Curso de História para o 1º Ano do Ensino Médio
MÓDULO 9 – O MUNDO ÁRABE-MUÇULMANO
Aula 104 – A expansão islâmica: da Península Arábica à Europa, África e Ásia
Aula 104 – A expansão islâmica: da Península Arábica à Europa, África e Ásia
Em menos de cem anos após a morte do profeta Maomé, em seiscentos e trinta e dois depois de Cristo, o islamismo havia deixado de ser a religião de uma comunidade árabe localizada na Península Arábica para se tornar a religião dominante de um império que se estendia da Espanha até as fronteiras da Índia. É difícil encontrar na história humana um exemplo de expansão política, militar e religiosa tão rápida e tão duradoura quanto o que aconteceu com o islamismo nos séculos sete e oito depois de Cristo. Impérios que levaram séculos para ser construídos foram derrubados em poucos anos. Línguas que haviam dominado regiões inteiras foram substituídas pelo árabe. Religiões milenares recuaram diante de uma fé nova. Para entender como isso foi possível, precisamos olhar com cuidado para o momento histórico em que a expansão começou, para as condições do mundo que os árabes muçulmanos encontraram quando saíram da Arábia, e para as formas como eles governaram os povos que conquistaram.
Quando Maomé morreu, a comunidade muçulmana estava unificada pela primeira vez sob uma única autoridade política e religiosa, mas essa unidade era frágil e relativamente recente. A maior parte da Península Arábica havia sido conquistada ou submetida ao islamismo apenas nos últimos anos da vida do profeta, e muitas tribos árabes haviam aderido ao islamismo mais por conveniência política do que por convicção religiosa profunda. Tanto que, assim que a notícia da morte de Maomé se espalhou, uma série de tribos aproveitou a oportunidade para abandonar o islamismo, recusar o pagamento do imposto religioso e em alguns casos proclamar novos profetas. Esse fenômeno de apostasia em massa foi chamado de ridda, que em árabe significa retorno ou apostasia, e a série de campanhas militares que o primeiro califa, Abu Bakr, lançou para suprimir essas revoltas ficou conhecida como as Guerras da Ridda.
Abu Bakr enfrentou as Guerras da Ridda com uma determinação absoluta, confiando a liderança das campanhas militares ao general mais brilhante que o islamismo produziu em sua primeira geração: Khalid ibn al-Walid, chamado pelos próprios árabes de a Espada de Deus. Khalid havia sido originalmente um adversário do profeta, mas havia se convertado ao islamismo pouco antes da conquista de Meca e rapidamente demonstrou um talento militar extraordinário. Ao longo de uma série de campanhas relâmpago por toda a Península Arábica, Khalid derrotou um por um os líderes rebeldes e os falsos profetas, e em menos de dois anos Abu Bakr havia reunificado a Arábia sob o islamismo. A Arábia estava pacificada, o islamismo estava consolidado, e havia agora um exército árabe experiente, coeso e motivado que precisava ser empregado em alguma direção.
Essa situação criou um impulso quase inevitável em direção à expansão para fora da Península Arábica. As tribos árabes haviam sido treinadas para a guerra, tinham uma identidade religiosa que lhes dava coesão e motivação, e a Arábia em si era uma terra árida e pobre em recursos que não podia sustentar indefinidamente uma população guerreira sem conflito externo. Havia também razões religiosas genuínas: o Alcorão contém passagens que falam em difundir o islamismo e em combater os incrédulos, e muitos dos líderes muçulmanos acreditavam sinceramente que estavam cumprindo uma missão divina ao expandir o território do islamismo. E havia razões estratégicas e econômicas óbvias: as regiões ricas da Síria, do Iraque, do Irã e do Egito eram alvos naturais para um povo saído de uma terra pobre e árida.
