Curso de História para o 1º Ano do Ensino Médio
MÓDULO 9 – O MUNDO ÁRABE-MUÇULMANO
Aula 103 – Sunitas e xiitas: a divisão do mundo islâmico
Aula 103 – Sunitas e xiitas: a divisão do mundo islâmico
Quando estudamos o islamismo, uma das questões que mais frequentemente desperta curiosidade é a seguinte: por que os muçulmanos estão divididos em grupos diferentes? Por que existem sunitas e xiitas, e por que essa divisão ainda importa tanto, quatorze séculos depois de ter surgido? Para responder a essas perguntas de forma clara e completa, precisamos voltar ao momento exato em que a divisão aconteceu, entender as circunstâncias políticas e humanas que a geraram, e depois acompanhar como ela se aprofundou ao longo dos séculos até se tornar uma das clivagens mais importantes do mundo contemporâneo. Essa é uma história de poder, de fé, de tragédia e de identidade, e ela começa num momento de enorme vulnerabilidade para a comunidade muçulmana: o momento da morte do profeta Maomé.
Em oito de junho do ano seiscentos e trinta e dois depois de Cristo, Maomé morreu em Medina, na casa de sua esposa Aisha, com aproximadamente sessenta e dois anos de idade. Sua morte foi um choque devastador para a comunidade que ele havia criado. Durante vinte e dois anos, os muçulmanos haviam tido nele não apenas um líder espiritual e um profeta, mas também o governante político e o comandante militar da comunidade. Cada decisão difícil podia ser levada a ele. Cada conflito podia ser resolvido pela sua autoridade. Cada dúvida podia ser esclarecida pela revelação. Agora ele estava morto, e não havia deixado nenhuma instrução explícita e inequívoca sobre quem deveria sucedê-lo na liderança da comunidade.
Essa lacuna, esse silêncio sobre a sucessão, foi o ponto de partida de tudo o que viria depois. E é preciso ser muito claro: Maomé havia deixado claro que após ele não haveria mais nenhum profeta. Ele era o último, o selo dos profetas, como diz o Alcorão. Portanto, a questão não era quem seria o próximo profeta, porque não haveria próximo profeta. A questão era quem lideraria a comunidade como governante político e guardião da religião, sem ter nenhuma das prerrogativas proféticas de Maomé. Quem organizaria o Estado, lideraria os exércitos, administraria a justiça e representaria a autoridade do islamismo no mundo?
Duas posições distintas emergiram naquele momento, e cada uma delas tinha argumentos sérios a seu favor.
A primeira posição era a de que a liderança deveria ser escolhida pela comunidade dentre os companheiros mais próximos e mais respeitados do profeta, os homens que haviam convivido com ele, que conheciam suas práticas e seus ensinamentos, e que haviam demonstrado ao longo dos anos as qualidades necessárias para liderar. Segundo essa visão, não havia nenhum direito hereditário à liderança que se transmitisse automaticamente pela linha de sangue: a liderança era uma responsabilidade que a comunidade confiava ao mais apto, e cabia à comunidade, ou pelo menos aos seus representantes mais qualificados, fazer essa escolha. Essa posição foi defendida pelos principais companheiros do profeta que estavam reunidos em Medina na hora de sua morte.
A segunda posição era a de que a liderança da comunidade pertencia por direito divino à família do profeta, especificamente à descendência direta de Ali ibn Abi Talib, o primo e genro de Maomé, que havia sido o marido de Fátima, a filha amada do profeta. Segundo essa visão, Maomé havia designado Ali como seu sucessor numa ocasião específica, durante a última peregrinação, num lugar chamado Ghadir Khumm, quando o profeta teria dito perante uma multidão de seguidores: de quem eu sou o mestre, Ali também é o mestre. Os defensores da sucessão de Ali interpretavam essa e outras declarações do profeta como uma indicação clara e divina de que a liderança devia ir para Ali. Além disso, argumentavam que Ali estava em Medina na hora da morte do profeta, cuidando dos preparativos para o funeral, o que o havia impedido de participar das reuniões onde os outros companheiros estavam debatendo a sucessão.
