Curso de História para o 1º Ano do Ensino Médio
MÓDULO 7 – ROMA ANTIGA
Aula 91 – O Império Romano do Oriente: Bizâncio
Aula 91 – O Império Romano do Oriente: Bizâncio
Quando o Império Romano do Ocidente desmoronou definitivamente no ano quatrocentos e setenta e seis depois de Cristo, com a deposição do jovem e impotente imperador Rômulo Augústulo pelo general germânico Odoacro, muitos poderiam supor que a história de Roma havia chegado ao seu fim. Mas essa suposição seria um erro. Porque enquanto o Ocidente se fragmentava em reinos bárbaros e a cidade de Roma perdia progressivamente sua população e seu esplendor, uma outra Roma continuava viva, poderosa e orgulhosa na outra extremidade do Mediterrâneo. Essa outra Roma era Constantinopla, a capital do Império Romano do Oriente, que seus habitantes chamavam simplesmente de o Império Romano, porque para eles não havia nenhuma divisão: eles eram os romanos legítimos, os continuadores diretos do Império fundado por Augusto, os herdeiros de uma tradição que jamais havia se interrompido. O que os historiadores modernos chamam de Império Bizantino era, aos olhos de quem o habitava, simplesmente o Império Romano. E esse Império Romano oriental durou ainda por quase mil anos depois da queda do Ocidente, até o ano mil e quatrocentos e cinquenta e três depois de Cristo, quando Constantinopla finalmente cedeu diante do poderio militar dos turcos otomanos.
Mil anos. Pense nessa dimensão de tempo. Entre a queda de Roma no Ocidente e a queda de Constantinopla no Oriente, passaram-se quase tantos séculos quantos nos separam hoje da Idade Média. Durante todo esse tempo, o Império Romano do Oriente foi um dos centros mais importantes da civilização humana, preservando e desenvolvendo a herança greco-romana, produzindo arte, teologia, literatura e ciência, mantendo rotas comerciais que ligavam a Europa ao Oriente e influenciando profundamente os povos que o cercavam: os eslavos, os árabes, os turcos, os venezianos e os cruzados ocidentais, entre tantos outros. Entender Bizâncio é entender uma das histórias mais longas e mais ricas da civilização humana.
O nome Bizâncio vem do nome da antiga cidade grega de Bizâncio, uma colônia fundada por volta do século sétimo antes de Cristo na entrada do Estreito de Bósforo, o estreito canal que separa a Europa da Ásia e que conecta o Mar Negro ao Mar de Mármara, que por sua vez se conecta ao Mar Egeu e ao Mediterrâneo. Era uma posição geográfica de valor estratégico extraordinário: quem controlava o Bósforo controlava o comércio entre o Mar Negro e o Mediterrâneo, e podia defender a cidade de invasores terrestres com relativa facilidade, pois ela estava situada numa península naturalmente protegida em três lados pela água.
Foi nessa cidade que o imperador Constantino, por volta do ano trezentos e vinte e quatro depois de Cristo, decidiu construir sua nova capital. Constantino havia derrotado todos os seus rivais e se tornado o único senhor do Império. Precisava de uma capital que fosse ao mesmo tempo mais defensável que Roma, que estava no interior da Itália e longe das fronteiras mais ameaçadas, e mais próxima do Oriente, onde estava concentrada a maior parte da riqueza e da população do Império. Bizâncio atendia perfeitamente a esses requisitos. Constantino mandou demolir e reconstruir a cidade em escala imperial, erguendo novos muros, novos palácios, novos fóruns, novos monumentos e uma nova catedral, e inaugurou solenemente a nova capital em trezentos e trinta depois de Cristo com o nome de Constantinopolis, a cidade de Constantino. Em grego, polis significa cidade. A cidade de Constantino.
