Curso de História para o 1º Ano do Ensino Médio
MÓDULO 8 – POVOS AFRICANOS NA ANTIGUIDADE E REINOS MEDIEVAIS AFRICANOS
Aula 96 – A civilização iorubá: Ilê Ifé, mitologia e organização política
Aula 96 – A civilização iorubá: Ilê Ifé, mitologia e organização política
Existe uma civilização africana cuja influência está presente no Brasil de uma forma que a maioria das pessoas não percebe no cotidiano. Ela está nas religiões de matriz africana como o candomblé e a umbanda, nos nomes dos orixás que milhões de brasileiros veneram, na culinária baiana com seus acarajés e carurus, nas festas e nos ritmos que moldaram a música popular brasileira, e nas formas de organização comunitária que resistiram séculos de escravidão e de opressão. Essa civilização é a iorubá, e ela é uma das mais ricas, mais complexas e mais influentes que a África já produziu. Nesta aula, vamos entender quem são os iorubás, o que foi a cidade sagrada de Ilê Ifé, qual é a mitologia extraordinária que esse povo criou e como se organizava politicamente uma das sociedades urbanas mais sofisticadas da África pré-colonial.
Comecemos pelo básico: quem são os iorubás e onde vivem?
Os iorubás são um povo que habita principalmente o sudoeste da Nigéria, o sul do Benin e partes do Togo, na África Ocidental. Hoje, são um dos grupos étnicos mais numerosos do continente africano, com estimativas que variam entre quarenta e sessenta milhões de pessoas falando a língua iorubá e se identificando com essa cultura. A língua iorubá pertence à grande família linguística Níger-Congo, sendo falada com pequenas variações regionais em uma área bastante extensa, e é também língua de herança para descendentes de iorubás nas Américas, especialmente no Brasil, em Cuba e no Haiti, onde elementos iorubás foram preservados nas práticas religiosas e culturais trazidas pelos africanos escravizados.
A região que os iorubás habitam historicamente é chamada de Iorubálândia pelos pesquisadores, um território que inclui florestas tropicais ao sul, onde o clima úmido favorece a agricultura e a vida urbana densa, e savanas ao norte, onde a criação de animais e uma agricultura diferente moldaram outros modos de vida. É no coração da zona florestal, cercada por colinas e de clima ameno para os padrões tropicais, que fica a cidade mais sagrada do mundo iorubá: Ilê Ifé.
Ilê Ifé, cujo nome em iorubá significa simplesmente a casa da expansão ou o lar que se alarga, é uma cidade real no estado nigeriano de Osun, que existe até hoje com uma população de várias centenas de milhares de pessoas. Mas Ilê Ifé não é apenas uma cidade moderna com uma história antiga. Para o povo iorubá, Ilê Ifé é literalmente o centro do universo, o lugar onde o mundo foi criado, onde os deuses desceram do céu para dar forma à terra, e onde toda a humanidade tem sua origem última. É a Jerusalém, a Meca e a Roma da religião e da cultura iorubá, um lugar de peregrinação, de reverência e de identidade coletiva profunda.
Para entender por que Ilê Ifé tem esse papel, precisamos entrar no universo da mitologia iorubá, que é um dos sistemas mitológicos mais ricos e mais elaborados que qualquer civilização já criou.
A mitologia iorubá começa com Olódùmarè, o ser supremo, o criador de todas as coisas. Olódùmarè não é um deus que se envolve diretamente nos assuntos dos seres humanos da mesma forma que os deuses gregos, por exemplo. É uma presença mais distante, mais absoluta, a fonte de toda a existência, o princípio criador por trás de tudo que é. Olódùmarè existe além de qualquer forma ou atributo específico, e por isso os iorubás não o representam em imagens ou esculturas da mesma forma que representam outras divindades. Ele é o inatingível, o incompreensível, o fundamento último de toda a realidade.
