Curso de História para o 1º Ano do Ensino Médio
MÓDULO 9 – O MUNDO ÁRABE-MUÇULMANO
Aula 105 – Os califas e os califados: organização política do mundo muçulmano
Aula 105 – Os califas e os califados: organização política do mundo muçulmano
Para entender como o mundo islâmico se organizou politicamente ao longo dos séculos, precisamos começar por uma pergunta aparentemente simples: o que é um califa? A palavra califa vem do árabe khalifa, que significa sucessor ou representante, e designava o líder político da comunidade muçulmana após a morte do profeta Maomé. O califa não era um profeta, não recebia revelações divinas e não tinha autoridade para criar novas doutrinas religiosas do nada. Mas era o guardião da lei islâmica, o comandante máximo dos exércitos muçulmanos, o administrador supremo do território islâmico e o responsável por garantir que a comunidade muçulmana vivesse de acordo com os princípios do Alcorão e da tradição do profeta. E o califado, por sua vez, era o sistema político construído em torno dessa figura, o Estado islâmico em sua forma mais abrangente, que unia num mesmo governo a autoridade religiosa e a autoridade política de um modo que não tinha paralelo exato em nenhuma outra tradição política do mundo.
Compreender o califado é essencial para entender a história islâmica, porque o califado foi muito mais do que um simples governo. Foi o quadro dentro do qual o islamismo cresceu, se expandiu, produziu sua cultura extraordinária e enfrentou suas crises mais profundas. Ao longo de quase treze séculos, desde a morte de Maomé em seiscentos e trinta e dois até a abolição formal do califado otomano em mil novecentos e vinte e quatro, o conceito de califado moldou a imaginação política do mundo islâmico de formas que ainda hoje continuam a ter relevância.
Vamos começar do princípio.
O primeiro califa da história do islamismo foi Abu Bakr, um dos mais antigos e mais respeitados companheiros do profeta Maomé. Ele assumiu a liderança da comunidade muçulmana em seiscentos e trinta e dois, imediatamente após a morte do profeta, e governou por apenas dois anos, até sua própria morte em seiscentos e trinta e quatro. Apesar da brevidade de seu governo, Abu Bakr enfrentou e resolveu uma crise que poderia ter destruído o islamismo antes mesmo que ele tivesse a chance de se expandir pelo mundo. Como vimos em aula anterior, muitas tribos árabes haviam abandonado o islamismo após a morte do profeta, e Abu Bakr conduziu as Guerras da Ridda com determinação absoluta, reunificando a Arábia sob o islamismo e, ao mesmo tempo, iniciando as primeiras campanhas de expansão para além da Península Arábica.
O título que Abu Bakr usou foi o de Khalifat Rasul Allah, que significa sucessor do mensageiro de Deus, indicando claramente que ele era sucessor do profeta como líder político da comunidade, mas não como profeta. Essa distinção era fundamental: o islamismo ensinava que Maomé era o último dos profetas, e qualquer tentativa de reivindicar autoridade profética seria considerada heresia. O califa governava, mas não profetizava.
O segundo califa foi Umar ibn al-Khattab, que governou de seiscentos e trinta e quatro a seiscentos e quarenta e quatro. Umar foi uma das figuras mais importantes de toda a história islâmica, não apenas por ter supervisionado as conquistas que transformaram o islamismo numa potência mundial, mas por ter criado as estruturas administrativas básicas do Estado islâmico. Foi Umar quem organizou o sistema de registro dos guerreiros e de distribuição do butim das guerras, chamado de diwan. Foi Umar quem estabeleceu as primeiras províncias administrativas nos territórios conquistados e nomeou governadores para administrá-las. Foi Umar quem codificou o sistema dos dhimmis, os não-muçulmanos que viviam sob proteção do Estado islâmico. Foi Umar quem determinou que o calendário islâmico começaria a ser contado a partir do ano da Hégira, a migração do profeta de Meca para Medina, que corresponde ao ano seiscentos e vinte e dois da era cristã. Em dez anos de governo, Umar criou o esqueleto administrativo sobre o qual todo o califado futuro seria construído. Foi assassinado por um escravo persa chamado Abu Lulu, que o golpeou com uma faca durante a oração da manhã, e morreu alguns dias depois.