Durante o século seguinte, enquanto o Ocidente declinava, Constantinopla crescia e florescia. Ao contrário de Roma, que havia perdido população e dinamismo, Constantinopla atraía habitantes, comerciantes, artesãos, intelectuais e funcionários imperiais de todas as partes do Império. No apogeu, chegou a ter talvez quinhentos mil habitantes, um número imenso para uma cidade da Antiguidade tardia. Era protegida por uma série de muralhas monumentais construídas no início do século quinto pelo imperador Teodósio Segundo: a Muralha Teodosiana, com suas torres, seus fossos e suas múltiplas linhas de defesa, foi considerada por séculos a mais formidável estrutura defensiva do mundo mediterrâneo.
Depois da divisão formal do Império em trezentos e noventa e cinco depois de Cristo pelo imperador Teodósio Primeiro, o Oriente e o Ocidente foram governados por imperadores separados. Com a queda do Ocidente em quatrocentos e setenta e seis, o Império Oriental passou a ser a única continuação do Império Romano, mas já havia desenvolvido características próprias que o distinguiam crescentemente do Ocidente latino. A língua dominante no Oriente era o grego, não o latim: era a língua da maioria da população, da filosofia, da literatura e da Igreja. A cultura era uma fusão profunda do mundo greco-romano com as tradições do Oriente mediterrâneo, especialmente o Egito, a Síria e a Anatólia. E o Cristianismo, na forma da Igreja Ortodoxa, era o eixo central da identidade coletiva.
A fase mais espetacular do Império Romano do Oriente foi o reinado do imperador Justiniano Primeiro, que governou de quinhentos e vinte e sete a quinhentos e sessenta e cinco depois de Cristo. Justiniano era um homem de ambições imensas e de energia incansável, um imperador que dormia pouco, trabalhava sem parar e tinha projetos que abrangiam todos os aspectos da vida do Império. Ao seu lado estava sua esposa a imperatriz Teodora, uma mulher de origens humildes, filha de um domador de ursos do circo, que havia se tornado atriz e dançarina antes de conquistar o coração e o respeito de Justiniano. Teodora era uma das figuras femininas mais extraordinárias da história, inteligente e corajosa de forma que as narrativas de sua época não conseguem deixar de registrar mesmo quando seus autores a viam com preconceito.
O mais dramático episódio do início do reinado de Justiniano foi a Revolta Nika, em quinhentos e trinta e dois depois de Cristo. Constantinopla tinha dois grandes grupos de torcedores das corridas de bigas no hipódromo, os Verdes e os Azuis, que eram ao mesmo tempo facções políticas e grupos de pressão populares. Quando os dois grupos se uniram numa revolta contra o governo de Justiniano, incendiando partes da cidade e proclamando um novo imperador, Justiniano estava prestes a fugir de Constantinopla. Foi Teodora quem o deteve com palavras que ficaram célebres: ela disse que preferia morrer a fugir, que a púrpura imperial era uma boa mortalha. Justiniano ficou, seus generais Belisário e Mundo esmagaram a revolta no hipódromo com enorme violência, e mais de trinta mil pessoas foram mortas. O poder imperial saiu do episódio consolidado.
Justiniano sonhava em reconquistar os territórios do Ocidente que haviam sido perdidos para os bárbaros. Enviou seu melhor general, Belisário, primeiro ao norte da África, onde os vândalos haviam se estabelecido há um século. Em tempo surpreendentemente curto, Belisário derrotou os vândalos e reconquistou a África do Norte para o Império em quinhentos e trinta e três. Em seguida, o mesmo Belisário foi enviado à Itália para reconquistar o reino ostrogótico que havia substituído o Império Ocidental. A reconquista da Itália foi muito mais difícil e demorada do que a da África: a guerra durou quase vinte anos, devastando a península italiana de uma forma que as invasões bárbaras anteriores não haviam feito. As antigas cidades romanas, que haviam sobrevivido relativamente intactas às migrações germânicas, sofreram enormes danos durante a prolongada guerra entre os exércitos de Justiniano e os ostrogodos resistentes.