O que aconteceu naquelas horas imediatamente após a morte do profeta foi, portanto, uma disputa política de consequências históricas imensuráveis. Um grupo de companheiros se reuniu num local chamado Saqifah Bani Saidah e, depois de debates intensos que envolveram rivalidades entre os diferentes grupos da comunidade, designou Abu Bakr como o primeiro califa, palavra árabe que significa literalmente sucessor ou representante e que designava o líder político da comunidade muçulmana. Abu Bakr era um dos homens mais próximos e mais respeitados de Maomé, o primeiro homem adulto a se converter ao islamismo, o companheiro da fuga de Meca para Medina, o pai de Aisha, a esposa favorita do profeta. Era uma escolha defensável e respeitável, mas foi feita sem a participação de Ali e da família do profeta.
Ali ibn Abi Talib não reconheceu imediatamente o califado de Abu Bakr. Por algum tempo, ficou em Medina cuidando do luto pela morte do profeta e recusando-se a prestar a lealdade formal que era esperada. Finalmente, segundo as narrativas históricas, Ali acabou reconhecendo o califado de Abu Bakr por razões políticas e de unidade da comunidade, embora nunca tenha esquecido que considerava ter sido preterido num direito que lhe pertencia. Abu Bakr governou por apenas dois anos, de seiscentos e trinta e dois a seiscentos e trinta e quatro, e antes de morrer designou Umar ibn al-Khattab como seu sucessor. Umar governou por dez anos, de seiscentos e trinta e quatro a seiscentos e quarenta e quatro, e foi sob seu califado que as conquistas mais espetaculares do islamismo primitivo aconteceram: a Síria, o Iraque, o Irã e o Egito foram conquistados pelos exércitos muçulmanos, transformando o islamismo de uma religião da Península Arábica numa potência mundial. Umar foi assassinado por um escravo persa e designou um conselho para escolher seu sucessor, conselho que após debates escolheu Uthman ibn Affan, um homem rico e respeitado da tribo dos Omeias, que havia se convertado cedo e se casado com duas filhas do profeta.
Uthman governou de seiscentos e quarenta e quatro a seiscentos e cinquenta e seis, e seu califado foi progressivamente marcado por acusações de nepotismo: ele havia colocado seus parentes da família omeíada em posições de poder em todo o império, e essa concentração familiar do poder gerou ressentimento crescente. Em seiscentos e cinquenta e seis, um grupo de rebeldes, principalmente soldados egípcios e iraquianos insatisfeitos com o governo de Uthman, viajou a Medina e, após dias de cerco à casa do califa, invadiu o local e assassinou Uthman enquanto ele lia o Alcorão. Esse assassinato foi o primeiro grande trauma político do islamismo, o momento em que muçulmanos derramaram o sangue de outro muçulmano, e abriu uma crise de legitimidade que nunca seria completamente resolvida.
Finalmente, depois de vinte e quatro anos de espera, Ali ibn Abi Talib foi aclamado califa pelos muçulmanos de Medina. Mas sua chegada ao poder foi imediatamente contestada. A primeira contestação veio de dentro da própria família do profeta: Aisha, a viúva de Maomé, que havia tido uma relação tensa com Ali ao longo dos anos, liderou junto com dois veteranos companheiros do profeta, Talha e Zubayr, uma revolta contra o novo califa, exigindo que os responsáveis pelo assassinato de Uthman fossem punidos antes que Ali fosse reconhecido como califa legítimo. O confronto entre os exércitos de Ali e o exército liderado por Aisha aconteceu na Batalha do Camelo, em seiscentos e cinquenta e seis, chamada assim porque Aisha conduziu seus partidários num camelo durante o combate. A batalha resultou em vitória para Ali, e Aisha foi tratada com respeito e enviada de volta a Medina, mas o fato de que muçulmanos haviam se matado mutuamente em luta aberta foi mais um trauma que aprofundou as divisões.
