Curso de História para o 1º Ano do Ensino Médio
MÓDULO 8 – POVOS AFRICANOS NA ANTIGUIDADE E REINOS MEDIEVAIS AFRICANOS
Aula 92 – A diversidade dos povos africanos: por que a África não é um bloco uniforme?
Aula 92 – A diversidade dos povos africanos: por que a África não é um bloco uniforme?
Quando alguém fala em África, que imagem surge na sua cabeça? Para muitas pessoas, especialmente aquelas que cresceram vendo a África representada de uma única forma nas televisões, nos filmes e nos livros didáticos de qualidade questionável, a imagem é frequentemente a mesma: savanas com elefantes, leões e girafas, aldeias de palha, crianças desnutridas e conflitos sem fim. Essa imagem não é apenas incompleta. Ela é profundamente distorcida, porque trata como se fosse uma coisa única algo que é, na verdade, uma das realidades mais ricas, mais diversas e mais complexas do planeta Terra. A África não é um país. Não é uma cultura. Não é um povo. Não é uma língua. Não é um tipo de paisagem. A África é um continente imenso, o segundo maior do mundo em extensão territorial, e dentro de suas fronteiras existe uma variedade de povos, de línguas, de culturas, de religiões, de histórias, de geografias e de formas de organização social que ultrapassa em muito o que qualquer descrição simplificada pode capturar.
Nesta aula, vamos começar a desfazer essa imagem simplificada e substituí-la por algo muito mais próximo da realidade. Vamos entender por que a Africa não pode nem deve ser tratada como um bloco uniforme, e vamos conhecer algumas das dimensões dessa diversidade extraordinária.
Comecemos pela dimensão mais básica e mais concreta: o tamanho.
A África tem uma área de aproximadamente trinta milhões de quilômetros quadrados. Para ter uma ideia do que isso significa, pense que dentro do continente africano cabem confortavelmente os Estados Unidos, a China, a Índia, grande parte da Europa e o Brasil, com espaço sobrando. Muitas pessoas ficam surpresas ao descobrir isso, porque os mapas que aprendemos na escola frequentemente distorcem o tamanho real dos continentes por causa das limitações das projeções cartográficas. O mapa mais comum que vemos no mundo, chamado de Projeção de Mercator, foi desenvolvido no século dezesseis para facilitar a navegação marítima, e uma de suas consequências é que ele representa os países do norte do planeta com um tamanho proporcionalmente muito maior do que os países do sul. Por isso, a Groenlândia parece maior do que a África no mapa de Mercator, quando na realidade a África é cerca de catorze vezes maior que a Groenlândia.
Esse tamanho imenso já deveria ser suficiente para nos fazer pensar: como um continente tão grande poderia ser uniforme em sua geografia, em seu clima, em seus povos e em suas culturas? A resposta é simples: não pode. E não é.
A diversidade geográfica da África é o primeiro ponto que precisamos entender. O continente abriga praticamente todos os tipos de paisagem que existem no planeta. Há o deserto do Saara, no norte, que é o maior deserto quente do mundo, com uma área de aproximadamente nove milhões de quilômetros quadrados, maior que o território do Brasil. Há a floresta tropical da bacia do Congo, a segunda maior floresta tropical do mundo depois da Amazônia, que ocupa grande parte da África central e abriga uma biodiversidade extraordinária. Há as savanas, sim, aquelas paisagens de gramíneas e árvores esparsas que muitas pessoas associam ao continente inteiro, mas que na verdade cobrem apenas partes específicas da África, principalmente ao sul do Saara e ao norte das florestas centrais. Há montanhas cobertas de neve, como o Monte Quênia e o Monte Kilimanjaro, o pico mais alto do continente com quase seis mil metros de altitude, que mantém geleiras eternas mesmo estando quase exatamente na linha do Equador. Há o grande Vale do Rift, uma das maiores estruturas geológicas do planeta, onde a terra está literalmente se separando ao longo de milhares de quilômetros. Há as costas do Mediterrâneo no norte, com seu clima temperado e seus olivais. Há a região do Cabo, no extremo sul, com um bioma único chamado de fynbos, encontrado apenas naquela região do mundo. Há o deserto do Namibe na costa sudoeste, um dos desertos mais antigos e mais áridos do planeta.
