Curso de História para o 1º Ano do Ensino Médio
MÓDULO 7 – ROMA ANTIGA
Aula 80 – A monarquia romana: os primeiros reis de Roma
Aula 80 – A monarquia romana: os primeiros reis de Roma
Roma não nasceu grande. Ela cresceu lentamente, ao longo de séculos, a partir de comunidades pequenas que viviam nas colinas do Lácio, uma região do centro da Itália banhada pelo Rio Tibre. Antes de se tornar uma república poderosa e, mais tarde, um império que dominou boa parte do mundo antigo, Roma passou por um período que os estudiosos chamam de monarquia, durante o qual a cidade era governada por reis. Esse período, que a tradição romana situa entre o século oitavo e o final do século sexto antes de Cristo, é fundamental para entender como Roma se organizou, quais foram seus primeiros conflitos e de que forma sua sociedade foi tomando forma.
A tradição romana preservou os nomes e as histórias de sete reis, apresentados em uma sequência que cobria aproximadamente duzentos e quarenta anos. Esses sete monarcas são Rômulo, Numa Pompílio, Tulo Hostílio, Anco Márcio, Tarquínio Prisco, Sérvio Túlio e Tarquínio, o Soberbo. Cada um deles é associado a realizações específicas e a transformações importantes na vida da cidade. Naturalmente, as informações que temos sobre esse período vêm de textos escritos muito tempo depois dos eventos que descrevem, e os historiadores modernos reconhecem que parte das narrativas é construída a partir de tradições orais, interpretações políticas posteriores e, em alguns casos, invenções destinadas a legitimar instituições que já existiam. Mas isso não significa que devemos ignorar essas histórias. Elas nos dizem muito sobre como os próprios romanos entendiam sua origem e que valores queriam ver associados aos fundamentos de sua cidade.
Para entender a monarquia romana é preciso antes compreender que a ideia de rei em Roma era diferente do que muitas pessoas imaginam ao ouvir essa palavra. O rei romano, chamado em latim de rex, não era necessariamente um governante absoluto que decidia tudo sozinho. Ao lado do rei existiam outras instituições. O Senado, formado por anciãos das famílias mais influentes, exercia um papel consultivo importante. A assembleia do povo também tinha algum papel nas decisões coletivas, embora de forma limitada nos primeiros tempos. O rei acumulava funções militares, religiosas e jurídicas. Era o chefe dos exércitos, o principal sacerdote e o juiz supremo. Mas governava dentro de um contexto em que as famílias poderosas também tinham voz.
A sociedade romana no período da monarquia era dividida, basicamente, em dois grandes grupos: os patrícios e os plebeus. Os patrícios eram as famílias antigas e privilegiadas, aquelas que alegavam descender dos primeiros habitantes de Roma e que controlavam as terras mais ricas, as posições religiosas mais importantes e o acesso ao Senado. Os plebeus eram o restante da população livre, formado por agricultores, artesãos, comerciantes e outros grupos que não pertenciam às famílias patrícias. Essa divisão seria uma das fontes de tensão mais persistentes da história romana, e suas raízes estão justamente no período monárquico.
Havia ainda outros grupos na sociedade. Os clientes eram pessoas livres que estabeleciam vínculos de dependência com famílias patrícias poderosas, recebendo proteção e apoio em troca de serviços e lealdade política. Os escravizados, por sua vez, eram pessoas sem liberdade que realizavam trabalhos domésticos, agrícolas e artesanais. A escravidão fazia parte da estrutura econômica desde os primeiros tempos de Roma, e o número de pessoas escravizadas cresceria enormemente à medida que a cidade expandisse suas conquistas militares.
O primeiro rei, Rômulo, é o fundador mítico de Roma, cuja história já foi apresentada anteriormente. Segundo a tradição, depois de fundar a cidade e estabelecer seus primeiros limites sagrados, Rômulo precisou resolver um problema prático e urgente: a nova comunidade tinha homens suficientes, mas mulheres eram escassas. Para garantir a sobrevivência e o crescimento da população, organizou uma festa e convidou os povos vizinhos, especialmente os sabinos. Durante a celebração, os romanos raptaram as mulheres sabinas e as forçaram a se casar com homens romanos.