Mas talvez o fator mais importante que explica o sucesso da expansão islâmica não sejam as forças que empurravam os árabes para fora da Arábia, e sim as condições que encontraram quando chegaram às fronteiras dos grandes impérios. O mundo do século sete estava dominado por dois gigantes que haviam se destruído mutuamente numa série de guerras longas e devastadoras: o Império Bizantino, que era o herdeiro do Império Romano do Oriente e que controlava a Anatólia, a Síria, a Palestina e o Egito, e o Império Sassânida, que controlava o Iraque, o Irã, o Afeganistão e partes da Ásia Central. Durante a primeira metade do século sete, bizantinos e sassânidas haviam travado uma guerra de vinte e seis anos, de seiscentos e dois a seiscentos e vinte e oito, que havia esgotado completamente os dois lados. O Império Sassânida havia chegado a conquistar Jerusalém e a capturar a relíquia da Vera Cruz antes de ser expulso pelo imperador Heráclio, mas essa vitória bizantina foi alcançada à custa de um esforço monumental que deixou ambos os impérios financeiramente arruinados, militarmente exaustos e politicamente instáveis. Quando os exércitos árabes muçulmanos chegaram às fronteiras dessas potências exauridas poucos anos depois, encontraram oponentes muito mais fracos do que pareciam.
Além do esgotamento militar, havia um problema profundo de legitimidade política. As populações da Síria, da Palestina e do Egito, que eram predominantemente cristãs, mas de denominações que haviam sido declaradas heréticas pelo governo de Constantinopla, como os nestorianos e os monofisitas, tinham razões próprias para não serem leais ao Império Bizantino. Os imperadores bizantinos haviam tentado impor por força a ortodoxia cristã em suas províncias orientais, perseguindo bispos, fechando igrejas e tributando pesadamente populações que se recusavam a abandonar suas crenças. Para muitas dessas populações, os conquistadores árabes que chegavam com uma mensagem de tolerância religiosa relativa para os povos do Livro podiam ser, em muitos casos, preferíveis aos senhores bizantinos que os oprimiam por questões de doutrina cristã.
A primeira grande ofensiva para fora da Arábia aconteceu ainda durante o califado de Abu Bakr, que enviou exércitos tanto em direção à Síria quanto em direção ao Iraque. Quando Abu Bakr morreu em seiscentos e trinta e quatro, o segundo califa, Umar ibn al-Khattab, continuou e acelerou dramaticamente a expansão. Umar era um administrador de gênio, tão importante para a organização do Estado islâmico quanto Abu Bakr havia sido para sua sobrevivência nos primeiros momentos de crise. Sob Umar, as conquistas se sucederam a uma velocidade que continua sendo impressionante quando se olha em perspectiva histórica.
Em seiscentos e trinta e seis, o exército muçulmano liderado por Khalid ibn al-Walid derrotou o exército bizantino na Batalha de Yarmouk, num confronto que foi decisivo para o destino da Síria. O rio Yarmouk é um afluente do Jordão, e é próximo de suas margens que aconteceu uma das batalhas mais importantes da história medieval. O exército bizantino era numericamente superior, mas estava enfraquecido por divisões internas, por problemas de pagamento dos soldados mercenários e por uma liderança menos eficaz. Khalid ibn al-Walid manobrou seus cavaleiros com uma habilidade tática que nenhum general bizantino conseguiu neutralizar, e o resultado foi uma derrota catastrófica que abriu toda a Síria à conquista islâmica. Damasco, a cidade mais importante da Síria, havia sido tomada antes mesmo da Batalha de Yarmouk, e depois da batalha toda a resistência organizada na região desmoronou. Khalid entrou em Emesa, em Alepo, e as cidades se renderam uma após a outra. Jerusalém, a cidade mais sagrada do cristianismo, foi tomada pelo exército muçulmano em seiscentos e trinta e oito, e a tradição islâmica conta que o califa Umar em pessoa viajou até Jerusalém para receber a rendição da cidade. Conta-se que quando Umar chegou à cidade montado num camelo, usando roupas simples sem ostentação, o patriarca cristão que havia negociado a rendição ficou impressionado com a humildade do líder de um exército tão poderoso. Umar entrou na Igreja do Santo Sepulcro, a mais sagrada do cristianismo, mas se recusou a rezar dentro dela, dizendo que se o fizesse os muçulmanos poderiam em gerações futuras confiscar o local para transformá-lo em mesquita. Em vez disso, rezou do lado de fora, e no local onde rezou foi posteriormente construída uma pequena mesquita que existe até hoje. Esse episódio, independentemente de quanto há de histórico ou de lendário nele, captura algo importante sobre a relação dos primeiros califas com as populações conquistadas: havia uma preocupação real em não destruir as estruturas religiosas existentes e em manter uma ordem que permitisse o funcionamento das sociedades conquistas.
