Curso de História para o 1º Ano do Ensino Médio
MÓDULO 7 – ROMA ANTIGA
Aula 88 – A cultura romana: arte, literatura, direito e engenharia
Aula 88 – A cultura romana: arte, literatura, direito e engenharia
Quando pensamos nas grandes civilizações da Antiguidade, é comum associar a Grécia à arte e à filosofia, ao Egito às pirâmides e aos hieróglifos, à Mesopotâmia à escrita e às primeiras cidades. E Roma? Roma é frequentemente associada às guerras, aos imperadores e às conquistas militares. Mas essa associação, embora não seja falsa, é profundamente incompleta. Roma foi também uma das civilizações mais criativas e inventivas da história humana, que produziu obras de arte de beleza extraordinária, uma literatura que ainda é lida e admirada hoje, um sistema jurídico que influencia os códigos de leis de dezenas de países no mundo contemporâneo e realizações de engenharia que desafiam a admiração até dos especialistas modernos. Conhecer a cultura romana em toda sua extensão é entender não apenas o que os romanos foram, mas também o que nós somos, pois uma parte enorme do que chamamos de civilização ocidental tem raízes profundas naquilo que Roma criou, preservou e transmitiu às gerações seguintes.
Vamos começar pela arte, porque é por ela que a maioria das pessoas se aproxima do mundo romano, seja visitando museus, contemplando ruínas ou vendo reproduções das obras que sobreviveram ao longo de dois mil anos.
A arte romana tem uma história complexa, porque durante muito tempo foi avaliada pelos historiadores da arte como uma arte derivada e inferior à arte grega. Os romanos conquistaram a Grécia no século segundo antes de Cristo e ficaram tão impressionados com a arte que encontraram que passaram a importar obras gregas em grandes quantidades, a contratar artistas gregos e a produzir cópias das estátuas gregas mais famosas para decorar suas casas, seus jardins e seus espaços públicos. O general Marcelo, ao tomar Siracusa em duzentos e doze antes de Cristo, levou para Roma tantas obras de arte gregas que o próprio Plutarco registrou que os romanos ficaram espantados com aquela abundância de beleza.
Essa relação de admiração pela arte grega levou muitos críticos posteriores a concluir que a arte romana era apenas uma imitação da arte grega, sem originalidade nem criatividade próprias. Mas essa avaliação é injusta e superficial. Os romanos não apenas copiaram os gregos: eles desenvolveram formas artísticas genuinamente novas, adaptadas às suas necessidades específicas e aos seus valores particulares. E em alguns campos, como o retrato, o relevo histórico e a pintura de paisagem e de interiores, produziram obras de uma qualidade e de uma originalidade que não tinham precedente na arte grega.
O retrato romano é talvez o campo onde essa originalidade é mais evidente. A escultura grega clássica buscava representar o ideal de beleza humana, não o indivíduo concreto com suas imperfeições e particularidades. Uma estátua grega de um atleta ou de um guerreiro representava um tipo humano perfeito, não um homem específico com suas irregularidades, cicatrizes ou marcas do tempo. O retrato romano, ao contrário, buscava exatamente o indivíduo concreto: o nariz levemente torto, as rugas profundas no rosto de um ancião, as bochechas caídas de uma mulher de meia-idade, a expressão severa de um general que passou décadas em campanha. Os bustos romanos de pedra e bronze são retratos de uma verossimilhança impressionante, que nos permitem olhar nos olhos de pessoas que viveram há dois mil anos e sentir que estamos vendo seres humanos reais, não idealizações.
Esse realismo do retrato romano tem raízes numa prática cultural antiga: a tradição das máscaras mortuárias. As famílias patrícias romanas guardavam máscaras de cera moldadas a partir dos rostos de seus antepassados ilustres e as exibiam nas ocasiões importantes como demonstração de prestígio familiar. A necessidade de que essas máscaras fossem fiéis ao rosto real do morto, e não uma idealização, criou uma tradição de realismo que os escultores romanos foram aperfeiçoando ao longo dos séculos. Com o tempo, esse realismo se combinou com a técnica refinada da escultura grega para produzir uma arte do retrato que é até hoje considerada uma das mais altas realizações de toda a escultura ocidental.