A segunda e mais importante contestação veio de Muawiya ibn Abi Sufyan, que era o governador da Síria e membro da família dos Omeias, o mesmo clã de Uthman. Muawiya recusou reconhecer o califado de Ali enquanto os assassinos de Uthman não fossem punidos, e quando Ali não satisfez essa demanda com a rapidez que Muawiya exigia, os dois se enfrentaram militarmente na Batalha de Siffin, no atual território da Síria, em seiscentos e cinquenta e sete. A batalha foi longa e indecisa, e num momento crítico em que as forças de Ali pareciam estar ganhando vantagem, os soldados de Muawiya ergueram páginas do Alcorão nas pontas de suas lanças como sinal de que a questão deveria ser resolvida pela arbitragem do livro sagrado, não pela força das armas. Ali aceitou a arbitragem, e essa decisão custou-lhe caro: um grupo fanático dentro de seu próprio exército se revoltou, argumentando que aceitar a arbitragem era uma capitulação ao poder humano quando a decisão deveria ser deixada exclusivamente a Deus. Esses rebeldes foram chamados de kharijitas, os que saíram, e criaram um terceiro campo na disputa islâmica, que acreditava que qualquer muçulmano que cometesse um pecado grave deixava de ser muçulmano e deveria ser combatido. Os kharijitas foram eventualmente marginalizados, mas representaram o início de uma tradição de radicalismo religioso que reapareceria em diferentes formas ao longo da história islâmica.
A arbitragem não resolveu nada. Muawiya continuou contestando o califado de Ali, e Ali nunca conseguiu consolidar seu poder sobre todo o mundo islâmico. Em seiscentos e sessenta e um, Ali foi assassinado por um kharijita que o golpeou com uma espada envenenada enquanto ele estava em oração numa mesquita em Kufa, no Iraque. Morreu dias depois dos ferimentos. Tinha governado apenas cinco anos, os mais turbulentos do islamismo primitivo, e nunca havia conseguido governar um império unificado.
Com a morte de Ali, Muawiya se tornou o califa incontestado e fundou a Dinastia Omeíada, que governaria o mundo islâmico de seiscentos e sessenta e um a setecentos e cinquenta. O filho de Ali e de Fátima, Hasan, neto de Maomé, renunciou a qualquer reivindicação ao califado depois de negociações com Muawiya, em troca de certas garantias e de uma pensão generosa. Hasan morreu alguns anos depois, e a tradição xiita afirma que foi envenenado por ordem de Muawiya, embora isso não seja historicamente verificável com certeza.
Mas foi o destino do irmão de Hasan, Husayn ibn Ali, outro neto de Maomé, que se tornaria o evento mais sagrado e mais emocionalmente central de toda a história xiita, o momento fundador de uma identidade que separaria para sempre os seguidores de Ali dos demais muçulmanos.
Quando Muawiya morreu em seiscentos e oitenta, seu filho Yazid assumiu o califado, numa transmissão hereditária do poder que muitos muçulmanos consideravam ilegítima porque tornava o califado uma monarquia dinástica em vez de uma liderança escolhida pela comunidade. Os muçulmanos de Kufa, no Iraque, que eram simpatizantes dos descendentes de Ali, enviaram mensagens a Husayn, que estava em Medina, pedindo-lhe que viesse a Kufa para liderar uma revolta contra Yazid e restaurar o governo legítimo da família do profeta. Husayn recebeu centenas de cartas prometendo apoio e fidelidade. Seu primo Abdullah ibn Abbas o aconselhou a não ir, dizendo que os iraquianos eram conhecidos por sua inconstância e que poderia ser uma armadilha. Mas Husayn decidiu ir, levando consigo sua família, incluindo mulheres e crianças, e um pequeno grupo de seguidores de cerca de setenta e dois guerreiros, num total de pessoas que a tradição conta como sendo em torno de cento e quarenta e cinco, dependendo das fontes.
O que aconteceu nas semanas seguintes foi uma tragédia de proporções que marcaria o islamismo xiita para sempre. No caminho de Medina para Kufa, Husayn foi interceptado por um exército omeíada de milhares de soldados liderados por um general chamado Umar ibn Saad. Os apoiadores de Kufa, que haviam prometido apoio, haviam sido intimidados ou subornados pelo governador omeíada e não se apresentaram. Husayn e seu pequeno grupo ficaram isolados no deserto de Karbala, no atual Iraque, cercados por um exército que os superava enormemente em número.