O terceiro califa foi Uthman ibn Affan, que governou de seiscentos e quarenta e quatro a seiscentos e cinquenta e seis. Uthman era um homem rico e generoso, pertencente à família dos Omeias, a mesma família que havia sido uma das mais poderosas de Meca antes da conquista islâmica. Seu califado viu a conclusão da compilação oficial do texto do Alcorão, uma das realizações mais importantes da história do islamismo: Uthman mandou reunir todos os fragmentos escritos do texto sagrado e estabelecer uma versão padrão e definitiva, que foi copiada e enviada às principais cidades do império como a versão oficial, ordenando que todas as outras cópias diferentes fossem destruídas. Essa decisão garantiu que o islamismo tivesse um texto sagrado uniforme e evitou que diferentes versões do Alcorão proliferassem em diferentes regiões, o que poderia ter gerado divisões doutrinais semelhantes às que o cristianismo havia enfrentado com a multiplicidade de manuscritos. Mas Uthman também foi progressivamente criticado por favorecer seus parentes omíadas, nomeando-os para cargos de governo em diversas províncias, e essa acusação de nepotismo gerou descontentamento que culminou em sua morte: um grupo de rebeldes o assassinou em seiscentos e cinquenta e seis, enquanto ele lia o Alcorão em sua casa.
O quarto califa foi Ali ibn Abi Talib, o primo e genro do profeta, que governou de seiscentos e cinquenta e seis a seiscentos e sessenta e um, em meio a uma série de guerras civis que marcaram para sempre a história do islamismo. Como vimos na aula sobre sunitas e xiitas, o califado de Ali foi marcado pela Batalha do Camelo, pela Batalha de Siffin, pelo surgimento dos kharijitas e por uma crescente fragmentação da comunidade muçulmana. Ali foi assassinado por um kharijita em seiscentos e sessenta e um, e com sua morte os quatro primeiros califas, chamados pelos muçulmanos sunitas de os califas bem-guiados ou al-Khulafa al-Rashidun, haviam chegado ao fim.
Esses quatro califas governaram durante as três décadas mais formativas da história islâmica, quando o islamismo passou de uma religião regional a uma potência mundial, quando as estruturas básicas do Estado islâmico foram criadas e quando os grandes debates sobre a natureza da liderança muçulmana foram pela primeira vez articulados. Para os muçulmanos sunitas, o período dos califas bem-guiados é visto como um tempo de governo exemplar, próximo do ideal islâmico, em que os líderes viviam com simplicidade, tomavam suas decisões em consulta com os sábios da comunidade e aplicavam a lei islâmica com justiça. Para os xiitas, o mesmo período é visto com maior ambivalência, porque inclui o que consideram a injustiça cometida contra Ali ao ser preterido três vezes antes de finalmente se tornar califa.
Com a morte de Ali e o estabelecimento da Dinastia Omeíada por Muawiya ibn Abi Sufyan, o califado entrou numa nova fase. A Dinastia Omeíada governou o mundo islâmico de seiscentos e sessenta e um a setecentos e cinquenta, com capital em Damasco, na Síria. Os omeíadas transformaram o califado de uma liderança relativamente simples e baseada na consulta com os sábios da comunidade num Estado monárquico mais próximo dos impérios que existiam ao redor. Muawiya tomou a decisão de designar seu filho Yazid como seu sucessor, tornando o califado hereditário em vez de eletivo ou baseado na escolha dos representantes da comunidade. Essa decisão foi profundamente controversa: muitos muçulmanos a viam como uma traição ao princípio de que a liderança deveria ir para o mais apto e mais virtuoso, não simplesmente para o filho do governante. Foi precisamente contra essa mudança que Husayn ibn Ali se levantou, com as consequências trágicas que já estudamos.