Essa variedade geográfica criou condições completamente diferentes para os povos que habitaram o continente ao longo de milênios. Povos que viviam nas florestas tropicais desenvolveram formas de vida, de organização social, de tecnologia, de religião e de cultura completamente diferentes dos povos que viviam nos desertos, que por sua vez tinham formas de vida muito diferentes dos povos que habitavam as savanas ou as costas do Mediterrâneo. Cada ambiente criava desafios específicos e possibilidades específicas, e os povos humanos, ao longo de gerações e de séculos, desenvolveram respostas criativas a esses desafios e exploraram essas possibilidades de formas únicas.
Mas a diversidade da África vai muito além da geografia. Vamos falar agora da diversidade humana, que é ainda mais impressionante.
A África é o continente com a maior diversidade genética humana do planeta. Isso não é uma afirmação controversa: é um fato estabelecido pela genética molecular moderna. O ser humano como espécie, o Homo sapiens, surgiu na África há aproximadamente trezentos mil anos. Todos os seres humanos que vivem em qualquer parte do mundo hoje são descendentes de populações africanas que migraram para outros continentes ao longo de dezenas de milhares de anos. Mas as populações que permaneceram no continente ao longo de todo esse tempo acumularam uma diversidade genética muito maior do que as populações que migraram, porque o tempo de divergência entre as linhagens africanas é muito maior. Em termos simples: a diferença genética entre dois grupos de pessoas da África pode ser maior do que a diferença genética entre um europeu e um asiático, porque os ancestrais dos europeus e dos asiáticos se separaram há muito menos tempo do que certas linhagens africanas.
Isso significa que falar em raça africana como se fosse uma categoria biológica uniforme é um absurdo do ponto de vista científico. As populações africanas são extraordinariamente diversas em termos físicos: há populações de pele muito escura e populações de pele relativamente clara, há populações de estatura muito alta e populações de estatura muito baixa, há variações enormes em características físicas de todos os tipos. Os san, também conhecidos como bosquímanos, que habitam partes do sul da África e são considerados pelos geneticistas uma das linhagens humanas mais antigas do planeta, têm características físicas muito diferentes dos povos bantu que habitam a África central e meridional, que por sua vez são muito diferentes dos povos berberes do norte da África ou dos nilóticos do Chifre da África.
Mas é na dimensão linguística que a diversidade africana fica mais evidente e mais impressionante.
A África abriga aproximadamente duas mil línguas diferentes. Dois mil. Para ter uma comparação: a Europa tem em torno de duzentas e cinquenta línguas. Ou seja, a Africa tem aproximadamente oito vezes mais línguas do que a Europa. Essas duas mil línguas africanas são agrupadas pelos linguistas em quatro grandes famílias linguísticas, que são grupos de línguas que descendem de uma mesma língua ancestral, da mesma forma que o português, o espanhol, o francês, o italiano e o romeno são todas línguas que descendem do latim e por isso são agrupadas na família das línguas românicas.
A maior família linguística da África é a família Níger-Congo, que inclui mais de mil e quinhentas línguas faladas principalmente na África ao sul do Saara, da África Ocidental à África do Sul. Dentro dessa família, o grupo bantu é especialmente importante: as línguas bantu, como o suaíli, o zulu, o xhosa, o lingala, o kikuyu e centenas de outras, são faladas por centenas de milhões de pessoas em grande parte do continente ao sul do Equador. O suaíli, em particular, é hoje falado como língua franca, ou seja, como língua de comunicação entre povos de línguas maternas diferentes, por mais de duzentos milhões de pessoas na África Oriental.
A segunda grande família é a Afro-Asiática, que inclui o árabe, o berbere, o amárico da Etiópia, o somali e o hauçá da África Ocidental, entre muitas outras línguas. Essas línguas são faladas principalmente no norte da África e no Chifre da África.
A terceira família é a Nilo-Saariana, que inclui línguas faladas em regiões que vão do Saara central até a África Oriental, como o nuer, o dinka e várias outras línguas dos povos nilóticos.
A quarta família, menor mas muito especial do ponto de vista linguístico, é a Khoisan, que inclui as línguas dos san e dos khoikhoi do sul da África. O que torna as línguas khoisan especialmente notáveis é o uso de sons chamados de cliques ou estalidos, produzidos com a língua em diferentes partes do palato, que funcionam como consoantes. São sons que não existem em nenhuma outra família linguística do mundo, e que tornam essas línguas particularmente difíceis de aprender para falantes de qualquer outra língua.
Além dessas quatro famílias, há ainda línguas africanas que não se encaixam claramente em nenhuma delas, além das línguas trazidas para o continente por colonizadores europeus, como o português, o inglês, o francês, o espanhol e o africâner, derivado do holandês, que hoje são línguas oficiais de muitos países africanos e são faladas como primeira ou segunda língua por milhões de pessoas.
