Curso de História para o 1º Ano do Ensino Médio
MÓDULO 9 – O MUNDO ÁRABE-MUÇULMANO
Aula 108 – O declínio do Império Islâmico e a ascensão dos otomanos
Aula 108 – O declínio do Império Islâmico e a ascensão dos otomanos
Para entender como a civilização islâmica, que durante séculos foi a mais avançada do mundo, passou por um período de fragmentação e enfraquecimento, e como um novo poder turco emergiu das ruínas desse processo para construir um dos maiores impérios que o mundo já conheceu, precisamos voltar no tempo e acompanhar esse processo com cuidado e atenção. A história do declínio islâmico e da ascensão otomana é uma das mais dramáticas de toda a Idade Média, repleta de invasões, batalhas decisivas, quedas de cidades lendárias e transformações que mudaram o mapa político e cultural do mundo para sempre.
Vamos começar relembrando o ponto de partida. Nas aulas anteriores, vimos como o mundo islâmico, sob os califas abássidas de Bagdá, havia chegado ao auge de sua grandeza entre os séculos oito e dez. A Casa da Sabedoria funcionava, as cidades cresciam, o comércio florescía e os sábios produziam obras de matemática, medicina, filosofia e astronomia que não tinham paralelo em nenhuma outra civilização da época. Mas já a partir do final do século nove, sinais de crise começaram a aparecer, e ao longo dos séculos seguintes esses sinais foram se tornando cada vez mais graves.
O primeiro grande problema foi interno. O Califado Abássida era um império enorme, que se estendia do norte da África até a Ásia Central, e governar um território tão vasto com os meios de comunicação e de transporte da época era algo muito difícil. Com o tempo, os governadores das províncias distantes foram ganhando cada vez mais autonomia, e muitos deles se tornaram na prática governantes independentes que apenas formalmente reconheciam a autoridade do califa de Bagdá. A autoridade do califa foi sendo reduzida progressivamente até se tornar mais simbólica e religiosa do que política e militar.
Esse enfraquecimento do poder central abriu espaço para que diferentes grupos disputassem o controle das regiões mais importantes do mundo islâmico. No século dez, os fatímidas, que eram xiitas ismaelitas, conquistaram o Egito e fundaram o Cairo, tornando-se um califado rival ao califado abássida sunita de Bagdá. Na Espanha, os omíadas, que haviam sido derrubados pelos abássidas no século oito, haviam se estabelecido e proclamado seu próprio califado em Córdoba. Assim, no início do século onze, o mundo islâmico estava dividido em pelo menos três califados que se declaravam mutuamente ilegítimos, além de inúmeros sultanatos e principalidades menores que agiam com total independência na prática.
Essa fragmentação política foi um problema sério porque dificultou enormemente a capacidade do mundo islâmico de responder de forma unificada às ameaças externas que viriam nos séculos seguintes. E as ameaças foram chegando de vários lados ao mesmo tempo.
A primeira grande ameaça veio do ocidente, na forma das Cruzadas. Em mil e noventa e seis, o papa Urbano II convocou os cristãos da Europa a partirem em guerra para reconquistar Jerusalém, que estava sob controle islâmico desde o século sete. A Primeira Cruzada foi um sucesso militar impressionante para os europeus: em mil e noventa e nove, os cruzados conquistaram Jerusalém após um longo cerco, e o massacre que fizeram da população muçulmana e judaica da cidade ficou gravado na memória histórica islâmica como um trauma profundo. Os cruzados estabeleceram vários estados cristãos no Oriente Próximo, chamados estados cruzados ou estados latinos do oriente, que existiram por quase dois séculos nessa região.
O mundo islâmico levou tempo para responder de forma eficaz às Cruzadas, em parte por causa da fragmentação política que já mencionamos. Mas no final do século doze surgiu uma figura que mudou o equilíbrio de forças: Saladino, cujo nome completo em árabe era Salah ad-Din Yusuf ibn Ayyub. Saladino era de origem curda e havia chegado ao poder no Egito, onde derrubou a dinastia fatímida xiita e restaurou a autoridade sunita. Depois unificou o Egito e a Síria sob seu comando e organizou uma grande contraofensiva contra os estados cruzados. Em mil e cento e oitenta e sete, na Batalha de Hattin, Saladino derrotou de forma decisiva o exército do Reino de Jerusalém e poucos meses depois reconquistou a cidade sagrada, respeitando a vida e os bens dos habitantes cristãos, em contraste marcante com o massacre que os cruzados tinham feito oitenta e oito anos antes.