Os relevos históricos são outra contribuição genuinamente romana à história da arte. Enquanto os gregos preferiam representar cenas mitológicas em seus relevos, os romanos desenvolveram a arte de narrar acontecimentos históricos reais em sequências esculpidas em pedra. A Coluna de Trajano, que ainda está de pé no centro de Roma, é o exemplo mais espetacular desse gênero. Ao longo de mais de duzentos metros de relevo em espiral que se enrola ao redor de uma coluna de quase trinta metros de altura, os escultores de Trajano narraram as duas guerras dácicas com um detalhamento que serve até hoje como fonte histórica: as marchas das legiões, as batalhas, os assaltos a fortalezas, as negociações, os rituais religiosos antes do combate, os ritos de luto pelos mortos. Há mais de dois mil e quinhentas figuras humanas esculpidas nessa coluna, e cada cena conta uma história. Era arte a serviço da memória histórica e da propaganda imperial, mas era também arte de qualidade extraordinária.
A pintura romana conhecemos principalmente pelas obras que sobreviveram nas casas de Pompeia e de Herculano, as duas cidades soterradas pela erupção do Vesúvio em setenta e nove depois de Cristo e preservadas pela camada de cinzas e lava que as cobriu por séculos. As pinturas encontradas nessas cidades revelam uma tradição pictórica de alta sofisticação que de outra forma teríamos perdido quase completamente, já que os suportes em que a maioria das pinturas romanas foi feita, como madeira e tecido, não sobreviveu ao tempo.
O que as pinturas de Pompeia mostram é uma arte que experimentava com perspectiva, com profundidade espacial, com o jogo de luz e sombra e com uma variedade de temas que vai das cenas mitológicas às paisagens ideais, dos retratos aos jardins pintados que criavam a ilusão de um ambiente externo nas salas fechadas das casas urbanas. Há pinturas pompeianas que representam jardins com tal riqueza de detalhes botânicos, com suas flores, seus pássaros e suas fontes, que os estudiosos modernos conseguem identificar as espécies vegetais e animais representadas. Essas pinturas de jardim eram uma solução inteligente para um problema concreto: nas casas urbanas romanas mais densamente construídas, onde não havia espaço para um jardim real, a pintura criava a sensação de abertura e de natureza que os romanos valorizavam enormemente.
Os mosaicos foram outra forma de arte em que os romanos alcançaram resultados extraordinários. Feitos de pequenos pedaços de pedra colorida, vidro ou cerâmica chamados de tesserae, os mosaicos cobriam os pisos e às vezes as paredes das casas mais ricas e dos edifícios públicos. Podiam representar qualquer coisa: cenas de batalha, episódios mitológicos, animais selvagens, paisagens, retratos, padrões geométricos ou cenas do cotidiano. O famoso mosaico da Batalha de Isso, encontrado na Casa do Fauno em Pompeia e atualmente no Museu Arqueológico Nacional de Nápoles, representa o confronto entre Alexandre Magno e o rei persa Dário Terceiro com uma dinâmica e uma emoção que rivalizam com qualquer pintura de história ocidental posterior. O rosto de Alexandre, com os olhos intensos voltados para o inimigo, é um dos retratos mais poderosos da arte antiga.
A arquitetura romana, que mencionaremos mais detalhadamente quando falarmos de engenharia, foi também uma forma de arte. Os romanos não construíam apenas para que as coisas funcionassem, mas para que fossem belas, grandiosas e capazes de transmitir poder, ordem e civilização. O Panteão de Roma, com sua fachada de colunas e seu interior dominado pela enorme cúpula perfeita, é uma obra de arte tanto quanto é uma obra de engenharia. O Coliseu, com seus quatro andares de arcos emoldurados por colunas de diferentes ordens arquitetônicas, é uma composição visual cuidadosamente pensada para impressionar tanto de longe quanto de perto. Os arcos do triunfo, erguidos em honra dos generais vitoriosos em Roma e nas províncias, eram monumentos comemorativas mas também composições escultóricas e arquitetônicas que integravam relevos, inscrições e formas arquitetônicas numa unidade coerente.
A literatura romana, por sua vez, é um universo de riqueza e de variedade que levaria anos para explorar em profundidade. Mas podemos traçar um panorama que dê a dimensão do que foi produzido.
Os primeiros textos literários latinos de que temos notícia datam do século terceiro antes de Cristo. Antes disso, a cultura romana transmitia suas tradições principalmente de forma oral, através de cantos, de narrativas e de rituais. A influência da literatura grega foi o grande impulso para o desenvolvimento de uma literatura escrita em latim. Os primeiros escritores latinos, como Ênio e Plauto, trabalharam em gêneros que haviam sido desenvolvidos pelos gregos: a epopeia, a comédia e a tragédia. Mas ao traduzir e adaptar esses gêneros para o latim e para o contexto romano, já estavam criando algo novo.
