Curso de História para o 1º Ano do Ensino Médio
MÓDULO 8 – POVOS AFRICANOS NA ANTIGUIDADE E REINOS MEDIEVAIS AFRICANOS
Aula 97 – A cultura banto: origem, deslocamento e influência no Brasil
Aula 97 – A cultura banto: origem, deslocamento e influência no Brasil
Quando um brasileiro diz que vai à senzala de um museu histórico, que ouviu uma música de samba, que foi a um quilombo tombado pelo patrimônio nacional, que comeu uma moqueca ou que viu uma apresentação de capoeira, essa pessoa está, sem perceber, usando palavras e referindo-se a práticas culturais que vieram da África. E não de qualquer região da África, mas de um conjunto específico de povos que os estudiosos chamam de bantos, responsáveis por uma das migrações humanas mais extensas de que se tem registro na história, e por uma das contribuições culturais mais profundas que a diáspora africana deixou no Brasil. Nesta aula, vamos entender quem são os bantos, de onde vieram, por onde passaram ao longo de milênios, como chegaram ao Brasil através do tráfico de pessoas escravizadas, e de que forma sua presença está viva até hoje na língua, na religião, na música, na culinária e nas formas de vida do povo brasileiro.
Comecemos pela questão da palavra em si. O que significa banto?
A palavra banto não é o nome de um povo específico nem de uma nação singular. É uma palavra da própria língua dos povos a que se refere, e significa simplesmente pessoas ou seres humanos. Em muitas das línguas do grupo linguístico banto, a raiz ntu designa o ser humano, e o prefixo ba é um pluralizador que transforma essa raiz em pessoas. Portanto, banto quer dizer literalmente as pessoas, os seres humanos. É um nome que os linguistas e os antropólogos usam para designar um enorme conjunto de povos africanos que compartilham línguas aparentadas e que, ao longo de milênios de migração, espalharam sua cultura por uma parte vastíssima do continente africano.
Para entender os bantos, precisamos entender primeiro a ideia de família linguística, porque é principalmente a língua que define o que é banto.
Uma família linguística é um conjunto de línguas que descende de uma mesma língua ancestral comum. Assim como o português, o espanhol, o francês, o italiano e o romeno são todas línguas que descendem do latim e por isso formam a família linguística das línguas românicas, as línguas bantos são um conjunto de línguas que todas descendem de um mesmo ancestral comum, chamado pelos linguistas de proto-banto, uma língua que existiu há muito tempo e da qual se originaram, ao longo de milênios, mais de quinhentas línguas diferentes faladas hoje em dia.
Pense nessa dimensão: mais de quinhentas línguas. Línguas como o suaíle, que é a língua oficial de vários países da África Oriental e é falada por dezenas de milhões de pessoas; o zulu, falado por mais de doze milhões de pessoas na África do Sul; o xhosa, também sul-africano; o chichewa, do Malauí; o kicongo, do Congo e de Angola; o quimbundo e o umbundo, também de Angola; o lingala, falado no Congo e em países vizinhos; o ruanda e o kirundi, do Ruanda e do Burundi; o shona, do Zimbábue; e centenas de outras línguas em uso em países que vão da Nigéria à África do Sul, do Atlântico ao Índico. Toda essa diversidade linguística enorme, abrangendo dezenas de países e centenas de milhões de falantes, descende de um único ponto de origem.
E onde era esse ponto de origem?
Os linguistas e os arqueólogos, trabalhando com evidências muito diferentes mas chegando a conclusões semelhantes, identificaram a região de origem do proto-banto e dos primeiros falantes dessas línguas como sendo a área que hoje corresponde aproximadamente ao noroeste dos Camarões e ao leste da Nigéria, na África Central Ocidental. É uma região de florestas e de savanas onde há cerca de três mil a quatro mil anos viveu um grupo humano que falava o ancestral comum de todas as línguas bantos e que praticava agricultura, especialmente o cultivo do inhame, além de pesca nos rios abundantes da região.
Por volta de dois mil e quinhentos anos atrás, aproximadamente, esse grupo começou um processo de expansão que foi se acelerando ao longo dos séculos e que se tornou um dos movimentos de população mais extensos da história humana. Os bantos começaram a se mover para o leste e para o sul, levando consigo sua língua, sua cultura, suas técnicas agrícolas e, crucialmente, o conhecimento do trabalho com o ferro.