Para criar o mundo visível e habitar a existência junto aos seres humanos, Olódùmarè criou os orixás. Os orixás são divindades que têm personalidades definidas, domínios específicos sobre aspectos da natureza e da vida humana, histórias próprias e relações umas com as outras. São seres ao mesmo tempo divinos e em muitos aspectos muito humanos: têm paixões, ciúmes, conflitos, amores, preferências, e às vezes cometem erros. Essa humanidade das divindades não é uma falha teológica do sistema iorubá: é uma característica deliberada que aproxima os orixás dos seres humanos e torna a relação entre o sagrado e o mundano muito mais próxima e mais viva do que seria se os deuses fossem seres de perfeição fria e distante.
O número de orixás no panteão iorubá é frequentemente citado como quatrocentos e um, número que na tradição iorubá representa a ideia de infinito, de mais do que se pode contar. Na prática, os orixás mais conhecidos e mais cultuados são algumas dezenas, cada um com suas características específicas.
Vamos conhecer alguns dos mais importantes.
Obatalá, cujo nome significa rei do pano branco, é o orixá criador dos corpos humanos. Segundo a mitologia, foi Obatalá quem recebeu de Olódùmarè a tarefa de moldar as formas físicas dos seres humanos na argila, e por isso é venerado como o pai da humanidade. É associado à cor branca, à pureza, à sabedoria, à paz e à criatividade. Quando estava embriagado de uma bebida fermentada de palma durante o trabalho de criação, modelou incorretamente alguns corpos, e por isso os iorubás acreditam que Obatalá é o patrono das pessoas com deficiências físicas, que são consideradas especialmente sagradas a ele e nunca devem ser ridicularizadas. No candomblé brasileiro, Obatalá é chamado de Oxalá e é considerado o orixá mais importante, pai de todos os outros.
Odùduwà, por sua vez, é a divindade à qual os iorubás atribuem a criação da terra firme e a fundação de Ilê Ifé. Segundo uma das narrativas mitológicas mais importantes do corpus iorubá, antes da criação havia apenas água e céu. Olódùmarè enviou Odùduwà com uma cabaça contendo areia e uma galinha de cinco dedos. Odùduwà derramou a areia sobre as águas e colocou a galinha sobre ela. A galinha arranhou e espalhou a areia, criando a terra seca. O lugar onde primeiro surgiu a terra foi Ilê Ifé, e por isso Ilê Ifé é o centro do mundo. Odùduwà desceu então do céu numa corrente e se tornou o primeiro rei de Ilê Ifé. Todos os reis iorubás reivindicam sua descendência de Odùduwà, que é portanto não apenas uma divindade criadora mas também o ancestral mítico de toda a aristocracia iorubá.
Xangô, chamado Shango em iorubá, é o orixá do trovão, do raio e da justiça. Era também, na tradição histórica, um rei real de Oyó, um dos grandes reinos iorubás, que após sua morte foi divinizado e passou a ser venerado como orixá. Xangô é uma das divindades mais veneradas do panteão iorubá, conhecido por sua força imensa, por sua paixão, por seu temperamento explosivo como o trovão, e por seu senso de justiça rigoroso. Seu símbolo é o machado duplo, e suas cores são o vermelho e o branco. No candomblé brasileiro, Xangô é uma das divindades mais populares.
Ogum é o orixá do ferro, da guerra, do trabalho, das estradas e da tecnologia. É o patrono de todos os que trabalham com metais, de soldados, de motoristas, de cirurgiões e de qualquer pessoa cujo trabalho envolva o corte ou a transformação. Ogum é uma figura ao mesmo tempo temível e essencial: sem o ferro, não há ferramentas, não há armas, não há trabalho. Sua personalidade na mitologia é de um guerreiro feroz e solitário, que prefere as florestas à companhia dos outros, mas que é indispensável para a civilização. No Brasil, Ogum é um dos orixás mais conhecidos e venerados.