Plauto, que viveu no final do século terceiro e início do segundo antes de Cristo, escreveu comédias que adaptavam os enredos da comédia grega nova para o público romano, com uma linguagem popular, cheia de trocadilhos e de situações de farsa que ainda hoje fazem sorrir. Suas peças eram encenadas nos festivais públicos, diante de multidões, e precisavam competir pela atenção de espectadores que estavam ali para se divertir, não para contemplar arte refinada. Plauto venceu esse desafio com um talento para o humor e para o ritmo que atravessou dois mil anos. Algumas de suas comédias foram adaptadas por escritores do teatro moderno: a peça Os Gêmeos, de Plauto, foi uma das inspirações para a Comédia dos Erros, de Shakespeare.
Terêncio, que viveu pouco depois de Plauto e escreveu também comédias de origem grega, tinha um estilo muito diferente: mais refinado, mais psicológico, mais interessado nos conflitos interiores das personagens do que nas situações externas de farsa. De Terêncio veio uma das frases latinas mais famosas e mais citadas em todas as épocas: “sou humano e nada do que é humano me é estranho”. Essa frase, que aparece numa de suas comédias, resume uma visão da humanidade que vai além de fronteiras de origem, de classe e de condição social, uma abertura ao outro que ressoou em leitores de todas as épocas.
A poesia latina alcançou seu ponto mais alto no período de Augusto, que ficou conhecido como a época de ouro da literatura latina. Virgílio, Horácio, Ovídio e Tibulo são os nomes mais famosos desse período, e cada um representa um aspecto diferente do que a poesia latina era capaz de fazer.
Virgílio é frequentemente considerado o maior poeta latino de todos os tempos. Suas três grandes obras formam uma progressão que vai do mais simples ao mais complexo. As Bucólicas são dez poemas curtos que evocam um mundo pastoral idealizado, cheio de pastores que cantam e se lamentam de amor, numa paisagem de beleza tranquila. As Geórgicas são um longo poema em quatro livros sobre a agricultura, mas que vai muito além de um manual técnico: é uma meditação sobre a relação do ser humano com a terra, sobre o trabalho como forma de dignidade e sobre a beleza da natureza italiana. E a Eneida, o épico em doze livros que narrava as aventuras do herói troiano Enéias desde a queda de Troia até sua chegada à Itália e suas batalhas para se estabelecer no Lácio, foi a obra que Virgílio considerou a missão mais importante de sua vida artística, e que morreu sem conseguir revisar completamente.
A Eneida não era apenas uma epopeia de aventuras, embora fosse também isso. Era uma reflexão profunda sobre os temas que os romanos mais valorizavam: o dever para com a família e para com o Estado, o sacrifício do prazer pessoal em nome de obrigações maiores, a relação entre o destino individual e os planos divinos para o futuro da humanidade. O episódio mais famoso da Eneida é talvez o amor entre Enéias e Dido, rainha de Cartago: Enéias chega a Cartago depois de um naufrágio, é acolhido pela rainha, que se apaixona por ele, mas depois, obrigado pelos deuses a prosseguir até a Itália para cumprir seu destino, ele parte, deixando Dido arrasada. A rainha se suicida, e ao morrer amaldiçoa os descendentes de Enéias, prefigurando poeticamente o conflito histórico entre Roma e Cartago nas Guerras Púnicas. É um dos episódios mais poeticamente poderosos de toda a literatura ocidental, e gerou inspiração para obras de arte, música e literatura por mais de dois mil anos.
Horácio, contemporâneo de Virgílio e igualmente protegido por Mecenas, escrevia um tipo completamente diferente de poesia. Seus Carmina, que é a palavra latina para canções ou poemas líricos, são poemas curtos de uma elegância formal perfeita que celebram os prazeres da vida simples: o vinho bebido com amigos, o amor passageiro, a beleza das estações, a tranquilidade da vida rural longe da agitação de Roma. A filosofia que permeia sua poesia é uma versão muito romana do estoicismo e do epicurismo: aproveitar o presente com moderação, não se deixar consumir pelas ambições nem pelos medos, aceitar com equanimidade o que não se pode mudar. Sua frase carpe diem, colhe o dia, é possivelmente a expressão latina mais conhecida em todo o mundo até hoje, embora frequentemente seja usada com um sentido mais frívolo do que Horácio pretendia.
