Curso de História para o 1º Ano do Ensino Médio
MÓDULO 7 – ROMA ANTIGA
Aula 87 – A romanização: como Roma influenciou os povos conquistados
Aula 87 – A romanização: como Roma influenciou os povos conquistados
Quando um exército romano entrava em território conquistado, não levava consigo apenas armas e soldados. Levava também uma língua, um conjunto de leis, uma forma de construir cidades, uma maneira de organizar o tempo, de celebrar os deuses, de comer, de se vestir e de pensar sobre o mundo. Esse conjunto de elementos que Roma espalhava por onde passava e que gradualmente transformava as culturas dos povos que entravam em contato com ela é o que os historiadores chamam de romanização. Entender a romanização é entender um dos processos mais profundos e duradouros da história humana, cujos efeitos ainda são visíveis hoje na língua que falamos, nas leis que seguimos, nas cidades onde vivemos e em dezenas de outros aspectos da vida cotidiana que raramente paramos para questionar.
Mas antes de mergulhar nesse processo, é preciso fazer uma advertência importante: a romanização não foi um fenômeno simples, uniforme nem sempre pacífico. Não foi simplesmente uma questão de Roma ensinar coisas superiores a povos atrasados, como alguns escritores antigos e modernos quiseram apresentar. Foi um processo complexo, cheio de contradições, de resistências, de adaptações criativas e de trocas que funcionaram nos dois sentidos. Roma influenciou os povos que conquistou, mas também foi profundamente influenciada por eles. A romanização foi, na verdade, um encontro de culturas, violento em sua origem mas extraordinariamente rico em seus resultados.
Para começar a entender esse processo, é preciso ter em mente que o Império Romano, em seu período de maior extensão, abrangia territórios e populações de uma diversidade impressionante. Na Hispânia, que corresponde hoje à Espanha e a Portugal, viviam povos ibéricos, celtas e celtibéricos com culturas antigas e desenvolvidas. Na Gália, que é hoje a França e parte da Bélgica e da Alemanha, os povos celtas chamados de gauleses tinham uma civilização complexa, com druidas como sacerdotes e sábios, com uma tradição de artesanato em metal que era reconhecida por toda a Europa e com uma organização social baseada em clãs e tribos. Na Britânia, que é a atual Inglaterra e País de Gales, outras tribos celtas tinham suas próprias tradições. Na Germânia, além do Reno, tribos que os romanos chamavam de germânicas viviam de forma que os romanos classificavam como bárbara, mas que tinha sua própria coerência interna. Na Grécia e no Oriente, populações com tradições intelectuais e culturais de altíssimo nível, em muitos aspectos superiores às romanas, foram incorporadas ao Império. No Egito, uma das civilizações mais antigas do mundo continuou existindo sob o domínio romano. No norte da África, populações berberes e as antigas cidades fenícias e cartaginesas foram integradas ao sistema imperial. Na Síria e na Palestina, povos com tradições religiosas que mudariam o mundo inteiro estavam sendo absorvidos.
Como Roma tratou toda essa diversidade? Quais foram os mecanismos através dos quais a cultura romana penetrou nas sociedades locais? E o que sobrou dessa penetração até os nossos dias?
A resposta começa com o exército. Em qualquer território conquistado, o exército romano era o primeiro e mais imediato agente de transformação. Acampamentos militares eram instalados em posições estratégicas, e em torno desses acampamentos cresciam, quase inevitavelmente, comunidades civis. Comerciantes se instalavam para vender aos soldados. Artesãos chegavam para fornecer produtos. Mulheres locais se relacionavam com os soldados, gerando filhos que cresciam numa mistura das duas culturas. Quando a legião partia, o acampamento muitas vezes permanecia, e a comunidade civil continuava crescendo ao seu redor até se tornar uma cidade.
Muitas das maiores cidades da Europa moderna têm origem em acampamentos militares romanos. York, na Inglaterra, começou como o acampamento da Nona Legião, chamado Eboracum. Colônia, na Alemanha, originou-se da Colônia Agrippina, fundada pela esposa do imperador Cláudio. Viena, na Áustria, foi o acampamento de Vindobona. Budapeste, na Hungria, desenvolveu-se a partir de Aquincum. Londres, chamada pelos romanos de Londinium, começou como uma instalação de travessia do Rio Tâmisa e cresceu rapidamente para se tornar a capital da província da Britânia. Essas cidades guardam, em seus nomes modernos e em seus traçados urbanos, a memória do mundo romano.