O califado omeíada foi um período de expansão territorial extraordinária. Os omeíadas foram os arquitetos das conquistas da Espanha, do norte da África, da Ásia Central e do noroeste da Índia. Sob seu governo, o árabe foi estabelecido como língua oficial do Estado em substituição ao grego e ao persa que haviam sido usados anteriormente nas administrações dos territórios conquistados. A moeda islâmica foi padronizada: os omeíadas substituíram as moedas de ouro e prata de design bizantino e sassânida que haviam continuado a circular nos territórios conquistados por novas moedas islâmicas com inscrições em árabe e sem imagens de figuras humanas, porque a tradição islâmica desaconselhava a representação de figuras humanas em objetos de uso público.
A administração omeíada era marcada por uma clara hierarquia étnica: os árabes estavam no topo da pirâmide, seguidos pelos não-árabes que se convertiam ao islamismo, chamados de mawali, que em árabe significa clientes ou protegidos e que apesar de serem muçulmanos não tinham os mesmos direitos e privilégios dos árabes. Essa discriminação étnica dentro do próprio islamismo foi uma das principais fontes de descontentamento que alimentou a revolução que derrubou os omeíadas em setecentos e cinquenta.
A revolução abássida foi um movimento que começou no Khorasan, a região do nordeste do Irã e Afeganistão, onde a população muçulmana não-árabe, principalmente persas e outros povos iranizados, havia se convertido ao islamismo mas continuava a ser tratada como cidadã de segunda classe pelos governadores omeíadas árabes. Os abássidas, que eram descendentes de Abbas, tio do profeta Maomé, mobilizaram essa insatisfação sob uma bandeira religiosa que pregava um retorno ao islamismo genuíno e igualitário dos tempos do profeta, sem a hierarquia étnica dos omeíadas. Em setecentos e cinquenta, o exército abássida derrotou o último califa omeíada, Marwan segundo, que fugiu para o Egito onde foi capturado e morto. A família omeíada foi quase completamente exterminada, com exceção de um príncipe chamado Abd al-Rahman, que fugiu para a Espanha e lá fundou o Emirado de Córdoba, que depois se tornaria o Califado de Córdoba, como veremos a seguir.
A Dinastia Abássida que assumiu o califado em setecentos e cinquenta foi uma das mais longevas da história política islâmica, governando nominalmente até mil duzentos e cinquenta e oito, embora seu poder real tenha se erodido muito antes. Os abássidas transferiram a capital do califado de Damasco para uma nova cidade que mandaram construir às margens do Rio Tigre, no atual Iraque: Bagdá, fundada em setecentos e sessenta e dois pelo califa al-Mansur, que a chamou de Madinat al-Salam, a Cidade da Paz, embora o nome Bagdá, de origem persa, fosse o que persistiu no uso popular.
Bagdá foi construída segundo um plano geométrico circular, com o palácio do califa no centro exato da cidade, simbolizando que o califa era o centro do mundo islâmico. Ao redor do palácio ficavam as residências da família real e da guarda de elite. As muralhas circulares da cidade tinham quatro portões que apontavam para os quatro pontos cardeais, e por esses quatro portões chegavam às mercadorias, as delegações diplomáticas e os estudiosos de todo o mundo conhecido. Em menos de um século, Bagdá cresceu de uma cidade nova para uma das maiores metrópoles do mundo, com uma população que historiadores modernos estimam entre quinhentos mil e um milhão de habitantes em seu apogeu no século nono.