Justiniano também reconquistou partes do sul da Espanha dos visigodos. Por um breve momento, pareceu que o sonho de restaurar o Império Romano em toda a sua extensão mediterrânea poderia se tornar realidade. Mas essas conquistas ocidentais se revelaram custosas demais para ser mantidas: as províncias reconquistadas estavam destruídas e empobrecidas, custavam mais para defender do que geravam de riqueza para o Império, e logo foram perdidas novamente. A Itália foi invadida pelos lombardos poucas décadas depois. A Espanha foi cedida progressivamente. A África durou mais, mas também acabou cedendo aos árabes no século sétimo.
A realização mais duradoura de Justiniano não foi militar, mas jurídica. Por sua ordem, uma equipe de juristas liderada pelo ministro Triboniano produziu a grande compilação do direito romano conhecida como Corpus Iuris Civilis, o Corpo do Direito Civil. Esse trabalho monumental, concluído entre quinhentos e vinte e nove e quinhentos e trinta e quatro depois de Cristo, reuniu séculos de jurisprudência romana, as decisões imperiais acumuladas, os escritos dos grandes juristas clássicos e um manual introdutório para o ensino do direito, organizando tudo de forma sistemática e acessível. O Corpus Iuris Civilis se tornou a base do direito europeu quando as universidades medievais o redescobriram a partir do século onze, e sua influência chega até hoje nos sistemas jurídicos de Portugal, Brasil, França, Itália, Espanha e de tantos outros países.
Justiniano mandou também construir uma das obras de arquitetura mais extraordinárias da história humana: a Basílica de Santa Sofia em Constantinopla. Santa Sofia, cujo nome completo em grego é Hagia Sophia e significa Sagrada Sabedoria, foi construída em apenas cinco anos, de quinhentos e trinta e dois a quinhentos e trinta e sete depois de Cristo, por dois arquitetos chamados Antemio de Trales e Isidoro de Mileto. A basílica era coroada por uma cúpula central de trinta e um metros de diâmetro que parecia flutuar sobre o espaço interior, sustentada por um anel de quarenta janelas que deixavam entrar a luz do sol de forma que criava a impressão de que a cúpula estava suspensa no ar por uma força sobrenatural. O interior era revestido de mosaicos dourados, de mármores coloridos e de colunas trazidas de templos pagãos de todo o Império. Quando o imperador Justiniano entrou pela primeira vez na basílica recém-concluída, segundo uma narrativa da época, teria exclamado: Salomão, eu te superei, referindo-se ao lendário Templo de Salomão em Jerusalém, considerado o edifício sagrado mais grandioso da tradição judaico-cristã. Santa Sofia foi a maior catedral do mundo cristão por mais de novecentos anos, e ainda hoje, convertida em mesquita e museu, é considerada uma das obras de arquitetura mais belas já construídas pela humanidade.
Mas o reinado de Justiniano também trouxe sofrimentos enormes para o Império. Em quinhentos e quarenta e um depois de Cristo, uma epidemia de proporções devastadoras atingiu o Mediterrâneo. Era uma epidemia de peste bubônica, provavelmente chegada do Egito através das rotas comerciais, e que ficou conhecida como Peste de Justiniano. Ela matou dezenas de milhões de pessoas em todo o mundo mediterrâneo, dizimou a população do Império, desorganizou a produção agrícola, reduziu a receita fiscal e enfraqueceu militarmente o Estado. Alguns historiadores estimam que a população do Império pode ter caído em um terço ou até metade nos anos da epidemia. Essa calamidade demográfica foi um dos fatores que tornou insustentável a manutenção das conquistas ocidentais de Justiniano e que preparou o terreno para as perdas territoriais dos séculos seguintes.
Depois de Justiniano, o Império Romano do Oriente enfrentou um longo período de crises e de perdas territoriais que transformaram profundamente sua natureza. No século sétimo depois de Cristo, dois acontecimentos de enorme magnitude atingiram o Império quase simultaneamente.