Ifá, ou Orunmilá, é a divindade do destino, do conhecimento e da adivinhação. Ifá é ao mesmo tempo um orixá e o nome do sistema de adivinhação que é o coração intelectual e espiritual da cultura iorubá. O sistema de Ifá é um corpus de conhecimento extraordinariamente vasto, composto de poemas chamados de odù, que os sacerdotes de Ifá, chamados de babalaôs, memorizam e interpretam para orientar as pessoas diante das decisões e dos desafios da vida. Cada odù é associado a histórias, a conselhos, a remédios, a prescrições rituais e a ensinamentos éticos. O conjunto dos odù forma uma enciclopédia da sabedoria iorubá que os babalaôs passam anos, às vezes décadas, estudando e memorizando. Em dois mil e cinco, a UNESCO reconheceu o sistema de Ifá como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, em reconhecimento à sua importância e à sua sofisticação.
Oxum, em iorubá Oshun, é a orixá das águas doces, do amor, da fertilidade, da beleza e da prosperidade. É representada como uma mulher de beleza extraordinária, vestida de amarelo dourado e adornada de joias, frequentemente dançando às margens de rios. É uma divindade da alegria, mas também de uma sabedoria profunda, e nas histórias mitológicas frequentemente aparece como aquela que resolve crises que os outros orixás não conseguem solucionar porque ela usa a graça e a sedução onde os outros usam a força. No Brasil, Oxum é uma das divindades mais amadas do candomblé.
Iemanjá é a orixá do mar, mãe das águas salgadas e mãe de muitos outros orixás. No Brasil, Iemanjá tornou-se provavelmente a divindade africana mais conhecida pelo grande público, sendo celebrada especialmente no dia dois de fevereiro com festas nas praias de todo o litoral brasileiro, onde devotos e simpatizantes lançam flores e presentes ao mar. Sua imagem no Brasil é frequentemente a de uma grande mãe de beleza serena, vestida de azul e branco, senhora das profundezas marinhas.
Exu é o orixá das encruzilhadas, das passagens, da comunicação e do princípio que conecta o mundo humano ao mundo divino. Exu é o mensageiro entre os outros orixás e os seres humanos, e nenhum ritual pode ser realizado sem que ele seja primeiro saudado e apaziguado, porque sem sua cooperação a comunicação entre o sagrado e o humano simplesmente não funciona. Exu é também o orixá do movimento, do comércio, das ruas e das fronteiras. Sua personalidade na mitologia é travessa, irônica e imprevisível: gosta de jogar com as expectativas das pessoas e de revelar verdades incômodas. No Brasil, por um processo de sincretismo colonial que os estudiosos hoje consideram uma distorção, Exu foi associado ao demônio do Cristianismo, o que é um equívoco profundo: Exu não é uma figura do mal, mas uma divindade complexa que representa a fluidez, a transformação e a necessidade de negociar com o inesperado.
Esses orixás, e muitos outros além deles, formam um panteão extraordinariamente rico em narrativas, em simbolismos e em ensinamentos sobre a natureza humana e sobre a relação entre os seres humanos e as forças do universo. As histórias dos orixás, chamadas de itans em iorubá, são transmitidas oralmente pelos sacerdotes e pelos iniciados nas religiões iorubás, e são um corpus literário de enorme riqueza que os pesquisadores começaram a estudar sistematicamente apenas no século vinte.
O que é especialmente notável na mitologia iorubá é sua coerência interna e sua capacidade de abordar questões filosóficas profundas através de narrativas concretas e dramaticamente ricas. A questão do destino e do livre-arbítrio, por exemplo, é tratada com grande sofisticação: segundo a teologia iorubá, cada ser humano escolhe, antes de nascer, um destino chamado de orí, literalmente cabeça, que representa o caminho que essa pessoa seguirá em vida. Mas as escolhas que fazemos durante a vida podem confirmar ou desviar desse destino, e através dos rituais, da consulta ao oráculo de Ifá e da relação com os orixás, cada pessoa pode trabalhar para se alinhar com seu destino mais profundo. É uma visão que equilibra a ideia de um propósito transcendente com a responsabilidade individual, uma resposta sofisticada a questões que as filosofias e as teologias de todo o mundo se debatem desde a Antiguidade.
Agora que entendemos a mitologia, precisamos voltar a Ilê Ifé como realidade histórica e arqueológica, não apenas como lugar sagrado na cosmologia iorubá.