Por vários dias, os omeíadas privaram Husayn e seus companheiros de acesso à água do rio Eufrates, que ficava próximo. As crianças do grupo, incluindo bebês, sofreram sede intensa sob o sol escaldante do deserto iraquiano. Husayn tentou negociar, oferecendo-se para voltar a Medina ou para ir a uma fronteira distante do império, mas as condições impostas pelo exército omeíada eram a rendição incondicional e o reconhecimento do califado de Yazid, algo que Husayn considerava impossível de aceitar em consciência.
No décimo dia do mês islâmico de Muharram do ano sessenta e um da Hégira, correspondente a dez de outubro de seiscentos e oitenta depois de Cristo, a batalha começou. Husayn e seus setenta e dois guerreiros lutaram contra um exército de milhares. O resultado não podia ser outro: Husayn e todos os seus combatentes foram mortos. As mulheres e as crianças do grupo, incluindo a irmã de Husayn, Zainab, foram feitas prisioneiras e levadas a Damasco, onde a cabeça cortada de Husayn foi apresentada ao califa Yazid. A tradição xiita conta que Zainab, mesmo como prisioneira, desafiou o califa com palavras de uma coragem impressionante, dizendo que a morte de Husayn não era uma derrota mas uma vitória espiritual, e que o nome de Yazid seria maldito pelas gerações futuras enquanto o nome de Husayn seria honrado para sempre.
A morte de Husayn em Karbala em seiscentos e oitenta é o evento que efetivamente cristalizou a divisão entre sunitas e xiitas numa forma permanente e irreconciliável. Antes de Karbala, havia uma disputa política e teológica sobre a successão. Depois de Karbala, havia uma ferida aberta, um luto coletivo, um sentimento de injustiça e de traição que se tornaria o núcleo emocional e espiritual de uma identidade religiosa distinta. Os xiitas não apenas lembravam Husayn: eles o lamentavam, sentiam culpa pelo abandono dos iraquianos que não foram ajudá-lo, e construíram toda uma teologia em torno do sofrimento, do martírio e da espera por justiça que não havia chegado neste mundo.
A palavra xiita vem do árabe Shiat Ali, que significa os partidários de Ali, e designa todos os muçulmanos que acreditam que a liderança legítima da comunidade muçulmana pertencia por direito divino à família do profeta, especificamente à linhagem de Ali e de Fátima. Os xiitas não são um grupo homogêneo: existem várias correntes dentro do xiismo que diferem sobre questões específicas de teologia e de quem são os imames legítimos. A maior corrente xiita é o chamado xiismo duodecimano ou imamita, que acredita numa série de doze imames que descende de Ali, o décimo segundo dos quais, chamado de Muhammad al-Mahdi, teria desaparecido no século nono numa ocultação divina e retornará no fim dos tempos como o redentor esperado. O Irã, o Iraque e o Bahrein têm populações predominantemente xiitas duodecimanas. Há também os xiitas ismaelitas, que reconhecem apenas sete imames e têm seguidores no Sul da Ásia e na África Oriental, liderados hoje pelo Aga Khan. E os zayditas, que são uma corrente xiita mais próxima do sunismo em muitos aspectos teológicos e que são a maioria no Iêmen.
A identidade xiita é marcada por um conjunto de práticas e de concepções teológicas que a diferenciam do islamismo sunita, embora os dois grupos compartilhem os fundamentos da fé islâmica: a crença na unicidade de Deus, na profecia de Maomé, no Alcorão, na oração, no jejum, na peregrinação e no julgamento final.
A prática mais característica e mais visível do xiismo duodecimano é a comemoração do Ashura, o décimo dia do mês de Muharram, que é o aniversário do massacre de Karbala. Nas semanas que antecedem o Ashura e especialmente nos dias do Ashura, as comunidades xiitas ao redor do mundo participam de cerimônias de luto de grande intensidade emocional. Homens e mulheres vestem roupas pretas em sinal de luto. Procissões percorrem as ruas com participantes batendo no peito ao ritmo de cânticos que narram a tragédia de Karbala. Em alguns países, especialmente no Iraque, no Irã e no Líbano, as procissões podem incluir formas de automortificação física como o corte do próprio corpo com lâminas, embora muitas autoridades religiosas xiitas modernas desaconselhem ou proíbam essa prática. Peças teatrais que dramatizam os eventos de Karbala, chamadas de tazieh no Irã, são encenadas em praças públicas com uma intensidade dramática que frequentemente leva o público às lágrimas. O Ashura é um dos rituais religiosos mais impressionantes e mais emocionalmente carregados que existem em qualquer tradição religiosa do mundo.