O califado abássida diferiu profundamente do omeíada em seu caráter cultural. Os abássidas eram muito mais permeáveis à influência persa e, em geral, às influências das culturas não-árabes que haviam sido incorporadas ao mundo islâmico. A corte de Bagdá tinha um esplendor e uma sofisticação que faziam lembrar as antigas cortes sassânidas dos reis persas. Os califas usavam roupas luxuosas, viviam em palácios de grande opulência decorados com mosaicos e jardins, e cercavam-se de músicos, poetas, filósofos e sábios. O mais famoso dos califas abássidas, Harun al-Rashid, que governou de setecentos e oitenta e seis a oitocentos e nove, entrou para a imaginação popular como o soberano arquetípico das histórias de As Mil e Uma Noites, um conto cujas histórias foram compiladas em árabe durante o período abássida a partir de fontes persas, indianas e árabes. O filho de Harun al-Rashid, al-Mamun, que governou de oitocentos e treze a oitocentos e trinta e três, foi o mais intelectualmente ambicioso dos califas abássidas: foi ele quem expandiu e sistematizou a Casa da Sabedoria de Bagdá, a instituição que reunia tradutores, matemáticos, astrônomos, médicos e filósofos de todas as origens para traduzir para o árabe todo o conhecimento do mundo antigo e produziu obras originais de grande importância para a história da ciência.
Mas o poder real dos califas abássidas começou a diminuir muito antes de a dinastia chegar ao fim. A causa principal dessa erosão de poder foi a crescente dependência dos califas em relação a guardas militares compostos principalmente por turcos das estepes da Ásia Central. Esses guerreiros turcos, chamados de ghulam ou mamluk, haviam sido inicialmente recrutados como escravos militares pelo califa al-Mutasim no início do século nono porque eram excelentes soldados. Mas rapidamente esses guardas turcos passaram de servidores a controladores: a partir de meados do século nono, foram os comandantes turcos que na prática decidiam quem seria o próximo califa, instalando e depondo califas à vontade. O califa continuava sendo o titular formal do poder, mantendo uma importância simbólica e religiosa enorme como representante da autoridade islâmica, mas o poder político real estava cada vez mais nas mãos dos comandantes militares.
O enfraquecimento do califado central em Bagdá criou espaço para o surgimento de múltiplas dinastias regionais que na prática governavam com autonomia completa, reconhecendo o califa de Bagdá apenas nominalmente como líder religioso supremo. Esse fenômeno de fragmentação política que mantém uma unidade religiosa nominal é uma das características mais importantes da história política islâmica medieval, e é preciso entendê-lo bem.
Na Espanha, o príncipe omeíada Abd al-Rahman que havia fugido do massacre abássida em setecentos e cinquenta chegou à Ibéria em setecentos e cinquenta e seis e estabeleceu o Emirado de Córdoba, governando de forma independente mas reconhecendo inicialmente a autoridade religiosa do califa abássida de Bagdá, ainda que não sua autoridade política. Em novecentos e vinte e nove, o descendente de Abd al-Rahman chamado Abd al-Rahman terceiro deu um passo muito mais ousado: proclamou-se califa, reivindicando para si a chefia suprema do mundo islâmico, num desafio direto tanto aos abássidas de Bagdá quanto aos fatímidas do norte da África, que haviam feito proclamação semelhante pouco antes. O Califado de Córdoba foi um dos centros mais brilhantes da civilização islâmica, com uma capital que na época era talvez a maior e mais sofisticada cidade da Europa Ocidental. A Mesquita de Córdoba, cujas colunas e arcos ainda impressionam os visitantes de hoje, é um dos monumentos arquitetônicos mais belos que a civilização islâmica produziu. Córdoba tinha bibliotecas com centenas de milhares de manuscritos numa época em que a maioria das bibliotecas europeias cristãs contava seus livros em dezenas ou centenas. O Califado de Córdoba entrou em colapso no início do século onze, se fragmentando em pequenos reinos chamados de taifas, ou reinos de taifas, que foram progressivamente reconquistados pelos reinos cristãos do norte da Ibéria ao longo dos séculos seguintes.
