no campo de batalha, seu corpo nunca encontrado entre os mortos. Dois terços do exército romano oriental, estimado em talvez trinta mil homens, foram mortos ou feitos prisioneiros.
A Batalha de Adrianópolis demonstrou que os povos germânicos, especialmente com sua cavalaria pesada, eram capazes de derrotar os exércitos romanos em campo aberto. E demonstrou também a fragilidade de uma política de assentamento de povos estrangeiros em massa dentro do Império sem recursos e sem estrutura para integrá-los adequadamente.
O sucessor de Valente, o imperador Teodósio, chegou a um acordo com os visigodos que era inédito na história romana: eles seriam assentados na Trácia como foederati, ou seja, aliados do Império, mantendo suas próprias estruturas de liderança e seus próprios costumes, combatendo sob as ordens do imperador romano mas como uma unidade autônoma, não integrada nas legiões regulares. Era a primeira vez que Roma assentava um povo estrangeiro em sua forma coletiva dentro do Império, sem exigir sua assimilação à cultura e à organização romano-militar. Era um modelo que seria repetido muitas vezes nas décadas seguintes, com consequências profundas para a coesão do Império.
O exército romano do período tardio era profundamente diferente do exército da época de Augusto ou de Trajano. Cada vez mais, era composto por bárbaros recrutados individualmente ou em grupos, e liderado por generais de origem germânica que às vezes mal falavam latim. Essa barbarização progressiva do exército não significava necessariamente que os soldados fossem menos competentes como guerreiros, mas significava que os laços de lealdade eram diferentes: um soldado godo ou franco não tinha o mesmo investimento emocional e cultural na sobrevivência do Império Romano que um cidadão romano de várias gerações. Combatia por salário, por prestígio pessoal ou por lealdade a seu general imediato, não necessariamente pela ideia abstrata de Roma.
Enquanto o Império Ocidental enfrentava essas pressões militares e políticas, sua base econômica continuava se deteriorando. As guerras frequentes destruíam colheitas e afugentavam os trabalhadores agrícolas. A carga de impostos necessária para financiar os exércitos e a burocracia crescente pesava cada vez mais sobre uma população que tinha cada vez menos capacidade de pagá-los. Os grandes proprietários de terra, os senadores e os potentados locais, tinham meios de escapar da carga fiscal ou de transferi-la para os mais fracos, enquanto os pequenos agricultores e os artesãos eram esmagados. Muitos camponeses livres se tornaram dependentes dos grandes proprietários, entregando suas terras em troca de proteção e de um lugar para viver, num processo que os historiadores identificam como uma das origens do sistema feudal que dominaria a Europa medieval.
As cidades do Ocidente, que haviam sido o centro da vida romana, estavam minguando. A população urbana diminuía. Os edifícios públicos não eram mais mantidos. Os aquedutos entravam em colapso sem manutenção. As termas fechavam. O nível de vida urbano que havia caracterizado o Império no seu apogeu estava regredindo em boa parte do Ocidente. Não de forma uniforme nem de forma repentina, mas de forma gradual e inexorável.
No início do século quinto depois de Cristo, o Ocidente começou a se fragmentar politicamente de forma visível. Em quatrocentos e seis depois de Cristo, no inverno, o Rio Reno congelou de forma incomum, e uma massa enorme de povos germânicos, incluindo vândalos, suevos e alanos, atravessou o rio gelado e entrou na Gália, a atual França, espalhando-se pelas províncias romanas sem que os exércitos imperiais conseguissem detê-los. A Britânia, cortada das rotas de comunicação com o continente, foi progressivamente abandonada à sua própria sorte. A Espanha foi penetrada pelos vândalos e pelos suevos. A Gália foi disputada por vários grupos germânicos.
Em Roma, nesse período, o verdadeiro poder não estava nas mãos do imperador, que com frequência era uma figura jovem e sem experiência real de governo, mas nas mãos do comandante supremo do exército, chamado de magister militum, mestre dos soldados. O homem mais poderoso do Ocidente nas primeiras décadas do século quinto era Estilicão, um general de origem vândala que havia casado com a sobrinha do imperador Teodósio e que governava em nome do jovem imperador Honório. Estilicão era um político e um estrategista capaz, que negociou acordos com os bárbaros quando não podia vencê-los militarmente e tentou manter a coerência do Império com recursos cada vez mais escassos. Em quatrocentos e oito depois de Cristo, foi acusado de traição e executado por ordem do próprio Honório, que havia se deixado convencer por conselheiros invejosos de que Estilicão estava negociando com os inimigos para trair o Império. A morte de Estilicão deixou o Ocidente sem seu mais capaz defensor exatamente no momento em que a ameaça mais grave se aproximava.