O traçado das cidades romanas seguia um plano bastante padronizado, que os arquitetos modernos estudam com admiração. No centro ficava o fórum, a praça pública que era ao mesmo tempo o centro comercial, político e social da cidade. Em torno do fórum se organizavam os principais edifícios públicos: a basílica, que era o tribunal e o centro de negócios; os templos dedicados às divindades do Estado; a cúria, onde se reunia o conselho municipal; e às vezes um arco triunfal comemorando alguma vitória militar. A partir do fórum, duas ruas principais cortavam a cidade: o cardo, que corria de norte a sul, e o decumano, que corria de leste a oeste. Todas as outras ruas se organizavam de forma paralela a essas duas ruas principais, criando uma malha retangular em grade que facilitava a circulação e a localização de qualquer ponto dentro da cidade.
Além do traçado, as cidades romanas em qualquer parte do Império compartilhavam certos equipamentos que eram considerados essenciais para a vida civilizada segundo os padrões romanos. O teatro, onde se apresentavam peças e espetáculos. O anfiteatro, para os jogos de gladiadores e as caçadas. O circo, para as corridas de bigas onde houvesse espaço suficiente. As termas públicas, onde os habitantes da cidade podiam se banhar, socializar e exercitar-se. O aqueduto, que trazia água limpa de fontes distantes. As fontes públicas espalhadas pelos bairros. O sistema de esgoto que levava os dejetos para longe das áreas habitadas.
Cada vez que Roma construía essas estruturas em um território conquistado, estava transformando a vida cotidiana da população local de uma forma muito concreta. Um bretão que antes tomava banho num riacho e que passou a frequentar as termas públicas de uma cidade como Aquae Sulis, que é hoje a cidade de Bath, na Inglaterra, com suas piscinas aquecidas por uma fonte termal natural que os romanos canalizaram e enquadraram numa estrutura de tijolos e pedra, estava experimentando algo que mudava sua percepção do que era conforto, do que era higiene e do que era uma vida boa. A mudança era material antes de ser cultural, mas as mudanças materiais sempre carregam consigo mudanças de valores e de comportamento.
O latim foi talvez o instrumento de romanização mais poderoso e de consequências mais duradouras. Em todo o Ocidente do Império, o latim tornou-se progressivamente a língua da administração, do exército, do comércio e, com o tempo, da própria vida cotidiana das populações locais. Esse processo foi gradual e levou gerações. No início da conquista, os funcionários romanos usavam intérpretes para se comunicar com as populações locais. Depois, as elites locais aprendiam latim para poder se comunicar com os governadores e com os funcionários imperiais. Depois, o latim foi penetrando nas camadas médias e populares através do comércio e das relações cotidianas com os soldados e colonos romanos.
As línguas locais não desapareceram de imediato. Na Hispânia, na Gália e na Britânia, as línguas celtas continuaram sendo faladas durante séculos, especialmente nas áreas rurais mais afastadas dos centros urbanos romanos. Mas ao longo de gerações, o latim foi substituindo as línguas locais como meio de comunicação principal. Na Hispânia, na Gália, na Dácia e no norte da África, esse processo foi completo: as línguas celtas, ibéricas e berberes desapareceram quase totalmente, substituídas pelo latim que evoluiu ao longo dos séculos para se tornar as línguas que hoje chamamos de línguas românicas ou neolatinas.
O português é uma língua neolatina. O espanhol é uma língua neolatina. O francês, o italiano, o romeno, o catalão, o galego, o occitano: todas essas línguas são formas evoluídas do latim popular que foi plantado nos territórios romanizados há dois mil anos. Quando falamos português, estamos usando uma língua que descende diretamente do latim falado pelos soldados e colonos romanos na Península Ibérica. A maioria das palavras que usamos no dia a dia tem origem latina: água, do latim aqua; terra, do latim terra; homem, do latim homo; mulher, do latim mulier; filho, do latim filius; pai, do latim pater; amor, do latim amor. Essa lista poderia se estender por páginas e páginas. O latim não é uma língua morta. É a língua viva que falamos todos os dias, transformada por séculos de evolução.