No mesmo período em que a Síria estava sendo conquistada, outro exército muçulmano estava derrubando o Império Sassânida. Em seiscentos e trinta e seis, poucos anos depois da Batalha de Yarmouk, os árabes muçulmanos derrotaram o exército persa sassânida na Batalha de al-Qadisiyyah, no Iraque atual, outra batalha de consequências históricas imensas. O exército persa incluía elefantes de guerra, mas os camelos árabes, que não conheciam elefantes, reagiram com tal terror ao cheiro dos animais que os persas pensaram que a tática estava funcionando. Khalid, no entanto, havia aprendido a neutralizar os elefantes em combates anteriores, e os persas foram finalmente derrotados. A capital do Império Sassânida, Ctesifonte, foi tomada em seiscentos e trinta e sete, e o tesouro imperial persa, acumulado ao longo de séculos de domínio sobre uma das mais ricas regiões do mundo, caiu nas mãos dos conquistadores árabes. O último imperador sassânida, Yazdegerd terceiro, fugiu para o leste, tentando reorganizar a resistência, mas foi assassinado em seiscentos e cinquenta e um por um moleiro no atual Uzbequistão sem nunca ter conseguido retomar o trono. Com sua morte, o Império Sassânida, que havia durado mais de quatro séculos, deixou de existir.
O Egito foi conquistado a seguir. O general árabe Amr ibn al-As, com um exército relativamente pequeno de talvez vinte mil homens, atravessou o deserto do Sinai em seiscentos e trinta e nove e penetrou no território egípcio, que era uma das províncias mais ricas e mais populosas do Império Bizantino. A conquista do Egito não foi tão rápida quanto a da Síria ou do Iraque: o Egito tinha fortalezas bem defendidas e o exército bizantino resistiu em vários pontos. Mas a população egípcia cristã de rito copta, que havia sido perseguida pelos imperadores bizantinos por questões de doutrina religiosa, não deu ao exército imperial o apoio que teria sido necessário para uma resistência eficaz. Alexandria, a maior cidade do Egito e um dos grandes centros do mundo mediterrâneo, foi tomada em seiscentos e quarenta e dois. Com a conquista do Egito, os árabes ganharam não apenas um território de enorme riqueza agrícola, baseada na fertilidade excepcional do vale do Nilo, mas também o controle do Mediterrâneo Oriental e acesso à maior biblioteca do mundo antigo, embora a famosa história de que os árabes queimaram a Biblioteca de Alexandria seja quase certamente uma lenda: a biblioteca havia sofrido danos muito antes da chegada dos árabes, em incêndios e conflitos dos séculos anteriores.
Depois do Egito, a expansão continuou para o oeste, ao longo da costa norte da África. Essa etapa foi mais lenta do que as anteriores, em parte porque encontrou resistência maior entre os povos berberes do Magrebe, que eram guerreiros de grande habilidade e conhecimento do terreno. As campanhas no norte da África se estenderam por décadas. Cartago, a antiga rival de Roma, foi tomada pelos árabes em seiscentos e oitenta e quatro, e a antiga província romana da África, que corresponde aproximadamente ao atual território da Tunísia, foi completamente conquistada no início do século oito. Mas a resistência berbere foi encarniçada: uma líder berbere chamada Dihya, conhecida pelos árabes como al-Kahina, a profetisa, organizou uma resistência que por algum tempo forçou os árabes a recuar antes de ser finalmente derrotada e morta por volta de seiscentos e oitenta e sete ou seiscentos e oitenta e oito. A al-Kahina é lembrada até hoje como símbolo de resistência no Magrebe e como uma das figuras femininas mais notáveis da história do norte da África.
Os berberes que foram conquistados aderiram ao islamismo em grande número e com relativa rapidez, e foram esses mesmos berberes convertidos que protagonizaram um dos episódios mais dramáticos da expansão islâmica: a conquista da Península Ibérica, que os muçulmanos chamavam de al-Andalus.
Em setecentos e onze, um general berbere convertido ao islamismo chamado Tariq ibn Ziyad atravessou o estreito que separa a África da Europa com um exército de sete mil homens, em sua maioria berberes. O local por onde cruzou ficou para a posteridade com o nome derivado do nome de Tariq: Jabal al-Tariq, a montanha de Tariq, que os europeus pronunciaram como Gibraltar e que é o nome que o local carrega até hoje. Tariq atravessou o estreito a serviço de Musa ibn Nusayr, o governador árabe do norte da África, e com a permissão do califa omíada de Damasco, mas também em resposta a um convite de facções visigodas que estavam em guerra civil pela coroa do reino visigodo que controlava a Península Ibérica.