As escavações arqueológicas realizadas em Ilê Ifé a partir da segunda metade do século vinte revelaram que a cidade foi habitada continuamente há pelo menos dois mil anos, e que atingiu um primeiro período de grande florescimento entre os séculos onze e quinze depois de Cristo. Nesse período, Ilê Ifé era uma cidade de porte considerável, com uma área urbana bem definida, ruas pavimentadas com cacos de cerâmica enterrados verticalmente formando padrões geométricos, edifícios de argila elaborados e uma intensa atividade artística.
Mas o que tornou Ilê Ifé mundialmente famosa na arqueologia foi a descoberta de esculturas de extraordinária qualidade que permaneceram enterradas durante séculos e foram encontradas casualmente ou em escavações sistemáticas ao longo do século vinte. Essas esculturas são cabeças e figuras inteiras de terracota e de cobre fundido ou de bronze que representam seres humanos com um realismo e uma delicadeza técnica que simplesmente não tinham paralelo conhecido na África subsaariana daquele período. As cabeças de bronze de Ifé têm traços faciais individualizados, expressões de serenidade e de dignidade, e um nível de detalhamento anatômico que demonstra um domínio da técnica de fundição em cera perdida raramente visto em qualquer civilização do mundo na mesma época.
Quando as primeiras dessas esculturas chegaram ao conhecimento do mundo acadêmico ocidental no início do século vinte, a reação foi semelhante à que já mencionamos em outras aulas sobre arte africana: descrença, recusa em aceitar que africanos poderiam ter produzido obras de tal qualidade, e teorias absurdas sobre influências externas, comparando as cabeças de Ifé ao estilo grego ou atribuindo sua criação a civilizações perdidas imaginárias. O antropólogo alemão Leo Frobenius, que encontrou algumas dessas peças em Ifé em mil novecentos e dez durante uma expedição à Nigéria, chegou a especular que Ifé poderia ser um vestígio da lendária Atlântida, a ilha mitológica que Platão descrevera como civilização desaparecida. Isso diz muito mais sobre os preconceitos dos observadores do que sobre a realidade das obras.
A realidade é que as esculturas de Ifé são produtos de uma tradição artística local que se desenvolveu de forma independente ao longo de séculos, atingindo um nível de sofisticação técnica e estética comparável ao melhor da arte de qualquer civilização. As cabeças representam provavelmente reis, rainhas e personagens religiosas importantes, e eram usadas em rituais funerários e de coroação. A técnica de fundição em cera perdida que os artistas de Ifé dominavam é a mesma técnica usada por fundidores de bronze no Mediterrâneo antigo, na China e em outras partes do mundo, mas não há evidências de que os fundidores de Ifé a aprenderam de fora: a técnica pode ter sido desenvolvida independentemente, o que seria mais um exemplo de como diferentes civilizações podem chegar a soluções semelhantes para problemas semelhantes sem necessariamente ter contato entre si.
A arte de Ifé influenciou profundamente a arte do Reino do Benin, o poderoso Estado iorubá vizinho que foi especialmente ativo entre os séculos treze e dezenove. Segundo a tradição, os reis do Benin, chamados de obás, pediram a Ilê Ifé que enviasse um artesão para ensinar aos artistas do Benin a técnica da fundição em bronze. O artista enviado, chamado Igueghae, teria ensinado essa arte aos benínenses, que a desenvolveram de forma própria e criaram os famosos bronzes do Benin, obras de arte que quando chegaram à Europa no final do século dezenove causaram a mesma espécie de choque e de incredulidade que as esculturas de Ifé haviam causado em quem as viu pela primeira vez.
Agora precisamos entender a organização política iorubá, que era ao mesmo tempo complexa, sofisticada e muito diferente das formas de organização política que costumamos estudar nas aulas de história.