O primeiro foi a guerra exaustiva contra o Império Sassânida da Pérsia. Os persas sassânidas, aproveitando-se das dificuldades internas do Império, lançaram uma ofensiva que em poucos anos conquistou a Síria, a Palestina, o Egito e chegou às fronteiras da Anatólia. Em seiscentos e quatorze, os persas tomaram Jerusalém e levaram para a Pérsia a relíquia mais preciosa do Cristianismo, o que se acreditava ser um fragmento da Vera Cruz. O imperador Heráclio, que governou de seiscentos e dez a seiscentos e quarenta e um, organizou uma contraofensiva extraordinária que em poucos anos reconquistou todos os territórios perdidos e devolveu a relíquia da Cruz a Jerusalém. Heráclio foi aclamado como herói e salvador do Império, e sua campanha foi celebrada como uma espécie de cruzada avant-la-lettre, uma guerra santa pela fé cristã.
Mas Heráclio havia esgotado os recursos do Império para vencer os persas. E mal havia terminado a guerra contra a Pérsia quando um novo e completamente inesperado inimigo surgiu das areias da Arábia: os árabes muçulmanos, energizados pela nova fé do Islã pregada pelo profeta Maomé. Em menos de vinte anos a partir de seiscentos e trinta, os exércitos árabes conquistaram a Síria, a Palestina, o Egito e o norte da África. As províncias mais ricas e mais populosas do Império foram perdidas com uma velocidade que deixou os contemporâneos atônitos. Em seiscentos e e setenta e oito depois de Cristo, os árabes chegaram a cercar Constantinopla pela primeira vez, mas a cidade resistiu graças a suas muralhas formidáveis e a uma arma secreta: o fogo grego, uma substância inflamável que queimava mesmo em contato com a água e que os marinheiros byzantinos usavam para incendiar os navios inimigos. A fórmula exata do fogo grego permaneceu um segredo de Estado tão bem guardado que até hoje não é conhecida com certeza pelos historiadores.
As perdas territoriais do século sétimo transformaram profundamente o Império. Ele passou a ser um território muito menor, concentrado essencialmente na Anatólia, nos Bálcãs e em algumas ilhas e costas do Mediterrâneo oriental. A população era predominantemente grega. O latim, que havia sido por séculos a língua oficial da administração imperial, foi progressivamente substituído pelo grego como língua do Estado, da lei e da liturgia. O Império havia se tornado, na prática, um Estado grego cristão que se considerava herdeiro de Roma.
Nesse período também se desenvolveu um dos conflitos mais importantes da história religiosa do Oriente cristão: a controvérsia iconoclasta. O ícone é uma imagem sagrada, geralmente uma pintura representando Jesus Cristo, a Virgem Maria ou os santos, usada na devoção cristã. No século oitavo, alguns imperadores, começando por Leão Terceiro em setecentos e vinte e seis, ordenaram a destruição dos ícones, argumentando que a veneração de imagens era uma forma de idolatria proibida pelas Escrituras. Os que defendiam a destruição dos ícones foram chamados de iconoclastas, que em grego significa quebradores de ícones. Os que defendiam a veneração das imagens foram chamados de iconófilos ou iconódulos. A controvérsia dividiu profundamente o Império por mais de um século, com perseguições violentas aos dois lados dependendo de qual posição o imperador do momento adotava, e aprofundou o distanciamento entre a Igreja de Constantinopla e a Igreja de Roma, que havia defendido desde o início o uso dos ícones. O Segundo Concílio de Niceia, realizado em setecentos e oitenta e sete, declarou a veneração de ícones como prática legítima, distinguindo-a claramente da adoração que se devia apenas a Deus. A iconoclastia foi definitivamente encerrada em oitocentos e quarenta e três depois de Cristo, numa data que a Igreja Ortodoxa celebra até hoje como o Triunfo da Ortodoxia.