O episódio do rapto das sabinas é uma das narrativas mais conhecidas da história de Roma e provavelmente guarda alguma memória histórica de tensões e fusões reais entre populações distintas que habitavam as colinas e os vales do Lácio. A história conta que os sabinos se prepararam para a guerra em resposta ao rapto, mas as próprias mulheres, já casadas com romanos e algumas já com filhos, interferiram no campo de batalha, colocando-se entre os combatentes e pedindo que não lutassem, pois qualquer resultado seria uma perda para elas, fosse a morte de seus pais ou de seus maridos. A paz resultante fundiu os sabinos e os romanos em um único povo, e o rei sabino Tito Tácio chegou a governar ao lado de Rômulo por um período.
Rômulo também é creditado com a criação de algumas das primeiras instituições romanas. A tradição atribui a ele a formação do Senado, inicialmente composto por cem anciãos que representavam as cem primeiras famílias de Roma. Esses anciãos eram chamados de patres, ou seja, pais, e de seus descendentes viria o nome patrícios. Rômulo também teria organizado o exército, dividido o povo em grupos para fins militares e políticos e estabelecido regras básicas para a vida coletiva.
O fim de Rômulo é narrado de forma igualmente mítica. Segundo a tradição, durante uma assembleia, uma tempestade cobriu o campo de uma escuridão densa, e quando a visibilidade voltou, Rômulo havia desaparecido. Alguns disseram que havia sido levado pelos deuses. Outros, que havia sido assassinado pelos próprios senadores, que teriam ocultado o corpo cortando-o em pedaços escondidos sob as togas. A versão oficial, naturalmente, era a da ascensão divina, e Rômulo passou a ser venerado como um deus sob o nome de Quirino, tornando-se parte do panteão religioso romano.
O segundo rei foi Numa Pompílio, escolhido pelo Senado após um período de interregno, ou seja, um intervalo sem rei em que os senadores se revezavam no exercício do poder. Numa era de origem sabina, o que refletia a fusão entre os dois povos que a história do rapto simbolizava. Seu reinado é apresentado pela tradição como um período de paz e de organização religiosa. Enquanto Rômulo era o rei guerreiro, o fundador violento e enérgico, Numa era o rei piedoso, sábio e organizador.
Numa é creditado com a criação ou a reorganização de muitas das instituições religiosas de Roma. Teria estabelecido o calendário romano, determinando quais dias eram propícios para negócios e atividades públicas e quais eram sagrados e deviam ser respeitados. Organizou os colégios sacerdotais, que eram grupos especializados em determinadas funções religiosas. Entre esses grupos estavam os pontífices, responsáveis por supervisionar a religião pública, as Virgens Vestais, encarregadas de manter o fogo sagrado de Vesta aceso no coração da cidade, e os áugures, especialistas em interpretar os sinais dos deuses por meio da observação das aves e de outros fenômenos naturais.
A religião era parte central da vida pública romana. As decisões políticas e militares eram frequentemente precedidas de rituais e de consultas aos sinais divinos. Guerras não eram iniciadas sem que os sacerdotes verificassem se os augúrios eram favoráveis. Tratados eram selados com juramentos que invocavam os deuses como testemunhas. O rei era ao mesmo tempo um governante e um intermediário entre os humanos e as forças divinas. Numa, portanto, ao organizar a estrutura religiosa, estava construindo um dos pilares fundamentais do Estado romano.
A tradição também conta que Numa recebia aconselhamento de uma ninfa chamada Egéria, com quem se encontrava secretamente em um bosque sagrado. Essa associação com uma divindade feminina da natureza provavelmente reflete a importância dos rituais ligados às fontes e às águas na religião romana primitiva. Seja como for, a figura de Numa ficou associada à ideia de que a sabedoria política e a ordem religiosa são inseparáveis, e que um governante justo busca orientação em algo maior do que si mesmo.
O terceiro rei, Tulo Hostílio, representava o contrário do predecessor. Enquanto Numa era associado à paz e à religião, Tulo era um rei guerreiro, voltado para a expansão e para a afirmação militar de Roma. Seu reinado é marcado por conflitos com Alba Longa, a cidade de onde descendiam os fundadores de Roma, e com outros povos do Lácio.
O episódio mais famoso associado a Tulo Hostílio é o combate entre os Horácios e os Curiácios. Segundo a narrativa, Roma e Alba Longa estavam em disputa, e para evitar uma guerra que devastaria os dois lados, decidiram resolver o conflito por meio de um combate entre três guerreiros de cada cidade. Roma escolheu três irmãos chamados Horácios. Alba Longa escolheu três irmãos chamados Curiácios. O combate foi brutal. Dois dos três Horácios morreram. O terceiro, fingindo recuar para separar os adversários e combatê-los um a um, enquanto eles estavam enfraquecidos por seus ferimentos, terminou matando os três Curiácios. Roma venceu e Alba Longa ficou submetida a ela.