O reino visigodo havia chegado à Ibéria no século cinco, depois da queda do Império Romano do Ocidente, e havia governado a região por mais de dois séculos. Mas no momento em que Tariq chegou, o reino estava em crise: o rei Roderico havia chegado ao poder de forma controversa, e havia facções importantes da aristocracia visigoda que preferiam ver os muçulmanos derrotar Roderico a ver Roderico consolidar seu poder. Roderico foi ao encontro do exército de Tariq com forças muito superiores em número, mas na Batalha de Guadalete, em julho de setecentos e onze, foi derrotado e provavelmente morto no campo de batalha. Com a morte de Roderico, a resistência organizada visigoda desmoronou de forma surpreendentemente rápida. Tariq avançou pelo interior da Ibéria, tomando cidades uma após a outra. No ano seguinte, Musa ibn Nusayr cruzou o estreito com um exército árabe maior para supervisionar a conquista. Em alguns anos, a maior parte da Península Ibérica estava sob controle muçulmano. Apenas as regiões montanhosas do extremo norte, nas Astúrias e nos Pireneus, permaneceram fora do controle islâmico, e foi precisamente dessas regiões que séculos depois começaria o processo de Reconquista cristã da Ibéria.
Os muçulmanos não pararam na Península Ibérica. Em setecentos e vinte, cruzaram os Pireneus e começaram a avançar pelo sul da atual França, então o reino dos francos. Chegaram a saquear Bordeaux e a ameaçar Tours, um dos centros mais importantes do catolicismo franco. Em outubro de setecentos e trinta e dois, um exército muçulmano liderado pelo governador de al-Andalus, Abd al-Rahman al-Ghafiki, enfrentou um exército franco liderado por Carlos Martel numa batalha que as fontes europeias chamam de Batalha de Poitiers ou de Tours, dependendo da localização exata, e que as fontes árabes chamam de a Batalha do Pavimento dos Mártires. Abd al-Rahman foi morto no combate, e com sua morte o exército muçulmano recuou. Carlos Martel, cujo nome significa o Martelo, foi celebrado nas fontes europeias como o salvador da cristandade, o homem que havia detido o avanço do islamismo na Europa. Historiadores modernos debatem a real importância da batalha: alguns argumentam que o avanço muçulmano na França já havia chegado perto de seu limite natural por razões logísticas e políticas, e que a batalha de Poitiers foi apenas o momento em que esse limite ficou evidente. Outros mantêm que a batalha foi de fato decisiva. O que é certo é que depois de Poitiers, os muçulmanos não tentaram mais uma conquista sistemática do território franco ao norte dos Pireneus, embora tenham mantido bases no sul da França por mais algumas décadas.
A expansão para o leste, em direção à Ásia Central e à Índia, foi igualmente impressionante. Depois da conquista do Irã, os exércitos muçulmanos avançaram para o Khorasan, a grande região que corresponde aproximadamente ao nordeste do atual Irã e ao norte do atual Afeganistão. A cidade de Merv, hoje no atual Turcomenistão, foi conquistada. Bukhara e Samarcanda, dois dos mais importantes centros culturais e comerciais da Ásia Central, situadas no atual Uzbequistão, caíram nas mãos dos árabes no início do século oito. Essas cidades estavam na antiga Rota da Seda, o sistema de rotas comerciais que ligava a China ao Mediterrâneo, e sua conquista deu ao califado islâmico o controle de uma parte crucial do comércio euro-asiático. Em setecentos e cinquenta e um, na Batalha do Rio Talas, no atual Quirguistão, um exército muçulmano derrotou um exército do Império Tang da China, num confronto que representou o limite máximo da expansão islâmica para o leste na Ásia Central. Uma das consequências menos conhecidas dessa batalha foi que entre os prisioneiros capturados pelos árabes havia artesãos chineses que conheciam a arte de fabricar papel, e foi através desses prisioneiros que a tecnologia de produção do papel se difundiu do mundo islâmico para a Europa, com consequências revolucionárias para a cultura e o conhecimento humano.