A arte dos ícones se tornou uma das expressões mais características e mais belas da civilização byzantina. Os ícones não eram simples pinturas decorativas: eram considerados janelas para o sagrado, imagens que tornavam presente de alguma forma o ser sagrado que representavam. Eram pintados segundo regras rigorosas de forma e de cor, com técnicas que os artistas aprendiam ao longo de anos de aprendizado em ateliês monásticos ou palacianos. O ouro que cobria os fundos dos ícones representava a luz divina, a eternidade que estava além do tempo e do espaço. Os rostos dos santos eram representados de forma estilizada, com olhos grandes e expressivos e formas que escapavam deliberadamente do naturalismo, para expressar a ideia de que o sagrado transcendia a aparência física do mundo material.
Os mosaicos de Bizâncio foram outra forma de arte de beleza extraordinária. Os mosaicos que sobreviveram nas igrejas de Ravena, na Itália, que havia sido uma das capitais do Império Ocidental e depois foi brevemente reconquistada por Justiniano, são considerados entre os mais belos da história da arte. Os mosaicos da Igreja de São Vital em Ravena mostram o imperador Justiniano e a imperatriz Teodora em cortejo ritual, cercados de cortesãos e de clérigos, representados com uma solenidade e uma riqueza de detalhes que ainda hoje fascinam os visitantes. Os rostos são individualizados, os trajes são reproduzidos com uma precisão quase fotográfica em seus detalhes de tecido, de jóias e de bordados, e o conjunto transmite uma sensação de poder, de sacralidade e de riqueza que era exatamente o que os imperadores queriam expressar.
Em termos políticos e militares, o Império passou por uma fase de recuperação e de novo florescimento durante a chamada Dinastia Macedônia, que governou de oitocentos e sessenta e sete a mil e cinquenta e seis depois de Cristo. Sob imperadores como Basílio Primeiro, Basílio Segundo e outros membros da dinastia, o Império reconquistou parte da Síria e da Palestina, subjugou os búlgaros nos Bálcãs e voltou a ser a maior potência do Mediterrâneo oriental. Basílio Segundo ficou conhecido na história como o Matador de Búlgaros porque, segundo as narrativas da época, depois de uma grande vitória sobre o exército búlgaro, teria mandado cegar quinze mil prisioneiros búlgaros, deixando apenas um olho a cada centésimo prisioneiro para que pudessem guiar os outros de volta ao seu czar Samuel. Quando Samuel viu o exército de cegos voltando, morreu de choque. É uma história de crueldade impressionante, mas que revelava também a determinação com que os imperadores macedônios defendiam e expandiam os territórios do Império.
Foi durante a Dinastia Macedônia que os missionários bizantinos Cirilo e Metódio, no século nono depois de Cristo, empreenderam uma das missões de maior alcance histórico da Idade Média: a conversão dos povos eslavos ao Cristianismo Ortodoxo. Para isso, criaram um alfabeto específico para escrever a língua eslava, o alfabeto glagolítico, que depois foi simplificado no alfabeto cirílico que ainda hoje é usado pelo russo, pelo búlgaro, pelo sérvio e por várias outras línguas eslavas. A conversão dos eslavos ao Ortodoxismo criou uma família cultural e religiosa que se estendia dos Bálcãs à Rússia e que ainda hoje é uma das grandes divisões do mundo cristão.
A estrutura do Império Bizantino tinha características que o distinguiam de outros Estados medievais. O imperador detinha um poder que combinava autoridade política e religiosa de forma que os ocidentais medievais não conheciam: era considerado o representante de Deus na Terra, o protetor da Igreja e da fé ortodoxa, e sua corte era envolta numa cerimônia elaborada e rigorosa que expressava essa natureza semissagrada. A cerimônia de corte byzantina foi descrita por observadores estrangeiros com espanto: havia protocolos detalhados para cada aspecto do relacionamento com o imperador, posições determinadas para cada função, músicas, aclamações e gestos rituais que transformavam cada encontro com o soberano numa experiência quase litúrgica.