Essa diversidade linguística não é apenas um fato curioso. Ela reflete histórias diferentes, culturas diferentes, formas diferentes de entender o mundo, sistemas diferentes de valores e de organização social. Uma língua não é apenas um meio de comunicação: é também um repositório de conhecimento, de memória histórica, de cosmovisão. Cada língua vê o mundo de uma forma ligeiramente diferente e permite expressar coisas que outras línguas não conseguem expressar da mesma forma.
A diversidade das formas de organização política e social que os povos africanos desenvolveram ao longo de sua história é igualmente impressionante. A imagem do continente como um lugar de tribos primitivas e de conflitos sem fim, imagem que infelizmente ainda circula em muitos meios de comunicação ocidentais, não tem fundamento histórico sério.
Ao longo dos milênios, os povos africanos desenvolveram formas de organização política de enorme variedade e sofisticação. Havia comunidades de caçadores e coletores, como os san, que desenvolveram sistemas altamente elaborados de gestão coletiva dos recursos, de resolução de conflitos e de transmissão de conhecimento sem nenhuma estrutura formal de chefatura ou de Estado. Havia agricultores organizados em aldeias com sistemas de liderança baseados no respeito às pessoas mais velhas e ao conhecimento acumulado, com formas sofisticadas de tomada de decisão coletiva. Havia pastores nômades e seminômades, como os maasai no Leste africano ou os peul na África Ocidental, com sistemas de organização adaptados à mobilidade e à gestão de rebanhos em vastas áreas. E havia também Estados e impérios de grande sofisticação e escala.
Falemos mais sobre esses Estados e impérios, porque é aqui que a imagem distorcida da África como lugar sem história e sem civilização se choca de forma mais direta com os fatos históricos documentados.
O Egito Antigo, com suas pirâmides, seus faraós, sua escrita hieroglífica e sua arte magnífica, estava na África. Embora muitas vezes seja tratado separadamente nos livros didáticos, como se fosse uma civilização do Oriente Médio transplantada para o nordeste do continente, o Egito era africano tanto geograficamente quanto em suas conexões com outros povos e civilizações do continente. O Rio Nilo, que foi a espinha dorsal da civilização egípcia, tem suas nascentes na África central e oriental, e ao longo de sua extensão toda floresceram civilizações interligadas por milhares de anos.
Uma dessas civilizações foi Cuxe, ou o Reino de Cuxe, que se desenvolveu ao sul do Egito, na região que hoje é o Sudão. Cuxe foi por séculos uma potência regional poderosa, com cidades monumentais, pirâmides, templos e uma cultura sofisticada. Em determinado momento, por volta do século oitavo antes de Cristo, os cuxitas conquistaram o próprio Egito e governaram-no como a vigésima quinta dinastia, os chamados faraós negros que dominaram o Egito por quase cem anos. A capital cuxita de Meroe deixou um campo de pirâmides que é hoje Patrimônio da Humanidade pela UNESCO.
Mais ao sul, no território que hoje é a Etiópia e a Eritreia, o Reino de Axum foi uma das potências do mundo antigo. Axum controlava rotas comerciais estratégicas entre o Mediterrâneo, a Arábia e o Oceano Índico, cunhava sua própria moeda de ouro e de prata, erguia monumentos extraordinários como os obeliscos que ainda estão de pé na cidade de Axum, e foi um dos primeiros reinos do mundo a adotar o Cristianismo como religião oficial, no século quarto depois de Cristo, antes mesmo de que isso acontecesse no Império Romano. A Igreja Ortodoxa Etíope, que tem mais de dezesseis milhões de fiéis hoje, é a continuação direta daquela tradição que remonta ao período de Axum.
Na África Ocidental, ao sul do Saara, surgiram entre os séculos sete e dezesseis depois de Cristo uma série de grandes impérios que controlavam o comércio trans-saariano, especialmente o comércio de ouro e de sal. O ouro africano era um dos recursos mais cobiçados do mundo medieval, e boa parte do ouro que circulava pela Europa e pelo mundo islâmico vinha das minas da África Ocidental. Os impérios que controlavam esse comércio tornaram-se extraordinariamente ricos e poderosos.
