Curso de História para o 1º Ano do Ensino Médio
MÓDULO 9 – O MUNDO ÁRABE-MUÇULMANO
Aula 107 – As contribuições da civilização árabe: matemática, medicina, astronomia e filosofia
Aula 107 – As contribuições da civilização árabe: matemática, medicina, astronomia e filosofia
Vamos começar esta aula com um experimento mental simples. Pense em como você resolveria uma conta de multiplicação usando os números romanos. O número 1446, por exemplo, seria escrito como MCDXLVI. Agora tente multiplicar esse número por 312, que seria CCCXII. Parece impossível, não parece? E era quase impossível mesmo, o que explica por que a matemática avançada demorou tanto a se desenvolver na Europa medieval. Agora imagine receber de presente um sistema em que mil e quatrocentos e quarenta e seis se escreve com quatro algarismos, incluindo o zero, e em que qualquer cálculo, por mais complexo que seja, pode ser realizado com as mesmas dez figuras que você aprendeu na infância. Esse presente foi dado ao mundo pela civilização árabe medieval. E isso é apenas um exemplo entre dezenas do que os sábios árabes e do mundo islâmico contribuíram para a história humana. Nesta aula, vamos percorrer com cuidado as principais contribuições da civilização árabe nas quatro grandes áreas do conhecimento que mais marcaram a história da humanidade: a matemática, a medicina, a astronomia e a filosofia. E ao final, você vai entender por que essa história importa não apenas para os livros, mas para a sua vida concreta de todos os dias.
Antes de entrar nos detalhes, é importante esclarecer o que queremos dizer com civilização árabe neste contexto. Quando falamos das contribuições da civilização árabe medieval, não nos referimos exclusivamente aos povos de origem étnica árabe. Referimo-nos à civilização que se desenvolveu em torno da língua árabe e da cultura islâmica entre os séculos oito e quinze depois de Cristo, uma civilização que incluiu árabes, persas, berberes, turcos, judeus e cristãos de diferentes origens, todos contribuindo para um projeto intelectual comum usando o árabe como língua de cultura, da mesma forma que os europeus medievais usavam o latim como língua comum de conhecimento independentemente de sua origem nacional. Quando dizemos que al-Khwarizmi foi um matemático árabe, estamos dizendo que ele escreveu em árabe e trabalhou dentro da tradição intelectual islâmica, embora sua origem étnica fosse provavelmente do Khorasan, a região entre o atual Irã e o atual Uzbequistão. Essa distinção é importante para não simplificar uma realidade que foi sempre muito diversa e multicultural.
Com essa ressalva feita, vamos começar pela matemática, porque é aqui que a contribuição árabe foi mais revolucionária em termos de seus efeitos sobre o cotidiano das pessoas.
Quando os exércitos islâmicos conquistaram a Pérsia no século sete e a Índia nos séculos seguintes, os sábios muçulmanos entraram em contato com uma tradição matemática indiana de extraordinária sofisticação. Os matemáticos indianos haviam desenvolvido um sistema de numeração posicional baseado em dez algarismos, incluindo um símbolo para o nada, que em sânscrito era chamado de sunya e que é a origem da nossa palavra zero. Nesse sistema, o valor de um algarismo depende não apenas de qual algarismo é, mas também de qual posição ocupa no número: um três na posição das unidades vale três, mas um três na posição das centenas vale trezentos. Esse princípio posicional, que parece óbvio para quem cresceu com ele, foi uma das maiores invenções intelectuais da história humana, porque torna possível representar qualquer número, por maior que seja, com apenas dez figuras, e realizar operações aritméticas de qualquer complexidade de forma sistemática e relativamente simples.
Os sábios árabes estudaram esse sistema com entusiasmo, o refinaram e, crucialmente, escreveram sobre ele em árabe de forma clara e acessível. O matemático mais importante nessa transmissão foi Muhammad ibn Musa al-Khwarizmi, que trabalhava na Casa da Sabedoria de Bagdá no início do século nono. Al-Khwarizmi escreveu um livro intitulado Sobre o Cálculo com Algarismos Indianos, no qual explicou o sistema de numeração posicional de forma tão clara e didática que o livro foi traduzido para o latim dois séculos depois e se tornou o principal veículo pelo qual esse sistema de numeração chegou à Europa. Os europeus chamaram esses algarismos de arábicos porque os aprenderam através dos textos de al-Khwarizmi e de outros sábios árabes, e esse nome persiste até hoje, embora a origem mais remota do sistema seja indiana. E há mais um detalhe que pouquíssimas pessoas conhecem: a palavra algoritmo, que é fundamental em informática, programação e inteligência artificial e que significa uma sequência de passos para resolver um problema, é uma latinização do próprio nome al-Khwarizmi. Quando os europeus medievais latinizaram seu nome como Algorismus, os procedimentos de cálculo que ele descrevia passaram a ser chamados de algoritmos. Cada vez que um programador fala em algoritmo, está, sem saber, usando o nome de um matemático persa de Bagdá do século nono.