A reconquista de Jerusalém por Saladino desencadeou a Terceira Cruzada, que trouxe ao Oriente Próximo os maiores reis da Europa, incluindo Ricardo Coração de Leão da Inglaterra. Essa cruzada terminou sem que os europeus reconquistassem Jerusalém, mas com um tratado que permitia aos peregrinos cristãos visitar a cidade. As cruzadas continuaram ao longo dos séculos seguintes, mas nenhuma delas conseguiu resultados comparáveis aos da Primeira Cruzada. Em mil duzentos e noventa e um, a última grande cidade cruzada, Acre, caiu nas mãos dos mamelucos do Egito, e a presença cruzada no Oriente Próximo chegou ao fim. As Cruzadas haviam custado muito ao mundo islâmico em vidas, recursos e destruição, mas o mundo islâmico havia resistido e eventualmente expulsado os invasores.
Enquanto as Cruzadas ocupavam as fronteiras ocidentais do mundo islâmico, um perigo muito mais existencial estava se formando nas estepes da Ásia Central. Na primeira metade do século treze, os mongóis, liderados por Gengis Khan e depois por seus sucessores, construíram o maior império terrestre da história, varrendo a Ásia Central e chegando até a Europa oriental. Em meados do século treze, chegou a vez do mundo islâmico ser atingido por essa onda de conquistas.
Em mil duzentos e cinquenta e oito, o neto de Gengis Khan chamado Hulagu Khan, liderou um exército mongol imenso até às portas de Bagdá. O califa abássida al-Mustasim se recusou a se render e foi derrotado rapidamente. O que se seguiu foi um dos episódios mais devastadores da história da civilização islâmica. Os mongóis sitiaram e tomaram Bagdá e destruíram a cidade de forma sistemática e brutal. Bibliotecas que continham séculos de conhecimento acumulado foram incendiadas. A Casa da Sabedoria, aquele centro intelectual incomparável que havia abrigado os maiores sábios do mundo islâmico por mais de quatro séculos, foi destruída. Conta a tradição que tantos livros foram jogados no Rio Tigre que as águas do rio ficaram negras de tinta durante dias. O califa al-Mustasim foi capturado e executado, encerrando o califado abássida de Bagdá que havia durado desde o ano setecentos e cinquenta até mil duzentos e cinquenta e oito, mais de quinhentos anos de história.
A destruição de Bagdá foi um choque civilizacional de magnitude difícil de imaginar. Era como se a cidade mais importante, mais culta e mais rica do mundo islâmico tivesse sido simplesmente apagada do mapa em questão de dias. As estimativas de mortos variam enormemente, mas os números são todos aterradores: algumas fontes falam em centenas de milhares de vítimas. A cidade levaria séculos para se recuperar minimamente do que os mongóis fizeram naquele inverno de mil duzentos e cinquenta e oito.
Os mongóis continuaram seu avanço para o oeste, conquistando a Síria e ameaçando o Egito. Mas em setembro de mil duzentos e sessenta, os mamelucos egípcios, uma dinastia militar de origem turca e circassiana que governava o Egito, derrotaram os mongóis na Batalha de Ain Jalut, na atual Israel. Foi a primeira grande derrota dos mongóis em campo aberto e marcou o limite ocidental de sua expansão. O Egito mameluco se tornou o principal centro de poder sunita no mundo islâmico após a destruição de Bagdá, e os mamelucos abrigaram uma linhagem de califas abássidas que sobreviveram à conquista mongol e continuaram a exercer autoridade religiosa simbólica, sem poder político real.
Os próprios mongóis, curiosamente, ao longo do tempo foram sendo absorvidos pelo islamismo. A maioria dos governantes mongóis do mundo islâmico se converteu ao islamismo nas décadas seguintes à conquista e acabou se tornando defensora da civilização que havia destruído. Mas o dano feito às estruturas intelectuais, econômicas e políticas do mundo islâmico central foi imenso e duradouro.