O Império do Gana, que não deve ser confundido com o país moderno do mesmo nome, floresceu entre os séculos sete e onze depois de Cristo na região que hoje é o sul da Mauritânia e o oeste do Mali. Seus governantes acumularam riquezas imensas e controlavam um comércio que ligava a África Ocidental ao norte da África e ao mundo árabe.
O Império do Mali, que floresceu especialmente nos séculos treze e catorze, foi ainda maior e mais rico. Seu governante mais famoso foi Mansa Musa, que governou de mil e trezentos e doze a mil e trezentos e trinta e sete depois de Cristo. Mansa Musa ficou famoso na história por sua peregrinação a Meca em mil e trezentos e vinte e quatro, quando viajou do Mali até a Arábia atravessando o Saara e o Egito com um séquito de dezenas de milhares de pessoas e carregando toneladas de ouro. Quando passou pelo Cairo, distribuiu tanto ouro que causou uma inflação severa no Egito, desvalorizando o ouro no mercado local por mais de dez anos. Sua riqueza era tão lendária que mapas europeus da época o representavam como o homem mais rico do mundo conhecido. A cidade de Timbuktu, no Mali, foi durante esse período um dos maiores centros de aprendizagem e de comércio do mundo, com universidades islâmicas, bibliotecas com centenas de milhares de manuscritos e uma população cosmopolita de estudiosos, comerciantes e artesãos.
O Império de Songhai, que sucedeu o Mali como a potência dominante da África Ocidental no século quinze, atingiu sua máxima extensão sob o governante Sonni Ali e depois sob o imperador Askia Mohammad Primeiro. Na sua época de apogeu, o Songhai era um dos maiores impérios do mundo, com um sistema administrativo elaborado, um exército profissional, uma marinha fluvial no Rio Niger e um comércio que se estendia por toda a região.
Na África Central e Oriental, outros reinos e Estados desenvolveram suas próprias formas de organização e suas próprias realizações. O Zimbábue Grande, ou Grande Zimbábue, foi a capital de um reino que floresceu entre os séculos onze e quinze no atual Zimbábue. Seu nome em língua shona significa casas de pedra, e é exatamente isso que o local representa: uma cidade construída inteiramente em pedra seca, sem argamassa, com muros que chegavam a dez metros de altura e paredes de vários metros de espessura. Quando os primeiros exploradores europeus chegaram ao Zimbábue Grande no século dezenove, ficaram tão impressionados que se recusaram inicialmente a acreditar que aquela construção imponente havia sido obra de povos africanos. Inventaram teorias absurdas sobre fenícios, árabes ou outras civilizações externas que teriam construído o local. Hoje sabemos com certeza que o Zimbábue Grande foi construído e habitado pelo povo shona, que desenvolveu ali uma civilização sofisticada baseada no comércio de ouro e de outros produtos com o Oceano Índico.
Na costa oriental da África, cidades suaíli como Quiloa, Mombasa, Malindi e Zanzibar eram cosmopolitas centros de comércio que participavam de uma rede que se estendia pela Arábia, pela Índia, pela Pérsia e até pela China. As casas de coral erguidas nessas cidades, os palácios, as mesquitas e a rica mistura cultural que resultou do encontro entre tradições africanas, árabes, persas e indianas demonstram a sofisticação de uma civilização urbana que muito pouca gente conhece.
No Reino do Congo, que se desenvolveu na África Central a partir do século catorze, havia uma organização política elaborada com um sistema de governo hierárquico, uma capital chamada de Mbanza Kongo com população de dezenas de milhares de habitantes, um exército organizado, um sistema de tributação e de redistribuição de riqueza e uma tradição artística que incluía esculturas de bronze e de madeira de extraordinária qualidade. Quando os portugueses chegaram ao Congo no final do século quinze, encontraram um Estado organizado e poderoso com o qual estabeleceram relações diplomáticas de igual para igual durante algumas décadas, antes de a lógica do tráfico de escravos corromper e destruir progressivamente essa relação.
O Reino do Benin, no que hoje é a Nigéria, é outra das grandes civilizações africanas que a educação ocidental frequentemente ignora. O povo iorubá e depois os reis do Benin desenvolveram uma arte em bronze de qualidade técnica e de beleza artística que, quando chegou à Europa no final do século dezenove trazida pelas tropas britânicas que haviam saqueado o palácio real do Benin, causou sensação. Os europeus simplesmente não conseguiam acreditar que aquelas obras sofisticadas haviam sido produzidas por africanos, e mais uma vez inventaram teorias descabidas sobre influências externas. As chamadas cabeças do Benin e os bronzes do Benin são hoje considerados alguns dos maiores tesouros da arte africana, e muitos estão guardados em museus europeus, especialmente no British Museum de Londres, o que é objeto de intenso debate sobre a repatriação de objetos culturais saqueados durante o período colonial.