Aquela ameaça era Alarico, rei dos visigodos. Alarico havia servido como general do Império Romano Oriental e se sentia desrespeitado pelo tratamento que havia recebido das autoridades imperiais. Depois de anos de negociações frustradas com o governo de Honório em Ravena, onde o imperador se havia instalado por ser mais fácil de defender que Roma, Alarico marchou sobre Roma com seu exército visigodo. Em agosto de quatrocentos e dez depois de Cristo, depois de sitiá-la duas vezes sem sucesso, os visigodos conseguiram entrar na cidade e a saquearam por três dias.
O saque de Roma em quatrocentos e dez foi um choque psicológico de proporções imensas para o mundo romano. Por oitocentos anos, desde a invasão dos gauleses em trezentos e oitenta e seis antes de Cristo, Roma não havia sido tomada por inimigos. Era a cidade eterna, o centro do mundo, o símbolo da civilização e da ordem. Ver Roma saqueada por um bando de guerreiros bárbaros foi para os contemporâneos algo como se o chão debaixo dos pés houvesse cedido de repente. Agostinho de Hipona, o grande teólogo cristão que estava vivo naquele momento, começou a escrever sua monumental obra A Cidade de Deus precisamente como resposta a esse acontecimento, para demonstrar que o verdadeiro destino do cristão não estava ligado à fortuna da cidade terrena de Roma, mas à cidade espiritual de Deus.
Mas o saque de quatrocentos e dez foi, por mais traumático que fosse simbolicamente, relativamente limitado em seus efeitos materiais. Os visigodos ficaram apenas três dias, levaram riquezas e cativos mas não destruíram os edifícios principais nem massacraram a população em massa. Alarico morreu logo depois, ao sul da Itália, e seus sucessores acabaram levando os visigodos para a Gália e depois para a Espanha, onde fundaram um reino próprio.
Nas décadas seguintes, o Ocidente continuou se desmembrando. Os vândalos, depois de percorrer a Espanha, atravessaram o Estreito de Gibraltar e se estabeleceram no norte da África, que era uma das regiões mais ricas e mais importantes do Império Ocidental. A África romana havia sido o celeiro de Roma, fornecendo os grãos que alimentavam a população da capital, e a base econômica que financiava boa parte do Estado imperial. A perda da África para os vândalos foi um golpe econômico devastador para o Ocidente.
Em quatrocentos e cinquenta e cinco depois de Cristo, os vândalos, liderados por seu rei Genserico, navegaram da África até Roma e a saquearam pela segunda vez. Esse segundo saque durou duas semanas e foi muito mais sistemático e destrutivo que o de Alarico. Os vândalos levaram riquezas imensas, obras de arte, metais preciosos e milhares de cativos. O nome dos vândalos ficou tão associado à destruição que ainda hoje chamamos de vandalismo a destruição gratuita de bens e de monumentos.
No período entre o saque de quatrocentos e dez e a deposição do último imperador em quatrocentos e setenta e seis, o Ocidente viveu em uma situação de caos crescente, com imperadores que se sucediam com rapidez assustadora, com frequência nomeados e depostos pelos generais bárbaros que eram o verdadeiro poder militar. De quatrocentos e cinquenta e cinco a quatrocentos e setenta e seis, em apenas vinte e um anos, o Ocidente teve oito imperadores diferentes.
Havia, no entanto, uma figura que durante algum tempo deu a ilusão de que o Ocidente poderia ser salvo: o general Aécio, conhecido na tradição histórica como o último romano. Aécio era de origem romana mas havia passado parte de sua juventude como refém na corte dos hunos, o que lhe dera um conhecimento profundo da cultura e das táticas militares desse povo. Ele soube usar os hunos como aliados contra os povos germânicos durante anos, mantendo um equilíbrio de forças que protegia o núcleo do Ocidente.