A cidade de Karbala, no Iraque central, onde Husayn foi morto e onde está o seu santuário, é a cidade mais sagrada do xiismo, mais sagrada até do que Meca e Medina no que diz respeito à intensidade da devoção popular xiita. Milhões de peregrinos xiitas visitam Karbala todos os anos, especialmente durante o Ashura e no aniversário do nascimento de Husayn. A outra cidade sagrada do xiismo é Najaf, também no Iraque, onde fica o mausoléu de Ali ibn Abi Talib, o primeiro imam. Para os xiitas, fazer peregrinação aos santuários dos imames é uma prática de grande mérito espiritual, e os santuários de Husayn em Karbala e de Ali em Najaf são cobertos de ouro e de ornamentos de enorme riqueza, financiados pela devoção de gerações de fiéis.
O conceito de imam tem no xiismo um significado muito diferente do que tem no sunismo. No sunismo, imam é simplesmente o título dado ao líder da oração numa mesquita, sem nenhum conteúdo teológico especial além da liderança ritual. No xiismo duodecimano, o Imam com I maiúsculo é um ser de natureza especial: um descendente de Ali e de Fátima que possui, além das qualidades humanas excepcionais, uma forma de conhecimento espiritual e de autoridade religiosa que lhe foi conferida por Deus e transmitida de imam a imam. Os doze imames do xiismo duodecimano não eram profetas, porque o islamismo ensina que Maomé foi o último profeta, mas eram considerados guias infaliveis e infalíveis na interpretação da religião, pessoas dotadas de uma forma de graça divina chamada de ismat, que os preservava do pecado e do erro doutrinário. Quando o décimo segundo imam, Muhammad al-Mahdi, desapareceu numa cidade chamada Samarra no ano duzentos e sessenta da Hégira, correspondente a oitocentos e setenta e quatro depois de Cristo, os xiitas duodecimanos acreditam que ele não morreu mas entrou numa ocultação divina para proteger-se das perseguições dos califas omeíadas e depois abássidas. Essa ocultação passou por duas fases: a ocultação menor, em que o imam se comunicava com a comunidade através de representantes, e a ocultação maior, que começou em novecentos e quarenta e um depois de Cristo e que continua até hoje. O imam oculto, chamado de al-Mahdi, o guiado, ou al-Qaim, o que se levantará, retornará no fim dos tempos para estabelecer a justiça no mundo inteiro.
Essa doutrina da ocultação do décimo segundo imam gerou uma das questões mais importantes da teoria política xiita: quem tem autoridade para governar a comunidade na ausência do imam? Ao longo da história, diferentes respostas foram dadas a essa pergunta. A resposta mais radical e mais recente foi desenvolvida pelo aiatolá Ruhollah Khomeini no século vinte, quando elaborou a teoria do Wilayat al-Faqih, o governo do jurista islâmico. Segundo Khomeini, na ausência do imam oculto, um jurista islâmico de alto nível que reunisse as qualidades necessárias de conhecimento e de justiça tinha não apenas o direito mas a obrigação de governar a comunidade muçulmana em nome do imam ausente. Essa teoria foi a base teológica da Revolução Islâmica Iraniana de mil novecentos e setenta e nove, que transformou o Irã numa república islâmica governada por clérigos, uma experiência sem precedentes na história do islamismo.
Agora vamos entender quem são os sunitas e o que os define como corrente majoritária do islamismo.