No norte da África e no Egito, surgiu a Dinastia Fatímida, que foi o único califado xiita de grande porte da história islâmica. Os fatímidas eram ismaelitas, uma corrente do xiismo que diferia do xiismo duodecimano que mencionamos na aula anterior, e afirmavam descender de Fátima, filha do profeta Maomé, daí o nome da dinastia. Os fatímidas governaram inicialmente a partir de Ifríquia, que é aproximadamente o atual território da Tunísia, mas conquistaram o Egito em novecentos e sessenta e nove e fundaram uma nova capital que chamaram de al-Qahira, a Vitoriosa, que é a cidade que hoje conhecemos pelo nome de Cairo. Os fatímidas proclamaram seu próprio califa, reivindicando a liderança legítima do islamismo contra os abássidas sunitas de Bagdá, e controlaram em seu apogeu o Egito, a Síria, o norte da África e o Yêmen. A Universidade de al-Azhar, fundada pelos fatímidas no Cairo em novecentos e setenta e dois, é considerada a mais antiga instituição de ensino superior do mundo em funcionamento contínuo, e ainda hoje é o centro de teologia islâmica sunita mais importante do mundo, embora sua fundação fatímida xiita seja uma ironia da história.
Os fatímidas foram finalmente derrubados pelo mais famoso dos generais muçulmanos medievais, Saladino, ou Salah al-Din al-Ayyubi em árabe, que foi o fundador da Dinastia Aiúbida. Saladino, de origem curda, havia começado sua carreira como general a serviço de Nur al-Din, o governante sunita da Síria, e foi enviado ao Egito para defender o califado fatímida contra os cruzados. Uma vez em posição de poder no Egito, removeu o último califa fatímida em mil cento e setenta e um e restabeleceu a autoridade sunita. Saladino ficou mais famoso na história pela reconquista de Jerusalém das mãos dos cruzados em mil cento e oitenta e sete, quase um século depois de sua conquista pelos cruzados na Primeira Cruzada.
É aqui que precisamos falar das Cruzadas e de sua relação com a política do califado, porque as Cruzadas representaram um dos maiores desafios externos que o mundo islâmico enfrentou durante o período dos califados. As Cruzadas foram expedições militares organizadas pela Igreja Católica e lideradas por cavaleiros da Europa Ocidental entre mil e noventa e seis e mil duzentos e noventa e um, com o objetivo declarado de reconquistar a Terra Santa, especialmente Jerusalém, que havia sido conquistada pelos muçulmanos no século sete. A Primeira Cruzada conseguiu esse objetivo em mil e noventa e nove, quando um exército cruzado tomou Jerusalém e fundou o Reino de Jerusalém e outros estados cruzados na Síria e no Líbano. Esses estados cruzados sobreviveram por quase dois séculos no coração do mundo islâmico, numa época em que o mundo islâmico estava politicamente fragmentado e incapaz de organizar uma resposta coordenada.
Mas o mundo islâmico não estava apenas ameaçado pelas Cruzadas do oeste. A ameaça mais devastadora veio do leste: os mongóis.
O Império Mongol, fundado por Gengis Khan no início do século treze, foi a maior potência militar que o mundo já havia visto até então. Os mongóis conquistaram a China, a Rússia, a Pérsia e a Ásia Central numa série de campanhas de uma violência sem precedentes. Em mil duzentos e cinquenta e oito, o neto de Gengis Khan, Hulegu, liderou um exército mongol até Bagdá. O califa abássida al-Mustasim recusou se render, e o resultado foi uma das maiores catástrofes da história islâmica: os mongóis sitiaram e tomaram Bagdá, massacraram sua população durante dias, destruíram os palácios e as bibliotecas que haviam sido o centro intelectual do mundo islâmico por cinco séculos, e assassinaram o califa enrolando-o num tapete e pisoteando-o com cavalos, porque uma crença mongola dizia que o sangue de reis não podia ser derramado na terra. Os historiadores árabes medievais descreveram o Rio Tigre correndo preto de tinta dos manuscritos destruídos e vermelho de sangue dos mortos. Embora haja exagero retórico nessa imagem, ela captura o peso do trauma que a queda de Bagdá representou para o mundo islâmico. Quinhentos anos de civilização centrada em Bagdá haviam chegado ao fim em questão de dias.