O ferro é uma parte essencial da história da expansão banto. Enquanto muitos dos povos que habitavam as regiões para onde os bantos migravam ainda usavam ferramentas e armas de pedra, os bantos dominavam a técnica de extrair e trabalhar o ferro, o que lhes dava uma vantagem considerável tanto na agricultura, com ferramentas de ferro mais eficientes para cortar florestas e cultivar a terra, quanto na guerra e na caça, com armas de metal muito mais poderosas do que as de pedra. Essa combinação de agricultura produtiva e metalurgia do ferro permitiu que as populações bantos crescessem e se expandissem de forma que os povos locais muitas vezes não conseguiam acompanhar ou resistir.
A expansão banto ocorreu em ondas ao longo de mais de dois mil anos e seguiu trajetórias que os arqueólogos e os linguistas puderam reconstruir com razoável precisão. Um braço da expansão foi para o leste, atravessando a África Central e chegando à região dos Grandes Lagos, ao redor do lago Vitória, onde se desenvolveram reinos poderosos como o de Ruanda, o de Buganda e outros. Outro braço foi para o sul, atravessando as florestas equatoriais do Congo e chegando às savanas ao sul, onde os bantos eventualmente alcançaram a África do Sul, deslocando ou absorvendo os povos san e khoikhoi que habitavam essas regiões. Um terceiro movimento foi para a costa oriental da África, onde os bantos estabeleceram contatos com comerciantes árabes, indianos e mais tarde portugueses, e onde se desenvolveu a cultura suaíle, uma síntese extraordinária de elementos bantos e árabes que floresceu em cidades costeiras como Quíloa, Mombaça e Zanzibar.
Ao longo de todo esse processo de expansão, os bantos não formaram nunca um império unificado nem um Estado central. A expansão não foi uma conquista militar planejada por um poder central: foi um processo gradual de grupos familiares e de comunidades que se deslocavam em busca de novas terras agricultáveis, que se estabeleciam em regiões novas, que às vezes se misturavam com os povos locais e outras vezes os deslocavam, e que ao longo de gerações foram se diferenciando linguisticamente e culturalmente enquanto mantinham certas características fundamentais em comum. É por isso que hoje existem mais de quinhentas línguas bantos distintas, ao mesmo tempo aparentadas e diferentes umas das outras: são o resultado de dois mil anos de diversificação a partir de um ponto de origem comum.
Dentro dessa enorme diversidade, há algumas características culturais que aparecem com frequência suficiente entre os povos bantos para serem consideradas traços comuns, mesmo que com variações significativas de um povo a outro.
A organização social em torno de linhagens e de clãs é uma delas. Para a maioria dos povos bantos, a identidade de uma pessoa é definida em grande medida pelo grupo de descendência ao qual ela pertence, seja uma linhagem matrilinear, ou seja, que traça a descendência pela linha da mãe, seja uma linhagem patrilinear, que a traça pela linha do pai, dependendo do grupo específico. Pertencer a um clã não é apenas uma questão de parentesco biológico: é uma questão de obrigações mútuas, de direitos sobre a terra, de responsabilidade coletiva e de identidade espiritual, porque os clãs mantêm relação com seus ancestrais fundadores de formas que estruturam a vida religiosa e social.
A veneração dos ancestrais é outra característica amplamente compartilhada. Para os povos bantos, os mortos não desaparecem do universo: continuam existindo num plano diferente e mantêm relações com os vivos. Os ancestrais que viveram bem e que são honrados pelos descendentes tornam-se protetores e mediadores entre o mundo dos vivos e as forças mais amplas do universo. Negligenciar os ritos de honra aos ancestrais pode trazer desequilíbrio e problemas para os vivos, enquanto cultivar essa relação de respeito e de lembrança fortalece a comunidade. Essa concepção de um universo onde os mortos e os vivos coexistem em relação mútua é um dos fundamentos filosóficos mais distintivos da cultura banto.