No Oriente do Império, o processo foi diferente. Lá, o grego já era a língua comum de cultura e de comércio desde as conquistas de Alexandre Magno, três séculos antes de Roma. O grego era falado desde a Grécia até o Egito, desde a Síria até a Anatólia, que é a atual Turquia. Essa área era muito mais densamente urbanizada e culturalmente sofisticada do que a maioria do Ocidente, e o grego era o veículo de uma tradição filosófica, literária e científica que os próprios romanos admiravam profundamente. Por isso, no Oriente, o latim nunca substituiu o grego. As duas línguas coexistiram, com o latim servindo principalmente como língua da administração militar e o grego permanecendo como língua da cultura e do comércio. Essa diferença entre um Ocidente latino e um Oriente grego seria um fator decisivo séculos mais tarde, quando o Império Romano se dividiu em duas partes.
O direito romano foi outro pilar fundamental da romanização. Em todas as províncias, a administração romana funcionava segundo os princípios do direito romano, e ao longo do tempo as populações locais foram sendo incorporadas a esse sistema jurídico. Contratos de compra e venda, questões de herança, disputas sobre propriedades, crimes e punições: tudo isso era regulado pelo direito romano nas cidades e nas regiões mais integradas ao sistema imperial.
Mas a romanização jurídica não significava necessariamente a abolição dos costumes locais. Roma era pragmática nesse aspecto: permitia que comunidades locais continuassem usando suas próprias tradições jurídicas para regular questões internas, especialmente em áreas rurais e em comunidades que tinham um grau menor de integração ao mundo urbano romano. O que Roma exigia era o respeito às normas imperiais nas questões que afetavam o Estado, como o pagamento de impostos, o serviço militar e a manutenção da ordem pública.
Com o tempo, especialmente após a concessão da cidadania a todos os homens livres do Império em duzentos e doze depois de Cristo, pelo imperador Caracala, o direito romano tornou-se o sistema jurídico único aplicável a toda a população livre do Império. Esse passo foi decisivo para a uniformização jurídica do mundo romano.
A influência do direito romano sobre as civilizações posteriores não pode ser exagerada. Quando os reinos bárbaros que surgiram das ruínas do Império Romano Ocidental no século quinto depois de Cristo precisaram organizar suas próprias estruturas jurídicas, usaram como base o direito romano que já conheciam. A Igreja Católica, que nos séculos seguintes se tornaria a principal instituição intelectual e administrativa da Europa ocidental, desenvolveu seu próprio sistema jurídico, o direito canônico, amplamente baseado nas categorias e nos procedimentos do direito romano. Quando as universidades europeias surgiram a partir do século doze, o direito romano foi um dos primeiros grandes temas de estudo sistemático. O Código de Justiniano, que foi a grande compilação do direito romano realizada no século sexto pelo imperador bizantino Justiniano, tornou-se o texto fundamental do ensino jurídico europeu por séculos. E a grande maioria dos sistemas legais modernos da Europa e da América Latina, incluindo o Código Civil brasileiro, tem raízes profundas na tradição jurídica romana.
A religião foi uma das áreas mais complexas da romanização. Os romanos eram, como já mencionamos em outras ocasiões, extremamente tolerantes em matéria religiosa, pelo menos em relação às religiões que não colocavam em xeque a autoridade do Estado. O politeísmo romano era naturalmente inclusivo: se existia um deus novo, ele simplesmente era incorporado ao panteão já existente, ou identificado com um deus romano equivalente.
Esse processo de identificação entre deuses de culturas diferentes é chamado pelos historiadores de interpretatio romana, ou seja, a interpretação romana de divindades estrangeiras. O processo funcionava de forma bastante simples: os romanos observavam quais eram as funções de um deus local e o identificavam com o deus romano que tinha funções semelhantes. O deus guerreiro dos celtas da Britânia era identificado com Marte. O deus curador das nascentes de Bath era identificado com Minerva, que entre outras funções era a deusa das artes e das curas. Em muitos casos, os dois nomes eram usados juntos: o deus da nascente termal de Bath passou a ser chamado de Sulis Minerva, combinando o nome local Sulis com o nome romano Minerva.
Essa flexibilidade religiosa facilitou enormemente a integração das populações conquistadas ao sistema imperial. Os habitantes de uma cidade provincial podiam continuar venerando seus próprios deuses locais enquanto também participavam dos rituais do culto imperial e das cerimônias dos deuses romanos. Não havia contradição nisso do ponto de vista politeísta: quanto mais deuses, melhor, pois mais proteções sobrehumanas estariam disponíveis.