Ovídio era o mais irreverente e o mais brilhante dos poetas augustanos em termos de pura habilidade técnica e de criatividade inventiva. Suas Metamorfoses, um épico mitológico em quinze livros, reunia histórias de transformações de deuses e mortais em outras formas, tecidas numa narrativa contínua de extraordinária variedade e brilho. Do mito de Apolo e Dafne, transformada em loureiro ao fugir do deus; ao mito de Narciso, que se apaixona pelo próprio reflexo numa fonte; ao mito de Orfeu e Eurídice, que desce ao mundo dos mortos para buscar a amada; ao mito de Pigmalião, escultor que se apaixona pela estátua que criou e que os deuses tornam viva: as Metamorfoses são uma enciclopédia da mitologia greco-romana contada com um estilo narrativo de leveza, de ironia e de elegância que as tornou uma das obras mais influentes de toda a literatura ocidental. Pintores, músicos, poetas e escritores de todos os séculos posteriores foram buscar nas Metamorfoses histórias e imagens que transformaram em obras próprias.
Mas a literatura latina não era apenas poesia. A prosa latina atingiu igualmente alturas extraordinárias em vários gêneros.
Cícero, que viveu no século primeiro antes de Cristo e foi uma das figuras políticas mais importantes da República tardia, é considerado o maior prosador latino de todos os tempos. Seus discursos, seus tratados filosóficos e suas cartas constituem um corpus imenso de textos que por séculos serviu de modelo para o estilo da prosa latina e depois da prosa nas línguas europeias modernas. Os discursos de Cícero, em especial as Catilinárias, pronunciadas contra a conspiração de Catilina, e as Filípicas, dirigidas contra Marco Antônio, são modelos de retórica que alunos aprendiam de cor durante gerações. Seus tratados filosóficos, como De Re Publica e De Legibus, sobre o Estado ideal e sobre as leis, e De Officiis, sobre os deveres morais, traduziam a filosofia grega para o latim e para o contexto romano de uma forma que a tornava acessível a qualquer romano educado.
Júlio César escreveu relatos das suas campanhas militares, a Guerra das Gálias e a Guerra Civil, em uma prosa de uma clareza e de uma concisão que ainda hoje é usada no ensino do latim como modelo de estilo. César escrevia na terceira pessoa sobre si mesmo, o que criava um efeito de objetividade e de distância, mas na verdade era uma propaganda política sofisticadíssima: ao apresentar suas conquistas na Gália como feitos necessários para a segurança de Roma, César estava construindo sua imagem pública com a mesma habilidade com que construía pontes sobre o Rio Reno.
Tito Lívio produziu a mais monumental das histórias de Roma, uma obra de cento e quarenta e dois livros, da qual apenas trinta e cinco chegaram até nós. Sua escrita era de uma riqueza narrativa que transformava os acontecimentos históricos em cenas dramáticas, com discursos reconstituídos e descrições vívidas de batalhas e de situações de crise. Tácito, que escreveu no início do Império, tinha um estilo muito diferente: concentrado, denso, irônico, quase pessimista, revelando os bastidores do poder imperial com uma lucidez que incomodava os poderosos de sua época. Suetônio escreveu as Vidas dos Doze Césares, uma série de biografias dos imperadores desde Júlio César até Domiciano, com um estilo anedótico e rico em detalhes pessoais que até hoje faz dessas biografias uma leitura envolvente.
Sêneca, o filósofo estoico do século primeiro depois de Cristo que foi por muitos anos tutor e conselheiro do imperador Nero, escreveu tratados filosóficos, cartas morais e tragédias que tratavam de temas como a brevidade da vida, a moderação diante das riquezas, a maneira correta de enfrentar a morte e a importância de viver de acordo com a razão e com a virtude. Suas Cartas a Lucílio, em que ele discute questões filosóficas com um amigo de forma direta e acessível, são textos de uma modernidade surpreendente que continuam sendo lidos com interesse hoje.
Apuleio, escritor norte-africano do século segundo depois de Cristo, escreveu O Asno de Ouro, que é o único romance latino que chegou até nós completo. É a história de um jovem chamado Lúcio que, por um erro numa operação mágica, é transformado em asno e vive uma série de aventuras por toda a Grécia antes de ser salvo pela deusa Ísis. É uma obra de entretenimento, de humor e de aventura, mas também uma reflexão sobre a transformação espiritual e sobre a busca do sagrado, e inclui dentro de si o famoso conto de Amor e Psiquê, uma das histórias de amor mais belas da literatura antiga.