Mas al-Khwarizmi não ficou conhecido apenas por ter transmitido o sistema de numeração indiano ao Ocidente. Ele ficou ainda mais famoso por outra obra, cujo título em árabe era Hisab al-Jabr wal-Muqabala, que podemos traduzir como o cálculo pela restauração e pela comparação. O nome pode parecer estranho, mas a segunda palavra do título, al-jabr, que designava uma das operações de mover termos de um lado para o outro de uma equação, é a origem direta da palavra álgebra, que usamos até hoje. Nessa obra, al-Khwarizmi não apenas resolveu equações específicas: ele desenvolveu métodos gerais para resolver classes inteiras de equações de primeiro e de segundo grau. Esse é o passo fundamental que transforma a matemática de uma coleção de truques para situações específicas em uma ciência com métodos gerais e universais. Quando hoje um estudante de primeiro ano do Ensino Médio resolve uma equação do segundo grau usando a fórmula de Bhaskara, está aplicando uma tradição que passa diretamente pelo trabalho de al-Khwarizmi em Bagdá no século nono.
Outros matemáticos árabes e islâmicos avançaram muito além de al-Khwarizmi. Thabit ibn Qurra, que viveu em Bagdá no século nono e era de origem sabeia, uma religião pré-islâmica da Mesopotâmia, fez contribuições importantes à teoria dos números e foi um dos primeiros a estudar sistematicamente os números amigáveis, pares de números em que cada um é igual à soma dos divisores do outro, uma área de investigação matemática que ainda interessa aos matemáticos modernos. Abu al-Wafa al-Buzjani, que viveu no século dez, desenvolveu conceitos importantes na trigonometria, introduzindo a tangente como função trigonométrica e calculando tabelas trigonométricas de grande precisão. Sua contribuição para a trigonometria foi tão importante que alguns historiadores da matemática o consideram o verdadeiro fundador da trigonometria moderna, embora esse título seja geralmente dado a outros nomes mais famosos.
Já mencionamos antes Omar Khayyam, que além de ser um dos maiores poetas da língua persa foi também um matemático de primeira grandeza. No campo da matemática, Khayyam resolveu equações cúbicas, que são equações com termos elevados ao cubo, usando uma abordagem geométrica baseada na interseção de curvas cônicas. Essa solução foi um avanço significativo que os matemáticos europeus só alcançariam séculos depois de forma independente. Khayyam também trabalhou em geometria e deu contribuições ao que hoje chamamos de geometria não-euclidiana, ao questionar a validade do quinto postulado de Euclides sobre as paralelas, uma questão que só seria resolvida definitivamente no século dezenove pelos matemáticos europeus Gauss, Bolyai e Lobachevsky.
Al-Kashi, que trabalhou no observatório de Samarcanda no século quinze, calculou o valor do pi com dezasseis casas decimais, superando todos os cálculos anteriores em mais de dez vezes em precisão. Ele também desenvolveu o conceito e o uso sistemático das frações decimais, que são fundamentais para a matemática e para as ciências modernas. Quando usamos um número como três virgula quatorze para representar o pi, estamos usando uma notação decimal que deve muito ao trabalho de al-Kashi.
A herança matemática árabe está tão profundamente incorporada na matemática moderna que é praticamente impossível separá-la. Os algarismos que usamos, a álgebra que estudamos, as funções trigonométricas que aprendemos, o conceito de algoritmo que está na base de toda a computação moderna, todos esses elementos essenciais da matemática contemporânea passaram pelo filtro da civilização árabe medieval. Isso não significa que a matemática árabe criou tudo do nada: ela integrou contribuições indianas, gregas, babilônicas e persas. Mas foi ela que sintetizou essas contribuições, as avançou e as transmitiu ao mundo de uma forma que tornou possível a matemática moderna.
Passemos agora à medicina, outro campo em que a contribuição árabe medieval foi absolutamente decisiva para a história da ciência e para o bem-estar da humanidade.
A medicina islâmica medieval começou por herdar e estudar a medicina grega, especialmente as obras de Hipócrates, que é considerado o pai da medicina ocidental, e de Galeno, o médico grego do século segundo que sistematizou o conhecimento médico da Antiguidade. Mas os médicos árabes medievais foram muito além de simplesmente copiar os gregos: testaram as teorias gregas na prática clínica, corrigiram os erros que encontraram e produziram obras originais de grande importância.