Com o tempo, divindades orientais como Ísis, o deus Mitra e o próprio Deus cristão espalharam-se pelo Império todo, seguindo as rotas comerciais e os movimentos militares. O culto de Ísis, que era uma deusa egípcia da maternidade e da ressurreição, chegou a ser muito popular em Roma e nas províncias ocidentais. O culto de Mitra, de origem persa, era especialmente popular entre os soldados. E o Cristianismo, que começou como um movimento dentro do judaísmo na Palestina, se expandiu pelo Império ao longo dos séculos primeiro e segundo depois de Cristo, seguindo exatamente as redes de comunicação e de mobilidade que a estrutura imperial havia criado. As estradas romanas foram o caminho pelo qual os apóstolos e missionários cristãos viajaram. O grego comum, língua de cultura do Oriente romano, foi o idioma em que os textos cristãos foram escritos e divulgados. O sistema de cidades conectadas por rotas comerciais foi o ambiente em que as primeiras comunidades cristãs se estabeleceram.
Em certo sentido, pode-se dizer que a estrutura do Império Romano criou as condições para a expansão do Cristianismo em uma escala que seria impossível sem ela. A mesma paz romana que permitia o comércio e a circulação de mercadorias permitia também a circulação de ideias religiosas e de missionários. Quando o Cristianismo foi finalmente reconhecido pelo Estado romano em trezentos e treze depois de Cristo, com o Edito de Milão do imperador Constantino, já havia comunidades cristãs em praticamente todas as províncias do Império.
A arquitetura foi outra dimensão fundamental da romanização. Em qualquer cidade conquistada onde os romanos se instalavam de forma permanente, a paisagem urbana era transformada. Templos ao estilo greco-romano substituíam ou se instalavam ao lado dos santuários locais. Basílicas, aquedutos, termas, teatros e anfiteatros surgiam onde antes havia construções de outros estilos ou simplesmente campos abertos. O material predominante mudava: a pedra cortada e o tijolo cozido de alta qualidade romanos substituíam construções de madeira, palha e barro que eram comuns em muitas regiões da Europa setentrional e ocidental antes da conquista.
As técnicas construtivas romanas eram de uma sofisticação notável para a época. O arco de volta plena, que os romanos herdaram e aperfeiçoaram em relação às versões anteriores, permitia construir estruturas de grande vão sem precisar de pilares intermediários. A abóbada de berço, que era essencialmente um arco estendido no espaço, e a cúpula, que era uma abóbada hemisférica, permitiram cobrir espaços imensos. O Panteão de Roma, construído durante o reinado de Adriano, tem uma cúpula de quase quarenta e quatro metros de diâmetro que permaneceu por mais de mil anos como a maior cúpula do mundo. Ela não é sustentada por qualquer coluna interna: toda a estrutura se autossustenta pela perfeita distribuição das forças de compressão ao longo da espessura da própria cúpula de concreto.
O concreto romano, chamado de opus caementicium, foi uma das contribuições tecnológicas mais importantes de Roma. Era feito de uma mistura de cal, areia, pedra vulcânica chamada de pozolana e água. Quando seco, tornava-se extremamente resistente e duradouro, mais do que o concreto comum moderno em certas aplicações. Misturado com pedaços de pedra e tijolo como agregado, esse concreto podia ser moldado em qualquer forma e usado para construir estruturas de grande escala e de longa duração. Muitas obras romanas de concreto sobreviveram dois mil anos em condições que impressionam os engenheiros modernos.
O conhecimento dessas técnicas construtivas espalhou-se pelas províncias à medida que os romanos construíam em todo o Império. Arquitetos e construtores locais aprendiam com os mestres romanos e passavam a aplicar as mesmas técnicas em suas próprias obras. Quando o Império Romano declinou, essas técnicas sobreviveram nas mãos das populações provinciais, que as usaram para construir as igrejas, os mosteiros e os castelos da Idade Média europeia. A arquitetura românica medieval, que dominou a Europa entre os séculos dez e doze, tem esse nome exatamente porque seus construtores adaptaram as formas e as técnicas arquitetônicas romanas para as necessidades de um mundo cristão e medieval.