A civilização iorubá foi essencialmente uma civilização urbana. Os iorubás viviam em cidades, não em vilarejos dispersos ou em assentamentos nômades. Suas cidades eram cercadas por muros de terra compactada e por valas que serviam de proteção, e tinham populações que podiam chegar a dezenas de milhares de habitantes. Antes do contato com os europeus, havia cidades iorubás que eram maiores do que a maioria das cidades europeias da mesma época. Ibadan, Oyó, Abeokuta, Ketu, Lagos, Ijebu Ode e muitas outras eram centros urbanos de vida intensa, com mercados, artesãos especializados, comerciantes, sacerdotes, funcionários e todas as instituições que caracterizam a vida em cidades.
Essa tradição urbana é um fato histórico notável que desafia completamente a imagem da Africa pré-colonial como continente de pequenas aldeias. Os iorubás construíram e habitaram cidades de escala considerável por séculos antes de qualquer contato com europeus, e desenvolveram formas de organização política adaptadas à vida urbana e ao comércio de longa distância.
A unidade política básica da organização iorubá era o reino, chamado de ilu, uma entidade centrada em uma cidade principal e controlando o território ao redor. Cada reino tinha um rei, chamado de oba, que era ao mesmo tempo governante político, figura religiosa central e símbolo da identidade coletiva de seu povo. O oba não era um déspota absoluto que governava por capricho: havia um sistema elaborado de conselhos e de instituições que limitavam seu poder e que eram parte essencial do governo.
Em Ilê Ifé, o rei é chamado de Ooni de Ifé. O título Ooni é um dos mais antigos e mais sagrados do mundo iorubá, e a pessoa que o ocupa é considerada descendente direta de Odùduwà, o criador mítico da terra. O Ooni de Ifé não é apenas um governante político, mas a mais alta autoridade religiosa da civilização iorubá, o representante vivo da ligação entre o povo iorubá e seus ancestrais divinos. Quando o Ooni aparece em cerimônias públicas, usa véus e ornamentos que cobrem seu rosto, porque ele é tão sagrado que seu contato direto com o mundo comum pode ser perigoso. Essa sacralidade do governante é uma característica que aparece em muitas civilizações africanas e que reflete uma concepção de poder muito diferente da ocidental moderna: o rei não é apenas um administrador eleito ou um guerreiro vitorioso, mas um ser de natureza especial cuja existência física conecta o mundo dos vivos ao mundo dos ancestrais e dos deuses.
O cargo de oba nos diferentes reinos iorubás era hereditário, passando dentro das famílias reais. Mas a sucessão não era necessariamente de pai para filho: havia frequentemente vários candidatos dentro da família real, e eram os conselhos de notáveis que decidiam entre os candidatos. Essa forma de escolha limitava o poder hereditário absoluto e introduzia um elemento de seleção baseado na competência e na aceitação pelos mais velhos e pelos mais respeitados da comunidade.
Os conselhos que auxiliavam o oba tinham diferentes composições e funções nos diferentes reinos iorubás, mas em geral incluíam representantes das famílias mais antigas e mais poderosas, chefes militares, sacerdotes e, em alguns reinos, representantes dos guilds de comerciantes e de artesãos. Esses conselhos não eram meramente consultivos: tinham poder real para limitar as decisões do oba, para vetar medidas que considerassem prejudiciais e, em casos extremos, para depor um rei que havia se tornado insuportável. A expressão ritual usada quando os conselhos decidiam que um rei devia ser removido era dizer-lhe que ele dormia muito, uma forma eufemística de comunicar que era hora de ele morrer ou de abdicar. Em alguns reinos, o oba recebia recipientes com papagaios ou ovos como mensagem dos conselhos, indicando que sua hora havia chegado, e esperava-se que ele então tomasse veneno, se exilasse ou de alguma forma deixasse o poder. Essa capacidade institucionalizada de remover um rei que havia abusado do poder era uma forma primitiva mas real de limitação do poder absoluto, muito antes de que os europeus desenvolvessem suas próprias teorias sobre freios ao poder real.