A figura central da medicina islâmica medieval é Ibn Sina, conhecido na Europa pelo nome latinizado de Avicena, que nasceu em novecentos e oitenta e um próximo de Bukhara, no atual Uzbequistão, e morreu em mil e trinta e sete no Irã. Ibn Sina foi um dos intelectos mais extraordinários que a humanidade já produziu. Conta-se que havia memorizado o Alcorão completo aos dez anos e que aos dezasseis anos já tratava doentes e ensinava medicina a médicos adultos. Ao longo de sua vida, produziu obras em praticamente todos os campos do conhecimento de sua época: filosofia, medicina, matemática, astronomia, música e poesia.
Sua obra médica mais importante é o Cânon da Medicina, em árabe al-Qanun fi al-Tibb, uma enciclopédia médica em cinco volumes que ocupa cerca de um milhão de palavras e que sistematizou todo o conhecimento médico disponível em sua época. O primeiro volume do Cânon discute os princípios gerais da medicina, incluindo a fisiologia, a anatomia e as causas das doenças. O segundo volume é um tratado de farmacologia simples, descrevendo mais de setecentas substâncias medicinais e seus efeitos. O terceiro e o quarto volumes tratam de doenças específicas organizadas por sistema do corpo, da cabeça aos pés. O quinto volume é um formulário de medicamentos compostos, com instruções para preparar remédios específicos.
O Cânon foi traduzido para o latim no século doze e imediatamente se tornou o livro mais importante das escolas de medicina europeias. Permaneceu como o principal texto de ensino médico nas universidades da Europa durante mais de quinhentos anos, sendo ainda usado em algumas faculdades de medicina no século dezassete. Para ter ideia do que isso significa: um livro escrito em árabe no século onze continuou sendo ensinado nas universidades europeias até a época em que Newton estava desenvolvendo a física moderna. Poucos livros na história da humanidade exerceram influência tão ampla e tão duradoura.
Além do Cânon, Ibn Sina foi responsável por descobertas médicas específicas de grande importância. Foi o primeiro a descrever com precisão a meningite bacteriana, distinguindo-a de outras doenças que afetam o cérebro. Foi o primeiro a reconhecer que certas doenças podiam ser transmitidas pela água e pelo solo, um insight que antecipou em séculos a teoria dos germes que a medicina europeia só desenvolveria no século dezenove. Descreveu corretamente o funcionamento do olho e da visão, explicando que a luz entra no olho em vez de sair dele como alguns antigos acreditavam. E propôs que os médicos deveriam testar a eficácia dos medicamentos em condições controladas antes de recomendá-los, um princípio que está na base do que hoje chamamos de medicina baseada em evidências e de ensaio clínico.
Ibn Sina também reconheceu a natureza contagiosa de certas doenças e recomendou o isolamento dos doentes contagiosos para evitar a propagação das enfermidades, o que é essencialmente o princípio da quarentena que só seria amplamente adotado na Europa no século quatorze em resposta à Peste Negra. Quando durante a pandemia de Covid dezenove o mundo inteiro foi colocado em quarentena, estava aplicando um princípio que Ibn Sina havia articulado há quase mil anos.
Outro médico islâmico de enorme importância foi Abu Bakr Muhammad ibn Zakariya al-Razi, conhecido na Europa como Rhazes, que viveu de oitocentos e cinquenta e quatro a novecentos e vinte e cinco. Al-Razi foi o médico mais clinicamente rigoroso do mundo medieval. Sua conquista mais famosa foi ser o primeiro médico da história a distinguir claramente a varíola do sarampo, duas doenças que haviam sido confundidas por médicos gregos, persas e indianos anteriores. Em seu tratado Sobre a Varíola e o Sarampo, al-Razi descreveu os sintomas de cada doença com tal precisão clínica que sua descrição ainda é considerada válida pelos médicos modernos, mais de mil anos depois de ter sido escrita.
Al-Razi foi também um pioneiro da medicina experimental. Antes de abrir um novo hospital em Bagdá, foi ao mercado e pendurou pedaços de carne em diferentes pontos da cidade para ver em qual ponto a carne demorava mais a apodrecer, argumentando que o ar mais limpo era o melhor indicador de um local saudável para um hospital. Embora o raciocínio subjacente a esse experimento fosse diferente do que usamos hoje, o método em si, de testar empiricamente as condições antes de tomar uma decisão médica, era revolucionário para sua época. Al-Razi também foi pioneiro no uso de catgut, o fio de suturas de origem animal, para costurar ferimentos, e na fabricação de unguentos de mercúrio para tratar certas infecções de pele.