A concepção de força vital, que em algumas línguas bantos é chamada de ubuntu, também é uma característica filosófica importante. A palavra ubuntu significa literalmente eu sou porque nós somos, e expressa uma visão de mundo em que a pessoa individual existe e se realiza através das relações com os outros, não apesar delas. Uma pessoa que houvesse se isolado completamente da comunidade, que vivesse só para si mesma, não seria considerada plenamente humana no sentido mais profundo do termo. A humanidade plena se realiza no cuidado, na generosidade, na reciprocidade e na participação na vida comunitária. Essa filosofia do ubuntu, que o arcebispo sul-africano Desmond Tutu tornou amplamente conhecida no mundo nos anos finais do século vinte, é uma expressão refinada de valores que aparecem de formas diferentes em muitos povos bantos.
A música, a dança e o ritmo também são características culturais proeminentes nos povos bantos. Os tambores têm importância central em rituais, em celebrações, em comunicações de longa distância e na estruturação do tempo social. O uso de percussão complexa, com múltiplos ritmos simultâneos criando padrões rítmicos de grande sofisticação, é uma marca da música de muitos povos bantos, e é um elemento que, como veremos, teve importância enorme na formação da música brasileira.
Agora precisamos atravessar o oceano e entender como os bantos chegaram ao Brasil.
O tráfico atlântico de pessoas escravizadas foi um dos maiores crimes contra a humanidade da história, e o Brasil foi seu maior destino individual. Estima-se que entre quatro milhões e meio e cinco milhões de africanos escravizados foram enviados ao Brasil ao longo de mais de três séculos, do final do século quinze ao século dezenove, quando o tráfico foi finalmente abolido de forma efetiva. Esse número corresponde a quase quarenta por cento de toda a diáspora africana nas Américas, o que faz do Brasil o país que recebeu mais africanos escravizados de toda a história do continente americano.
Dentro desse enorme número, os povos de origem banto foram absolutamente majoritários. Ao longo de todo o período escravista, a maior parte dos africanos enviados ao Brasil veio de regiões habitadas por povos bantos, principalmente de duas grandes áreas: Angola e o Congo, na África Central Ocidental, e Moçambique e a costa oriental africana.
A região de Angola, que inclui também o atual Congo belga ou República Democrática do Congo, foi de longe a fonte mais importante de africanos escravizados enviados ao Brasil. Os portugueses estabeleceram conexões comerciais e depois de domínio político na região desde o final do século quinze, quando chegaram à costa do Congo em mil quatrocentos e oitenta e dois. Ao longo dos séculos seguintes, a costa de Angola, com portos como Luanda, Benguela e São Paulo de Assunção, tornou-se o centro mais importante do tráfico de escravizados do Atlântico Sul.
Os povos bantos que habitavam essas regiões e que foram capturados e escravizados eram muitos e diversos entre si: os bacongos do reino do Congo, os ambundos da região de Luanda, os ovimbundos do planalto central angolano, os bengalas do norte de Angola, os mineiros ou maiombe da região costeira, os lundas do interior, e muitos outros grupos, cada um com sua língua específica dentro da família banto, com sua organização política e social própria e com suas tradições culturais e religiosas particulares. Eram povos distintos que foram agrupados pelos traficantes europeus num processo brutal de desumanização que os reduzia a mercadoria, mas que mantinham entre si afinidades linguísticas e culturais que, como veremos, facilitaram a reconstrução de identidade coletiva no Brasil.
De Moçambique e da costa oriental africana vieram outros grupos bantos, especialmente a partir do século dezoito, quando o tráfico naquela região se intensificou. Os moçambicanos trazidos ao Brasil vinham de grupos como os macuas, os lomués, os angunes e outros povos bantos da África oriental.
Quando chegavam ao Brasil, os africanos escravizados eram distribuídos por diferentes regiões segundo as necessidades da economia colonial. Os bantos de Angola e do Congo foram em grande número para o Rio de Janeiro, para Minas Gerais e para a região sul do Brasil, além de para o Nordeste, particularmente Pernambuco e Alagoas. Os moçambicanos foram em proporção maior para o Maranhão, para o Rio de Janeiro e para o sul do país. Os iorubás e outros povos da África Ocidental, que estudamos na aula anterior, foram especialmente numerosos na Bahia.