Em Oyó, que foi no século dezessete e dezoito o maior e o mais poderoso dos reinos iorubás, o sistema de limitação do poder do oba era especialmente elaborado. O rei de Oyó, chamado de Aláàfin de Oyó, era assistido por um conselho de altos dignitários chamado de Oyó Mesi, liderado por um funcionário chamado de Bashorun. O Oyó Mesi tinha o poder de, em circunstâncias extremas, dizer ao Aláàfin que a recusa do povo havia chegado, o que era o sinal para que o rei se retirasse do trono. Havia também uma instituição chamada de Ogboni, uma sociedade de notáveis que tinha funções tanto religiosas quanto políticas e que servia como um contrapeso adicional ao poder do oba. Esse sistema de equilíbrios e contraequilíbrios no interior do governo de Oyó era tão sofisticado que alguns estudiosos o comparam, guardadas as enormes diferenças de contexto, a sistemas de separação de poderes que o pensamento político ocidental desenvolveu independentemente séculos depois.
Oyó se tornou uma potência regional de primeira grandeza graças principalmente a sua cavalaria. O planalto de Oyó ficava numa região de savana ao norte da zona florestal, onde o clima permitia a criação de cavalos, animais que morriam rapidamente de doenças tropicais na zona costeira úmida. Com uma cavalaria eficaz, Oyó pôde expandir seu território, impor tributação a reinos vizinhos e controlar rotas comerciais que se estendiam do litoral atlântico até as regiões do Sahel ao norte. No auge de seu poder, no século dezoito, o império de Oyó controlava um território vasto e cobrava tributos de povos que iam desde os iorubás de regiões vizinhas até os fon do Daomé, no atual Benin.
O comércio era um elemento central da vida iorubá em todos os níveis, do cotidiano das aldeias ao comércio de longa distância entre reinos. Os mercados iorubás eram instituições sociais muito mais do que simples locais de troca econômica: eram lugares de encontro, de transmissão de notícias, de resolução de disputas, de celebração e de vida social intensa. Os mercados em muitas cidades iorubás funcionavam em ciclos de quatro, oito ou dezesseis dias, e as pessoas viajavam de regiões distantes para participar dos grandes mercados das cidades principais.
O comércio iorubá envolvia uma variedade enorme de produtos. A noz de cola, um fruto de sabor amargo e de propriedades estimulantes que contém cafeína, era um dos produtos mais comercializados e tinha também grande importância ritual, sendo oferecida em cerimônias de boas-vindas e usada em rituais religiosos. O azeite de palma, extraído do fruto da palmeira dendezeira, era usado na culinária, em rituais e como produto de comércio. O algodão e os tecidos produzidos pelos tecelões iorubás eram outro produto importante. O ferro trabalhado pelos ferreiros, os objetos de bronze dos fundidores, as cerâmicas das oleiras, os produtos dos curtidores de couro: tudo isso circulava nos mercados iorubás e por rotas de longa distância que conectavam a região a outros partes da África Ocidental.
As mulheres desempenhavam um papel fundamental no comércio iorubá, especialmente no comércio dos mercados locais e regionais. As comerciantes iorubás eram e continuam sendo figuras de grande importância econômica e social, e havia no sistema político iorubá uma representante específica das interesses das comerciantes: a Iyalode, literalmente a mãe que está fora, ou seja, a mãe que está no mercado e na vida pública. A Iyalode era uma líder feminina eleita pelas mulheres, que tinha assento nos conselhos do oba e representava as mulheres nas decisões políticas. Essa institucionalização de uma liderança feminina no governo dos reinos iorubás é um aspecto frequentemente negligenciado mas muito significativo da organização política desse povo.
Havia também a figura da Iyaloja, a mãe do mercado, que era a liderança feminina especificamente responsável pela organização e pela regulação do comércio no mercado. A Iyaloja mediava disputas entre comerciantes, garantia que as regras do mercado fossem respeitadas e representava os interesses das comerciantes diante do governo. Essa divisão de funções entre a Iyalode, com papel político mais amplo, e a Iyaloja, com função mais específica de gestão do mercado, mostra um grau de especialização institucional que reflete uma sociedade politicamente sofisticada.