Ibn al-Nafis, que nasceu no atual território da Síria em mil e duzentos e treze e morreu no Cairo em mil e duzentos e oitenta e oito, fez uma das descobertas mais importantes de toda a história da medicina: descreveu corretamente a circulação pulmonar, o caminho que o sangue percorre do coração direito até os pulmões e de volta ao coração esquerdo. Galeno havia ensinado que o sangue passava diretamente do ventrículo direito para o esquerdo através de poros invisíveis no septo cardíaco, e essa teoria havia sido aceita durante mais de mil anos sem ser questionada. Ibn al-Nafis leu Galeno com olhos críticos, argumentou que os poros que Galeno descrevera simplesmente não existiam, e propôs corretamente que o sangue devia viajar do coração direito até os pulmões, onde recebia o que chamou de espírito vital do ar, e de lá retornar ao coração esquerdo. Essa descrição da circulação pulmonar é essencialmente correta. Na Europa, o médico espanhol Miguel Servet descreveu o mesmo processo em mil quinhentos e cinquenta e três, mais de trezentos anos depois de Ibn al-Nafis, e durante muito tempo foi creditado com a descoberta, sem que os europeus soubessem que Ibn al-Nafis havia chegado lá primeiro.
A organização hospitalar foi outra área em que a civilização árabe medieval fez contribuições de grande importância. Os hospitais islâmicos medievais, chamados de bimaristans, eram instituições muito mais sofisticadas do que qualquer estabelecimento de saúde que existia na Europa da mesma época. O Bimaristan al-Mansuri do Cairo, fundado em mil duzentos e oitenta e quatro, tinha capacidade para oito mil pacientes, separava os doentes em enfermarias especializadas por tipo de doença, empregava médicos especializados em diferentes áreas do corpo, tinha farmácias, bibliotecas médicas, salas de banho e até músicos e contadores de histórias para entreter e acalmar os pacientes durante a convalescença. O atendimento era gratuito para todos, independentemente de origem social, religiosa ou étnica, e o hospital funcionava simultaneamente como centro de tratamento e como escola de medicina onde futuros médicos aprendiam na prática. Esse modelo de hospital público e gratuito foi uma inovação islâmica que a Europa levaria séculos para adotar de forma comparável.
A farmacologia foi outro campo em que os médicos árabes fizeram contribuições de grande importância. Al-Biruni, que viveu no século onze, escreveu o Livro das Drogas Farmacêuticas, um tratado que descreveu mais de mil medicamentos de origem vegetal, animal e mineral, com informações sobre suas propriedades, usos e efeitos secundários. Esse tipo de sistematização do conhecimento farmacológico foi fundamental para o desenvolvimento da medicina moderna. Muitas das plantas medicinais descritas pelos médicos islâmicos medievais ainda são usadas hoje em medicina tradicional, e algumas deram origem a medicamentos modernos: a palavra xarope, por exemplo, vem do árabe sharab, que designava preparações medicinais líquidas adoçadas.
Passemos agora à astronomia, onde a contribuição árabe medieval foi igualmente impressionante e ainda mais visível no cotidiano de quem observa o céu.
A evidência mais imediata do papel dos astrônomos árabes medievais na história da astronomia é a que mencionamos no início desta aula: os nomes das estrelas. A esmagadora maioria dos nomes técnicos que os astrônomos usam hoje para as estrelas mais brilhantes do céu são de origem árabe. Aldebaran, que é a estrela mais brilhante da constelação do Touro, vem do árabe al-dabarán, que significa o seguidor, referência ao fato de que essa estrela parece seguir as Plêiades pelo céu. Betelgeuse, a estrela gigante vermelha no ombro de Órion, vem do árabe ibt al-jawza, que significa a axila de Orion. Rigel, o pé de Órion, vem do árabe rijl al-jawza, que significa o pé de Orion. Vega, a estrela mais brilhante da constelação da Lyra, vem do árabe al-nasr al-waqi, a águia que cai. Altair, a estrela mais brilhante de Aquila, vem do árabe al-nasr al-tair, a águia voante. Deneb, o rabo do Cisne, vem do árabe dhanab al-dajajah, o rabo da galinha. Algol, a estrela variável de Perseu, vem do árabe al-ghul, o demônio, referência ao fato de que seu brilho varia de forma misteriosa. Fomalhaut, a estrela solitária do Peixe Austral, vem do árabe fam al-hut, a boca do peixe.
Esses nomes não são apenas curiosidades históricas: são parte do vocabulário técnico oficial da astronomia moderna. Quando os astrônomos profissionais de hoje falam de Betelgeuse ou de Vega, estão usando nomes que os astrônomos medievais islâmicos deram a essas estrelas, e que os astrônomos europeus do Renascimento e dos séculos posteriores adotaram a partir dos textos árabes e nunca mudaram porque já estavam tão consolidados que uma mudança seria fonte de confusão.