A agricultura foi outra área profundamente afetada pela romanização. Não que os povos conquistados não soubessem cultivar a terra antes dos romanos. Mas a integração ao Império trouxe mudanças importantes nas culturas cultivadas, nas técnicas de produção e na organização da propriedade rural. Em muitas regiões, a conquista romana foi acompanhada pela introdução ou pela expansão de culturas típicas do mundo mediterrâneo, especialmente a vinha e a oliveira.
O vinho e o azeite eram produtos essenciais da dieta romana, mas que não eram produzidos em todas as províncias antes da chegada de Roma. Na Gália, por exemplo, os celtas bebiam cerveja e hidromél, não vinho. Com a romanização, a viticultura foi introduzida em vastas áreas da Gália, especialmente no sul, e com o tempo o vinho tornou-se parte central da cultura gaulesa e depois francesa. Hoje, a França é um dos maiores produtores de vinho do mundo, e muitas de suas regiões vinícolas mais famosas, como a Borgonha e o Bordeaux, têm suas origens nas vinhas plantadas na época romana.
O mesmo ocorreu na Hispânia e na Britânia. Na Hispânia, a produção de vinho e de azeite cresceu enormemente sob o domínio romano, e a Hispânia se tornou um dos maiores exportadores desses produtos para o resto do Império. Ânforas hispânicas de azeite foram encontradas em quantidades imenomens na colina do Monte Testaccio, em Roma, que é literalmente uma colina artificial formada por fragmentos de ânforas, principalmente hispânicas, acumulados ao longo de séculos de importações.
A romanização também transformou as elites locais, e esse foi talvez seu mecanismo mais eficiente de penetração cultural. Em qualquer território conquistado, Roma precisava de colaboradores locais para administrar as cidades, recolher impostos e manter a ordem. As aristocracias locais foram progressivamente cooptadas para desempenhar essas funções, e a cooptação implicava uma aculturação: para ser útil ao sistema romano, um aristocrata local precisava falar latim, entender o direito romano, saber como funcionavam as magistraturas municipais ao estilo romano e adotar pelo menos superficialmente os costumes e os valores romanos.
Em troca dessa colaboração, as elites locais recebiam reconhecimento, status e acesso a redes de poder que se estendiam por todo o Império. Um aristocrata gaulês que houvesse se romanizado suficientemente e que houvesse desempenhado funções militares ou administrativas podia ser nomeado para cargos na burocracia imperial, podia tornar-se senador romano, podia enviar seus filhos para estudar em Roma e vê-los fazer carreiras na administração imperial. A romanização era, para essas elites, uma estratégia de ascensão social tanto quanto uma mudança cultural genuína.
Mas a romanização das elites não foi sempre um processo tranquilo nem completamente voluntário. Em muitos casos, foi acompanhada pela destruição das estruturas de poder anteriores. Os druidas celtas da Gália e da Britânia, que eram simultaneamente sacerdotes, juízes e guardiães do saber tradicional de suas comunidades, foram sistematicamente perseguidos pelos romanos, que os viam como focos de resistência e como potenciais organizadores de rebeliões. A destruição da ilha sagrada de Mona, que é hoje a ilha de Anglesey, no País de Gales, pelo general romano Suetônio Paulino em sessenta depois de Cristo, foi um ataque deliberado ao centro do druidismo britânico. Com a eliminação dos druidas, a camada sacerdotal e intelectual que preservava e transmitia a cultura celta tradicional foi destruída, e a cultura celta ficou muito mais vulnerável à substituição pela cultura romana.
Casos de resistência ativa à romanização existiram em muitas províncias. Na Britânia, a rainha Boudica, que liderou uma grande revolta contra a dominação romana em torno de sessenta depois de Cristo, é um dos exemplos mais famosos. Boudica era rainha dos icenos, uma tribo celta do leste da atual Inglaterra. Após a morte de seu marido, o rei Prasutagus, que havia sido aliado de Roma, os romanos confiscaram as terras da família, espancaram a rainha e violentaram suas filhas, contrariando os acordos feitos com o marido. A reação de Boudica foi uma revolta em grande escala que queimou as cidades romanas de Camulodunum, que é a atual Colchester, de Londinium, que é a atual Londres, e de Verulamium, que é a atual St Albans. O governador Suetônio Paulino conseguiu finalmente derrotar o exército de Boudica em batalha, e a rainha se suicidou para evitar a captura.