Passemos agora ao direito romano, que foi provavelmente a contribuição mais durável e mais influente de Roma para a civilização ocidental.
O direito romano não surgiu de uma vez. Foi uma construção de séculos, que cresceu e se sofisticou progressivamente à medida que Roma crescia e enfrentava situações novas que exigiam soluções jurídicas originais. No início, o direito romano era consuetudinário, ou seja, baseado nos costumes transmitidos oralmente de geração em geração e interpretados pelos sacerdotes pontífices. A grande reforma das Doze Tábuas, no século quinto antes de Cristo, foi o primeiro esforço de tornar o direito escrito, público e acessível a todos os cidadãos, não apenas a quem tivesse acesso aos guardas dos costumes sagrados.
Mas as Doze Tábuas foram apenas o começo. Ao longo dos séculos seguintes, o direito romano foi sendo desenvolvido através de várias fontes diferentes. As leis votadas nas assembleias, chamadas de leges, eram uma fonte. Os editos dos pretores, magistrados que tinham jurisdição sobre os processos judiciais e que publicavam no início de cada ano uma lista dos princípios que seguiriam em suas decisões, foram outra fonte importantíssima: o pretor podia criar novas soluções jurídicas para situações não previstas pelas leis antigas, e com o tempo essas inovações pretorianas se consolidaram num conjunto de normas chamado de ius honorarium, direito honorário.
A terceira e talvez mais importante fonte do direito romano clássico foi a jurisprudência, ou seja, o trabalho dos juristas. Os grandes juristas romanos não eram juízes nem magistrados, mas especialistas em direito que respondiam a consultas, escreviam comentários e sistematizavam o conjunto de normas e princípios que regiam a vida jurídica romana. Eles trabalhavam como consultores para indivíduos que tinham problemas jurídicos, para magistrados que precisavam de orientação e para o imperador que queria regulamentar alguma matéria. Suas opiniões, chamadas de responsa, tinham autoridade quase legal, e durante certos períodos tiveram força de lei oficial.
Os grandes juristas do período clássico, nos séculos segundo e terceiro depois de Cristo, produziram obras de uma qualidade intelectual extraordinária. Gaio escreveu as Instituições, um manual de direito destinado ao ensino que organizava o direito romano em categorias claras: o direito das pessoas, o direito das coisas e o direito das ações. Essa estrutura tripartida influenciou a organização dos códigos jurídicos por séculos. Papiniano, que foi prefeito do pretório sob o imperador Septímio Severo, era considerado pelos próprios romanos o maior jurista de todos os tempos, e suas responsa tinham uma autoridade quase sacra. Ulpiano e Paulo produziram obras de enorme volume e sofisticação que se tornaram fontes fundamentais do direito romano.
Ulpiano escreveu uma frase que ficou famosa como definição do objetivo do direito: “os preceitos do direito são estes: viver honestamente, não prejudicar ninguém, dar a cada um o que é seu”. Essa formulação simples contém princípios que ainda estão no coração dos sistemas jurídicos modernos.
O direito romano operava com distinções conceituais que a maioria dos sistemas jurídicos modernos herdou. A distinção entre direito público, que regula as relações entre o Estado e os cidadãos, e direito privado, que regula as relações entre os próprios cidadãos. A distinção entre contrato e delito como fontes de obrigações. A noção de personalidade jurídica, que permite a pessoas coletivas como associações e municípios ter direitos e obrigações como se fossem indivíduos. O conceito de domínio, que é a relação mais completa e mais protegida que alguém pode ter com uma coisa. A distinção entre posse, que é um fato, e propriedade, que é um direito. A teoria dos contratos, com seus requisitos de capacidade das partes, de objeto lícito e de forma adequada.
O direito romano também desenvolveu o conceito de boa-fé como princípio que deve guiar a interpretação dos contratos e das relações jurídicas. Quando a letra de um contrato não era suficientemente clara para resolver uma disputa, o jurista ou o juiz devia buscar a intenção real das partes e o que homens de boa-fé esperariam numa situação semelhante. Esse princípio de boa-fé está presente em praticamente todos os códigos civis modernos.
