Curso de História para o 1º Ano do Ensino Médio
MÓDULO 8 – POVOS AFRICANOS NA ANTIGUIDADE E REINOS MEDIEVAIS AFRICANOS
Aula 93 – O Reino de Axum (atual Etiópia): comércio, expansão e conversão ao Cristianismo
Aula 93 – O Reino de Axum (atual Etiópia): comércio, expansão e conversão ao Cristianismo
Existe, no nordeste da África, uma região que guarda uma das histórias mais extraordinárias e ao mesmo tempo menos conhecidas do mundo antigo. Estamos falando da região onde hoje se encontra a Etiópia e parte da Eritreia, um território de montanhas elevadas, planaltos férteis e vales que descem até o litoral do Mar Vermelho. Foi nessa região que, há cerca de dois mil anos, surgiu um dos reinos mais poderosos e mais sofisticados de seu tempo: o Reino de Axum. Um reino que não apenas dominou o comércio de uma parte inteira do mundo antigo, mas que também se tornou um dos primeiros territórios do planeta a adotar o Cristianismo como religião oficial, antes mesmo de que isso acontecesse no Império Romano. Um reino que ergueu monumentos de pedra que ainda estão de pé hoje, que criou sua própria escrita, cunhou suas próprias moedas e manteve relações diplomáticas com o Egito, com Roma, com a Pérsia e com a Índia. E, no entanto, quando a maioria das pessoas pensa no mundo antigo, Axum raramente aparece na lista. Essa é uma das muitas lacunas que esta aula pretende preencher.
Vamos começar entendendo o que era Axum, de onde veio e em que mundo ele surgiu.
O nome Axum vem da cidade que se tornou a capital desse reino, uma cidade que existia como centro urbano já muito antes do início da era cristã e que atingiu seu momento de maior grandeza entre os séculos primeiro e sétimo depois de Cristo. A cidade de Axum ficava a cerca de dois mil metros de altitude no planalto etíope, numa região chamada de Tigré, que hoje corresponde ao norte da Etiópia. Sua localização não era aleatória: o planalto etíope é uma região de solos férteis, de chuvas relativamente abundantes para os padrões da África oriental e de temperaturas amenas, condições que permitiram o desenvolvimento de uma agricultura produtiva que sustentou populações numerosas e cidades importantes.
Mas o que realmente tornava a posição geográfica de Axum estrategicamente preciosa não era apenas a fertilidade do planalto. Era a proximidade com o Mar Vermelho e, por extensão, com as rotas comerciais que conectavam o Mediterrâneo ao Oceano Índico. O porto de Adulis, situado na costa do atual Mar Vermelho, na Eritreia, era o principal porto do reino de Axum e um dos mais movimentados do mundo antigo. Por Adulis passavam mercadorias vindas de Roma e do Egito em direção à Índia e à Arábia, e mercadorias vindas do Oriente em direção ao Mediterrâneo. Axum controlava esse porto e, por extensão, controlava uma fatia significativa do comércio internacional de sua época.
Para entender a importância disso, precisamos pensar em como funcionava o comércio no mundo antigo. Não havia aviões, não havia navios de carga movidos a motor, não havia caminhões. As mercadorias que viajavam de um lugar para outro faziam-no em navios movidos a vento e a remo, em caravanas de camelos e de burros que atravessavam desertos e montanhas, ao longo de rotas que tinham sido abertas e consolidadas durante séculos. E o comércio entre o Mediterrâneo e o Oceano Índico, que envolvia produtos como especiarias, seda, marfim, ouro, pedras preciosas e têxteis, era um dos eixos mais importantes da economia mundial antiga. Quem controlava os pontos de passagem dessas rotas comerciais tinha um poder enorme, porque podia cobrar impostos sobre as mercadorias que passavam, podia comprar barato e vender caro, e podia enriquecer de uma forma que a maioria dos reinos baseados exclusivamente na agricultura nunca conseguiria.