Por que tantos nomes de estrelas são árabes? Porque foram os astrônomos medievais islâmicos que fizeram o trabalho mais sistemático e mais rigoroso de catalogação, observação e nomenclatura das estrelas entre os séculos oito e quinze. Eles não apenas herdaram os catálogos estelares gregos, especialmente o Almagesto de Ptolomeu, que em árabe era chamado de al-majisti, daí o nome Almagesto que usamos até hoje: eles os traduziram, os verificaram através de observações próprias, corrigiram os erros que encontraram, adicionaram novas estrelas que os gregos não haviam catalogado e produziram catálogos estelares de precisão superior à dos gregos.
Al-Battani, que viveu na Síria entre oitocentos e cinquenta e oito e novecentos e vinte e nove, foi o maior astrônomo observacional do mundo medieval. Usando instrumentos que ele mesmo projetou e construiu, com uma precisão mecânica impressionante para sua época, al-Battani mediu a duração do ano solar com um erro de apenas dois minutos em relação ao valor correto. Calculou a inclinação do eixo da Terra com um erro inferior a um décimo de grau. Determinou a precessionamento dos equinócios com grande precisão. Descobriu que a direção da maior aproximação da Terra ao Sol, chamada de apogeu solar, muda lentamente ao longo do tempo, um fenômeno que havia escapado aos astrônomos gregos. Essa última descoberta é de grande importância para a mecânica celeste e não foi feita de forma independente por nenhum astrônomo anterior.
As obras de al-Battani foram traduzidas para o latim no século doze e influenciaram diretamente os astrônomos europeus do Renascimento. Copérnico, o astrônomo polonês que propôs em mil quinhentos e quarenta e três que a Terra gira em torno do Sol e não o contrário, citou al-Battani em sua obra revolucionária De Revolutionibus Orbium Coelestium, a grande obra que deu início à revolução astronômica europeia. Essa citação é uma evidência direta e irrefutável de que a astronomia islâmica medieval foi uma das fontes intelectuais da revolução científica europeia.
Al-Sufi, que viveu de novecentos e três a novecentos e oitenta e seis e foi astrônomo na corte dos califas búidas em Isfahán, no atual Irã, produziu um atlas estelar chamado o Livro das Estrelas Fixas, uma obra de extraordinária precisão e beleza em que cada constelação é descrita e ilustrada com imagens das estrelas e dos personagens mitológicos que dão nome a cada agrupamento. Al-Sufi foi o primeiro astrônomo da história a registrar a existência da Galáxia de Andrômeda, descrevendo-a como uma nuvenzinha de luz no céu, e foi também o primeiro a registrar a Grande Nuvem de Magalhães, a galáxia satélite da Via Láctea visível no hemisfério sul. As descobertas de Andrômeda e das Nuvens de Magalhães são frequentemente atribuídas a astrônomos europeus posteriores, mas o registro de al-Sufi demonstra que os astrônomos islâmicos medievais chegaram lá primeiro.
Ulugh Beg, que governou a cidade de Samarcanda no século quinze e era ele mesmo um astrônomo de grande competência, mandou construir o maior observatório do mundo medieval, um edifício circular com um sextante monumental cujo arco de raio de quarenta metros permitia medir a posição das estrelas com uma precisão sem precedentes. Com esse instrumento, Ulugh Beg e seus colaboradores produziram um catálogo de mais de mil estrelas com posições medidas com uma precisão que não seria superada na Europa até Tycho Brahe, no final do século dezasseis.
O astrolábio, instrumento astronômico de múltiplas utilidades que mencionamos em aulas anteriores, foi desenvolvido pelos gregos em forma rudimentar mas foi aperfeiçoado pelos astrônomos árabes medievais até atingir um nível de sofisticação e de versatilidade que o tornou o instrumento científico mais importante do mundo medieval. Com um astrolábio, era possível determinar a hora do dia e da noite, medir a latitude do observador, determinar a posição do sol e das estrelas visíveis, calcular os horários do nascer e do pôr do sol, encontrar a direção de Meca para a oração, e resolver uma série de problemas práticos de navegação e de agrimensura. O astrolábio foi a ferramenta que tornou possível a navegação astronômica que os portugueses e os espanhóis utilizaram em suas viagens de exploração dos séculos quinze e dezasseis. Sem o astrolábio islâmico, seria muito mais difícil para Vasco da Gama chegar à Índia pelo mar ou para Cabral chegar ao Brasil.
A palavra almanaque, que usamos hoje para designar um calendário com informações astronômicas e meteorológicas, é de origem árabe: vem de al-manakh, que designava originalmente as tabelas de posições planetárias que os astrônomos islâmicos calculavam para uso dos navegadores. Os navios portugueses e espanhóis que cruzaram os oceanos no século quinze usavam almanaques calculados com base nos métodos astronômicos que vinham da tradição árabe medieval.