No meio de todo esse turbilhão de cruzadas, invasões mongóis e fragmentação política, um povo turco havia chegado ao mundo islâmico e desempenhado um papel decisivo na história da região: os turcos seljúcidas. Os seljúcidas eram originários das estepes da Ásia Central e haviam se convertido ao islamismo sunita no século dez. Guerreiros natos, foram gradualmente penetrando nas fronteiras orientais do mundo islâmico e ganhando poder como soldados a serviço dos califas e dos sultões locais.
Em mil e cinquenta e cinco, o líder seljúcida Tughril Beg entrou em Bagdá, libertou o califa abássida que estava sob controle dos buwáyidas, uma dinastia de origem persa e de tendência xiita que havia dominado o califado por mais de um século, e recebeu do califa o título de sultão. A partir desse momento, os seljúcidas se tornaram os protetores militares do califado abássida e os governantes efetivos de um imenso território que se estendia da Pérsia até a Anatólia.
Em mil e setenta e um, os seljúcidas obtiveram uma das vitórias mais consequentes de toda a história medieval: na Batalha de Manzikert, no leste da Anatólia, o sultan seljúcida Alp Arslan derrotou de forma esmagadora o exército do Império Bizantino e capturou o próprio imperador romano, Romano IV Diógenes. Essa vitória abriu a Anatólia, que é a península onde hoje se situa o território principal da Turquia, para a colonização pelos povos turcos. Ao longo das décadas seguintes, tribos turcas de diversas origens foram se estabelecendo na Anatólia, que era até então um território predominantemente cristão grego, e foram transformando essa região em uma terra de língua turca e de fé islâmica. Os seljúcidas estabeleceram nessa região o Sultanato de Rum, assim chamado porque Rum era o nome árabe para Roma, referência ao fato de que essa região havia sido anteriormente território do Império Romano do Oriente.
Os seljúcidas, porém, também sofreram com a fragmentação interna e com o impacto das cruzadas e, mais tarde, dos mongóis. O Sultanato de Rum foi seriamente enfraquecido pela invasão mongol do século treze e acabou se fragmentando em diversas principalidades menores, chamadas em turco de beylikler, que significa algo como principados ou senhorios. Cada um desses beylikler era governado por um bey, um chefe turco, e competia com os outros pelo território e pelos recursos da Anatólia.
É exatamente nesse contexto de fragmentação que nasce a história dos otomanos. E essa história começa de forma bastante modesta, em uma pequena região no noroeste da Anatólia, próximo à fronteira com o território ainda controlado pelo Império Bizantino.
Por volta do final do século treze, um chefe turco chamado Ertugrul liderava uma tribo que havia recebido do sultão seljúcida terras nessa região de fronteira. Quando Ertugrul morreu, por volta de mil duzentos e oitenta e um ou mil duzentos e oitenta e dois, seu filho Osman assumiu a liderança da tribo. Osman é a figura que deu nome à dinastia e ao império: em turco, a palavra para seus descendentes e para seu império é Osmanlı, que em outros idiomas se tornou otomano, e em português também usamos otomano para nos referir a esse império. O ano de mil duzentos e noventa e nove é convencionalmente usado como o início do Sultanato Otomano, embora a data exata seja difícil de determinar com precisão.
Osman era um guerreiro de grande habilidade e de uma visão política notável. Sua posição geográfica na fronteira com o Império Bizantino era ao mesmo tempo perigosa e cheia de oportunidades. Perigosa porque o Império Bizantino, embora muito mais fraco do que havia sido em seus dias de glória, ainda era uma força militar significativa. Mas cheia de oportunidades porque a conquista de território cristão em nome do islamismo atraía para as hostes de Osman guerreiros religiosos de toda a Anatólia, homens que os turcos chamavam de gazis, guerreiros da fé, dispostos a lutar por um líder que avançava contra os infiéis.
Essa ideia de guerra santa como motor de expansão foi um dos elementos fundamentais do sucesso otomano inicial. Osman conseguiu atrair não apenas turcos, mas guerreiros de diversas origens que se juntavam a ele pela promessa de conquista, de butim e de mérito espiritual. Ao mesmo tempo, Osman mostrou uma habilidade política rara ao tratar com generosidade os povos que se submetiam a ele voluntariamente, cristãos incluídos, o que facilitou muito sua expansão em regiões de maioria cristã.
Osman morreu por volta de mil trezentos e vinte e seis, mas seus últimos anos foram marcados por uma conquista importantíssima: a cidade de Bursa, uma das principais cidades da Anatólia ocidental, foi sitiada pelos otomanos e se rendeu em mil trezentos e vinte e seis. Bursa se tornou a primeira grande capital otomana e o símbolo do novo poder que estava emergindo.