Axum estava posicionado exatamente em um desses pontos estratégicos. O Mar Vermelho era o caminho mais curto e mais direto entre o mundo mediterrânico, representado principalmente pelo Egito romano, e o Oceano Índico, onde ficavam a Índia, a Arábia e as ilhas das especiarias. Quem dominasse as duas margens do Mar Vermelho e seus portos principais tinha nas mãos o controle desse comércio. Axum controlava a margem africana e, por algum tempo, também a margem árabe, como veremos.
As origens do povo e da civilização que criaram Axum são antigas e complexas. Os povos que habitavam o planalto etíope e a região costeira do Mar Vermelho tinham contato com a Arábia do Sul desde tempos remotos, porque a travessia do estreito que separa o Chifre da África da Península Arábica é relativamente curta. No primeiro milênio antes de Cristo, grupos de povos semitas da Arábia do Sul migraram para a região e se misturaram com as populações africanas locais, criando uma síntese cultural que está na raiz da civilização etíope. A língua geez, que se tornaria a língua clássica e litúrgica do reino de Axum, tem raízes nessa mistura de influências semitas e africanas.
O reino de Axum propriamente dito emergiu como uma entidade política reconhecível por volta do século primeiro depois de Cristo, embora as bases que o tornaram possível tenham sido construídas nos séculos anteriores. O que os escritores gregos e romanos do período chamavam de Axumitas eram um povo já organizado politicamente, com um rei no topo da hierarquia, uma aristocracia de grandes proprietários de terra e uma população de agricultores, pastores e artesãos. A cidade de Axum era o centro religioso, político e comercial desse reino, e já apresentava sinais de uma urbanização sofisticada: edifícios de pedra, palácios, templos e os monumentos que mais impressionam até hoje, os obeliscos.
Os obeliscos de Axum, chamados em língua geez de estelas, são monolitos de granito esculpidos em uma única pedra e erguidos verticalmente, alguns deles chegando a trinta metros de altura. O maior que se sabe que foi erguido media cerca de trinta e três metros, o que o tornaria o maior monolito do mundo antigo, embora tenha caído e partido em algum momento da história. O segundo maior, que ainda está de pé, tem cerca de vinte e quatro metros. Essas estelas eram monumentos funerários e símbolos de poder, erguidos para marcar a grandeza dos reis e das famílias aristocráticas de Axum. A precisão técnica necessária para cortar um bloco de granito de vinte ou trinta metros de comprimento de uma pedreira, transportá-lo até o local escolhido e erguê-lo verticalmente sem que quebrasse é impressionante, e demonstra que os axumitas dominavam técnicas de engenharia e de organização do trabalho de alto nível.
Um dos obeliscos de Axum teve uma história particular que vale a pena contar. Quando as tropas da Itália fascista de Mussolini invadiram a Etiópia em mil novecentos e trinta e cinco, levaram como troféu de guerra uma das maiores estelas axumitas, com cerca de vinte e quatro metros de altura, e a instalaram em Roma, onde ficou por décadas. Após longas negociações diplomáticas, a estela foi devolvida à Etiópia em dois mil e cinco, desmontada em partes e transportada de avião, e hoje está novamente erguida em Axum. Essa história demonstra tanto a importância simbólica desses monumentos para a identidade etíope quanto o tipo de violência cultural que o colonialismo praticou contra os povos africanos.
Voltando à história de Axum em seu período de ascensão, o comércio era o motor que movia tudo. O que exatamente Axum vendia e comprava nesse comércio internacional?
Do interior da África, Axum recebia e exportava para o mundo produtos de enorme valor no mercado internacional da Antiguidade. O marfim era um dos mais importantes: os elefantes africanos, maiores do que os elefantes asiáticos e com presas proporcionalmente maiores, produziam um marfim de qualidade excepcional, muito valorizado no Mediterrâneo e na Ásia para a fabricação de objetos de luxo, de estatuetas, de painéis decorativos e de outros artigos. O ouro que vinha das regiões do interior da África, especialmente de áreas que hoje correspondem ao Sudão e à Etiópia, era outro produto fundamental. O chifre de rinoceronte, usado em muitas culturas como medicamento ou como objeto de prestígio, a pele de animais selvagens como leopardos e leões, animais vivos que eram enviados como presentes diplomáticos para as cortes de Roma e de outros reinos, tartarugas de cujas cascas se faziam objetos decorativos, e escravizados, que infelizmente eram um dos componentes do comércio antigo, eram alguns dos outros produtos que saíam de Axum para os mercados do Mediterrâneo e do Oriente.