Mas em quatrocentos e cinqüenta e um depois de Cristo, a situação mudou radicalmente. Átila, o rei dos hunos, em vez de atacar o Império Oriental como havia feito nos anos anteriores, virou-se para o Ocidente e invadiu a Gália com um exército enorme. Aécio organizou uma coligação improvável de romanos e de diferentes povos bárbaros para enfrentá-lo, e na Batalha dos Campos Cataláunicos, em junho de quatrocentos e cinquenta e um, essa coligação conseguiu deter o avanço de Átila, que recuou. Foi provavelmente a maior batalha da história da Antiguidade tardia, e a vitória de Aécio impediu que os hunos dominassem a Gália.
No ano seguinte, Átila invadiu a Itália e devastou diversas cidades do norte. Segundo uma tradição, foi convencido a não marchar sobre Roma por uma embaixada liderada pelo papa Leão Primeiro, que teria negociado pessoalmente a retirada dos hunos. Seja qual for a razão real da retirada, Átila voltou para o leste e morreu em quatrocentos e cinquenta e três depois de Cristo, de forma repentina e inesperada, segundo os relatos, por hemorragia na noite de seu casamento. Com a morte de Átila, o império dos hunos se desintegrou rapidamente, seus povos subjugados se rebelaram e os hunos desapareceram como força política relevante.
Mas o fim dos hunos não salvou o Ocidente. Aécio, o general que havia salvado a Gália, foi assassinado em quatrocentos e cinquenta e quatro pelo próprio imperador Valentiniano Terceiro, que suspeitava que ele fosse forte demais. E Valentiniano Terceiro foi por sua vez assassinado no ano seguinte por apoiadores de Aécio que queriam vingar seu senhor. O Ocidente havia perdido, em meses, seus dois personagens mais capazes, e ficou à mercê das rivalidades entre os generais bárbaros que detinham o poder real.
Nesse contexto de desordem crescente chegamos ao ano quatrocentos e setenta e seis. O general bárbaro que nesse momento controlava efetivamente o Ocidente era Orestes, ele próprio um romano que havia servido na corte de Átila antes de entrar a serviço do Império. Orestes havia deposto o imperador anterior e colocado no trono seu próprio filho, um jovem chamado Rômulo, que recebeu o apelido de Augústulo, que em latim significa pequeno Augusto, numa ironia cruel que o destino lhe preparou ao fazer do último imperador romano do Ocidente uma figura diminuída até no nome.
Os mercenários germânicos que formavam o núcleo do exército do Ocidente, principalmente hérulos, rugios e outras tribos, exigiam de Orestes que lhes fosse concedido um terço das terras da Itália como recompensa pelos serviços. Orestes recusou. Em resposta, os mercenários se revoltaram sob o comando de seu chefe Odoacro, um guerreiro de origem hérula ou skira, e marcharam contra Orestes. Ele foi derrotado e morto. O jovem imperador Rômulo Augústulo, percebendo que resistir era inútil e que Odoacro não queria matá-lo, se rendeu sem combater.
Odoacro foi pragmático e calculista. Não proclamou nenhum novo imperador. Simplesmente enviou as insígnias imperiais do Ocidente ao imperador do Oriente em Constantinopla, Zenão, comunicando que o Ocidente não precisava mais de um imperador próprio e que ele governaria a Itália em nome do imperador oriental como rei. Era uma mudança de roupagens, mas uma mudança de roupagens que sinalizava o reconhecimento de que a estrutura política do Império Romano no Ocidente havia deixado de existir.
É preciso dizer que o ano quatrocentos e setenta e seis não foi percebido pelos contemporâneos como o fim do mundo ou como uma ruptura dramática. Para muita gente, a situação não pareceu muito diferente de antes: os generais bárbaros já controlavam de fato o poder há décadas, os imperadores já eram frequentemente figuras sem poder real, e a vida cotidiana da maior parte da população continuava praticamente da mesma forma, sujeita às mesmas leis, às mesmas autoridades locais, às mesmas práticas religiosas. A data de quatrocentos e setenta e seis ganhou seu significado histórico não para os que a viveram, mas para as gerações posteriores de historiadores que precisavam de um marco para periodizar a transição entre o mundo antigo e o mundo medieval.
Por que Roma caiu? Os historiadores debatem essa questão há centenas de anos, e as respostas são muitas e variadas. Edward Gibbon, o grande historiador britânico do século dezoito, atribuía a queda principalmente ao Cristianismo e ao barbarismo: o Cristianismo teria enfraquecido o espírito guerreiro romano e desviado recursos para a Igreja, enquanto os bárbaros solapavam as fronteiras militares. Essa interpretação é hoje considerada excessivamente simplista e bastante tendenciosa.