O sistema de temas foi uma das inovações mais importantes da administração militar byzantine. Originalmente, o Império havia sido dividido em províncias civis administradas por governadores civis, com o exército organizado de forma separada. Mas com as perdas territoriais do século sétimo e a necessidade de defender as fronteiras com recursos mais escassos, o Império reorganizou sua administração em temas, que eram unidades territoriais onde a autoridade civil e a autoridade militar estavam nas mãos de um único comandante chamado estratego. Os soldados do tema recebiam terras para cultivar em troca de seus serviços militares, o que reduzia o custo do exército para o Estado e criava uma classe de soldados-camponeses com interesse material em defender seu próprio território. Esse sistema tornou as defesas byzantinas mais eficientes e mais sustentáveis nas condições difíceis do século sétimo em diante.
O Império Byzantino foi também um dos centros comerciais mais importantes do mundo medieval. Constantinopla estava situada no cruzamento das rotas comerciais que ligavam a Europa ao Oriente: pela terra, os mercadores chegavam de toda a Europa e da Ásia central; pelo mar, os navios traziam especiarias, seda, marfim e outros produtos luxuosos do Oriente para redistribuí-los ao Ocidente. O sólido, a moeda de ouro byzantina, foi por séculos a moeda mais estável e mais confiável do Mediterrâneo, aceita como meio de troca em lugares tão distantes quanto a Escandinávia, a Índia e o Sudão. A riqueza que esse comércio gerava financiava o Estado, pagava os exércitos e produzia os palácios, as igrejas e as obras de arte que tornaram Constantinopla a cidade mais esplêndida do mundo medieval.
Um fator que contribuiu para a preservação do conhecimento clássico foi o sistema de ensino byzantine. As escolas e os monastérios do Império copiavam e preservavam textos gregos antigos, tanto de autores pagãos como Platão, Aristóteles, Tucídides e Homero, quanto de autores cristãos. Muitos dos textos gregos antigos que chegaram ao Ocidente durante o Renascimento vieram de manuscritos byzantinos copiados ao longo dos séculos nos scriptoria, os ateliês de cópia de manuscritos dos mosteiros. Sem essa tradição de preservação e de transmissão byzantina, boa parte do que conhecemos da filosofia, da ciência e da literatura da Grécia antiga estaria simplesmente perdida.
Mas a partir do século onze, o Império começou uma decadência que se mostraria irreversível, embora prolongada. Em mil e setenta e um depois de Cristo, os turcos seljúcidas, um povo de guerreiros nômades islâmicos que havia se expandido pela Ásia central e pelo Oriente Médio, infligiram ao exército byzantine uma derrota devastadora na Batalha de Manzikert, na Anatólia. O próprio imperador Romano Quarto Diógenes foi capturado em batalha. A Anatólia, que era o núcleo territorial e demográfico do Império, o coração que fornecia soldados e grãos para a capital, foi rapidamente ocupada pelos seljúcidas. O Império perdeu de uma vez grande parte de seus recursos humanos e agrícolas mais essenciais.
Foi em parte para responder a esse desastre que o imperador byzantino Aleixo Primeiro Comneno pediu ajuda ao papa Urbano Segundo no Ocidente, o que resultou na proclamação da Primeira Cruzada em mil e noventa e cinco depois de Cristo. Os cruzados ocidentais passaram por Constantinopla a caminho da Terra Santa e reconquistaram Antioquia e Jerusalém dos muçulmanos. Mas a relação entre os cruzados ocidentais e os byzantinos foi desde o início marcada por desconfiança, mal-entendidos e desentendimentos culturais e religiosos. Os occidentais latinos, católicos, viam os byzantinos gregos, ortodoxos, como cristãos de segunda categoria que haviam abandonado a obediência ao papa. Os byzantinos viam os cruzados como bárbaros ignorantes e cobiçosos que não entendiam a complexidade da situação política do Oriente.