Com a destruição do califado abássida de Bagdá pelos mongóis, o mundo islâmico precisou reorganizar-se politicamente. O sultanato mamluk do Egito, que havia derrotado os mongóis na batalha de Ain Jalut em mil duzentos e sessenta e que era a potência militar mais importante do mundo islâmico depois da queda de Bagdá, instalou no Cairo um califa abássida sobrevivente como figura puramente cerimonial sem nenhum poder real. Esse califado abássida do Cairo existiu de mil duzentos e sessenta e um a mil quinhentos e dezassete, quando o Egito foi conquistado pelo Império Otomano e o último califa abássida do Cairo foi levado para Istambul como prisioneiro.
O Império Otomano foi a última grande potência islâmica a governar sob o título de califado, e é preciso entendê-lo com algum detalhe porque foi o maior e mais duradouro dos Estados islâmicos da era moderna.
Os otomanos eram uma tribo turca de origem na Anatólia, o atual território da Turquia. Seu fundador, Osman, deu nome à dinastia, e seus sucessores expandiram progressivamente o território otomano. Em mil quatrocentos e cinquenta e três, o sultão Mehmed segundo conquistou Constantinopla, a capital do Império Bizantino, que havia sobrevivido durante mil e cem anos após a queda de Roma. A queda de Constantinopla foi um evento de enorme impacto histórico: significou o fim do Império Romano do Oriente, que havia existido por mais de onze séculos desde sua fundação por Constantino em trezentos e trinta, e estabeleceu o Império Otomano como a potência dominante do Mediterrâneo Oriental. Mehmed segundo transformou a Basílica de Santa Sofia, a mais grandiosa catedral do mundo cristão oriental, em mesquita, num gesto que simbolizava a mudança de civilização que havia ocorrido.
Os otomanos assumiram formalmente o título de califa de formas progressivas ao longo dos séculos quinze e dezasseis. Quando Selim primeiro conquistou o Egito em mil quinhentos e dezassete e derrotou o sultanato mamluk, o último califa abássida do Cairo foi levado para Istambul, e os otomanos assumiram a custódia dos locais sagrados do islamismo, Meca e Medina, tornando-se os guardiões das duas cidades mais sagradas do mundo muçulmano. A partir desse momento, os sultões otomanos governavam o maior Estado islâmico existente e controlavam os locais mais sagrados do islamismo, o que lhes dava uma autoridade enorme no mundo muçulmano mesmo que o título formal de califa não fosse sistematicamente reivindicado por todos os sultões.
O apogeu do Império Otomano foi sob o governo de Suleimão primeiro, chamado pelos europeus de Suleimão o Magnífico e pelos otomanos de Suleimão o Legislador, que governou de mil quinhentos e vinte a mil quinhentos e sessenta e seis. Sob Suleimão, o império abrangia três continentes: a Europa, a Ásia e a África. No norte da África controlava o Egito, a Líbia, a Tunísia e a Argélia. No Oriente Médio controlava a Síria, a Palestina, o Iraque e a maior parte da Arábia. Na Europa controlava os Bálcãs, a Grécia, a Hungria e chegou a sitiar Viena em mil quinhentos e vinte e nove, num momento em que parecia possível que o islamismo pudesse se expandir para o coração da Europa Central.
A administração do Império Otomano era elaborada e funcionava através de uma hierarquia precisa. No topo estava o sultão, que acumulava o poder político e militar com o título religioso de califa. Abaixo do sultão estava o grão-vizir, o principal ministro e administrador do império, que cuidava dos assuntos cotidianos do governo enquanto o sultão se ocupava das questões mais elevadas. O império era dividido em províncias chamadas de vilaíetes, cada uma governada por um governador chamado de valí. O exército de elite dos otomanos era o dos janízaros, soldados que eram recrutados quando crianças das famílias cristãs dos Bálcãs através de um sistema chamado de devshirme, que era uma espécie de tributo de crianças: meninos de talento eram levados de suas famílias, convertidos ao islamismo e educados como soldados ou administradores do Estado otomano. Os melhores tornavam-se grão-vizires e generais. Embora seja difícil imaginar isso pelos padrões de hoje, muitos desses jovens recrutados chegavam a posições de poder extraordinário que jamais teriam alcançado se houvessem permanecido como camponeses nos seus vilarejos de origem.