Outros historiadores enfatizam as causas econômicas: a desvalorização da moeda, a decadência do comércio, o peso fiscal excessivo, o declínio da agricultura. Outros destacam as causas militares: a incapacidade de recrutar soldados suficientes dentro da população civil, a dependência crescente de bárbaros nem sempre leais, a impossibilidade de defender uma fronteira tão longa com os recursos disponíveis. Outros ainda apontam para causas políticas: a instabilidade do sistema de sucessão, as guerras civis que esgotavam os recursos internos, a corrupção da burocracia. Há também os que apontam para causas ambientais e epidemiológicas: epidemias devastadoras que atingiram o Império nos séculos segundo e terceiro reduziram significativamente a população, e mudanças climáticas podem ter contribuído tanto para as dificuldades agrícolas do Ocidente quanto para os movimentos migratórios dos povos das estepes que chegaram à Europa.
A resposta mais honesta e mais completa é que a queda de Roma foi o resultado de uma combinação de todos esses fatores, atuando ao longo de séculos, de forma que o enfraquecimento causado por um problema tornava o Império mais vulnerável aos outros, num círculo que foi se estreitando progressivamente. A crise do século terceiro enfraqueceu a economia e a autoridade central. A barbarização do exército enfraqueceu a coesão militar. A pressão dos hunos sobre os povos germânicos criou uma onda de movimentos que o Império já enfraquecido não conseguia mais absorver. E assim, gradualmente, a estrutura foi cedendo.
É importante também notar o que não desapareceu com o Império Romano do Ocidente. A Igreja Católica sobreviveu e se tornou a principal instituição de continuidade cultural e política entre o mundo romano e o mundo medieval. O latim continuou sendo a língua da Igreja, das leis e da educação por muitos séculos. As línguas neolatinas, o português, o espanhol, o francês, o italiano e o romeno, preservaram o latim vivo na fala cotidiana de milhões de pessoas. O direito romano continuou sendo estudado e aplicado, especialmente depois de sua redescoberta nas universidades medievais. As cidades romanas sobreviveram, mesmo que diminuídas, e muitas delas são hoje cidades europeias importantes. E a memória de Roma permaneceu como referência e como modelo para os líderes e os intelectuais do mundo medieval e moderno.
Os reis germânicos que substituíram o Império no Ocidente não rejeitavam a herança romana: ao contrário, queriam ser reconhecidos como seus continuadores legítimos. Odoacro governou em nome do imperador de Constantinopla. Os visigodos na Espanha, os ostrogodos na Itália, os francos na Gália: todos eles preservaram elementos da administração romana, adotaram o Cristianismo como religião oficial e buscaram se apresentar como herdeiros da ordem que Roma havia criado. Séculos depois, Carlos Magno, rei dos francos, seria coroado imperador do Sacro Império Romano Germânico pelo papa em Roma, no ano oitocentos depois de Cristo, como tentativa explícita de restaurar o Império Romano sob liderança franca.
Roma caiu, mas a civilização que Roma havia construído não desapareceu. Transformou-se, fragmentou-se, misturou-se com as culturas dos povos germânicos, com o Cristianismo e com as tradições locais de cada região, e dessa mistura nasceu o mundo medieval europeu, que é por sua vez o antecedente direto do mundo moderno em que vivemos.
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| Dados de Catalogação na Publicação: NORAT, Markus Samuel Leite. Curso de história para o 1º ano do ensino médio. João Pessoa: Editora Norat, 2026. Livro Digital, Formato: HTML5, Tamanho: 132,4125 gigabytes (132.412.500 kbytes) . ISBN: 978-65-80808-16-8 | Cutter: N825c | CDD-907.12 | CDU-94(100)”-04/17″:373.5 . Palavras-chave: História, Ensino Médio, Pré-História, Civilizações Antigas, Mesopotâmia, Egito Antigo, Grécia Antiga, Roma Antiga, África Antiga, Reinos Africanos, Mundo Árabe-Muçulmano, Idade Média, Feudalismo, Antigo Regime, Monarquias Absolutistas, Renascimento, Humanismo, ENEM, Vestibulares. . TODOS OS DIREITOS RESERVADOS. É proibida a cópia total ou parcial desta obra, por qualquer forma ou qualquer meio. A violação dos direitos autorais é crime tipificado na Lei n. 9.610/98 e artigo 184 do Código Penal. |