Essa tensão explodiu de forma catastrófica durante a Quarta Cruzada. Em mil e duzentos e quatro depois de Cristo, os cruzados que haviam partido do Ocidente com a intenção de conquistar o Egito foram desviados de seu objetivo original por uma série de circunstâncias que envolveram dívidas com os venezianos, intrigas políticas byzantinas e, no final, a tentação irresistível da riqueza de Constantinopla. Em abril de mil e duzentos e quatro, os cruzados e os venezianos atacaram e saquearam Constantinopla, a capital do Império cristão mais antigo e mais rico do Ocidente. O saque durou três dias e foi de uma brutalidade que chocou até os contemporâneos: igrejas foram profanadas, relíquias sagradas foram roubadas, obras de arte insubstituíveis foram destruídas ou levadas para o Ocidente, civis foram massacrados ou violentados. Sobre as ruínas do Império Byzantine, os cruzados fundaram o chamado Império Latino de Constantinopla, um Estado fraco e mal organizado que durou apenas cinquenta e sete anos.
Em mil e duzentos e sessenta e um, os gregos reconquistaram Constantinopla e restauraram o Império Byzantino sob a Dinastia dos Paleólogos. Mas o Império que foi restaurado era uma sombra do que havia sido antes: havia perdido boa parte de seus territórios, sua riqueza havia sido devastada pelo saque de mil e duzentos e quatro, sua autoridade sobre os comerciantes venezianos e genoveses que dominavam o comércio do Mediterrâneo oriental era muito limitada, e o poder dos turcos otomanos crescia ameaçadoramente na Anatólia.
Os turcos otomanos eram um povo de origem nômade da Ásia central que havia se convertido ao Islã e que a partir do final do século treze começou a expandir seu controle sobre a Anatólia às custas tanto dos seljúcidas quanto dos byzantinos. Com uma eficiência militar e uma organização política que impressionavam seus contemporâneos, os otomanos foram conquistando progressivamente as últimas possessões byzantinas na Anatólia e depois avançando pelos Bálcãs. No final do século catorze, o Império Byzantine estava reduzido essencialmente à cidade de Constantinopla e a alguns territórios dispersos ao redor. Era uma cidade imperial sem Império ao redor, um título sem a substância que o deveria sustentar.
Os imperadores byzantinos desse período final fizeram apelos desesperados ao Ocidente pedindo ajuda contra os otomanos. O imperador João Oitavo Paleólogo foi pessoalmente à Europa ocidental, reuniu-se com o papa e tentou convencer os príncipes e os reis ocidentais a organizarem uma nova cruzada. Para obter esse apoio, os byzantinos aceitaram em mil e quatrocentos e trinta e nove, no Concílio de Florença, uma fórmula de união das Igrejas Ortodoxa e Católica sob a autoridade do papa. Mas essa união foi rejeitada pela grande maioria dos clérigos e do povo de Constantinopla, que dizia preferir o turbante otomano à tiara papal. A ajuda ocidental que veio foi totalmente insuficiente para mudar o equilíbrio de forças.
Em maio de mil e quatrocentos e cinquenta e três depois de Cristo, o jovem sultão otomano Mehmed Segundo cercou Constantinopla com um exército estimado em oitenta mil a cem mil homens e uma frota de mais de cem navios. A cidade era defendida por menos de dez mil soldados, entre byzantinos e mercenários genoveses. Mehmed havia encomendado um canhão de proporções até então desconhecidas, capaz de lançar pedras de pedra de mais de seiscentos quilos, que bombardeou as muralhas theodosias por cinquenta e três dias. O imperador Constantino Undécimo Paleólogo, o último imperador de Roma, recusou a proposta de Mehmed de abandonar a cidade em troca de salvo conduto e optou por ficar e morrer com seus súditos.