Quando o único Horácio sobrevivente voltou para Roma carregando os despojos dos inimigos, encontrou sua irmã chorando. Ela chorava porque um dos Curiácios mortos era seu noivo. O irmão, furioso com o que interpretou como deslealdade à pátria vitoriosa, matou a própria irmã. Levado a julgamento, foi condenado à morte, mas seu pai apelou ao povo romano, e o herói acabou absolvido, embora obrigado a realizar rituais de purificação. Esse episódio, mesmo que mítico em seus detalhes, levanta questões que os romanos consideravam importantes: qual é o limite da lealdade ao Estado? O heroísmo militar justifica qualquer ato? Como a lei deve tratar aqueles que servem à comunidade com valentia mas cometem crimes?
Tulo Hostílio também é associado à destruição de Alba Longa, depois que seus líderes foram acusados de traição durante uma batalha. A cidade foi arrasada e sua população transferida para Roma. Esse padrão de destruir uma cidade e incorporar seus habitantes à população romana seria repetido muitas vezes ao longo da história, e foi uma das formas pelas quais Roma cresceu demograficamente.
O quarto rei, Anco Márcio, é apresentado como um soberano que buscava equilíbrio entre as qualidades guerreiras de Tulo e a sabedoria religiosa de Numa. Teria expandido o território romano ao sul, chegando ao mar. É creditado com a fundação de Óstia, a cidade portuária na foz do Tibre, que com o tempo se tornaria fundamental para o comércio romano. Também teria construído a primeira ponte sobre o Tibre, chamada Pons Sublicius, feita de madeira e de enorme importância estratégica e comercial. Anco Márcio teria ainda ampliado as muralhas da cidade e organizado formas de integrar populações latinas conquistadas, instalando-as em certas áreas de Roma com um status específico.
Com o quinto rei, Tarquínio Prisco, a narrativa histórica e a arqueológica coincidem de maneira mais clara. Tarquínio era de origem etrusca, filho de um grego que havia se estabelecido entre os etruscos. Sua esposa, Tânaquil, era uma mulher etrusca de grande habilidade política, que teria influenciado a decisão de se mudar para Roma em busca de melhores oportunidades. Segundo a tradição, quando chegaram às proximidades da cidade, uma águia desceu e tirou o chapéu de Tarquínio, voou por um tempo e o recolocou em sua cabeça. Tânaquil, habilidosa na interpretação de sinais, disse que era um presságio de que seu marido governaria Roma.
Tarquínio Prisco consolidou a influência etrusca sobre Roma. Durante seu reinado, a cidade passou por importantes transformações materiais. O Fórum Romano foi drenado e organizado, pois antes era um terreno baixo e pantanoso entre as colinas. A Cloaca Máxima, o grande canal de esgoto que drenava as águas da região central de Roma, teria suas origens nesse período, embora a construção tenha se desenvolvido ao longo de muito tempo. Tarquínio também iniciou as obras do Circo Máximo, a enorme arena onde aconteceriam as corridas de bigas que os romanos tanto amavam, e começou a construção do grande Templo de Júpiter no Capitólio.
Sob influência etrusca, Roma adotou ou reforçou muitas práticas culturais e institucionais. Os símbolos do poder real, como a toga trabalhada com bordas de púrpura, a cadeira de marfim chamada sella curulis, as hastas e os machados envoltos em feixes de varas que representavam o poder de punir, conhecidos como fasces, teriam vindo ou sido fortalecidos por essa influência etrusca. Esses símbolos continuariam sendo usados durante a República, associados aos magistrados que exerciam o poder em nome do povo romano.
Tarquínio Prisco também teria reorganizado o Senado, ampliando o número de senadores e incorporando novas famílias. Conduziu guerras bem-sucedidas contra povos vizinhos e expandiu o território romano. Seu reinado foi longo e, segundo a tradição, terminou com seu assassinato, planejado pelos filhos do rei anterior, que queriam recuperar o trono.
O sexto rei, Sérvio Túlio, é uma das figuras mais importantes e ao mesmo tempo mais misteriosas da monarquia romana. Sua origem é incerta. Algumas versões o apresentam como filho de uma escrava capturada em guerra, que teria sido protegida e educada no palácio real. Outras tradições o associam a uma origem etrusca nobre. O que é certo é que ele foi escolhido por Tânaquil, viúva de Tarquínio Prisco, para assumir o poder após o assassinato do marido, e que seu reinado é associado a algumas das reformas mais importantes do período monárquico.