Mas em todo o Brasil, a presença banto foi majoritária ao longo de praticamente todo o período escravista, e as marcas que esses povos deixaram na cultura brasileira são profundas e abrangentes. Vamos explorar essas marcas em diferentes áreas.
Comecemos pela língua portuguesa falada no Brasil, que é visivelmente diferente do português de Portugal em muitos aspectos, e essa diferença se deve em parte significativa à influência dos povos bantos.
Os linguistas identificaram centenas de palavras no português brasileiro que têm origem em línguas bantos, especialmente no quimbundo e no quicongo, as línguas dos povos de Angola e do Congo. Muitas dessas palavras são tão integradas ao vocabulário cotidiano do brasileiro que ninguém mais as percebe como africanas.
A palavra samba, por exemplo, que dá nome ao gênero musical mais associado ao Brasil no mundo inteiro, tem origem discutida mas que a maioria dos pesquisadores liga ao quimbundo, a língua dos ambundos de Angola. A palavra capoeira, que designa a arte marcial e expressão cultural brasileira também conhecida no mundo inteiro, tem origem banto, possivelmente do quimbundo kapoeira, que designava um tipo de capão ou uma área de vegetação baixa onde os pássaros eram armadilhados, e que foi associada à prática de escravizados que treinavam seus movimentos nessas áreas. A palavra quilombo, que designa as comunidades de africanos escravizados que fugiam e se organizavam em comunidades autônomas, vem do quimbundo kilombo, que significava acampamento guerreiro e era originalmente associado a uma poderosa instituição militar dos povos lundas e ovimbundos.
Há dezenas de outras palavras de origem banto incorporadas ao português do Brasil. A mochila, que todo estudante usa, vem provavelmente do quimbundo. O batuque, que designa uma forma de dança e de percussão, vem do banto. A cachaça, a bebida destilada tipicamente brasileira, pode ter origem banto, assim como caxiri, uma bebida fermentada. A ginga, que em português brasileiro designa um movimento gracioso e habilidoso do corpo, tem origem no quimbundo e no nome de uma rainha angolana do século dezessete chamada Njinga, famosa pela habilidade política e militar com que resistiu à colonização portuguesa. Jiló, quiabo, inhame, maxixe: esses nomes de alimentos têm origem africana banto. Catinga, que em português brasileiro designa mau cheiro, vem do banto. Senzala, que designava a habitação coletiva dos escravizados nas fazendas, vem do quimbundo. Bangue, banzar, cafuné, corcunda, curinga, dendê, fubá, gangorra, marimbondo, miçanga, mocambo, moleque, mucama, tanga e zunzum são outras palavras que os linguistas rastrearam até origens bantos.
Essa presença linguística banto no português brasileiro é uma das formas mais visíveis e mais cotidianas de um contato cultural que foi violento em suas origens mas que produziu uma fusão irreversível. Cada vez que um brasileiro usa uma dessas palavras, está carregando consigo, mesmo sem saber, uma partícula de memória cultural africana.
Passemos agora às influências religiosas, que são talvez as mais profundas e as mais complexas.
Os povos bantos trouxeram ao Brasil suas concepções religiosas, que, como já dissemos, se baseavam principalmente na veneração dos ancestrais e na crença em forças espirituais que habitam a natureza e que medeiam entre os seres humanos e o poder último do universo. No contexto da escravidão, no qual os portugueses tentavam forçar o batismo e a conversão ao Catolicismo, os africanos bantos desenvolveram estratégias de resistência e de adaptação culturais notáveis.
Uma dessas estratégias foi o sincretismo, processo pelo qual as divindades e os espíritos africanos foram identificados com santos católicos, de modo que os africanos podiam manter suas práticas religiosas tradicionais sob o disfarce aparente do Catolicismo. Um espírito ancestral banto podia ser cultuado sob o nome de um santo católico diante dos olhos dos senhores e dos padres que não entendiam o que estava realmente acontecendo. Esse sincretismo foi inicialmente uma estratégia de sobrevivência, mas ao longo de gerações criou algo novo: religiões que combinavam elementos africanos e europeus de formas genuinamente originais.
