Curso de História para o 1º Ano do Ensino Médio
MÓDULO 7 – ROMA ANTIGA
Aula 85 – O Império Romano: Augusto e o início do período imperial
Aula 85 – O Império Romano: Augusto e o início do período imperial
Quando Otávio ficou sozinho no comando do mundo romano, em trinta e um antes de Cristo, depois de derrotar Marco Antônio e Cleópatra na batalha naval do Cabo Ácio, ele tinha apenas trinta e dois anos. Era jovem, mas já havia atravessado uma das trajetórias políticas mais extraordinárias da história. Órfão de pai aos quatro anos, adotado por testamento pelo tio-avô Júlio César, lançado na política aos dezoito anos logo após o assassinato do pai adotivo, ele havia sobrevivido a conspirações, batalhas, traições e guerras civis que destruíram homens muito mais experientes do que ele. E agora, depois de mais de uma década de conflitos que haviam arrasado o Mediterrâneo, Roma estava a seus pés.
Mas o que fazer com esse poder?
Essa era a questão central que Otávio precisava responder, e a forma como ele a respondeu mudou a história do mundo ocidental para sempre. Porque Otávio entendeu algo que Júlio César não havia entendido, ou talvez não houvesse se importado em entender: os romanos podiam aceitar o poder absoluto de um único homem, mas não podiam aceitar que esse homem o exercesse de forma aberta e sem disfarce. A memória da realeza, expulsa séculos antes, ainda pesava demais sobre a imaginação política romana. Qualquer coisa que parecesse demais com um rei seria rejeitada com violência, como havia sido rejeitado César.
Otávio precisava criar algo novo. Precisava de um sistema que concentrasse nas suas mãos o controle efetivo sobre os exércitos, as finanças, as províncias e as decisões políticas fundamentais, mas que ao mesmo tempo respeitasse as formas externas da tradição republicana, mantivesse o Senado em funcionamento, preservasse as magistraturas antigas e não ofendesse a sensibilidade de uma classe dirigente que havia crescido admirando a República e desprezando a tirania.
O que ele criou foi uma obra-prima de habilidade política. E o processo começou com um gesto calculado de enorme impacto simbólico.
Em janeiro de vinte e sete antes de Cristo, Otávio foi ao Senado e declarou solenemente que estava colocando fim ao seu poder excepcional e devolvendo tudo ao povo romano e ao Senado. Formalmente, estava renunciando aos poderes extraordinários que havia acumulado durante as guerras civis e restaurando a República. A encenação era perfeita e os senadores sabiam muito bem que era uma encenação, mas participaram dela de bom grado, porque a alternativa seria muito pior.
Em resposta a esse gesto de aparente modéstia, o Senado conferiu a Otávio um conjunto de poderes e títulos que, somados, lhe davam controle sobre tudo que importava. O título mais importante foi Augusto, uma palavra do latim antigo que não tinha equivalente exato em nenhuma outra língua e que combinava ideias de autoridade divina, sacralidade e grandeza soberana. Não era o título de rei. Não era o título de ditador. Era algo novo, que não existia antes e que colocava Augusto num patamar acima de qualquer magistrado comum sem precisar usar uma palavra que assustasse os romanos tradicionais.
Além do título de Augusto, ele manteve o de Príncipe, que significava o primeiro dos cidadãos, o mais importante entre os senadores, aquele cuja opinião seria ouvida primeiro nas deliberações. Esse título deu nome ao sistema político que ele criou: o Principado. Por isso, quando os historiadores falam dos primeiros séculos do Império Romano, costumam chamar esse período de Principado, para diferenciá-lo do período posterior, o Dominado, quando os imperadores passaram a ser mais abertamente autocráticos.
Mas os títulos eram apenas a superfície. O que sustentava o poder de Augusto de forma concreta eram três elementos fundamentais: o controle das províncias militarmente importantes, o poder tribunício e o imperium proconsular.