A família e o clã eram a base da organização social iorubá. Os iorubás se organizam em grupos familiares extensos chamados de compound em inglês, porque a palavra portuguesa não captura exatamente o conceito. Um compound iorubá é uma unidade residencial que inclui um homem mais velho, suas esposas, seus filhos e filhas solteiras, os filhos casados com suas famílias, e às vezes parentes colaterais. Todos vivem em torno de um pátio central, e a liderança do compound pertence ao ancião masculino mais velho, chamado de bale. O compound não é apenas uma unidade habitacional: é uma unidade econômica que produz e consome em conjunto, uma unidade religiosa que cultua os mesmos ancestrais e participa dos mesmos rituais, e uma unidade política que age de forma coordenada nos assuntos da cidade e do reino.
A veneração dos ancestrais era, e em muitos lugares continua sendo, um elemento central da vida religiosa e familiar iorubá. Os ancestrais que viveram bem, que cumpriram suas obrigações para com a família e para com a comunidade, que morreram em paz e que foram devidamente enterrados e honrados, tornam-se forças protetoras que velam pelos descendentes vivos. Os ritos funerários e os rituais de honra aos ancestrais não são apenas expressões de tristeza pela morte: são atos de manutenção das relações entre os vivos e os mortos, que continuam fazendo parte da família mesmo depois de deixarem o mundo visível. Um ancestral honrado e lembrado protege seus descendentes; um ancestral negligenciado pode se tornar uma presença perturbadora.
A passagem da vida para a morte e de volta para a vida é central na cosmologia iorubá. Acredita-se que as almas passam por múltiplos ciclos de existência, reencarnando repetidamente dentro da mesma linhagem familiar. Uma criança pode ser o renascimento de um avô ou de uma bisavó, e sinais específicos no comportamento ou na aparência da criança são interpretados como indicações de qual ancestral ela traz de volta. Essa concepção de continuidade entre gerações, de um fluxo de identidade que vai além da morte individual, é uma das características mais marcantes da visão de mundo iorubá.
Precisamos também falar sobre o papel dos sacerdotes e das instituições religiosas na organização política iorubá, porque a separação entre o religioso e o político que é uma das bases do pensamento moderno ocidental simplesmente não existe da mesma forma no contexto iorubá tradicional.
Os babalaôs, os sacerdotes do oráculo de Ifá de que falamos anteriormente, eram figuras de enorme influência política além de sua função religiosa. Porque o sistema de Ifá era consultado antes de decisões importantes, porque as orientações dos babalaôs eram levadas muito a sério por reis e por pessoas comuns, e porque os babalaôs acumulavam ao longo de anos de estudo um conhecimento enciclopédico sobre história, sobre medicina, sobre as relações entre as famílias e os reinos, eles tinham acesso a informações e a uma rede de contatos que lhes dava influência real sobre os assuntos humanos. Um babalaô respeitado era consultado antes de guerras, de alianças matrimoniais, de viagens de comércio e de qualquer outra decisão de importância.
Os sacerdotes e as sacerdotisas dos diferentes orixás formavam comunidades religiosas chamadas de egbé, que tinham suas próprias hierarquias, seus próprios patrimônios, suas próprias tradições e seus próprios papéis sociais. As casas de culto dos orixás eram centros de vida comunitária que iam além do estritamente religioso: eram lugares de cuidado dos doentes, de acolhimento dos excluídos, de formação dos jovens e de preservação do conhecimento ancestral. A iniciação nos cultos dos orixás era um processo longo e rigoroso que transformava o iniciado numa pessoa com responsabilidades específicas diante da comunidade e com acesso a um nível mais profundo de conhecimento sobre a natureza, sobre a medicina e sobre as forças que regem o universo.
Havia também sociedades secretas masculinas, como a sociedade do Egungun, que realizava rituais em que os ancestrais eram representados por mascarados com fantasias elaboradas que cobriam completamente o corpo do performer. O Egungun não é um homem com uma fantasia: é o ancestral encarnado, presente entre os vivos para transmitir sabedoria, para resolver conflitos, para reforçar as normas sociais e para lembrar aos vivos que fazem parte de uma corrente que os precede e os sucede. As cerimônias do Egungun são momentos de grande intensidade espiritual e de afirmação coletiva da identidade e dos valores da comunidade.