A umbanda, que é uma das religiões mais praticadas no Brasil hoje em dia, é um exemplo extraordinário desse processo. A umbanda surgiu no Brasil na virada do século dezenove para o vinte, principalmente no Rio de Janeiro e em São Paulo, e combina elementos da religiosidade banto, especialmente a comunicação com ancestrais e com espíritos, com o Catolicismo popular, com o Espiritismo de origem europeia e com elementos das tradições indígenas brasileiras. Os espíritos que se manifestam na umbanda incluem os pretos velhos, que são espíritos de africanos escravizados que viveram e morreram no Brasil e que se apresentam com a sabedoria acumulada de uma vida de sofrimento e de resistência, e os caboclos, espíritos de povos indígenas brasileiros. Os pretos velhos são especialmente ligados à tradição religiosa banto de veneração dos ancestrais: são os ancestrais africanos que, mesmo mortos, continuam presentes entre os vivos para aconselhar, consolar e curar.
O candomblé de nação Angola e o candomblé de nação Congo são formas de candomblé diretamente ligadas às tradições religiosas bantos. Enquanto o candomblé de nação Ketu ou Nagô, que mencionamos na aula anterior, está mais ligado às tradições iorubás, o candomblé de nação Angola cultua espíritos chamados de nkisi ou inquice, que são os equivalentes bantos dos orixás iorubás. Os inkisi mais conhecidos no candomblé angola incluem Nzambi, o ser supremo; Aluvaiá, equivalente ao Exu iorubá no papel de mensageiro e senhor das passagens; Mutalambô, senhor das matas e da caça; Zaze ou Zumbi, associado ao raio e ao fogo; Matamba, uma figura feminina de grande poder; e Lemba, associado às doenças e à cura. Os rituais do candomblé angola usam palavras e cantos em língua banto, principalmente em quimbundo e em quicongo, mesmo que os praticantes nem sempre entendam plenamente o significado literal das palavras que pronunciam: são expressões sagradas cujo poder está na sua conexão com a tradição e não apenas no seu sentido literal.
Essa continuidade linguística nas práticas religiosas é um aspecto notável da resistência cultural dos povos bantos no Brasil. Em condições de escravidão, nas quais toda a vida cultural dos africanos era sistematicamente atacada e reprimida, esses povos encontraram no espaço do ritual religioso uma área onde a língua, os cantos, os gestos e as concepções espirituais ancestrais podiam ser mantidos e transmitidos de geração em geração.
Há também a figura de Zumbi, que é o líder mais conhecido do Quilombo dos Palmares e que dá nome ao Dia da Consciência Negra no Brasil, celebrado no dia vinte de novembro. O próprio nome Zumbi tem origem banto: no quimbundo, nzumbi designa o espírito de um morto, especialmente de alguém que morreu de forma violenta ou prematura e cuja alma continua atuando no mundo. O nome Zumbi, portanto, não era apenas um nome próprio para seu portador: era uma designação que carregava todo o peso cultural da concepção banto do espírito dos mortos, do ancestral poderoso que continua presente no mundo. Que esse nome tenha sido escolhido para o mais famoso resistente da escravidão no Brasil não é uma coincidência: é um reflexo de toda uma visão de mundo na qual os espíritos dos guerreiros mortos continuam lutando ao lado dos vivos.
Falando em Palmares, os quilombos merecem atenção especial porque são uma instituição que tem raízes diretas na cultura banto.
A palavra kilombo em língua banto, especialmente entre os lundas e os ovimbundos da região central de Angola, designava uma instituição muito específica: uma espécie de campo ou acampamento de iniciação guerreira, associado à sociedade dos imbangala, um grupo de guerreiros nômades que aterrorizava regiões da África Central nos séculos dezesseis e dezessete. O kilombo imbangala era um espaço de recrutamento e de treinamento de guerreiros, que aceitava pessoas de origens diversas e as unificava sob uma identidade guerreira comum baseada em rituais de iniciação, não em laços de sangue. Era, portanto, uma instituição que criava comunidade e solidariedade além dos laços familiares tradicionais.