Em troca, Axum importava tecidos finos de linho e de seda, objetos de vidro, azeite, vinho, metais trabalhados como bronze e ferro, e moedas de ouro e de prata. A presença de moedas romanas nas escavações arqueológicas de Axum e de Adulis demonstra a intensidade do comércio entre o reino africano e o mundo romano.
A importância de Adulis como porto não pode ser subestimada. O texto mais antigo que descreve Adulis em detalhe é o Periplo do Mar Eritreu, um manual de navegação e comércio escrito em grego por um comerciante do Egito romano provavelmente no século primeiro depois de Cristo. Esse texto descreve Adulis como um porto muito frequentado, ponto de chegada das mercadorias que vinham do interior da África e ponto de partida de navios que cruzavam o Mar Vermelho e o Oceano Índico em direção à Arábia e à Índia. O texto descreve os produtos disponíveis em Adulis com um nível de detalhe que demonstra que seu autor conhecia bem o local.
A rota comercial que passava por Adulis era parte de uma rede mais ampla que os historiadores modernos chamam de Rota da Seda marítima ou simplesmente de comércio do Oceano Índico. Essa rede conectava o Mediterrâneo ao sul da Arábia, à costa da África oriental, à Índia, ao sudeste asiático e até à China, usando as monções, os ventos sazonais que sopram em sentidos alternados no Oceano Índico, para impulsionar os navios. Os marinheiros e comerciantes que navegavam nessa rota compreendiam os padrões dos ventos, sabiam quando zarpar e quando esperar, e construíram uma rede de relações comerciais e culturais que conectou povos de enorme diversidade ao longo de séculos.
Axum não apenas participava desse comércio como intermediário. Seus próprios navios navegavam o Mar Vermelho, e há evidências de que comerciantes axumitas chegavam até a Índia. A influência cultural resultante desse comércio intenso era inevitável: elementos da cultura indiana chegaram à Etiópia, e influências africanas e do mundo mediterrânico chegaram à Índia. O comércio sempre foi um dos grandes motores da difusão cultural na história humana.
Mas Axum não era apenas uma potência comercial. Era também uma potência militar que expandiu seu domínio muito além do planalto etíope.
A expansão territorial de Axum ocorreu em várias direções ao longo de sua história. Para o norte, Axum expandiu seu controle sobre a região costeira que hoje é a Eritreia, garantindo assim o controle permanente sobre o porto de Adulis. Para o sul e para o oeste, os axumitas avançaram sobre os territórios do interior da África oriental, incorporando regiões que forneciam as mercadorias que alimentavam seu comércio, especialmente as regiões produtoras de marfim e de ouro.
Mas a expansão mais surpreendente de Axum foi em direção ao leste, para além do Mar Vermelho. A Arábia do Sul, a região que os romanos chamavam de Arabia Felix, a Arábia Feliz, era uma das regiões mais ricas do mundo antigo. Lá se produziam o incenso e a mirra, resinas aromáticas de enorme valor no mundo mediterrânico onde eram usadas em rituais religiosos, e a região estava na rota das especiarias que vinham da Índia e do Oriente. Os reinos da Arábia do Sul, como Sabá e depois Himiar, eram poderosos e ricos.
Axum e os reinos da Arábia do Sul tinham uma longa história de relações, que incluíam comércio, migração de populações em ambas as direções e conflitos. Por volta do século terceiro depois de Cristo, Axum estava em posição de exercer influência política direta na Arábia do Sul, e chegou mesmo a controlar partes dela por períodos variados. O ponto mais dramático dessa relação veio no século sexto, quando o rei axumita Kaleb, um cristão fervoroso, lançou uma grande expedição militar através do Mar Vermelho para depor o rei de Himiar, um homem chamado Dhu Nuwas que havia se convertido ao judaísmo e estava perseguindo e massacrando os cristãos do seu reino.