A revolta de Boudica é um exemplo de como a romanização podia ser vivida como uma opressão pelos povos conquistados, especialmente quando as promessas romanas de respeito aos acordos locais não eram cumpridas. Mas também é um exemplo de como a resistência, mesmo quando heroica, raramente conseguia reverter o processo de integração ao sistema imperial no longo prazo. Após a derrota de Boudica, a Britânia continuou sendo romanizada, e séculos depois seus habitantes falavam latim e viviam em cidades ao estilo romano como qualquer outro provincial do Império.
Na Germânia além do Reno, a história foi diferente. Após a catástrofe de Teutoburgo em nove depois de Cristo, quando três legiões romanas foram aniquiladas numa emboscada pelas forças do chefe germânico Armínio, Roma desistiu de tentar romanizar o território além do Reno. O Reno e o Danúbio tornaram-se as fronteiras permanentes, e os povos germânicos a leste dessas fronteiras permaneceram fora do processo de romanização. Esse fato teria consequências enormes para a história futura da Europa: quando esses povos cruzaram as fronteiras do Império nos séculos quarto e quinto depois de Cristo, eram cultural e linguisticamente muito diferentes das populações romanizadas que encontraram, e foi dessa diferença que nasceu a divisão entre o mundo latino romanizado e o mundo germânico que estruturou grande parte da história europeia medieval e moderna.
A romanização também teve efeitos importantes sobre as artes e sobre a produção intelectual das províncias. Autores provinciais que escreveram em latim tornaram-se alguns dos maiores nomes da literatura latina. Virgílio, o maior poeta romano, nasceu no norte da Itália, numa região que havia sido celta antes de ser romanizada. Catulo, um dos maiores poetas líricos latinos, também era do norte da Itália. Apuleio, autor do romance O Asno de Ouro, era norte-africano. Frontão, o grande mestre de retórica do século segundo, era norte-africano. Tertuliano e Agostinho, dois dos mais importantes pensadores cristãos, eram norte-africanos. Sêneca e os dois Plínios eram hispânicos. Marcial, o poeta dos epigramas, era hispânico. A literatura latina, em outras palavras, não foi uma criação exclusiva dos romanos nascidos em Roma. Foi o produto de uma civilização espalhada por todo o Mediterrâneo, na qual talentos de origens diversas contribuíam numa língua e numa tradição cultural compartilhadas.
A medicina, a filosofia, a ciência e as técnicas agrícolas também se espalharam pelo Império através das redes de comunicação que a estrutura imperial tornava possíveis. Médicos gregos trabalhavam em Roma e nas províncias. Filósofos de escolas diversas circulavam de cidade em cidade. Agrônomos escreviam manuais que eram lidos e aplicados em fazendas da Hispânia à Síria. O conhecimento não ficava confinado às bibliotecas das grandes cidades, mas circulava, se adaptava e se misturava com saberes locais.
A alimentação foi outra dimensão da romanização cotidiana. Os romanos tinham uma culinária com características próprias: usavam intensamente o garum, que era um molho feito de peixe fermentado semelhante aos molhos de peixe asiáticos modernos, como ingrediente base para temperar praticamente todos os pratos. Usavam azeite de oliva em abundância, vinho em quantidades que hoje espantariam, e especiarias orientais como a pimenta, o gengibre e a cúrcuma para temperar carnes e molhos. Essas preferências culinárias se espalharam pelas províncias, misturando-se com as tradições alimentares locais e criando cozinhas regionais que combinavam elementos romanos com ingredientes e técnicas locais.
O vestuário também foi modificado pela romanização. A toga, que era a veste cívica por excelência do cidadão romano adulto do sexo masculino, era um símbolo de status e de pertencimento ao mundo romano. Nas províncias, adotar a toga era um gesto de identificação com a cultura romana. A túnica, que era a veste básica de uso cotidiano, espalhou-se por todas as províncias como alternativa mais prática à toga. Nas regiões mais frias do norte, como a Gália e a Britânia, os provinciais mantiveram elementos do vestuário local, como as calças, que os romanos inicialmente desprezavam como coisa de bárbaros mas que foram progressivamente adotando à medida que mais soldados e mais governadores serviam nas províncias frias do norte.