Em direção à Índia, os árabes muçulmanos conquistaram a região do Sind, no atual Paquistão, em setecentos e onze e nos anos seguintes, sob o comando de um jovem general árabe chamado Muhammad ibn Qasim, que tinha apenas dezassete anos quando liderou a campanha. O Sind e o Punjab foram incorporados ao califado omeíada, mas a penetração muçulmana no subcontinente indiano foi inicialmente limitada a essas regiões do noroeste. A islamização mais profunda do subcontinente indiano viria em ondas posteriores, especialmente com as invasões dos Gasnávidas no século dez e onze e com a subsequente formação dos sultanatos muçulmanos de Delhi a partir do século doze.
Na África, além da conquista do norte, o islamismo se difundiu para o sul através das rotas de comércio trans-saariano. Os comerciantes muçulmanos árabes e berberes que cruzavam o Saara com suas caravanas de camelos carregadas de ouro, de marfim e de escravos traziam também a fé islâmica. Os grandes reinos do Sahel, como Gana, Mali e Songai, que estudamos em aulas anteriores, foram gradualmente convertidos ao islamismo a partir da elite governante, que via no islamismo não apenas uma religião mas também uma rede de relações comerciais e diplomáticas de alcance mundial. Na África Oriental, os portos swahili, como Kilwa e Mombasa, foram islamizados pelos comerciantes árabes que atravessavam o oceano Índico com os ventos de monção sazonais, integrando a costa oriental africana numa rede comercial que ia da China ao Mediterrâneo.
É preciso agora entender como os muçulmanos governavam os territórios que conquistavam, porque a forma de governo explica em grande parte por que a expansão islâmica foi tão duradoura e por que tantas populações conquistadas acabaram se convertendo ao islamismo ao longo das gerações.
O sistema de governo islâmico nas regiões conquistadas distinguia claramente entre os muçulmanos, que eram a classe dominante, e os não-muçulmanos, que eram divididos em duas categorias. A primeira categoria era a dos povos do Livro, chamados em árabe de ahl al-kitab, que designava principalmente os judeus e os cristãos, mas que foi ampliada posteriormente para incluir os zoroastristas persas e, em contextos específicos, os hinduístas e os budistas. Os povos do Livro recebiam o status de dhimmi, que significa literalmente protegido, e podiam manter suas religiões, suas igrejas, suas sinagogas e suas práticas religiosas em troca de várias condições: o pagamento de um imposto especial chamado de jizya, que era a contrapartida fiscal pela proteção que o Estado islâmico lhes oferecia e pelo fato de não serem obrigados a servir no exército; o cumprimento de certas restrições, como não construir novas igrejas maiores do que as existentes, não fazer demonstrações públicas de sua religião de forma ostensiva e não montar animais que os tornassem mais altos do que os muçulmanos; e a aceitação da supremacia jurídica e política do islamismo sobre a sociedade em que viviam.
Esse sistema não era a igualdade plena de direitos que valorizamos hoje, e é importante ser honesto sobre isso. Os dhimmis eram cidadãos de segunda classe no Estado islâmico medieval, com direitos mais limitados do que os muçulmanos. Em alguns períodos e sob alguns governantes, as condições se tornaram mais restritivas e as perseguições aconteceram. Mas comparado com o que as minorias religiosas enfrentavam em outras partes do mundo medieval, como os judeus na Europa cristã ou os cristãos não-ortodoxos no Império Bizantino, o sistema dhimmi oferecia um grau de tolerância que, embora imperfeito por nossos padrões modernos, era muitas vezes superior ao que existia em outros contextos da época. Muitas comunidades judaicas preferiram viver sob o domínio islâmico a viver sob o domínio cristão medieval, onde eram frequentemente sujeitas a acusações absurdas, pogrons e expulsões forçadas.
A conversão ao islamismo não era imposta pela força na maioria dos casos. Há registros históricos de conversões forçadas em períodos e lugares específicos, mas a doutrina islâmica geral, baseada em versículo do Alcorão que diz que não há compulsão na religião, favorecia a liberdade de escolha religiosa. O que acontecia com mais frequência era uma conversão gradual e voluntária motivada por razões variadas: o desejo de ascensão social numa sociedade em que os muçulmanos tinham vantagens legais e fiscais; o casamento com muçulmanos, que pela lei islâmica clássica requeria que o cônjuge não-muçulmano se convertesse; a atração genuína pelos ensinamentos do islamismo; e a influência cultural e intelectual que o islamismo exercia através das escolas, das mesquitas e dos sábios muçulmanos. As conversões aconteciam ao ritmo de gerações, e é por isso que regiões como o Egito, que havia sido cristã por mais de seis séculos quando foi conquistada, levaram séculos para se tornar majoritariamente muçulmanas.