A filosofia islâmica medieval merece agora nossa atenção, porque foi nesse campo que a civilização árabe fez talvez sua contribuição mais profunda e mais duradoura para a história do pensamento humano, embora essa contribuição seja ainda menos conhecida do grande público do que as contribuições matemáticas e médicas.
O ponto de partida da filosofia islâmica medieval foi o contato com a filosofia grega através das traduções que os califas abássidas financiaram a partir do final do século oito. Platão, Aristóteles, Plotino e outros filósofos gregos foram traduzidos para o árabe, e os pensadores islâmicos se depararam com uma tradição filosófica de enorme riqueza e de extraordinária profundidade. Mas a relação com essa tradição não foi de simples aceitação: foi de diálogo crítico, de reinterpretação e de desenvolvimento que avançou o pensamento filosófico para além do ponto onde os gregos haviam parado.
Al-Kindi, que viveu em Bagdá no século nono e é considerado o primeiro filósofo árabe propriamente dito, trabalhou na Casa da Sabedoria e produziu obras em praticamente todos os campos do conhecimento disponível. Al-Kindi foi o primeiro pensador islâmico a argumentar sistematicamente que a filosofia grega e o islamismo eram compatíveis, que a razão e a revelação não se contradiziam mas se complementavam, e que a verdade não tinha fronteiras religiosas ou culturais: quem descobria uma verdade, independentemente de sua origem, merecia reconhecimento e respeito. Essa convicção da universalidade da verdade foi um dos princípios mais importantes da filosofia islâmica medieval e está na base do espírito enciclopédico que marcou a Casa da Sabedoria.
Al-Farabi, que nasceu por volta de oitocentos e setenta e dois e morreu em novecentos e cinquenta, foi chamado por seus contemporâneos de o Segundo Mestre, sendo Aristóteles o Primeiro. Esse título exagerado capta algo real: al-Farabi foi quem sistematizou a filosofia de Aristóteles no mundo islâmico de forma mais completa e mais rigorosa. Mas além de comentar Aristóteles, al-Farabi desenvolveu uma filosofia política original: seu tratado Sobre as Opiniões dos Habitantes da Cidade Virtuosa descreve o Estado ideal como uma comunidade organizada segundo princípios racionais e morais, liderada por um filósofo-rei que ao mesmo tempo governa com sabedoria racional e serve como guia espiritual para a comunidade. Essa concepção combina elementos de Platão com elementos da teologia islâmica de uma forma criativa e original que influenciou profundamente os pensadores islâmicos posteriores.
Ibn Sina, além de médico extraordinário, foi também um dos maiores filósofos do mundo islâmico medieval. Sua filosofia é uma síntese original da tradição aristotélica com elementos do neoplatonismo e da teologia islâmica. Uma das suas contribuições mais importantes para a filosofia foi o que os historiadores chamam de argumento do homem flutuante ou homem voador: Ibn Sina pediu ao leitor que imaginasse uma pessoa que tivesse sido criada completamente isolada de qualquer experiência sensorial, sem tocar nada, sem ver nada, sem cheirar nada, sem ouvir nada. Essa pessoa ainda teria consciência de si mesma? Ibn Sina argumentava que sim, que mesmo sem nenhuma experiência sensorial, a pessoa teria consciência de sua própria existência como um ser pensante. Esse argumento antecipa em séculos o famoso cogito ergo sum de Descartes, penso logo existo, que é considerado o ponto de partida da filosofia moderna europeia. Alguns historiadores da filosofia argumentam que Descartes, que certamente conhecia Ibn Sina através das traduções latinas, foi influenciado por esse argumento, embora a questão ainda seja debatida.
Mas o filósofo árabe medieval que teve a maior influência sobre a filosofia europeia foi, sem dúvida, Ibn Rushd, que os europeus conheceram pelo nome latinizado de Averróis, que nasceu em Córdoba, na Espanha islâmica, em mil e cento e vinte e seis, e morreu em Marrocos em mil e cento e noventa e oito. Ibn Rushd foi chamado pelos filósofos europeus medievais simplesmente de o Comentador, título que resumia sua importância central: ele havia comentado praticamente todas as obras de Aristóteles de forma tão completa e tão rigorosa que esses comentários se tornaram a porta de entrada obrigatória para o pensamento aristotélico no mundo ocidental.
Quando as obras de Aristóteles chegaram às universidades europeias no século treze através das traduções latinas feitas a partir do árabe, chegaram acompanhadas dos comentários de Ibn Rushd, e esses comentários foram tão influentes que muitos estudiosos europeus os estudavam lado a lado com o texto original de Aristóteles. São Tomás de Aquino, o maior filósofo e teólogo católico medieval, refere-se a Ibn Rushd simplesmente como o Comentador em seus textos, sem precisar dar o nome completo, da mesma forma que se referia a Aristóteles simplesmente como o Filósofo: tamanha era a familiaridade e o respeito que os filósofos europeus medievais tinham por Ibn Rushd.