O filho de Osman, Orhan, que governou de mil trezentos e vinte e seis até mil trezentos e sessenta e dois, foi responsável por transformar o que havia sido uma tribo guerreira em algo que começava a parecer um Estado organizado. Orhan criou instituições administrativas, organizou um sistema fiscal e, crucialmente, criou um corpo de infantaria profissional pago, diferente dos guerreiros voluntários que haviam sido o núcleo das forças de seu pai. Esse profissionalismo militar seria uma das grandes vantagens otomanas ao longo de toda a história do império.
Mas a grande novidade do reinado de Orhan foi a expansão para a Europa. Em mil trezentos e cinquenta e quatro, os otomanos cruzaram o Estreito dos Dardanelos e estabeleceram uma posição permanente na Península de Gallipoli, na Europa. Era o primeiro passo de uma expansão europeia que transformaria completamente o mapa político do continente. Orhan morreu com o domínio otomano firmemente estabelecido em partes da Trácia, a região europeia que hoje é dividida entre a Grécia, a Bulgária e a Turquia.
Murad I, que governou de mil trezentos e sessenta e dois a mil trezentos e oitenta e nove, levou a expansão europeia otomana a um novo nível. Em mil trezentos e sessenta e três, os otomanos conquistaram Adrianópolis, a grande cidade romana que os turcos chamaram de Edirne, e Murad a transformou na nova capital do sultão, transferindo o centro político do poder otomano da Anatólia para a Europa. Essa mudança tinha um significado enorme: os otomanos não eram apenas uma potência asiática que fazia incursões na Europa; eles estavam construindo seu Estado na Europa, com capital europeia.
Foi também durante o reinado de Murad que os otomanos criaram uma das instituições mais importantes de sua história militar: o corpo dos jenízaros. Os jenízaros eram uma tropa de elite de infantaria formada por jovens cristãos que eram recrutados compulsoriamente nas regiões conquistadas através de um sistema chamado devshirme, que significa coleta em turco. Meninos cristãos de oito a dezoito anos eram selecionados nas aldeias dos Bálcãs, levados para Constantinopla, convertidos ao islamismo, educados em língua turca e treinados como soldados de elite ou como administradores do Estado. Os que seguiam a carreira militar tornavam-se os jenízaros, considerados a melhor infantaria do mundo em sua época. Os que seguiam a carreira administrativa podiam chegar aos mais altos cargos do império, incluindo o de grão-vizir, que era o equivalente ao primeiro-ministro.
O sistema do devshirme parece cruel pela perspectiva moderna, e havia um elemento brutal no fato de separar crianças de suas famílias. Mas é importante entender que dentro da lógica otomana os jovens selecionados tinham acesso a educação, poder e prosperidade que jamais teriam tido em suas aldeias natais, e alguns dos maiores estadistas e generais otomanos vieram desse sistema. Para muitas famílias pobres dos Bálcãs, ter um filho selecionado para o devshirme era visto com uma mistura de tristeza pela separação e de esperança pelas oportunidades que isso abriria para a criança.
Murad I morreu em mil trezentos e oitenta e nove, logo após a Batalha de Kosovo, no atual território da Sérvia, onde os otomanos derrotaram uma coalizão de príncipes cristãos dos Bálcãs liderada pelos sérvios. A Batalha de Kosovo foi um dos eventos mais marcantes da história balcânica, cantada em poemas e lendas que ainda fazem parte da identidade cultural sérvia. Segundo a tradição, Murad foi assassinado por um nobre sérvio chamado Miloš Obilić logo após a batalha. Mas a vitória otomana foi completa, e a Sérvia passou a ser um Estado vassalo do sultão.
Bayezid I, filho de Murad, assumiu o comando no próprio campo de batalha de Kosovo e governou de mil trezentos e oitenta e nove a mil quatrocentos e dois. Bayezid era um homem de ação extraordinária, e sua velocidade de movimento lhe valeu o apelido de Yıldırım, que em turco significa raio ou trovão. Bayezid expandiu rapidamente os domínios otomanos na Europa e na Ásia Menor, submeteu praticamente todos os principados turcos da Anatólia e sitiou Constantinopla por vários anos, praticamente estrangulando a antiga capital do Império Bizantino que resistia teimosamente.