A língua árabe foi outro veículo poderoso de expansão cultural. O Alcorão em árabe é considerado a palavra de Deus em sua forma definitiva e inimitável, e a tradução do Alcorão para outras línguas, embora não seja proibida, nunca é considerada equivalente ao original árabe. Isso significava que aprender o árabe era indispensável para participar plenamente da vida religiosa islâmica, e o árabe rapidamente se tornou a língua da administração, da ciência, da filosofia, da poesia e do comércio no mundo islâmico. Populações que haviam falado aramaico, copta, grego, persa ou berbere adotaram o árabe ao longo de gerações como sua língua principal. O persa é uma exceção notável: sobreviveu como língua literária e científica de grande prestígio no mundo islâmico, e a cultura persaizante influenciou profundamente o islamismo, especialmente nas cortes dos califas abássidas de Bagdá. Mas em regiões como o Egito, o norte da África e a Síria, o árabe substituiu completamente as línguas locais como língua de uso cotidiano.
O impacto econômico da unificação do mundo islâmico foi enorme. Antes da conquista islâmica, o comércio entre a Espanha e a Índia ou entre o Egito e a Ásia Central estava sujeito a múltiplas fronteiras políticas, múltiplas tarifas alfandegárias, múltiplas moedas e múltiplas línguas de negócio. Quando todas essas regiões passaram a fazer parte de um único califado, ou pelo menos de um único espaço cultural e religioso islâmico, o comércio de longa distância se tornou muito mais simples. Um mercador muçulmano de Bagdá podia viajar a Marrocos ou à Índia encontrando em cada cidade uma mesquita, uma rede de hospitality islâmica, uma língua que entendia pelo menos parcialmente, e um sistema jurídico familiar. O resultado foi um florescimento extraordinário do comércio, que enriqueceu as cidades islâmicas e financiou o que os historiadores chamam de a Era de Ouro islâmica, período de imenso florescimento intelectual e científico que estudaremos com mais detalhe na próxima aula.
A unificação do califado sob a Dinastia Omeíada, que governou de seiscentos e sessenta e um a setecentos e cinquenta a partir de Damasco, foi substituída pela Dinastia Abássida, que governou de setecentos e cinquenta a mil duzentos e cinquenta e oito a partir de Bagdá. A mudança de dinastia teve consequências importantes para a natureza do islamismo como civilização: os abássidas eram muito mais influenciados pela cultura persa do que os omeíadas, e sob seu governo o islamismo se tornou uma civilização verdadeiramente multicultural em que árabes, persas, turcos, berberes e povos de dezenas de outras origens contribuíam para a produção cultural e intelectual.
A capital abássida, Bagdá, fundada em setecentos e sessenta e dois às margens do rio Tigre, no atual Iraque, tornou-se rapidamente uma das maiores cidades do mundo medieval, com uma população que alguns historiadores estimam em torno de um milhão de habitantes no seu apogeu, no século dez. Bagdá era um centro de tradução, onde textos gregos, persas, indianos e sírios eram traduzidos para o árabe e estudados, debatidos e expandidos por scholars muçulmanos de todas as origens. A Casa da Sabedoria, o Bayt al-Hikma, era uma instituição de pesquisa e tradução financiada pelos califas abássidas onde trabalhou, entre outros, al-Khwarizmi, o matemático cujo nome deu origem à palavra algoritmo e cujo trabalho sobre o sistema de numeração indiano deu ao mundo o que chamamos hoje de algarismos arábicos, sem os quais a matemática moderna seria impossível.