O sistema jurídico otomano combinava a lei islâmica, chamada de sharia, com um conjunto de leis promulgadas diretamente pelo sultão, chamadas de qanun. O sultão Suleimão ficou conhecido como o Legislador justamente por ter sistematizado o qanun num código jurídico abrangente que regulava a administração, os impostos, o comércio e muitas outras áreas da vida pública além do que a sharia clássica cobria diretamente. Essa combinação de lei islâmica e lei real era uma das inovações mais importantes da governança otomana.
O Império Otomano foi progressivamente enfraquecido a partir do século dezassete por uma combinação de fatores: a ascensão das potências europeias que haviam passado pelo Renascimento, pela Reforma Protestante, pela Revolução Científica e posteriormente pela Revolução Industrial, tornando-se tecnologicamente superiores; os desvios das rotas comerciais para o Atlântico e o Pacífico depois das Grandes Navegações, que reduziram a importância das rotas terrestres do Oriente Médio que haviam sido a base da riqueza otomana; guerras constantes com o Império Safávida persa ao leste e com as potências europeias ao oeste e ao norte; e problemas internos de corrupção, de enfraquecimento da autoridade central e de revoltas nas províncias.
No século dezenove, o Império Otomano havia se tornado o chamado homem doente da Europa, um Estado que sobrevivia principalmente porque as potências europeias não conseguiam chegar a um acordo sobre como dividir seus territórios entre si sem desencadear uma guerra entre elas. Uma série de reformas chamadas de Tanzimat, que significa reorganizações em turco, foi implementada entre mil oitocentos e trinta e nove e mil oitocentos e setenta e seis, tentando modernizar o Estado otomano segundo o modelo europeu. Essas reformas introduziram códigos legais modernos, criaram escolas laicas ao lado das tradicionais escolas islâmicas, e tentaram tratar as populações não-muçulmanas do império como cidadãos com direitos iguais em vez de como dhimmis. Mas as reformas foram incompletas e geraram resistência tanto das populações muçulmanas conservadoras que as viam como uma traição aos princípios islâmicos quanto das populações não-muçulmanas que achavam que não iam suficientemente longe.
A Primeira Guerra Mundial foi fatal para o Império Otomano. Os otomanos entraram na guerra ao lado da Alemanha e do Império Austro-Húngaro, e quando essa coalizão foi derrotada em mil novecentos e dezoito, o Império Otomano foi desmembrado pelas potências vitoriosas. A Grã-Bretanha e a França dividiram entre si o Oriente Médio, criando novos países que ainda existem hoje, como o Iraque, a Síria, o Líbano e a Palestina, com fronteiras que foram traçadas pelos interesses europeus e que frequentemente ignoraram as realidades étnicas, religiosas e tribais locais, gerando problemas que persistem até o século vinte e um.
Na Anatólia, um general otomano chamado Mustafa Kemal liderou um movimento de resistência contra as tentativas de desmembramento da própria Turquia pelas potências europeias, e depois de derrotar as forças gregas e expulsar os exércitos de ocupação europeus, fundou a República da Turquia em mil novecentos e vinte e três. Mustafa Kemal, que ficou conhecido como Atatürk, pai dos turcos, conduziu a Turquia por uma série de reformas de modernização e de laicização radicais: a escrita árabe foi substituída pelo alfabeto latino, o véu islâmico foi proibido nos espaços públicos, a lei islâmica foi substituída por códigos legais baseados nos modelos europeus, as escolas religiosas foram fechadas ou controladas pelo Estado, e, em março de mil novecentos e vinte e quatro, o califado otomano foi formalmente abolido. O último califa, Abdulmejid segundo, foi expulso da Turquia. Pela primeira vez desde a morte do profeta Maomé, o mundo islâmico não tinha nenhum califa.