Além de comentar Aristóteles, Ibn Rushd defendeu uma posição filosófica de grande importância histórica: a compatibilidade entre a filosofia racional e a fé religiosa. Contra al-Ghazali, o grande teólogo islâmico que havia escrito a Incoerência dos Filósofos argumentando que a filosofia aristotélica contradiz o islamismo em vários pontos essenciais, Ibn Rushd respondeu com a Incoerência da Incoerência, um título de uma ousadia intelectual impressionante, argumentando que a verdade é uma só e que a filosofia e a religião, quando corretamente compreendidas, chegam às mesmas conclusões por caminhos diferentes. A razão filosófica e a revelação divina não se contradizem: se parecem contradizer-se, é porque uma das duas, ou as duas, está sendo mal interpretada.
Na Europa, as obras de Ibn Rushd desencadearam um debate que durou séculos. A corrente filosófica que seguia Ibn Rushd em sua interpretação de Aristóteles foi chamada de averroísmo, e seus defensores nas universidades medievais europeas foram acusados por teólogos conservadores de defender doutrinas heréticas como a eternidade do mundo e a negação da providência divina individual. A polêmica em torno do averroísmo foi uma das linhas de tensão mais importantes das universidades europeias dos séculos treze e quatorze, e ajudou a preparar o terreno intelectual para o pensamento crítico e laico que caracterizaria o Renascimento e depois a modernidade filosófica europeia.
Ibn Tufayl, contemporâneo e amigo de Ibn Rushd na Espanha islâmica do século doze, produziu uma das obras mais originais e mais influentes de toda a filosofia islâmica medieval: o romance filosófico Hayy ibn Yaqzan, que narra a história de um menino criado completamente sozinho numa ilha deserta, sem nenhum contato com outros seres humanos, que através da pura observação da natureza e do raciocínio independente chega, sozinho, a verdades filosóficas e espirituais profundas. A obra é ao mesmo tempo uma exploração da capacidade da razão humana pura de descobrir a verdade sem o auxílio da revelação e uma meditação sobre a relação entre o indivíduo e a sociedade. Foi traduzida para o latim no século doze e para várias outras línguas europeias posteriormente, e influenciou obras como o Robinson Crusoe de Daniel Defoe e o Emílio de Jean-Jacques Rousseau, além do pensamento político liberal dos séculos dezassete e dezoito.
Ibn Khaldun, que viveu no norte da África e na Espanha entre mil e trezentos e trinta e dois e mil e quatrocentos e seis, foi um pensador de uma originalidade excepcional que combinou história, sociologia, economia e filosofia política numa obra de grande ambição intelectual. Sua Muqaddimah, a introdução a uma história universal que escreveu no final de sua vida, é considerada por muitos historiadores como a primeira obra de ciências sociais da história: nela, Ibn Khaldun desenvolveu uma teoria sistemática sobre como as sociedades se formam e evoluem, baseada no conceito de asabiyya, que pode ser traduzido como coesão ou solidariedade de grupo. Segundo Ibn Khaldun, as sociedades começam como grupos coesos e vigorosos, geralmente nômades ou da periferia das civilizações existentes, que conquistam as civilizações urbanas decadentes graças a sua asabiyya mais forte. Com o tempo, porém, o contato com a vida urbana e o luxo enfraquece a asabiyya do grupo vencedor, que eventualmente será conquistado por um novo grupo mais coeso vindo da periferia. Esse ciclo de ascensão, apogeu e declínio das civilizações é descrito por Ibn Khaldun como uma lei histórica regular, independente da vontade divina ou do acaso.
Ibn Khaldun foi também um dos primeiros pensadores da história a entender a importância dos fatores econômicos na organização das sociedades. Descreveu como a divisão do trabalho gera riqueza, como o comércio de longa distância é essencial para o florescimento das civilizações, e como a tributação excessiva destrói a atividade econômica e empobrece tanto os governados quanto os governantes. Essas ideias antecipam em séculos conceitos que seriam desenvolvidos pelos economistas europeus dos séculos dezassete e dezoito. Adam Smith, o fundador da economia moderna, publicou sua obra mais famosa em mil setecentos e setenta e seis, mais de trezentos e cinquenta anos depois de Ibn Khaldun ter articulado princípios semelhantes.