Mas Bayezid encontrou um adversário que não esperava. Do leste, avançava um conquistador ainda mais temível do que qualquer adversário anterior: Timur, conhecido no Ocidente como Tamerlão, um líder turco-mongol que havia construído um novo e imenso império com capital em Samarcanda e que considerava os otomanos rivais perigosos. Em mil quatrocentos e dois, na Batalha de Ancara, Timur destruiu completamente o exército otomano. Bayezid foi capturado e morreu em cativeiro alguns meses depois. Foi o maior desastre militar da história otomana até aquele momento, e abriu um período de crise e de guerra civil entre os filhos de Bayezid que os historiadores chamam de Interregno Otomano, que durou de mil quatrocentos e dois a mil quatrocentos e treze.
Por onze anos, os filhos de Bayezid lutaram entre si pelo controle do trono otomano. Foi um período de grande instabilidade, durante o qual parecia possível que o Império Otomano simplesmente se desintegrasse. Mas Mehmed I, o mais habilidoso dos filhos de Bayezid, derrotou progressivamente seus irmãos e reunificou o império em mil quatrocentos e treze. Mehmed I é chamado pelos historiadores otomanos de o segundo fundador do império, porque foi ele quem reconstruiu o Estado otomano após o desastre de Ancara.
Seu filho Murad II, que governou de mil quatrocentos e vinte e um a mil quatrocentos e cinquenta e um com uma breve interrupção, retomou a expansão e consolidou o poder otomano nos Bálcãs e na Anatólia. Murad II enfrentou várias cruzadas organizadas pelos estados cristãos da Europa para conter o avanço otomano, e as derrotou todas. A mais famosa foi a Cruzada de Varna em mil quatrocentos e quarenta e quatro, em que os otomanos destruíram completamente um exército húngaro, polonês e valaco liderado pelo rei Vladislau III da Polônia, que morreu na batalha. Essa derrota foi um golpe definitivo nas esperanças cristãs de expulsar os otomanos dos Bálcãs.
Em mil quatrocentos e cinquenta e um, Murad II morreu e seu filho de dezenove anos subiu ao trono. Esse jovem se tornaria um dos personagens mais marcantes de toda a história medieval: Mehmed II, que entraria para a história com o título de Fatih, que em turco significa o Conquistador. E a conquista que lhe daria esse título era a que todos os sultões otomanos haviam sonhado e que nenhum havia conseguido realizar: a tomada de Constantinopla.
Constantinopla era a cidade mais famosa do mundo cristão medieval. Havia sido a capital do Império Romano do Oriente, o chamado Império Bizantino, por mais de mil anos. Suas muralhas triplas, construídas pelo imperador Teodósio II no século cinco e constantemente reforçadas ao longo dos séculos, haviam resistido a inúmeros cercos: dos ávaros, dos árabes, dos búlgaros, dos russos, e dos próprios otomanos nos séculos anteriores. A cidade havia caído apenas uma vez, em mil duzentos e quatro, e havia sido saqueda pelos próprios cruzados cristãos num episódio vergonhoso que ainda envenenava as relações entre o catolicismo romano e o cristianismo ortodoxo.
Em mil quatrocentos e cinquenta e três, Constantinopla era uma sombra do que havia sido em seu apogeu. A população havia diminuído enormemente, de talvez meio milhão de habitantes em seu auge para talvez cinquenta ou cem mil. O território do Império Bizantino havia se reduzido praticamente à cidade e seus arredores imediatos. O imperador Constantino XI Paleólogo pedia auxílio desesperado ao Papa e aos reis da Europa cristã, mas a ajuda que chegou foi mínima.
Mehmed II passou meses preparando meticulosamente o cerco. Construiu uma fortaleza no lado europeu do Estreito do Bósforo para controlar o tráfego marítimo que abastecia a cidade. Reuniu um exército que as fontes estimam entre oitenta mil e cem mil homens, um número enorme para os padrões da época. E recrutou um engenheiro húngaro chamado Urbano que havia oferecido seus serviços a Constantino XI mas não havia recebido pagamento adequado. Para Mehmed, Urbano construiu canhões de um tamanho que o mundo ainda não havia visto, incluindo um monstro que disparava projéteis de pedra de mais de quinhentos quilos a mais de um quilômetro de distância. Esses canhões gigantescos eram uma tecnologia relativamente nova na arte da guerra, e Mehmed compreendeu antes da maioria dos governantes de sua época o poder revolucionário que eles tinham para destruir as muralhas medievais que até então pareciam impenetráveis.