A principal reforma atribuída a Sérvio Túlio é a organização censitária da população romana. Ela é chamada de reforma serviana, em referência ao nome do rei. Antes dessa reforma, a participação política e militar dos cidadãos era organizada de outras maneiras. Sérvio teria criado um sistema no qual os cidadãos eram divididos em classes de acordo com sua riqueza, medida principalmente pela posse de terra. Cada classe contribuía de forma diferente para o exército e tinha peso diferente nas assembleias políticas.
A classe mais alta, formada pelos mais ricos, fornecia a cavalaria, pois apenas eles podiam arcar com os custos de manter um cavalo para uso militar. As classes seguintes forneciam a infantaria pesada, equipada com armaduras, escudos, lanças e espadas. As classes mais baixas forneciam soldados com equipamentos mais simples. Os mais pobres de todos, aqueles que não tinham propriedade suficiente para se enquadrar em nenhuma classe, eram chamados de proletarii, palavra que vem do latim e está relacionada à ideia de prole, ou seja, de filhos, pois a única contribuição que esses homens dariam à cidade seria de pessoas, não de bens.
Esse sistema tinha uma lógica que seria característica da política romana: quem contribuía mais para a defesa da cidade tinha mais peso nas decisões coletivas. As classes mais ricas não apenas forneciam mais e melhores soldados, mas também tinham mais votos na assembleia chamada comitia centuriata, a assembleia por centúrias. Como os ricos tinham mais centúrias do que os pobres, e a votação se encerrava quando a maioria era atingida, na prática os mais ricos podiam tomar as decisões mais importantes antes mesmo de os grupos menos abastados serem chamados a votar.
Esse sistema não era igualitário, mas introduzia um critério baseado na riqueza em vez de exclusivamente na origem familiar. Um homem rico que não fosse patrício poderia ter mais peso político do que um patrício empobrecido. Ao longo do tempo, as disputas em torno da ampliação da participação dos plebeus nas decisões políticas seriam uma constante na história de Roma, mas as bases de organização estabelecidas nesse período moldaram a estrutura das instituições romanas por muito tempo.
Sérvio Túlio também é creditado com a expansão das muralhas de Roma, que passaram a incluir uma área maior. A tradição lhe atribui igualmente algumas iniciativas voltadas para melhorar a condição dos setores mais pobres da população. Seu reinado é lembrado como um período relativamente justo e progressista para os padrões da época.
Seu fim, porém, foi violento. O último rei de Roma, Tarquínio, o Soberbo, era seu genro. Ambicioso e impaciente, planejou a derrubada de Sérvio com a cumplicidade de sua própria esposa, filha do rei, chamada Túlia. Segundo a tradição, Tarquínio foi ao Senado e declarou-se rei, insultando a memória de Sérvio Túlio como um homem de baixa origem que jamais deveria ter governado. Quando Sérvio apareceu para contestar o usurpador, Tarquínio o agarrou, atirou-o escada abaixo e mandou que fosse assassinado na rua. Túlia, ao saber que o pai estava morto, mandou o cocheiro passar com sua carruagem por cima do corpo do próprio pai. A rua onde isso teria acontecido ficou conhecida na tradição romana como a Rua Maldita.
Tarquínio, o Soberbo, ou seja, o Orgulhoso, o Arrogante, é o sétimo e último rei de Roma. Seu cognome já diz tudo sobre como os romanos queriam que ele fosse lembrado. Enquanto os primeiros reis, mesmo os mais guerreiros, eram associados a qualidades positivas como coragem, piedade ou sabedoria, Tarquínio, o Soberbo, é retratado como um tirano. Não consultava o Senado. Ignorava as leis e as tradições. Tomava decisões sozinho, baseado apenas em sua vontade e em seu poder. Assassinava senadores que se opunham a ele. Governava pelo medo.
Apesar de seu caráter despótico, a tradição reconhece que Tarquínio, o Soberbo, realizou obras importantes. Concluiu a construção do grande Templo de Júpiter no Capitólio, iniciada por Tarquínio Prisco. Expandiu o domínio romano sobre outras cidades do Lácio. Conduziu guerras e assinou tratados que fortaleceram a posição de Roma na região. Mas sua forma de governar criou uma oposição crescente entre os patrícios, que viam seus poderes e privilégios sendo ignorados, e entre a população em geral, que sofria com o arbítrio real.