A campanha de Kaleb foi um sucesso militar. O exército axumita cruzou o Mar Vermelho, derrotou Dhu Nuwas e instalou um governante cristão no poder na Arábia do Sul. Axum manteve uma presença e uma influência significativas na região por algumas décadas. Essa intervenção na Arábia do Sul tem uma importância que vai além do meramente militar ou político: ela demonstra que, no século sexto, Axum era uma das potências do mundo, capaz de projetar força militar para além de suas fronteiras imediatas e de se envolver nos assuntos do Oriente Médio. Não por acaso, o imperador Justiniano de Constantinopla, o governante do Império Romano do Oriente, buscou a aliança de Axum como parte de sua política de conter o poder da Pérsia sassânida. Axum era um ator na geopolítica mundial de seu tempo.
Outra direção de expansão axumita foi para o oeste, em direção às regiões do vale do Nilo que hoje correspondem ao Sudão. Ali ficava o reino de Cuxe, ou Meroe, uma civilização que havia florescido durante séculos como herdeira da tradição do Egito Antigo. O reino de Meroe havia produzido suas próprias pirâmides, seus próprios templos, sua própria escrita e uma cultura sofisticada que combinava influências egípcias com tradições africanas locais. Por volta do século quarto depois de Cristo, o rei axumita Ezana, de quem falaremos mais detalhadamente em breve, lançou uma campanha militar que destruiu Meroe e pôs fim ao reino de Cuxe. Uma inscrição gravada em pedra e deixada pelo próprio Ezana descreve essa campanha em detalhes, e é um dos documentos históricos mais importantes do período.
Essa inscrição de Ezana é especialmente interessante porque existe em três versões: uma em geez, a língua oficial de Axum; uma em grego, a língua do comércio e da diplomacia internacional da época; e uma em uma língua semítica chamada de sabeu, ligada aos contatos com a Arábia do Sul. Essa inscrição trilingue, que lembra a estrutura da Pedra de Roseta do Egito, demonstra o cosmopolitismo de Axum e sua capacidade de se comunicar com o mundo mais amplo em múltiplas línguas.
Mas o aspecto da história de Axum que mais chama a atenção e que é mais importante para entender a Etiópia moderna é a conversão do reino ao Cristianismo. Essa é uma história que aconteceu no século quarto depois de Cristo e que moldou a identidade do povo etíope de uma forma que dura até hoje, mais de mil e seiscentos anos depois.
Para entender como o Cristianismo chegou a Axum, precisamos recuar um pouco e entender o contexto religioso do reino antes dessa mudança. Antes da conversão, os axumitas praticavam uma religião politeísta, ou seja, uma religião com muitos deuses. Os principais deuses do panteão axumita incluíam Mahrem, o deus da guerra, associado ao planeta Marte e considerado o ancestral divino da família real; Astar, uma divindade celeste associada ao planeta Vênus; Beher, associado ao mar e ao vento; e Meder, associado à terra. Esses deuses aparecem nas inscrições e nos monumentos axumitas do período anterior à conversão cristã, e eram reverenciados com sacrifícios e cerimônias religiosas.
Havia também uma presença judaica significativa na região. A Etiópia tem uma das comunidades judaicas mais antigas do mundo, os Beta Israel, conhecidos também como falasha, que praticam um judaísmo que remonta a tempos muito antigos. A tradição etíope conta que a origem dessa comunidade está na relação entre o rei Salomão de Israel e a Rainha de Sabá, conhecida em etíope como Makeda. Segundo essa tradição, a Rainha de Sabá visitou Salomão em Jerusalém, ficou impressionada com sua sabedoria e com ela teve um filho, que se tornou o primeiro imperador da Etiópia com o nome de Menelik Primeiro. Embora essa seja uma narrativa religiosa e não um relato histórico verificável nos termos modernos, ela demonstra a antiguidade e a profundidade dos laços entre a Etiópia e a tradição hebraica, e a influência judaica na cultura etíope é real e documentável.