Quando africanos de origem banto, especialmente os angolanos, chegaram ao Brasil e fugiram para as matas para formar comunidades de resistência, a estrutura que conheciam da África para organizar grupos de guerreiros e de fugitivos veio com eles. O Quilombo dos Palmares, que existiu na região de Alagoas e de Pernambuco durante mais de um século, de aproximadamente mil seiscentos até mil setecentos, reunia africanos de diferentes origens éticas, fugitivos indígenas e alguns mestiços numa comunidade organizada que chegou a ter dezenas de milhares de pessoas e que resistiu por décadas aos ataques das autoridades coloniais portuguesas e dos holandeses que por um tempo ocuparam o Nordeste. A estrutura organizacional de Palmares, com sua capacidade de reunir pessoas de origens diversas numa identidade coletiva de resistência, refletia a lógica do kilombo africano.
Ao longo do período colonial e imperial, surgiram centenas de quilombos em todo o Brasil, de norte a sul. Comunidades de resistência que desenvolveram formas próprias de organização, de produção, de religiosidade e de cultura, muitas vezes combinando tradições africanas com práticas indígenas e com elementos da cultura europeia num resultado genuinamente brasileiro. Muitas dessas comunidades sobreviveram até hoje como quilombos remanescentes, que a Constituição brasileira de mil novecentos e oitenta e oito reconhece como comunidades com direito às terras que habitam.
Voltemos agora à música, porque a influência banto na música brasileira é simplesmente imensurável.
O samba, como já dissemos, tem nome de possível origem banto. Mas além do nome, as características rítmicas e percussivas do samba têm raízes diretas nas tradições musicais dos povos bantos. O lundum, que foi um dos primeiros gêneros musicais de influência africana a se difundir no Brasil colonial, tem origem nos povos bantos de Angola. O batuque, que foi o nome genérico dado pelos colonizadores às práticas musicais e dançantes dos africanos escravizados, e que na verdade englobava uma grande variedade de tradições musicais diferentes, tinha forte presença banto. O jongo, que é um gênero musical e uma prática cultural que mistura canto, dança e percussão e é especialmente associado às comunidades de descendentes de africanos do estado do Rio de Janeiro e do sul de Minas Gerais, tem raízes diretas nas tradições musicais dos angolanos e dos congoleses. O jongo foi reconhecido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional como patrimônio cultural imaterial do Brasil, em reconhecimento à sua importância histórica e cultural.
O caxambu, o tamborzão, o tambu: diferentes instrumentos e diferentes práticas musicais que descendem das tradições percussivas bantos e que continuam vivos em comunidades quilombolas e em grupos culturais de todo o Brasil. O berimbau, instrumento fundamental da capoeira, tem discutida mas possível origem africana, especialmente em instrumentos similares da região de Angola.
A capoeira merece uma menção especial. A capoeira é uma criação genuinamente brasileira, mas suas raízes africanas bantos são inegáveis. É uma arte marcial disfarçada de dança, desenvolvida pelos africanos escravizados no Brasil como forma de treinar técnicas de combate de forma que os senhores não percebessem o que estava acontecendo: os movimentos de ataque e defesa eram dissimulados como dança e como jogo, acompanhados de música e de canto. O gênio criativo que produziu a capoeira foi de africanos que, proibidos de lutar e de se armar, transformaram o próprio corpo em arma e o treinamento em celebração. A capoeira foi declarada pela UNESCO Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade em dois mil e catorze.
Na culinária brasileira, a influência banto também é significativa, embora às vezes seja mais difícil de rastrear com precisão do que a influência iorubá, que é mais claramente identificável na culinária baiana. Os povos bantos introduziram ou popularizaram no Brasil o uso de certas plantas cultivadas na África, como o inhame, o quiabo e o dendê. O quiabo, que é um ingrediente fundamental do frango com quiabo mineiro e de muitos outros pratos, tem nome de origem africana e foi introduzido no Brasil pelos africanos escravizados. O inhame, raiz amplamente consumida no Brasil, também tem nome e tradição de origem africana. O cuscuz, muito consumido no Nordeste e em São Paulo, tem origens africanas, embora seja discutível se é principalmente de origem banto ou de influência norte-africana berber transmitida através de outros povos.
Há também práticas de preparo de alimentos e de preservação que os africanos bantos trouxeram e que se integraram à culinária brasileira de formas que nem sempre são facilmente rastreáveis, porque a fusão aconteceu há séculos e o resultado final é uma síntese que pertence a todos que a praticam.