O episódio que desencadeou sua queda já foi mencionado anteriormente: a violência cometida por seu filho Sexto Tarquínio contra Lucrécia. Esse ato foi o estopim de uma revolta liderada por Lúcio Júnio Bruto, que convocou o povo, denunciou o crime e a tirania dos Tarquínios e organizou a expulsão dos reis. A família real foi banida de Roma, e a cidade, segundo a tradição, decidiu que nunca mais teria um rei. No lugar da monarquia, instituiu-se a República.
Esse momento, situado pela tradição no ano de quinhentos e nove antes de Cristo, é um dos mais importantes da história de Roma. A palavra rex, rei, tornou-se praticamente uma ofensa em Roma. Ao longo de toda a história republicana, acusar um político de querer se tornar rei era uma das acusações mais graves que se podia fazer. O ódio ao poder monárquico ficou tão enraizado na cultura política romana que séculos depois, quando Júlio César acumulou poderes semelhantes aos de um monarca, muitos republicanos o assassinaram precisamente por temerem que ele quisesse restaurar a realeza.
É preciso, naturalmente, considerar tudo isso com o cuidado que a história exige. As fontes que temos sobre o período monárquico foram escritas séculos depois dos eventos que descrevem. Os principais autores que narram esse período, como Tito Lívio e Dionísio de Halicarnasso, escreveram durante o período do Império Romano, muito distantes no tempo dos acontecimentos que relatavam. Eles trabalhavam com tradições orais, com registros sacerdotais parcialmente destruídos por incêndios e invasões, e com uma visão do passado moldada pelos valores e pelos interesses políticos de sua própria época.
A arqueologia, por outro lado, confirma algumas das grandes linhas da narrativa tradicional. Há evidências claras de uma forte influência etrusca sobre Roma nos séculos sétimo e sexto antes de Cristo, o que é consistente com a presença de três reis de origem etrusca no final do período monárquico. As escavações mostram que a cidade cresceu e se organizou de maneira mais elaborada durante esse período, com a construção de templos, a drenagem de áreas pantanosas e o desenvolvimento de uma área pública central. A riqueza material de Roma aumentou, o comércio se intensificou e os contatos com outras culturas do Mediterrâneo se multiplicaram.
A transição da monarquia para a república também pode ter sido mais complexa e mais gradual do que o drama de Lucrécia e dos Tarquínios sugere. É possível que reflita uma mudança mais ampla no equilíbrio de poder entre os reis etruscos e a aristocracia latina e sabina que compunha o Senado romano. Com o declínio do poder etrusco na região, resultado de derrotas militares e de pressões de outros povos, os patrícios romanos podem ter aproveitado a oportunidade para reorganizar o governo de uma maneira que fortalecesse seu próprio poder coletivo em detrimento da monarquia.
De qualquer forma, o período da monarquia foi fundamental para a formação de Roma. Foram os séculos da monarquia que estabeleceram as primeiras instituições, organizaram o Senado, criaram os colégios sacerdotais, desenvolveram o sistema militar, expandiram o território, absorveram influências de outros povos e foram construindo a identidade que os romanos reconheceriam como sua ao longo de toda sua história posterior.
As divisões sociais entre patrícios e plebeus, a importância do Senado como órgão consultivo, o papel da religião na vida pública, a organização militar baseada em classes de riqueza, a prática de incorporar populações conquistadas, o desenvolvimento do sistema jurídico, a valorização das tradições ancestrais como fonte de legitimidade: todos esses elementos têm raízes no período monárquico.
Quando os romanos da república e do império olhavam para seus primeiros reis, viam uma história com lições claras. Viam que a fundação da cidade exigia determinação e força, como em Rômulo. Viam que a ordem interna dependia da religião e da sabedoria, como em Numa. Viam que a guerra podia ser necessária para proteger e expandir a comunidade, como em Tulo Hostílio. Viam que o desenvolvimento material, as obras públicas e a organização das instituições eram essenciais, como nos reis etruscos. E viam, acima de tudo, que o poder sem limites, o poder que ignora as leis e as tradições, o poder que se transforma em tirania, leva inevitavelmente à queda, como no caso de Tarquínio, o Soberbo.
Essa lição sobre os limites do poder seria o fundamento sobre o qual os romanos construiriam sua república. A experiência da monarquia, real e mítica ao mesmo tempo, ensinou aos romanos o que queriam preservar e o que queriam evitar. E essa memória, cuidadosamente cultivada e transmitida de geração em geração, moldou profundamente a cultura política de uma das civilizações mais influentes da história humana.
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