A palavra sunita vem do árabe Ahl al-Sunnah wal-Jamaah, que significa o povo da sunnah e da comunidade, e designa os muçulmanos que aceitam como legítimos os primeiros quatro califas, chamados de al-Khulafa al-Rashidun, os califas bem-guiados, que são Abu Bakr, Umar, Uthman e Ali, e que baseiam sua prática religiosa no Alcorão e na Sunnah do profeta interpretados através das quatro grandes escolas jurídicas que mencionamos na aula anterior. Os sunitas representam atualmente entre oitenta e cinco e oitenta e oito por cento dos muçulmanos do mundo, e estão presentes em praticamente todos os países onde há populações muçulmanas significativas.
Os sunitas não têm o conceito de imam infalível que é central para os xiitas. Para os sunitas, após a morte do profeta Maomé, a autoridade religiosa é coletiva e distribuída entre os estudiosos islâmicos, chamados de ulama, que interpretam o Alcorão e a Sunnah através das metodologias das escolas jurídicas. Nenhum ser humano depois do profeta tem acesso a um conhecimento espiritual privilegiado que o torna infalível ou especialmente próximo de Deus por virtude de sua linhagem. A autoridade religiosa sunita é baseada no conhecimento adquirido através do estudo, não numa graça transmitida hereditariamente.
Os sunitas aceitam a legitimidade dos primeiros quatro califas e não consideram a eleição de Abu Bakr, Umar e Uthman como usurpações. Reconhecem que Ali também foi um califa legítimo e um dos mais próximos companheiros do profeta, mas não o colocam numa categoria religiosa diferente de Abu Bakr, Umar e Uthman. Para os sunitas, todos os quatro são figuras veneráveis que serviram ao islamismo com integridade, e as disputas que ocorreram entre eles são vistas como conflitos humanos compreensíveis num período de grande dificuldade, não como traições ou injustiças de dimensão teológica.
As diferenças entre sunitas e xiitas não se limitam à questão histórica da sucessão e ao papel do imam. Há diferenças em várias práticas religiosas cotidianas que refletem as diferentes tradições que se desenvolveram ao longo dos séculos.
Em matéria de oração, os sunitas rezam as cinco orações diárias em cinco momentos separados, enquanto os xiitas geralmente combinam a oração do meio-dia com a da tarde e a oração do entardecer com a da noite, rezando efetivamente em três momentos distintos o que os sunitas dividem em cinco. Durante a prostração, os xiitas usam um pequeno tablete de argila chamado de turbah, feito preferencialmente de terra de Karbala, sobre o qual tocam a testa durante a sujud, a prostração, porque acreditam que a testa deve tocar a terra pura, não um tapete fabricado. Os sunitas não têm essa prática.
O chamado à oração, o adhan, também difere em detalhes entre sunitas e xiitas. O adhan xiita inclui a frase Ali é o amigo de Deus, menção ao primeiro imam que não existe no adhan sunita. Após a declaração de que a oração chegou, o adhan xiita acrescenta a frase a ação de Maomé é a melhor obra, outra diferença em relação ao adhan sunita padrão.
A jurisprudência xiita tem sua própria metodologia e suas próprias escolas. A principal é chamada de escola Jafari, em homenagem ao sexto imam, Jaafar al-Sadiq, que é considerado um dos maiores juristas e teólogos da história islâmica. A escola Jafari difere das quatro escolas sunitas em várias questões específicas de herança, de casamento e de outros assuntos jurídicos. Uma das diferenças mais conhecidas é a posição xiita sobre o casamento temporário, chamado de mutah em árabe, que é uma forma de casamento com duração determinada previamente, proibida pelos sunitas mas permitida pela jurisprudência xiita.
Em termos de atitudes religiosas, o xiismo tem uma tradição de veneração das tumbas e dos santuários dos imames que é muito mais desenvolvida e central do que qualquer prática equivalente no mainstream sunita. Visitar os santuários dos imames, beijar os gradis e as grades que os cercam, fazer orações dirigidas aos imames pedindo sua intercessão junto a Deus são práticas profundamente enraizadas na devoção popular xiita. Essas práticas são contestadas pelos sunitas mais conservadores, especialmente os de orientação salafita e wahhabita, que as consideram formas de shirk, de associação de outros seres a Deus, e que as condenam veementemente. Esse desacordo sobre as práticas de veneração dos santos e das tumbas é uma das fontes mais constantes de tensão entre os dois grupos até os dias de hoje.