O cerco começou em abril de mil quatrocentos e cinquenta e três. As muralhas de Teodósio resistiram melhor do que Mehmed esperava; os grandes canhões eram lentos para carregar e às vezes se quebravam com o calor do disparo. Dentro da cidade, o imperador Constantino XI organizou a defesa com os recursos que tinha, que eram poucos: menos de dez mil defensores contra o exército imenso dos otomanos.
Um dos episódios mais impressionantes do cerco foi a manobra que Mehmed executou para superar a corrente que os bizantinos haviam estendido pela boca do Corno de Ouro, o braço de mar que protegia o lado norte da cidade, para impedir a entrada da frota otomana. Em vez de tentar forçar a passagem pela corrente, Mehmed mandou construir um caminho de madeira untado com graxa de animal e fez seus navios serem arrastados pela terra firme por cima das colinas ao norte da cidade, sendo colocados diretamente dentro do Corno de Ouro pela margem oposta. Essa operação, realizada durante a noite de vinte e dois de abril, foi uma das maiores surpresas estratégicas da história militar medieval. Os defensores acordaram de manhã para ver a frota otomana dentro do Corno de Ouro, cortando a comunicação norte da cidade.
Na madrugada de vinte e nove de maio de mil quatrocentos e cinquenta e três, Mehmed ordenou o assalto final. Após horas de combate violentíssimo, os otomanos encontraram um portão secundário das muralhas que havia sido deixado aberto por descuido e penetraram pela cidade. Os defensores, já exaustos depois de semanas de cerco, não conseguiram conter a maré. O imperador Constantino XI Paleólogo, que havia recusado todas as ofertas de rendição e de salvo-conduto, morreu combatendo nas muralhas, e seu corpo nunca foi identificado com certeza. Entrou para a história como o último imperador romano, e sua morte marcou o fim de uma linha de continuidade que podia ser traçada até os imperadores romanos do século primeiro depois de Cristo.
Mehmed II entrou em Constantinopla no dia vinte e nove de maio de mil quatrocentos e cinquenta e três. Segundo a tradição, sua primeira atitude foi ir à Hagia Sophia, a grande catedral cristã que havia sido o coração espiritual do Império Bizantino por mais de novecentos anos, e fazer ali a oração islâmica, convertendo o edifício em mesquita. Constantinopla foi rebatizada de Istanbul, nome que deriva provavelmente da expressão grega eis tin polin, que significa em direção à cidade, e se tornou a nova capital do Império Otomano.
A queda de Constantinopla foi um evento de consequências históricas imensas. Para o mundo cristão europeu, foi um choque traumático. A cidade que havia sido por séculos o símbolo da civilização cristã oriental, a guardiã das tradições do Império Romano, havia caído. Muitos estudiosos cristãos e greco-ortodoxos fugiram para a Itália levando consigo manuscritos gregos antigos que na Europa ocidental eram desconhecidos ou que existiam apenas em tradução latina. Esses manuscritos, e os eruditos que os trouxeram, contribuíram de forma significativa para o movimento do Renascimento italiano, estimulando o interesse pelos textos originais gregos e pelo pensamento clássico.
Para o comércio europeu, a queda de Constantinopla agravou um problema que já vinha se tornando cada vez mais sério: o controle das rotas comerciais terrestres entre a Europa e a Ásia. As especiarias, as sedas e outras mercadorias preciosas da Ásia chegavam à Europa por rotas que passavam pelo Oriente Próximo e pelo Mediterrâneo Oriental. Com o Império Otomano no controle dessas rotas, os comerciantes europeus tinham que pagar impostos e pedágios altíssimos, e a possibilidade de acesso direto à Ásia por mar se tornou cada vez mais atraente. Muitos historiadores apontam a queda de Constantinopla como um dos fatores que motivaram os reis portugueses e espanhóis a financiar as expedições marítimas de exploração que resultariam no descobrimento da rota marítima para a Índia por Vasco da Gama em mil quatrocentos e noventa e oito e no descobrimento da América por Colombo em mil quatrocentos e noventa e dois. Assim, a queda de uma cidade medieval no Bósforo em mil quatrocentos e cinquenta e três está conectada, de uma forma que poucos percebem, ao início da era das grandes navegações e à chegada dos portugueses ao Brasil em mil e quinhentos.