Al-Ghazali merece também menção específica, não apenas como adversário dos filósofos na controvérsia com Ibn Rushd, mas como pensador original de grande importância. Al-Ghazali viveu de mil e cinquenta e oito a mil e cento e onze, na Pérsia e no Iraque, e é uma das figuras mais influentes de toda a história intelectual islâmica. Sua obra autobiográfica Libertação do Erro é um dos mais belos textos de busca espiritual que a literatura islâmica produziu, descrevendo seu percurso pessoal de crise de fé, de investigação filosófica e de eventual chegada ao sufismo como caminho de espiritualidade interior. Al-Ghazali foi um crítico feroz do que considerava os excessos da filosofia aristotélica em seu contexto islâmico, mas foi também um pensador de uma profundidade e de uma sofisticação intelectual impressionantes. Sua obra A Revivificação das Ciências Religiosas, uma enciclopédia de teologia, ética e espiritualidade islâmicas em quarenta volumes, é um dos monumentos da literatura islâmica medieval.
O sufismo, a corrente mística do islamismo que al-Ghazali ajudou a legitimar, produziu alguns dos textos poéticos e filosóficos mais belos da civilização islâmica, incluindo as obras de Rumi, que viveu na Anatólia no século treze e é hoje um dos poetas mais lidos no mundo inteiro. A filosofia sufista, com sua ênfase no amor como caminho para a realidade divina e na experiência mística direta como forma de conhecimento superior ao racional, influenciou não apenas o islamismo mas também o judaísmo, o catolicismo medieval e o pensamento filosófico europeu moderno.
A questão que muitas vezes se coloca ao estudar tudo isso é: por que essas contribuições tão importantes são tão pouco conhecidas no mundo ocidental de hoje? A resposta tem várias dimensões. Em parte, é porque durante o período colonial europeu, quando a Europa dominava politicamente e culturalmente grande parte do mundo, havia um interesse em sublinhar as contribuições europeias para a civilização humana e silenciar ou minimizar as contribuições de outras culturas. Em parte, é porque muitas das contribuições árabes chegaram à Europa de forma indireta, transmitidas através de traduções e de intermediários de tal forma que a origem árabe ficava apagada, como aconteceu com os algarismos, que foram adotados na Europa sem que a maioria das pessoas soubesse que vinham do sistema indiano transmitido pelos árabes. E em parte, é simplesmente porque a história que estudamos nas escolas tende a ser a história das nossas próprias tradições, o que no caso da escola ocidental significa enfatizar a Grécia, Roma e a Europa medieval e moderna, com menos atenção ao que acontecia em outras partes do mundo.
Para os estudantes que se preparam para o ENEM e para os vestibulares, as contribuições árabes aparecem com frequência em questões que pedem aos alunos que reflitam sobre a história da ciência, sobre a transmissão do conhecimento entre civilizações, sobre o papel das sociedades islâmicas medievais no desenvolvimento cultural da humanidade e sobre as conexões entre o mundo islâmico e a Europa. É importante lembrar que as questões de história no ENEM frequentemente pedem não apenas que o aluno saiba o que aconteceu, mas que ele entenda o significado histórico do que aconteceu, as conexões entre diferentes fenômenos e os processos de longa duração que moldaram o mundo em que vivemos.
Temos, portanto, que as contribuições da civilização árabe medieval não são apenas história passada, na verdade, são parte constitutiva do mundo que habitamos hoje. Os números que você usa para fazer qualquer cálculo, os princípios básicos da álgebra que você aprende na escola, o conceito de algoritmo que está na base de cada computador e de cada telefone celular, os nomes das estrelas que você vê no céu, os princípios básicos da medicina clínica que seu médico aplica quando você vai a uma consulta, os textos filosóficos que moldaram o pensamento ocidental moderno, tudo isso carrega marcas profundas e indeléveis da civilização que floresceu em Bagdá, em Córdoba, no Cairo e em Samarcanda entre os séculos oito e quinze. Conhecer essa história não é apenas uma obrigação escolar: é uma forma de entender de onde viemos e como nos tornamos o que somos.
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| Dados de Catalogação na Publicação: NORAT, Markus Samuel Leite. Curso de história para o 1º ano do ensino médio. João Pessoa: Editora Norat, 2026. Livro Digital, Formato: HTML5, Tamanho: 132,4125 gigabytes (132.412.500 kbytes) . ISBN: 978-65-80808-16-8 | Cutter: N825c | CDD-907.12 | CDU-94(100)”-04/17″:373.5 . Palavras-chave: História, Ensino Médio, Pré-História, Civilizações Antigas, Mesopotâmia, Egito Antigo, Grécia Antiga, Roma Antiga, África Antiga, Reinos Africanos, Mundo Árabe-Muçulmano, Idade Média, Feudalismo, Antigo Regime, Monarquias Absolutistas, Renascimento, Humanismo, ENEM, Vestibulares. . TODOS OS DIREITOS RESERVADOS. É proibida a cópia total ou parcial desta obra, por qualquer forma ou qualquer meio. A violação dos direitos autorais é crime tipificado na Lei n. 9.610/98 e artigo 184 do Código Penal. |