Na manhã de vinte e nove de maio de mil e quatrocentos e cinquenta e três, os otomanos encontraram uma brecha nas muralhas e invadiram a cidade. Os últimos defensores, em número muito inferior, foram esmagados. O imperador Constantino Undécimo mergulhou na batalha e nunca foi encontrado depois, desaparecendo entre os mortos. Mehmed Segundo entrou em Constantinopla como conquistador, foi à Basílica de Santa Sofia, que estava lotada de civis que haviam se refugiado lá esperando um milagre que não veio, e ordenou que a basílica fosse transformada em mesquita. Rezou ali a primeira oração muçulmana no templo que por quase novecentos anos havia sido o maior santuário do Cristianismo ortodoxo.
Mil e quatrocentos e cinquenta e três marcou o fim de uma civilização que havia durado mais de dois mil anos se contarmos desde a fundação de Roma, ou quase mil e duzentos anos se contarmos desde a fundação de Constantinopla por Constantino. O Império Romano havia finalmente chegado ao seu término, não com a deposição burocrática e quase pacífica de Rômulo Augústulo em quatrocentos e setenta e seis, mas com uma batalha de resistência desesperada e com a morte no campo de honra do último imperador.
A queda de Constantinopla teve efeitos enormes sobre o mundo ocidental. Muitos intelectuais e sábios byzantinos fugiram para a Itália, levando consigo manuscritos gregos e o conhecimento da língua grega que a maioria dos ocidentais havia perdido durante os séculos medievais. Sua chegada contribuiu para o florescimento do Humanismo e do Renascimento italiano, trazendo textos e ideias que alimentaram a transformação cultural que estaria na base da modernidade europeia. Os livros que trouxeram, as ideias que transmitiram, o conhecimento do grego que ensinaram: tudo isso teve consequências que se espalharam por séculos.
A herança do Império Byzantino vive de muitas formas no mundo contemporâneo. A Igreja Ortodoxa, com centenas de milhões de fiéis na Grécia, na Rússia, na Sérvia, na Bulgária, na Romênia e em outros países, é sua herdeira espiritual mais direta. O alfabeto cirílico que os russos e os sérvios ainda usam foi criado por missionários byzantinos. Muitas das categorias do direito civil que usamos vêm do Corpus Iuris Civilis de Justiniano. Santa Sofia ainda está de pé em Istambul, que é o nome que os otomanos deram a Constantinopla, e é hoje um dos monumentos arquitetônicos mais visitados do mundo.
Bizâncio foi por muito tempo negligenciado nos currículos escolares ocidentais, tratado como uma curiosidade excêntrica ou como um mero apêndice da história de Roma. Mas essa negligência é profundamente injusta. O Império Romano do Oriente foi por quase mil anos um dos maiores centros da civilização humana, um Estado que preservou o conhecimento clássico quando o Ocidente o havia perdido, que produziu arte e teologia de beleza e profundidade extraordinárias, que manteve viva uma tradição política e jurídica que moldou o mundo medieval e moderno, e que serviu por séculos como barreira entre a Europa ocidental e as sucessivas ondas de expansão vindas do Oriente. A história de Bizâncio é longa, complexa e ainda hoje objeto de pesquisa e debate entre os historiadores.
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| Dados de Catalogação na Publicação: NORAT, Markus Samuel Leite. Curso de história para o 1º ano do ensino médio. João Pessoa: Editora Norat, 2026. Livro Digital, Formato: HTML5, Tamanho: 132,4125 gigabytes (132.412.500 kbytes) . ISBN: 978-65-80808-16-8 | Cutter: N825c | CDD-907.12 | CDU-94(100)”-04/17″:373.5 . Palavras-chave: História, Ensino Médio, Pré-História, Civilizações Antigas, Mesopotâmia, Egito Antigo, Grécia Antiga, Roma Antiga, África Antiga, Reinos Africanos, Mundo Árabe-Muçulmano, Idade Média, Feudalismo, Antigo Regime, Monarquias Absolutistas, Renascimento, Humanismo, ENEM, Vestibulares. . TODOS OS DIREITOS RESERVADOS. É proibida a cópia total ou parcial desta obra, por qualquer forma ou qualquer meio. A violação dos direitos autorais é crime tipificado na Lei n. 9.610/98 e artigo 184 do Código Penal. |