O Cristianismo chegou à região de Axum já no século segundo ou terceiro depois de Cristo, trazido por comerciantes e missionários que viajavam pelas rotas do Mar Vermelho. Mas o momento decisivo foi a conversão do rei Ezana, que governou Axum aproximadamente entre os anos trezentos e trinta e trezentos e cinquenta depois de Cristo. A história dessa conversão está associada à figura de um homem chamado Frumêncio.
A história de Frumêncio é contada por Rufino de Aquileia, um escritor cristão latino do final do século quarto, e é a seguinte: um filósofo cristão do mundo mediterrânico, chamado Meróbio ou Metrodoro, viajava pelo Mar Vermelho com dois jovens sobrinhos chamados Frumêncio e Edesius quando seu navio foi atacado e capturado, possivelmente em represália a algum ato de hostilidade romano contra os axumitas. Os dois jovens foram levados como escravizados para a corte de Axum, onde suas capacidades e sua instrução os tornaram valiosos para o rei. Frumêncio se tornou um funcionário de confiança da corte, e quando o rei morreu, a rainha viúva lhe pediu que continuasse no cargo para ajudar a governar o reino enquanto o jovem príncipe crescia.
Durante seu tempo na corte axumita, Frumêncio passou a reunir os cristãos que viviam em Axum, principalmente comerciantes do mundo romano, e a organizar uma comunidade cristã. Quando o príncipe chegou à maioridade e Frumêncio e Edesius foram libertos, Edesius voltou para sua terra natal, mas Frumêncio foi até Alexandria, no Egito, para encontrar o bispo Alexandre, que era o líder da Igreja Cristã do norte da África, e pedir que enviasse um bispo para Axum. Alexandre respondeu a essa solicitação de uma forma que surpreendeu Frumêncio: disse-lhe que não havia ninguém mais indicado para ser o primeiro bispo de Axum do que ele próprio, Frumêncio, que já conhecia o povo e a língua e que havia plantado as sementes da fé cristã naquele reino. Frumêncio foi ordenado bispo por Alexandre, voltou para Axum e dedicou o resto de sua vida à conversão do reino. Os etíopes o chamam até hoje de Abba Sallama, que significa Pai da Paz, e de Kassate Berhan, que significa Revelador da Luz.
O momento decisivo foi a conversão do rei Ezana. Quando exatamente Ezana se converteu e quais foram as razões precisas dessa decisão é difícil dizer com certeza. As inscrições deixadas por Ezana mostram uma progressão clara: nas inscrições mais antigas, ele invoca os deuses tradicionais axumitas; nas inscrições mais tardias, ele invoca o Deus cristão. A comparação entre essas inscrições é uma das evidências mais diretas que temos da conversão. Uma das inscrições mais famosas de Ezana, a que descreve a campanha militar contra Meroe, foi gravada em período que alguns historiadores consideram já cristão, porque ela invoca não os deuses antigos mas o Senhor do Céu.
Com a conversão de Ezana, o Axum se tornou provavelmente o primeiro Estado do mundo a adotar o Cristianismo como religião oficial, antes mesmo do Edito de Tessalônica de trezentos e oitenta depois de Cristo, pelo qual o imperador Teodósio tornou o Cristianismo a religião oficial do Império Romano. Há um debate histórico sobre esse ponto, porque a Armênia também reivindica a posição de primeiro reino cristão, com a conversão do rei Tirídates Terceiro na primeira década do século quarto. Mas seja em que ordem exata que tenha ocorrido, o fato é que Axum se converteu ao Cristianismo no mesmo período em que o Império Romano também se convertia, e que essa conversão teve consequências profundas e duradouras para a história da Etiópia.