A diversidade religiosa da África é igualmente impressionante. O continente abriga tradições religiosas de enorme variedade. O Islã chegou à África no século sétimo, rapidamente após seu surgimento na Arábia, e se espalhou primeiro pelo norte da África e depois para o sul através das rotas comerciais. Hoje, o Islã é a religião da maioria da população em grande parte do norte e do oeste da África, com centenas de milhões de fiéis. O Cristianismo, como vimos, chegou ao nordeste da África ainda na Antiguidade, e a Igreja Etíope e a Igreja Copta do Egito são comunidades cristãs que existem há mais de dezesseis séculos, muito antes da evangelização da maioria da Europa. O Cristianismo também se espalhou pela África ao sul do Saara principalmente durante o período colonial e pós-colonial, e hoje tem centenas de milhões de fiéis no continente, com formas africanas de Cristianismo de grande vitalidade e originalidade.
Mas além do Islã e do Cristianismo, existem no continente africano tradições religiosas próprias, frequentemente chamadas de religiões tradicionais africanas ou religiões indígenas africanas, que representam sistemas espirituais e éticos de enorme diversidade e sofisticação. Essas tradições variam enormemente de povo para povo: os sistemas religiosos dos yorùbá na Nigéria, com seu panteão complexo de divindades chamadas orixás, são muito diferentes dos sistemas religiosos dos san no sul da África, baseados no xamanismo e na comunicação com os espíritos através de danças e de estados alterados de consciência, que por sua vez são muito diferentes das tradições religiosas dos povos do Congo ou dos nilóticos do Sudão do Sul. O que esses sistemas têm em comum é uma ênfase na relação entre os vivos e os ancestrais, na importância da comunidade sobre o indivíduo, e uma visão do sagrado como algo que permeia toda a realidade, não algo confinado a um espaço ou a um tempo específico.
As religiões tradicionais africanas exerceram uma influência enorme sobre as religiões das Américas, especialmente do Brasil. O candomblé, a umbanda e outras religiões afro-brasileiras são descendentes diretas das tradições religiosas dos povos africanos que foram trazidos ao Brasil como escravizados, principalmente yorùbá, ewe-fon e bantu. Os orixás do candomblé são as mesmas divindades que os yorùbá da Nigéria ainda veneram hoje. A capoeira, o lundum, o samba, a culinária baiana, as formas de organização comunitária dos quilombos: tudo isso tem raízes nas culturas africanas específicas de onde vieram os escravizados, não numa África genérica e indistinta.
E aqui chegamos a um ponto crucial para entender por que a África é frequentemente percebida como um bloco uniforme quando claramente não é: o impacto do colonialismo e do tráfico de escravos na forma como o continente foi representado e continua sendo representado no imaginário mundial.
Entre o século quinze e o século vinte, a Europa colonizou praticamente todo o continente africano. Durante esse processo de colonização, os africanos foram sistematicamente desumanizados para justificar a exploração de sua mão de obra e de seus recursos naturais. A ideia de que a África era um continente de selvagens sem história, sem cultura e sem civilização foi inventada e propagandeada para fazer o tráfico de escravizados e depois a colonização parecerem não apenas aceitáveis, mas até benéficos para os africanos. Era uma mentira, mas uma mentira conveniente que se transformou em um dos preconceitos mais persistentes da história ocidental.
O tráfico atlântico de escravizados, que durou aproximadamente quatro séculos, de meados do século quinze até meados do século dezenove, retirou do continente africano estimados doze milhões a quinze milhões de pessoas, as mais jovens e mais saudáveis, desorganizando profundamente as sociedades africanas, financiando guerras entre reinos africanos que capturavam prisioneiros para vender aos traficantes europeus, e destruindo estruturas sociais que levaram séculos para se reconstruir. As consequências demográficas, econômicas e políticas desse processo foram devastadoras e de longa duração.