A abolição do califado foi recebida com choque e tristeza em muito do mundo muçulmano. Líderes islâmicos de vários países tentaram organizar conferências para eleger um novo califa, mas nunca chegaram a um consenso. A questão do califado continuou a fermentar na imaginação política islâmica ao longo do século vinte, e a nostalgia por um Estado islâmico unificado sob um califa foi instrumentalizada por vários movimentos políticos islâmicos, desde os relativamente moderados até os extremistas mais radicais.
Grupos como a Irmandade Muçulmana, fundada no Egito em mil novecentos e vinte e oito por Hassan al-Banna, trabalhavam pela criação de Estados governados pela lei islâmica como passo em direção a uma futura unificação do mundo muçulmano. Na extremidade mais violenta do espectro político, grupos jihadistas como a Al-Qaeda e posteriormente o Estado Islâmico, que proclamou seu próprio califado nos territórios que controlava no Iraque e na Síria entre dois mil e quatorze e dois mil e dezenove, reivindicavam a restauração do califado como objetivo central de sua agenda política. O Estado Islâmico, cujo califado durou apenas alguns anos antes de ser militarmente derrotado, mostrou simultaneamente o apelo que a ideia de califado ainda tem para certas correntes do islamismo político e a rejeição esmagadora que um califado baseado na violência extrema gera na grande maioria dos muçulmanos do mundo.
Ao longo desta aula, vimos que o califado não foi uma instituição estável e uniforme ao longo do tempo, mas algo que mudou dramaticamente em sua natureza, em seu alcance e em seu significado. Os califas bem-guiados governaram uma comunidade pequena e guerreira com relativa simplicidade e consultando os sábios da comunidade. Os califas omeíadas transformaram o califado numa monarquia dinástica ao estilo dos grandes impérios do mundo antigo. Os califas abássidas fizeram do califado o centro de uma civilização cosmopolita e sofisticada que foi uma das mais avançadas intelectualmente de seu tempo. Os califas fatímidas mostraram que era possível um califado xiita de grande poder. O Califado de Córdoba demonstrou que a ideia de califado podia florescer na extremidade ocidental do mundo islâmico com um brilhantismo cultural extraordinário. E os sultões otomanos assumiram o califado como mais um elemento de uma governança que combinava a tradição islâmica com estruturas administrativas e militares de uma modernidade crescente.
Para os exames vestibulares e especialmente para o ENEM, é importante ter claro que o califado não era simplesmente um governo religioso ou simplesmente um governo político: era uma forma de governo que buscava unir as duas dimensões, o que gerou tanto suas forças quanto suas tensões mais profundas. É também importante entender que a fragmentação política do mundo islâmico não significou uma fragmentação cultural ou religiosa da mesma profundidade: mesmo quando havia três califas simultâneos em Bagdá, no Cairo e em Córdoba, os comerciantes, os estudiosos e os peregrinos cruzavam as fronteiras entre eles e mantinham uma civilização islâmica comum com uma notável coerência cultural.
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| Dados de Catalogação na Publicação: NORAT, Markus Samuel Leite. Curso de história para o 1º ano do ensino médio. João Pessoa: Editora Norat, 2026. Livro Digital, Formato: HTML5, Tamanho: 132,4125 gigabytes (132.412.500 kbytes) . ISBN: 978-65-80808-16-8 | Cutter: N825c | CDD-907.12 | CDU-94(100)”-04/17″:373.5 . Palavras-chave: História, Ensino Médio, Pré-História, Civilizações Antigas, Mesopotâmia, Egito Antigo, Grécia Antiga, Roma Antiga, África Antiga, Reinos Africanos, Mundo Árabe-Muçulmano, Idade Média, Feudalismo, Antigo Regime, Monarquias Absolutistas, Renascimento, Humanismo, ENEM, Vestibulares. . TODOS OS DIREITOS RESERVADOS. É proibida a cópia total ou parcial desta obra, por qualquer forma ou qualquer meio. A violação dos direitos autorais é crime tipificado na Lei n. 9.610/98 e artigo 184 do Código Penal. |