A Igreja Cristã que se desenvolveu em Axum tinha características próprias que a distinguiam das igrejas do ocidente e que ainda hoje caracterizam a Igreja Ortodoxa Etíope. Uma dessas características é a teologia. A Igreja Etíope seguiu a doutrina chamada de miafisita, que afirma que Cristo tem uma natureza única, ao mesmo tempo divina e humana, completamente unidas. Essa doutrina foi condenada como herética pelo Concílio de Calcedônia em quatrocentos e cinquenta e um depois de Cristo, que afirmou que Cristo tem duas naturezas separadas, uma divina e uma humana, unidas na mesma pessoa. As igrejas que não aceitaram Calcedônia, chamadas de igrejas pré-calcedonianas ou orientais antigas, incluem além da etíope a copta do Egito, a armênia e a síria. A divisão entre essas igrejas e as igrejas calcedonianas, que incluem tanto o catolicismo quanto a ortodoxia grega e russa, é uma das mais antigas divisões do Cristianismo e dura até hoje.
Outra característica que marca profundamente o Cristianismo etíope é a forte influência do judaísmo. A Igreja Ortodoxa Etíope conserva até hoje práticas que outras igrejas cristãs abandonaram há muito tempo, como a observância do sábado além do domingo, a proibição de certos alimentos que o Levítico classifica como impuros, a circuncisão masculina, a veneração da Arca da Aliança, e outras tradições claramente hebraicas. A tradição etíope afirma que a Arca da Aliança original, o cofre de madeira revestido de ouro que os israelitas usavam para transportar as tábuas dos Dez Mandamentos e que desapareceu da história bíblica em circunstâncias obscuras, está guardada em Axum, em uma pequena capela construída especialmente para ela, e que apenas um sacerdote escolhido entre todos pode vê-la. Essa tradição não é verificável, mas é profundamente arraigada na identidade religiosa etíope.
A língua geez, que havia sido desenvolvida pelos axumitas como língua escrita, tornou-se a língua da liturgia da Igreja Etíope, e nessa posição sobreviveu até os dias de hoje, assim como o latim sobreviveu como língua litúrgica da Igreja Católica. O geez não é mais uma língua falada no cotidiano, mas os sacerdotes etíopes ainda aprendem a ler e a cantar em geez, e as escrituras sagradas da Igreja Ortodoxa Etíope, incluindo a Bíblia, estão em geez. O alfabeto geez, chamado de fidel, é um sistema de escrita silábico com duzentos e trinta e um caracteres, um dos sistemas de escrita mais antigos ainda em uso no mundo.
A conversão de Axum ao Cristianismo teve também consequências políticas importantes. Ela aproximou o reino dos impérios cristãos do Mediterrâneo, especialmente do Império Romano do Oriente, e ajudou a enquadrá-lo em uma rede de alianças e de trocas diplomáticas. O imperador Constâncio Segundo enviou uma embaixada a Axum tentando converter o reino ao arianismo, a versão do Cristianismo que ele preferia e que estava em conflito com o Nicenismo que Alexandria defendia, mas Ezana rejeitou a proposta, mantendo a aliança com Alexandria que havia tornado possível a própria conversão do reino.
A relação especial entre Axum e Alexandria é fundamental para entender a estrutura da Igreja Etíope nos séculos seguintes. O chefe da Igreja Etíope, chamado de Abuna, que significa nosso pai, era durante séculos sempre um homem enviado de Alexandria, um egípcio copto. Axum não tinha autonomia para escolher seu próprio líder religioso: dependia de Alexandria para isso. Essa situação perdurou por um tempo extraordinariamente longo, mais de mil e quinhentos anos, até que em mil novecentos e cinquenta e nove a Igreja Etíope finalmente se tornou autocéfala, ou seja, independente, e passou a escolher seu próprio líder. Essa longa dependência de Alexandria é uma prova da profundidade da relação que se estabeleceu desde o início entre o Cristianismo etíope e o Egito copto.