Para o próprio mundo islâmico, a queda de Constantinopla foi recebida como um triunfo histórico e religioso. Meca e os outros lugares sagrados do islamismo estavam sob controle egípcio mameluco. Mas agora os otomanos controlavam Constantinopla, uma das cidades mais importantes do mundo. Mehmed II foi saudado como o guerreiro que havia realizado uma profecia atribuída ao próprio profeta Maomé, que teria dito que Constantinopla seria um dia conquistada pelos muçulmanos. O Império Otomano assumia assim não apenas o poder político que havia pertencido ao Império Bizantino, mas também o prestígio simbólico de ser o mais poderoso Estado do mundo islâmico.
Os historiadores convencionalmente usam a queda de Constantinopla em mil quatrocentos e cinquenta e três como uma das marcas do fim da Idade Média e do início da Idade Moderna. Essa divisão é uma convenção, e como toda convenção tem seus limites, mas ela capta algo real: a tomada de Constantinopla pelos otomanos foi um ponto de virada que transformou permanentemente a geopolítica da Europa, do Oriente Próximo e do Mediterrâneo, e cujas consequências se fizeram sentir em todo o mundo.
O Império Otomano que nasceu desse processo não era apenas um novo poder militar. Era um Estado multiétnico, multicultural e multirreligioso de enorme sofisticação, que integrava turcos, gregos, sérvios, húngaros, árabes, persas, judeus, cristãos e muçulmanos de dezenas de origens diferentes numa estrutura política única. No auge de seu poder, nos séculos dezesseis e dezessete, o Império Otomano controlaria três continentes, da Hungria ao Iêmen, do Marrocos ao Iraque, e seria a maior potência do mundo mediterrâneo e do Oriente Próximo.
Para quem se prepara para o ENEM e os vestibulares, é importante entender alguns pontos essenciais sobre esse período. O declínio do poder islâmico central não significou o fim da civilização islâmica: pelo contrário, o Império Otomano se tornaria um dos centros mais vibrantes dessa civilização. As questões do ENEM sobre esse período frequentemente pedem que os alunos entendam as conexões entre acontecimentos aparentemente separados: como as invasões mongóis afetaram a estabilidade do mundo islâmico, como a queda de Constantinopla se relaciona com as Grandes Navegações, como o sistema devshirme refletia a lógica de organização do Estado otomano, e como a expansão otomana afetou o equilíbrio de forças na Europa.
O que podemos aprender de tudo isso? Que as grandes transformações históricas raramente têm uma causa única. O declínio do poder islâmico abássida resultou de uma combinação de fragmentação interna, pressão das cruzadas e devastação mongola. A ascensão otomana resultou de uma combinação de talento militar, habilidade política, localização geográfica estratégica e uma ideologia religiosa que atraía guerreiros de múltiplas origens. E a queda de Constantinopla, por sua vez, produziu efeitos que se irradiaram pelo mundo todo, conectando a história do Oriente com a história do Ocidente de formas que ainda moldam o mundo em que vivemos hoje.
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| Dados de Catalogação na Publicação: NORAT, Markus Samuel Leite. Curso de história para o 1º ano do ensino médio. João Pessoa: Editora Norat, 2026. Livro Digital, Formato: HTML5, Tamanho: 132,4125 gigabytes (132.412.500 kbytes) . ISBN: 978-65-80808-16-8 | Cutter: N825c | CDD-907.12 | CDU-94(100)”-04/17″:373.5 . Palavras-chave: História, Ensino Médio, Pré-História, Civilizações Antigas, Mesopotâmia, Egito Antigo, Grécia Antiga, Roma Antiga, África Antiga, Reinos Africanos, Mundo Árabe-Muçulmano, Idade Média, Feudalismo, Antigo Regime, Monarquias Absolutistas, Renascimento, Humanismo, ENEM, Vestibulares. . TODOS OS DIREITOS RESERVADOS. É proibida a cópia total ou parcial desta obra, por qualquer forma ou qualquer meio. A violação dos direitos autorais é crime tipificado na Lei n. 9.610/98 e artigo 184 do Código Penal. |