Agora precisamos falar sobre como a civilização iorubá atravessou o Atlântico e chegou ao Brasil e a outras partes das Américas, porque essa é uma das histórias mais importantes para entender a cultura brasileira.
Entre os séculos dezesseis e dezenove, o tráfico atlântico de escravizados retirou da África Ocidental milhões de pessoas e as transportou para as Américas em condições de brutalidade indescritível. Os iorubás foram um dos grupos mais numerosos entre os africanos escravizados enviados ao Brasil, especialmente no final do século dezoito e no início do século dezenove, período em que o poder do Império de Oyó estava em colapso e guerras internas produziam grande número de prisioneiros que eram vendidos como escravizados para os traficantes europeus.
Os iorubás escravizados chegaram principalmente ao Brasil e a Cuba, e em menor número ao Haiti e a outras partes das Américas. Apesar de toda a violência da escravidão, que tentou destruir a identidade e a humanidade dos escravizados, eles encontraram formas de preservar elementos essenciais de sua cultura. A língua iorubá foi preservada nas cantigas e nas orações dos cultos religiosos, mesmo quando havia sido esquecida como língua de comunicação cotidiana. Os nomes e as histórias dos orixás foram transmitidos oralmente de geração em geração. Os conhecimentos sobre plantas medicinais, sobre ritmos musicais, sobre técnicas culinárias, sobre formas de organização comunitária foram preservados e adaptados ao novo ambiente.
No Brasil, a tradição religiosa iorubá deu origem principalmente ao candomblé, especialmente ao candomblé de nação Ketu ou Nagô, que é a forma de candomblé mais diretamente ligada às tradições iorubás. A palavra nagô, que os brasileiros usavam para se referir aos iorubás, deriva do nome de um grupo iorubá específico. No candomblé, os orixás são reverenciados com seus nomes iorubás, com suas cores, seus símbolos, seus ritmos de tambor específicos e seus alimentos prediletos. Os rituais de iniciação guardam estruturas que remetem às iniciações nos cultos iorubás originais.
Em Cuba, a tradição iorubá deu origem à religião chamada de Lucumí ou Santeria, que é praticamente o equivalente cubano do candomblé. Em Trinidad, no Haiti e em outros países caribenhos, há tradições religiosas de origem iorubá com diferentes graus de preservação e de transformação.
O fato de que uma tradição religiosa e cultural conseguiu sobreviver à escravidão, atravessar o Atlântico e se reproduzir com vitalidade nas Américas ao longo de séculos é um testemunho extraordinário da força e da riqueza dessa cultura. Os orixás que os iorubás cultuam em Lagos e em Ibadan são os mesmos que os candomblecistas reverenciam em Salvador e no Rio de Janeiro, mesmo que as formas específicas dos rituais tenham se transformado durante séculos de adaptação ao novo contexto. É uma prova de que a cultura humana, mesmo quando submetida à violência mais extrema, encontra formas de sobreviver e de se afirmar.
A civilização iorubá é, portanto, uma das grandes civilizações da história humana. Ela produziu uma mitologia de profundidade filosófica e de riqueza narrativa comparável às grandes tradições mitológicas do mundo; criou sistemas políticos sofisticados com mecanismos de limitação do poder; desenvolveu uma arte de nível técnico e estético extraordinário; construiu cidades grandes e complexas; e produziu um sistema de conhecimento, o de Ifá, que a UNESCO reconhece como patrimônio de toda a humanidade. E apesar de tudo isso, continua sendo um capítulo que a maioria dos livros didáticos do mundo ocidental ignora ou trata superficialmente.
Mas no Brasil, ao contrário, a presença da cultura iorubá não é algo distante ou abstratos que só existe nos museus ou nas pesquisas acadêmicas. Ela está viva nas religiões de candomblé e de umbanda, nos nomes dos orixás que aparecem nas músicas populares, nos alimentos que comemos, nos ritmos que nos fazem dançar e nas formas de solidariedade comunitária que descendem das estruturas dos compounds e das irmandades africanas.
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