As chamadas Nove Santos foram outro elemento fundamental na consolidação do Cristianismo em Axum. Por volta do final do século quinto e início do século sexto depois de Cristo, um grupo de monges cristãos do Oriente Médio e do mundo mediterrânico chegou à Etiópia. A tradição etíope conta que eram nove, embora o número exato seja incerto. Esses monges se espalharam por diferentes regiões do reino, fundaram monastérios, traduziram a Bíblia para o geez, pregaram entre as populações que ainda não eram cristãs e criaram uma rede de instituições religiosas que aprofundou enormemente a evangelização do reino. Os monastérios que eles fundaram, alguns dos quais ainda existem hoje em sítios de difícil acesso entre as montanhas etíopes, tornaram-se centros de aprendizagem, de produção de manuscritos e de preservação da cultura. Muitos dos manuscritos iluminados mais antigos da Etiópia, verdadeiras obras de arte com ilustrações em cores vivas e texto em geez cuidadosamente caligrafado, foram produzidos nesses monastérios ao longo de séculos.
A organização política e social de Axum também merece atenção. O rei de Axum tinha um título que indicava seu poder extraordinário: negusa nagast, que em geez significa rei dos reis. Esse título, que continua sendo usado pelos imperadores etíopes até o século vinte, indica que o rei de Axum não era apenas o governante de seu próprio povo, mas o senhor supremo de outros reis menores que lhe prestavam obediência. O sistema político axumita era, portanto, um tipo de monarquia imperial em que o poder se organizava em camadas: o negusa nagast no topo, reis menores de regiões vassalas abaixo dele, e depois a aristocracia local, os chefes de comunidades e assim por diante.
A riqueza do reino era demonstrada não apenas pelos monumentos de pedra mas também pela moeda. Axum foi um dos poucos reinos africanos da Antiguidade a cunhar sua própria moeda, e o fez em ouro, em prata e em bronze. As moedas axumitas circulavam por toda a rede comercial do Mar Vermelho e do Oceano Índico, e eram aceitas nos mercados do Egito e da Arábia. As moedas mais antigas traziam inscrições em grego, a língua do comércio internacional, mas com o tempo o geez foi introduzido ao lado do grego, e as moedas do período cristão trazem cruzes e inscrições religiosas. As moedas axumitas são hoje objetos de estudo arqueológico e histórico de grande valor, porque fornecem informações precisas sobre os reinados dos diferentes reis, sobre as datas e sobre a evolução da arte e da ideologia do reino.
O período entre o século quarto e o século sexto depois de Cristo foi o de máxima grandeza de Axum. Nesse período, o reino controlava o Mar Vermelho, exercia influência sobre a Arábia do Sul, exportava mercadorias africanas para o mundo mediterrânico e oriental, e sua capital era uma das maiores cidades da África oriental. Os escritores do século sexto, incluindo o monge alexandrino Cosmas Indicopleustes, que viajou pela região e escreveu um livro chamado Topografia Cristã, descrevem Axum como uma das quatro grandes potências do mundo ao lado de Roma, da Pérsia e da China.
Mas como acontece com todos os grandes poderes da história, o tempo de decadência de Axum chegou. Vários fatores contribuíram para o declínio do reino entre os séculos sétimo e oitavo depois de Cristo.
O surgimento e a expansão do Islã foi provavelmente o fator mais importante. Quando o profeta Maomé e seus primeiros seguidores fugiam da perseguição em Meca, por volta do ano seiscentos e quatorze depois de Cristo, alguns deles encontraram refúgio em Axum, porque o rei axumita, chamado de Ashama ibn Abjar pela tradição islâmica, era um homem justo que os protegeu. Maomé supostamente disse que os abexins, como os árabes chamavam os etíopes, eram um povo que não deveria ser atacado. Esse episódio, conhecido na tradição islâmica como a Primeira Hégira, estabeleceu uma relação especial entre o Islã nascente e a Etiópia.