A grande compilação que tornou o direito romano acessível para as gerações medievais e modernas foi o Corpus Iuris Civilis, organizado no século sexto depois de Cristo por ordem do imperador bizantino Justiniano. Essa compilação reúne quatro partes: o Código, que são as constituições imperiais desde Adriano até Justiniano; as Pandectas ou Digesto, que é uma seleção dos escritos dos grandes juristas clássicos organizada por temas; as Instituições, que é um manual introdutório baseado principalmente em Gaio; e as Novelas, que são as leis novas promulgadas pelo próprio Justiniano. Quando as universidades europeias começaram a surgir a partir do século onze, o Corpus Iuris Civilis foi o texto central do ensino jurídico. Através das universidades medievais, o direito romano penetrou nos sistemas jurídicos de toda a Europa e depois das Américas.
O Código Civil brasileiro, que é a lei que regula as relações entre os cidadãos no Brasil, está cheio de conceitos, de distinções e de soluções jurídicas que foram desenvolvidos pelos juristas romanos há dois mil anos. A forma como o Código Civil brasileiro organiza o direito das pessoas, o direito das famílias, o direito das coisas, os contratos e as responsabilidades civis segue estruturas que têm suas raízes no direito romano. Quando um brasileiro assina um contrato de compra e venda, quando registra a propriedade de um imóvel em cartório, quando faz um testamento ou quando busca indenização por um dano que sofreu, está utilizando institutos jurídicos que Roma desenvolveu e que chegaram até nós através de uma tradição de dois mil anos.
A engenharia romana merece um capítulo à parte, porque foi uma das expressões mais impressionantes da criatividade prática romana e porque suas realizações continuam provocando admiração entre os engenheiros modernos que as estudam.
Os romanos foram os maiores engenheiros da Antiguidade, e possivelmente os maiores engenheiros da história até a Revolução Industrial. Não porque tivessem tecnologias que nenhuma outra civilização conhecia, mas porque tinham uma capacidade única de aplicar em grande escala e com enorme eficiência as técnicas que conheciam. Eles construíam pontes, estradas, aquedutos, túneis, portos, edifícios, muralhas e sistemas de drenagem numa escala que nenhuma outra civilização da Antiguidade havia tentado, e faziam isso com uma padronização e uma qualidade que garantiram que muitas dessas obras sobrevivessem por milênios.
As estradas romanas são um dos exemplos mais famosos dessa capacidade de engenharia. A Via Ápia, construída a partir de trezentos e doze antes de Cristo e que ligava Roma ao sul da Itália, é considerada a primeira grande estrada pavimentada da história, e em vários trechos ainda existe e pode ser caminhada hoje. Mas a Via Ápia era apenas a primeira de uma rede que cresceu até cobrir aproximadamente oitenta e cinco mil quilômetros de estradas pavimentadas por todo o Império.
A construção de uma estrada romana seguia um processo padronizado que garantia durabilidade. Primeiro, os agrimensores traçavam o percurso usando instrumentos de medição como a groma, um dispositivo que permitia estabelecer linhas retas e ângulos retos com precisão surpreendente para uma época sem tecnologia eletrônica. Em seguida, os soldados ou os trabalhadores contratados escavavam uma vala ao longo do percurso, com profundidade variável dependendo do terreno. Essa vala era preenchida por camadas sucessivas: primeiro pedras grandes, depois pedras menores, depois areia ou cascalho para nivelar, e finalmente as lajeadas de pedra plana ou o calçamento de pedras poligonais que formavam a superfície da estrada. A superfície era levemente abaulada no centro para facilitar o escoamento da água da chuva para as valetas laterais. Em cada lado da estrada havia uma valeta de drenagem, e às vezes uma calçada elevada para pedestres. Ao longo das estradas, marcos miliários de pedra indicavam as distâncias a partir de Roma, e hospedarias e postos de cavalos para o serviço de correios imperial surgiam a intervalos regulares.
Os aquedutos são talvez as obras de engenharia romana mais visíveis e mais impressionantes que sobreviveram. Para construir um aqueduto, os engenheiros romanos precisavam resolver um problema de precisão extrema: conduzir água de uma fonte distante até uma cidade, mantendo um fluxo constante pela ação exclusiva da gravidade, sem bombas nem qualquer mecanismo mecânico. Para isso, o canal do aqueduto precisava ter uma inclinação constante e suficiente para mover a água, mas não tão inclinada que causasse turbulência e erosão. A inclinação ideal era de algumas centenas de milímetros por quilômetro, o que exigia medições de nível de uma precisão extraordinária ao longo de percursos de às vezes mais de cem quilômetros.