É importante compreender o alcance das conexões que a expansão islâmica criou entre civilizações que antes tinham pouco ou nenhum contato direto. A China, a Índia, a Pérsia, a Grécia antiga, o Egito, a África subsaariana e a Europa foram conectadas através das rotas comerciais e intelectuais do mundo islâmico de uma forma que era sem precedentes. Conceitos matemáticos da Índia chegaram à Europa através das traduções árabes. A filosofia grega foi preservada nas bibliotecas islâmicas durante séculos em que a Europa Ocidental havia perdido acesso direto ao grego, e retornou à Europa durante a Idade Média através das traduções latinas feitas de originais árabes em centros como Toledo, na Espanha islâmica. Especiarias da Índia chegavam à mesa dos ricos europeus através dos intermediários islâmicos do Oriente Médio. O papel, fabricado originalmente na China, chegou à Europa através do mundo islâmico e eventualmente tornou possível a revolução da imprensa.
Para entender o ENEM e os vestibulares, é importante ter claros alguns aspectos da expansão islâmica que aparecem com frequência nas provas. A expansão islâmica é frequentemente apresentada em contraste com a visão simplificada de que foi uma conquista imposta pela força das armas em que as populações conquistadas foram forçadas a se converter. A realidade histórica é muito mais complexa: a expansão militar foi real e violenta, como toda conquista militar, mas a conversão religiosa foi majoritariamente gradual e voluntária, motivada por fatores sociais, econômicos e culturais além dos religiosos. O sistema dhimmi, com todas as suas limitações, oferecia às minorias religiosas uma proteção legal que era muitas vezes superior ao que encontravam em outros contextos da época. E a expansão islâmica criou condições para um florescimento cultural e intelectual de grande importância para a história da civilização humana como um todo.
Outro aspecto importante para as provas é a compreensão das rotas da expansão islâmica e de suas implicações geopolíticas. A conquista do norte da África e da Península Ibérica transformou o Mediterrâneo Ocidental de um mar dominado pela herança romana num espaço contestado entre o mundo cristão e o mundo islâmico, e essa tensão geopolítica continuaria a moldar a história europeia e mediterrânea por séculos. A interrupção das rotas comerciais do Mediterrâneo Oriental pelo controle islâmico foi um dos fatores que, séculos depois, impulsionou a busca europeia por rotas marítimas alternativas para o Oriente, levando às grandes navegações portuguesas e espanholas do século quinze, que por sua vez resultaram no encontro entre a Europa e as Américas. Sem a expansão islâmica e o controle muçulmano das rotas terrestres e marítimas para o Oriente, é possível que a história do mundo moderno tivesse sido muito diferente.
A expansão islâmica foi também um fenômeno de integração cultural de uma riqueza extraordinária. O Al-Andalus, a Espanha islâmica, foi durante séculos um dos lugares mais sofisticados e mais culturalmente avançados da Europa, um espaço em que muçulmanos, judeus e cristãos coexistiam, traduziam textos uns dos outros, debatiam filosofia e ciência, e produziram uma cultura sincrética de grande beleza. Figuras como o filósofo Averróis, cujo nome árabe era Ibn Rushd, o filósofo e médico Maimônides, que era judeu mas escrevia em árabe, e o geógrafo al-Idrisi, que produziu o mapa do mundo mais preciso do século doze, são representativos da riqueza intelectual que o Al-Andalus produziu. Quando os cristãos começaram a reconquistar a Ibéria e os estudiosos europeus tiveram acesso às bibliotecas das cidades islâmicas da Espanha, o que encontraram foi um tesouro de conhecimento que incluía textos gregos que haviam sido perdidos na Europa Ocidental, traduzidos para o árabe e enriquecidos com comentários islâmicos, além de obras originais islâmicas de matemática, medicina, astronomia, filosofia e poesia.
Quando pensamos na expansão islâmica como um todo, o que vemos é um dos processos de transformação mais completos e mais duradouros que a história humana registrou. Em menos de um século, a face política, religiosa, cultural e linguística de uma faixa enorme do mundo havia mudado de forma irreversível. O árabe se tornou a língua de meio bilhão de pessoas. O islamismo se tornou a religião de um quarto da humanidade. As rotas comerciais que conectavam o Atlântico ao Pacífico passavam pelo coração do mundo islâmico. E um conjunto de valores, de práticas religiosas, de tradições jurídicas e de formas de ver o mundo havia se enraizado em solos tão diferentes quanto os das margens do Rio Sena, na França, onde os muçulmanos chegaram brevemente, e as margens do Rio Indo, no atual Paquistão, onde permaneceram permanentemente.
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