A colonização europeia do século dezenove dividiu o continente africano em países artificiais, traçando fronteiras no mapa sem qualquer consideração pela distribuição real dos povos, das línguas e das culturas. A famosa Conferência de Berlim de mil oitocentos e oitenta e quatro e mil oitocentos e oitenta e cinco, onde as potências europeias se reuniram para dividir a África entre si, foi um exercício de arrogância colonial sem precedentes: governantes europeus traçaram linhas em mapas imprecisos de um continente que mal conheciam, dividindo povos que haviam vivido juntos há séculos e unindo outros que haviam sido inimigos por gerações. Essas fronteiras artificiais se tornaram as fronteiras dos países africanos independentes quando a descolonização aconteceu nas décadas de mil novecentos e cinquenta e sessenta, e muitos dos conflitos que existem na África contemporânea têm suas raízes nessa divisão arbitrária.
Entender a diversidade africana é, portanto, uma questão que vai além da curiosidade intelectual. É uma questão de justiça histórica. É reconhecer que durante séculos um continente imenso e diverso foi reduzido a uma caricatura conveniente para justificar sua exploração. É começar a desfazer um preconceito que ainda hoje influencia a forma como as pessoas julgam os africanos, sejam eles os que vivem no próprio continente, sejam eles os descendentes dos africanos que foram trazidos às Américas como escravizados.
Quando vemos uma notícia sobre a África, precisamos perguntar: de que parte da África? De que país? De que povo? De que região? A resposta nunca é simplesmente África, como se o continente inteiro fosse uma coisa só. A África é a Etiópia com sua Igreja ortodoxa milenar e sua tradição de independência que resistiu à colonização europeia. É o Marrocos com sua arquitetura árabe e berbere e suas cidades imperiais. É a África do Sul com sua história do apartheid e sua constituição que é considerada uma das mais progressistas do mundo. É a Nigéria, com mais de duzentos milhões de habitantes e mais de quinhentas línguas, o país mais populoso do continente. É o Egito com o Rio Nilo e as pirâmides. É o Congo com a segunda maior floresta tropical do mundo. É Cabo Verde com sua mistura de culturas africanas e portuguesas. São dezenas de países, centenas de povos, milhares de línguas, e uma história que é das mais ricas e das mais complexas que a humanidade já produziu.
A África é o berço da humanidade. Todos os seres humanos que vivem em qualquer parte do mundo hoje são, no sentido mais literal e mais biológico do termo, africanos. Os primeiros seres humanos modernos surgiram nesse continente, e durante centenas de milhares de anos toda a história humana se passou exclusivamente em solo africano. Depois, quando grupos de humanos começaram a migrar para outros continentes, carregaram consigo a herança africana: a linguagem, a capacidade de criar cultura, a curiosidade intelectual, a solidariedade social. Todos esses traços fundamentais da humanidade foram desenvolvidos na África.
E no entanto, o continente que foi o berço de toda a humanidade é frequentemente retratado como o lugar mais atrasado, mais pobre e mais problemático do mundo. Essa contradição não é uma coincidência. É o resultado de séculos de exploração, de desumanização e de apagamento deliberado da história africana. Desfazer essa distorção é uma tarefa que começa exatamente aqui, numa sala de aula, quando nos recusamos a aceitar a imagem simplificada e nos comprometemos a entender a Africa em toda a sua complexidade real.
A África não é um bloco uniforme porque nenhum continente o é. Mas a Africa é especialmente diversa, especialmente rica em termos humanos, linguísticos, culturais e históricos, porque é o continente mais antigo da aventura humana. É o lugar onde a humanidade passou mais tempo, onde se desenvolveu por mais séculos, onde criou mais línguas, mais culturas, mais formas de organização, mais tradições artísticas e espirituais do que em qualquer outro lugar do planeta.
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| Dados de Catalogação na Publicação: NORAT, Markus Samuel Leite. Curso de história para o 1º ano do ensino médio. João Pessoa: Editora Norat, 2026. Livro Digital, Formato: HTML5, Tamanho: 132,4125 gigabytes (132.412.500 kbytes) . ISBN: 978-65-80808-16-8 | Cutter: N825c | CDD-907.12 | CDU-94(100)”-04/17″:373.5 . Palavras-chave: História, Ensino Médio, Pré-História, Civilizações Antigas, Mesopotâmia, Egito Antigo, Grécia Antiga, Roma Antiga, África Antiga, Reinos Africanos, Mundo Árabe-Muçulmano, Idade Média, Feudalismo, Antigo Regime, Monarquias Absolutistas, Renascimento, Humanismo, ENEM, Vestibulares. . TODOS OS DIREITOS RESERVADOS. É proibida a cópia total ou parcial desta obra, por qualquer forma ou qualquer meio. A violação dos direitos autorais é crime tipificado na Lei n. 9.610/98 e artigo 184 do Código Penal. |