Agora precisamos entender como essa divisão teológica e histórica se tornou também uma divisão geopolítica de enorme importância no mundo contemporâneo.
A Revolução Islâmica Iraniana de mil novecentos e setenta e nove, liderada pelo aiatolá Khomeini, foi um ponto de virada crucial na história da divisão sunita-xiita. Pela primeira vez na história moderna, um Estado muçulmano estava sendo governado por clérigos xiitas segundo a teoria da liderança do jurista islâmico. O Irã pós-revolucionário declarou abertamente seu desejo de exportar a revolução islâmica, o que imediatamente criou temores nos governos sunitas da região, especialmente na Arábia Saudita, que é ao mesmo tempo o guardião dos locais mais sagrados do islamismo sunita, Meca e Medina, e o principal produtor de petróleo da região.
A Arábia Saudita e o Irã se tornaram os dois grandes polos de uma rivalidade regional que combina dimensões religiosas, políticas e econômicas numa mistura explosiva. O Irã é predominantemente xiita e apresenta seu projeto político como uma forma de liderança do mundo islâmico baseada na resistência ao imperialismo ocidental e na implementação da lei islâmica. A Arábia Saudita é predominantemente sunita e apresenta seu projeto político como a guarda das tradições islâmicas mais puras, financiando a disseminação de uma forma conservadora do islamismo sunita, chamada de wahhabismo ou salafismo, em todo o mundo muçulmano, da Nigéria à Indonésia, passando pelo Paquistão e pela Ásia Central.
Essa rivalidade entre Irã e Arábia Saudita alimenta ou se alimenta de conflitos em vários países da região. No Líbano, o Hezbollah, que é uma organização político-militar xiita fortemente apoiada pelo Irã, é um dos principais atores políticos do país e mantém um arsenal militar que rivaliza com as forças armadas do Estado libanês. No Iêmen, um conflito que começou como uma guerra civil interna tornou-se progressivamente um teatro da rivalidade iraniano-saudita, com o Irã apoiando os houthis, um movimento xiita zaydita que controla grandes partes do norte do Iêmen, e a Arábia Saudita liderando uma coalizão de países sunitas que combate os houthis. No Iraque, depois da queda de Saddam Hussein em dois mil e três, a maioria xiita do país que havia sido governada por uma elite sunita baathista assumiu o poder, o que criou tensões profundas com a minoria sunita e abriu espaço para o surgimento de grupos extremistas sunitas como o Estado Islâmico, que não apenas combatia o governo iraquiano e as forças americanas mas também atacava especificamente os xiitas como hereges que mereciam a morte. Na Síria, um regime liderado por Bashar al-Assad, que pertence à comunidade alauita, uma vertente do xiismo, combate uma insurgência que inclui tanto grupos sunitas moderados quanto grupos extremistas sunitas, num conflito em que o Irã apoia Assad e a Arábia Saudita e outros países do Golfo Pérsico apoiaram vários grupos da oposição.
Mas é importante não exagerar o papel da religião como causa única ou mesmo principal desses conflitos. As rivalidades entre Irã e Arábia Saudita, entre sunitas e xiitas, são moldadas não apenas pela teologia mas também por interesses nacionais, por ambições de hegemonia regional, por acesso ao petróleo, por alianças com potências externas como os Estados Unidos e a Rússia, e por histórias de opressão e de discriminação de minorias que têm raízes muito mais antigas do que qualquer conflito recente. A identidade sunita ou xiita é um dos múltiplos fatores que moldam o comportamento político de governos e de grupos armados na região, mas raramente é o único fator, e frequentemente nem é o mais importante.
É preciso também dizer algo que os meios de comunicação raramente enfatizam: a imensa maioria dos muçulmanos sunitas e xiitas ao redor do mundo coexiste pacificamente. Na Turquia, em grande parte do Líbano, em partes do Iraque, no Paquistão, no Brasil, nos Estados Unidos e em inúmeros outros lugares, sunitas e xiitas vivem como vizinhos, casam entre si, fazem negócios juntos e participam das mesmas comunidades sem que a diferença teológica gere violência ou mesmo hostilidade significativa. A violência sectária que domina as notícias é real e é terrível, mas é produto de circunstâncias políticas específicas e de atores políticos que instrumentalizam a identidade religiosa para seus próprios fins, e não representa de forma alguma a relação normal entre muçulmanos de diferentes correntes.