Precisamos também falar sobre a influência banto na organização das festas e das celebrações populares brasileiras. A tradição dos congados, das festas de Reis do Congo e do Reinado do Congo é uma das mais notáveis. Nessas festas, que ocorrem em muitas cidades de Minas Gerais, de São Paulo e de outros estados, comunidades de descendentes de africanos reencenam a coroação de reis e rainhas do Congo numa mistura de devoção católica ao Rosário, especialmente à Nossa Senhora do Rosário, com memória e celebração da realeza africana. As festas de Reinado reproduzem hierarquias e títulos de nobreza que evocam os reinos africanos de onde vieram os ancestrais dos participantes, e são ao mesmo tempo uma prática religiosa, uma afirmação de identidade cultural e uma forma de memória histórica coletiva.
O Congo real, o Reino do Congo, era de fato um dos mais importantes reinos da África banto antes da colonização. Situado na região que hoje é o norte de Angola e o sudoeste da República Democrática do Congo, o Reino do Congo teve contato com os portugueses desde mil quatrocentos e oitenta e dois e desenvolveu uma relação complexa com Portugal ao longo dos séculos seguintes: adotou o Catolicismo como religião de Estado no início do século dezesseis, com o rei Afonso I, cujo nome cristão substituiu seu nome africano Mvemba a Nzinga, desenvolvendo uma forma de Catolicismo africano muito particular; manteve relações diplomáticas com Portugal e com o Vaticano; e foi paulatinamente destruído pela expansão do tráfico de escravizados, que acabou por devastar as estruturas sociais e políticas do reino ao longo dos séculos dezesseis e dezessete. Muitos dos africanos enviados ao Brasil vieram das regiões do antigo Reino do Congo, e a memória desse reino, de seus reis e de sua grandeza perdurou nas festas de Reinado que se tornaram uma tradição viva em solo brasileiro.
É importante pensar no significado humano e histórico de tudo isso. Os povos bantos foram arrancados de suas terras, de suas famílias e de suas comunidades através de um sistema de violência e de exploração de escala industrial. Foram transportados em condições horríveis através do Atlântico, obrigados a trabalhar em condições desumanas, proibidos de falar suas línguas, de praticar suas religiões e de manter suas formas de vida. E ainda assim, diante de toda essa opressão, encontraram formas de preservar e de transmitir seus valores, suas crenças, suas músicas, suas línguas e suas visões de mundo. Fizeram isso escondendo rituais em festas aparentemente católicas, mantendo línguas sagradas em cantos que os senhores não entendiam, transformando técnicas de combate em dança, construindo comunidades de resistência nas matas e preservando a memória dos ancestrais em práticas que atravessaram séculos.
O resultado dessa resistência cultural é que o Brasil de hoje é um país profundamente marcado pela cultura banto em aspectos que vão muito além do que a maioria das pessoas imagina. A forma como os brasileiros usam o corpo, a relação com o ritmo e com a música, certas maneiras de falar e de se comunicar, formas de organizar a solidariedade comunitária, práticas religiosas, gostos culinários: tudo isso carrega marcas da presença banto que nenhuma força de opressão conseguiu apagar.
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| Dados de Catalogação na Publicação: NORAT, Markus Samuel Leite. Curso de história para o 1º ano do ensino médio. João Pessoa: Editora Norat, 2026. Livro Digital, Formato: HTML5, Tamanho: 132,4125 gigabytes (132.412.500 kbytes) . ISBN: 978-65-80808-16-8 | Cutter: N825c | CDD-907.12 | CDU-94(100)”-04/17″:373.5 . Palavras-chave: História, Ensino Médio, Pré-História, Civilizações Antigas, Mesopotâmia, Egito Antigo, Grécia Antiga, Roma Antiga, África Antiga, Reinos Africanos, Mundo Árabe-Muçulmano, Idade Média, Feudalismo, Antigo Regime, Monarquias Absolutistas, Renascimento, Humanismo, ENEM, Vestibulares. . TODOS OS DIREITOS RESERVADOS. É proibida a cópia total ou parcial desta obra, por qualquer forma ou qualquer meio. A violação dos direitos autorais é crime tipificado na Lei n. 9.610/98 e artigo 184 do Código Penal. |