Um aspecto da romanização que frequentemente passa despercebido mas que teve consequências enormes é a romanização do calendário e do tempo. O calendário que usamos hoje, com doze meses de comprimentos desiguais e um ano de trezentos e sessenta e cinco dias com um dia extra a cada quatro anos, é o chamado calendário gregoriano, que foi adotado pela Igreja Católica em mil quinhentos e oitenta e dois. Mas o calendário gregoriano é uma reforma do calendário juliano, que foi criado por Júlio César em quarenta e seis antes de Cristo com a ajuda do astrônomo egípcio Sosígenes. O calendário juliano substituiu o calendário romano antigo, que era lunissolar e havia acumulado uma desorganização enorme ao longo dos séculos. Os nomes dos meses que usamos hoje em português são diretamente derivados do latim: janeiro vem de Janus, o deus das portas e dos começos; março vem de Marte, deus da guerra; julho vem de Júlio César; agosto vem do imperador Augusto. E os dias da semana também têm nomes que passaram pelo filtro romano: o sábado vem do hebraico Sabbath via latim; o domingo vem do latim dominicus, dia do senhor, na tradição cristã; terça-feira vem de Marte, quarta-feira de Mercúrio, quinta-feira de Júpiter, sexta-feira de Vênus, nomes que em outras línguas latinas são ainda mais transparentes, como em francês, onde os dias se chamam mardi, mercredi, jeudi e vendredi.
O sistema de pesos e medidas romano também deixou marcas. O pé romano, a milha romana, o libra romano: muitos desses termos e das medidas que representavam sobreviveram por séculos nas práticas comerciais e construtivas das populações que herdaram a tradição romana, e alguns chegaram até a modernidade com modificações mas com continuidade reconhecível.
A romanização, em síntese, não foi simplesmente a imposição de uma cultura sobre outras. Foi um processo longo, complexo e em muitos sentidos recíproco, pelo qual o contato entre Roma e os povos que conquistou produziu formas novas de vida que combinavam elementos romanos com tradições locais. Roma mudou os povos que conquistou, mas esses povos também mudaram Roma: a língua latina absorveu palavras célticas, germânicas, gregas e orientais. A religião romana foi profundamente transformada pelo contato com as religiões do Oriente, culminando na adoção do Cristianismo como religião oficial. A culinária, as artes, a filosofia e as técnicas militares romanas foram todas enriquecidas por contribuições dos povos que Roma havia incorporado ao seu mundo.
E o resultado desse processo de mistura e de transformação não desapareceu com o fim do Império Romano. Ao contrário, foi passado adiante às civilizações que se seguiram: os reinos medievais europeus, a Igreja Católica, as universidades medievais, os estados nacionais modernos e finalmente as colônias europeias espalhadas pelo mundo, incluindo o Brasil, herdaram elementos essenciais da tradição romana através das populações romanizadas que sobreviveram à queda do Império.
É por isso que estudar a romanização não é estudar algo distante e morto. É estudar as origens de muita coisa que ainda existe em nossas vidas: a língua que falamos, o sistema de leis sob o qual vivemos, a organização das nossas cidades, os nomes dos meses e dos dias da semana, a religião que molda a cultura do nosso país. Roma está presente em nosso cotidiano de formas que raramente percebemos.
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| Dados de Catalogação na Publicação: NORAT, Markus Samuel Leite. Curso de história para o 1º ano do ensino médio. João Pessoa: Editora Norat, 2026. Livro Digital, Formato: HTML5, Tamanho: 132,4125 gigabytes (132.412.500 kbytes) . ISBN: 978-65-80808-16-8 | Cutter: N825c | CDD-907.12 | CDU-94(100)”-04/17″:373.5 . Palavras-chave: História, Ensino Médio, Pré-História, Civilizações Antigas, Mesopotâmia, Egito Antigo, Grécia Antiga, Roma Antiga, África Antiga, Reinos Africanos, Mundo Árabe-Muçulmano, Idade Média, Feudalismo, Antigo Regime, Monarquias Absolutistas, Renascimento, Humanismo, ENEM, Vestibulares. . TODOS OS DIREITOS RESERVADOS. É proibida a cópia total ou parcial desta obra, por qualquer forma ou qualquer meio. A violação dos direitos autorais é crime tipificado na Lei n. 9.610/98 e artigo 184 do Código Penal. |