Dentro da diversidade sunita, é preciso mencionar os movimentos salafitas e wahhabitas, que tiveram grande influência no islamismo do século vinte e do início do século vinte e um. O wahhabismo é uma corrente teológica fundada por Muhammad ibn Abd al-Wahhab no século dezoito na Arábia central, que defendia um retorno ao islamismo primitivo purificado de todas as inovações que haviam se acumulado ao longo dos séculos. Ibn Abd al-Wahhab pregava a destruição dos santuários, a proibição das práticas de veneração de santos, e uma interpretação muito literal e restritiva do Alcorão e da Sunnah. Ele se aliou com um chefe tribal chamado Muhammad ibn Saud, e dessa aliança nasceu o Estado que viria a se tornar a Arábia Saudita moderna. O wahhabismo, financiado pela imensa riqueza petroleira da Arábia Saudita a partir dos anos setenta do século vinte, foi exportado para todo o mundo muçulmano através do financiamento de mesquitas, de escolas islâmicas e de publicações religiosas, influenciando profundamente o islamismo de países que antes tinham tradições locais muito diferentes.
O salafismo, que é um movimento mais amplo do qual o wahhabismo é uma vertente, busca modelar a prática islâmica segundo o exemplo dos salaf, os pios antepassados dos primeiros três séculos do islamismo, rejeitando as inovações posteriores. O salafismo tem múltiplas vertentes, da mais quietista, que se concentra na reforma individual e evita a política, às mais politizadas e em alguns casos violentas, que buscam mudanças radicais na organização das sociedades muçulmanas.
É nesse contexto que surgiram os movimentos jihadistas violentos do final do século vinte e início do século vinte e um, como a Al-Qaeda, responsável pelos ataques de onze de setembro de dois mil e um nos Estados Unidos, e o Estado Islâmico, que entre dois mil e treze e dois mil e dezasseis controlou vastos territórios no Iraque e na Síria e proclamou um califado que nunca foi reconhecido pela esmagadora maioria dos muçulmanos do mundo. Esses grupos, que justificam a violência indiscriminada contra civis usando argumentos religiosos, são condenados pela grande maioria dos scholars islâmicos de todas as correntes como um desvio profundo dos princípios do islamismo. O fato de que grupos extremamente minoritários do ponto de vista numérico têm dominado a percepção global do islamismo é um dos maiores desafios que as comunidades muçulmanas enfrentam na contemporaneidade.
Para os estudantes de história, a divisão entre sunitas e xiitas é um exemplo extraordinariamente claro de como um evento histórico específico, neste caso a questão da sucessão ao profeta Maomé e especialmente o massacre de Karbala, pode gerar uma identidade coletiva que dura séculos, que molda a vida religiosa, a política, a arte, a literatura e as relações internacionais de gerações que estão separadas por séculos do evento original. Os xiitas que choram por Husayn durante o Ashura estão revivendo uma dor que aconteceu há mais de mil e trezentos anos como se fosse uma ferida ainda aberta, porque para a identidade xiita essa dor não é apenas história passada: é uma realidade espiritual permanente que diz algo essencial sobre a natureza do mundo, sobre a injustiça que os justos sofrem nesta vida, e sobre a esperança de uma redenção futura quando o imam oculto retornar.
Ao mesmo tempo, a divisão sunita-xiita nos ensina que as religiões não são blocos monolíticos e uniformes: são tradições vivas, com debates internos, com correntes diversas, com tensões e com sínteses em constante movimento. O islamismo que existe no mundo hoje não é uma coisa única e simples: é uma tradição com mais de um bilhão e oitocentos milhões de participantes, distribuídos por cem países, falando centenas de línguas, pertencendo a dezenas de correntes teológicas e jurídicas, vivendo em contextos políticos e culturais radicalmente diferentes, e expressando sua fé comum em formas extraordinariamente diversas.
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