Quando o terreno baixava demais abaixo do nível necessário, os engenheiros construíam arcos de alvenaria ou de concreto para manter o canal elevado. Esses arcos, que podem ser vistos no Pont du Gard na França, no aqueduto de Segóvia na Espanha e em outros monumentos romanos, são estruturalmente brilhantes: o arco de volta plena distribui o peso de forma que as forças de compressão seguem a curva do arco até os pilares, sem precisar de qualquer material que resista à tração, o que é importante porque a pedra e o concreto são fortes à compressão mas fracassam facilmente à tração. Quando o terreno subia acima do nível do canal, os engenheiros construíam túneis. A combinação de trechos em arco, trechos em túnel e trechos simplesmente apoiados sobre o terreno numa mesma estrutura exigia um planejamento e uma coordenação de obra que demonstram a sofisticação organizacional dos engenheiros romanos.
A cidade de Roma no período do apogeu era abastecida por onze aquedutos que juntos traziam uma quantidade estimada de um milhão de metros cúbicos de água por dia. Para uma cidade de cerca de um milhão de habitantes, isso representa algo em torno de mil litros por pessoa por dia, uma quantidade que muitas cidades modernas não conseguem garantir. Parte dessa água ia para os banheiros públicos, parte para as fontes públicas de onde a população das insulae a recolhia, parte para as casas mais ricas que tinham conexão direta com a rede, e parte para os processos industriais como lavandeiras, curtumes e olarias.
As pontes romanas são outro exemplo de engenharia duradoura. Roma construiu pontes por todo o Império, sobre rios de todos os tamanhos e com materiais variados: pedra, tijolo e concreto. A Ponte de Alcântara sobre o Rio Tejo, no que hoje é a Espanha, foi construída no tempo do imperador Trajano e ainda existe, com seus seis arcos de granito se lançando sobre o rio a uma altura de quase cinquenta metros. A Ponte de Rimini, também do tempo de Augusto, ainda serve ao tráfego de veículos na cidade italiana de Rimini. A Ponte Milvio sobre o Tibre em Roma, onde Constantino derrotou Magêncio em trezentos e doze depois de Cristo, foi construída no século segundo antes de Cristo e ainda existe e é usada como ponte para pedestres.
As técnicas de construção romana em concreto, especificamente o opus caementicium, foram uma das inovações tecnológicas mais importantes da Antiguidade. O segredo do concreto romano, que os pesquisadores modernos levaram décadas para entender completamente, estava na adição de pozolana, uma cinza vulcânica encontrada em abundância na região de Puteoli, perto de Nápoles, à mistura de cal e água. A pozolana reagia quimicamente com a cal em contato com a água, criando um material que endurecia mesmo em ambientes úmidos, inclusive submerso na água do mar. Isso permitiu aos romanos construir fundações e cais portuários diretamente no mar, despejando o concreto fresco em formas de madeira colocadas na água e esperando que ele endurecesse no contato com a água salgada.
Estudos recentes de pesquisadores americanos e italianos descobriram que o concreto romano submerso no mar ficou na verdade mais resistente com o tempo, não menos, ao contrário do concreto moderno. Isso porque a reação química entre a pozolana, a cal e a água do mar continuava gerando novos cristais minerais que preenchiam as micro-fissuras que se formavam com o tempo, tornando o concreto progressivamente mais denso e mais resistente. Essa descoberta gerou interesse enorme na comunidade científica, que estuda o concreto romano como modelo para o desenvolvimento de materiais de construção mais sustentáveis e duráveis.
Os sistemas de aquecimento das casas e das termas romanas foram outra realização engenhosa. O hipocausto era um sistema de aquecimento pelo piso que funcionava como um forno: pilares baixos de tijolo sustentavam o piso de uma sala, criando um espaço vazio embaixo dele, por onde passava o ar quente gerado por uma fornalha externa. O ar quente circulava pelo espaço sob o piso, esquentando a laje que estava acima, e depois subia por dutos nas paredes para sair pelo teto. O resultado era uma sala aquecida de forma uniforme por radiação, sem o desconforto do calor direto de uma lareira aberta. As grandes termas romanas usavam versões industriais desse sistema para aquecer suas piscinas e seus ambientes internos. A tecnologia do piso radiante, que hoje se encontra em muitas casas e apartamentos modernos, é essencialmente o mesmo princípio que os engenheiros romanos desenvolveram há dois mil anos.