No entanto, à medida que o Islã se expandiu e os árabes muçulmanos tomaram o controle do Egito, da Arábia e das rotas do Mar Vermelho, Axum foi progressivamente excluído do comércio internacional que havia sido o fundamento de sua prosperidade. As rotas comerciais que passavam por Adulis perderam importância, porque os comerciantes árabes muçulmanos passaram a dominar o Mar Vermelho e o Oceano Índico, preferindo seus próprios portos. Axum ficou cada vez mais isolado do comércio internacional, e sua riqueza e seu poder diminuíram em consequência.
Outros fatores contribuíram para o declínio: um certo esgotamento dos solos em torno da capital, causado por séculos de agricultura intensiva; o desmatamento que acompanhou o crescimento urbano; possíveis mudanças climáticas que afetaram a produção agrícola; e conflitos internos. Nos séculos seguintes, o centro do poder etíope se deslocou progressivamente para o sul, e a cidade de Axum perdeu sua posição de capital política, embora continuasse sendo a cidade mais sagrada do Cristianismo etíope, o lugar da coroação dos imperadores e da suposta guarda da Arca da Aliança.
O que ficou de Axum foi imenso. A tradição cristã que o reino adotou no século quarto se tornou a espinha dorsal da identidade do povo etíope e uma das Igrejas mais antigas e mais originais do Cristianismo mundial. A língua geez sobreviveu como língua litúrgica e como língua da literatura clássica etíope. O título de negusa nagast continuou sendo usado pelos imperadores etíopes ao longo de séculos, com o último imperador, Haile Selassie Primeiro, sendo destronado apenas em mil novecentos e setenta e quatro. A linhagem real etíope reivindicou durante séculos sua descendência direta do rei Salomão e da Rainha de Sabá, através do lendário Menelik Primeiro.
A Etiópia moderna é a herdeira direta de Axum. É o único país da África subsaariana que resistiu à colonização europeia: o exército etíope derrotou os italianos na Batalha de Adwa em mil oitocentos e noventa e seis, tornando-se um símbolo de resistência africana ao colonialismo em todo o continente. Essa resistência bem-sucedida foi possível em parte porque a Etiópia tinha por trás de si uma tradição estatal de longa data, que remontava a Axum, com uma organização política, uma identidade cultural e uma memória histórica fortes.
Quando estudamos Axum, portanto, estamos estudando muito mais do que um reino antigo que existiu há dois mil anos. Estamos estudando as origens de uma civilização que sobreviveu até hoje, que moldou a identidade de dezenas de milhões de pessoas, que contribuiu para a história do Cristianismo, para a história do comércio mundial e para a história da resistência africana à dominação externa. Estamos estudando um dos capítulos mais ricos e mais importantes da história africana, e um dos mais ignorados fora do próprio continente.
Axum nos lembra que a África tem uma história profunda, complexa e sofisticada que merece ser estudada com a mesma seriedade com que estudamos a história da Grécia, de Roma ou de qualquer outra civilização que consideramos parte do patrimônio comum da humanidade. Porque Axum também é parte desse patrimônio comum, e sua história é parte da história de todos nós.
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| Dados de Catalogação na Publicação: NORAT, Markus Samuel Leite. Curso de história para o 1º ano do ensino médio. João Pessoa: Editora Norat, 2026. Livro Digital, Formato: HTML5, Tamanho: 132,4125 gigabytes (132.412.500 kbytes) . ISBN: 978-65-80808-16-8 | Cutter: N825c | CDD-907.12 | CDU-94(100)”-04/17″:373.5 . Palavras-chave: História, Ensino Médio, Pré-História, Civilizações Antigas, Mesopotâmia, Egito Antigo, Grécia Antiga, Roma Antiga, África Antiga, Reinos Africanos, Mundo Árabe-Muçulmano, Idade Média, Feudalismo, Antigo Regime, Monarquias Absolutistas, Renascimento, Humanismo, ENEM, Vestibulares. . TODOS OS DIREITOS RESERVADOS. É proibida a cópia total ou parcial desta obra, por qualquer forma ou qualquer meio. A violação dos direitos autorais é crime tipificado na Lei n. 9.610/98 e artigo 184 do Código Penal. |