A gestão das águas urbanas, tanto para o abastecimento quanto para o esgoto, foi uma das áreas em que a engenharia romana se mostrou mais avançada. Roma tinha um sistema de esgoto chamado Cloaca Máxima, que começou a ser construído ainda no período monárquico e foi sendo expandido e melhorado ao longo dos séculos. A Cloaca Máxima, cujo nome significa literalmente a grande cloacae ou grande esgoto, era um canal subterrâneo de alvenaria que recolhia os esgotos e as águas pluviais de grandes áreas da cidade e os lançava no Rio Tibre. Parte do sistema original ainda existe e está em uso até hoje, incorporado ao sistema moderno de esgoto da cidade de Roma. Um sistema que foi construído há dois mil e quinhentos anos e ainda funciona é uma prova extraordinária da qualidade da engenharia romana.
A arte militar romana também foi uma forma de engenharia. Os exércitos romanos construíam acampamentos padronizados rapidamente, levantavam máquinas de assédio complexas, escavavam sistemas de trincheiras e de fossos para cercear cidades sitiadas e construíam muralhas de assédio, chamadas de circunvalação, para isolar completamente uma cidade sitiada. O sítio de Alesia, em cinquenta e dois antes de Cristo, onde César cercou o exército gaulês de Vercingetórix e ao mesmo tempo se defendeu de um exército de socorro exterior, é um dos exemplos mais extraordinários de engenharia militar da Antiguidade: César construiu dois sistemas de muralhas concêntricos ao mesmo tempo, um voltado para dentro, para impedir que Vercingetórix escapasse, e outro voltado para fora, para se defender do exército de socorro. A extensão total dessas muralhas chegava a quase quarenta quilômetros, construídas em questão de semanas por legiões que eram simultaneamente construtores e soldados.
A arte, a literatura, o direito e a engenharia romanas não foram criações isoladas de um povo excepcional que surgiu do nada. Foram o resultado de séculos de acumulação, de aprendizado com outras civilizações, especialmente a grega, a etrusca e as orientais, e de adaptação criativa dessas influências às necessidades e aos valores específicos da civilização romana. Os romanos foram grandes absorvedores e grandes transformadores: tomavam o que encontravam, melhoravam, adaptavam e depois difundiam por um Império imenso.
E essa difusão garantiu que as criações romanas sobrevivessem à queda do próprio Império. Quando Roma declinou e o Império Ocidental desapareceu no século quinto depois de Cristo, a Igreja Católica herdou o latim e a organização administrativa romana. As universidades medievais herdaram o direito romano e parte da filosofia e da literatura latinas. Os arquitetos medievais herdaram as técnicas construtivas romanas. As línguas neolatinas preservaram o latim vivo na fala cotidiana de milhões de pessoas. E assim, através dessas muitas transmissões, a cultura romana chegou até nós.
Quando um aluno do primeiro ano do Ensino Médio no Brasil lê um texto em português, está usando uma língua que descende diretamente do latim. Quando um advogado argumenta sobre um contrato ou uma herança, está usando conceitos criados pelos juristas romanos. Quando atravessa uma ponte de arco, está usando uma forma estrutural que os romanos aperfeiçoaram. Quando admira uma pintura de paisagem ou um retrato realista, está vendo uma tradição que tem raízes na arte romana. Roma não é passado morto. É uma presença viva que atravessa a distância de dois mil anos e continua moldando a forma como pensamos, falamos, construímos e nos organizamos em sociedade.
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| Dados de Catalogação na Publicação: NORAT, Markus Samuel Leite. Curso de história para o 1º ano do ensino médio. João Pessoa: Editora Norat, 2026. Livro Digital, Formato: HTML5, Tamanho: 132,4125 gigabytes (132.412.500 kbytes) . ISBN: 978-65-80808-16-8 | Cutter: N825c | CDD-907.12 | CDU-94(100)”-04/17″:373.5 . Palavras-chave: História, Ensino Médio, Pré-História, Civilizações Antigas, Mesopotâmia, Egito Antigo, Grécia Antiga, Roma Antiga, África Antiga, Reinos Africanos, Mundo Árabe-Muçulmano, Idade Média, Feudalismo, Antigo Regime, Monarquias Absolutistas, Renascimento, Humanismo, ENEM, Vestibulares. . TODOS OS DIREITOS RESERVADOS. É proibida a cópia total ou parcial desta obra, por qualquer forma ou qualquer meio. A violação dos direitos autorais é crime tipificado na Lei n. 9.610/98 e artigo 184 do Código Penal. |