As províncias romanas eram divididas em dois tipos. As províncias pacificadas, sem necessidade de presença militar significativa, continuaram sob a administração do Senado, que nomeava governadores segundo os procedimentos tradicionais. Mas as províncias fronteiriças, aquelas onde havia exércitos permanentes e onde as legiões eram necessárias para a defesa ou para a conquista, essas ficaram sob o controle direto de Augusto. E como os exércitos eram o fundamento real de qualquer poder político em Roma, controlar as províncias militares significava controlar o Império.
O poder tribunício, que Augusto exercia de forma vitalícia e que renovou a cada ano como forma de contar o tempo do seu reinado, lhe dava a sacrossantidade do tribuno da plebe, ou seja, a inviolabilidade pessoal, e o poder de veto sobre qualquer ato de qualquer magistrado. Era o instrumento legal que protegia sua pessoa e que lhe permitia bloquear qualquer decisão que não aprovasse.
O imperium proconsular, por sua vez, era a autoridade militar suprema sobre todas as províncias, incluindo aquelas nominalmente administradas pelo Senado. Na prática, isso significava que nenhum governador provincial, em nenhuma parte do Império, podia agir de forma independente da vontade de Augusto.
Com esses três elementos combinados, Augusto tinha nas mãos mais poder do que qualquer rei ou ditador anterior na história de Roma. Mas o exercia com uma discrição cuidadosamente calculada, mantendo as formas e os rituais republicanos, sentando-se no Senado como mais um senador, usando roupas simples, vivendo numa casa relativamente modesta para alguém de seu status, ao menos em comparação com a extravagância que viria nos séculos seguintes.
Essa modéstia aparente era ela própria uma forma de exercício de poder. Augusto entendia que a legitimidade política não vinha apenas da força, mas também da aprovação social, e que manter a estima do povo e das elites romanas era tão importante quanto controlar os exércitos. Por isso, cultivava a imagem de um cidadão exemplar, servidor dedicado do bem público, trabalhador infatigável que ocupava o cargo não por ambição pessoal mas pelo bem de Roma.
Para reforçar essa imagem, Augusto investiu pesadamente no programa de obras públicas mais ambicioso que Roma havia visto até então. Ele próprio disse em suas memórias que havia encontrado Roma construída de tijolos e a estava deixando de mármore. A frase era um exagero poético, mas continha um fundo de verdade. Sob seu governo, o Fórum Romano foi embelezado e ampliado. O Templo de Marte Vingador, que ele havia prometido construir antes da batalha de Filipos em que derrota os assassinos de César, foi erguido como o centro de um novo fórum, o Fórum de Augusto. O Panteão, templo dedicado a todos os deuses, foi reformado. Novos aquedutos foram construídos e os antigos restaurados. Estradas foram melhoradas e ampliadas por todo o Império. Templos caídos foram reconstruídos.
Mas as reformas de Augusto foram muito além das pedras e do mármore. Ele reorganizou praticamente todos os aspectos da administração do Estado romano com uma sistematicidade que a República nunca havia conseguido.
O exército foi uma de suas prioridades imediatas. Ao final das guerras civis, havia mais de sessenta legiões em armas em várias partes do Império, o que era insustentável tanto financeiramente quanto politicamente. Augusto reduziu esse número para vinte e oito legiões permanentes, desmobilizou dezenas de milhares de soldados e providenciou que cada veterano recebesse ou terras ou uma compensação em dinheiro. Para financiar essas demobilizações e garantir o pagamento regular dos exércitos permanentes, criou um tesouro militar especial chamado aerarium militare.
As legiões permanentes foram distribuídas ao longo das fronteiras do Império: no Reno e no Danúbio para proteger as fronteiras da Europa central e oriental, no Eufrates para guardar a fronteira com o Império Parta no Oriente, no norte da África para garantir a segurança das províncias africanas. Cada legião era composta por aproximadamente cinco mil e quinhentos soldados de infantaria pesada, divididos em dez coortes. Além das legiões, havia as tropas auxiliares, formadas por provinciais e aliados que não tinham cidadania romana, e que combatiam como infantaria leve, cavalaria e arqueiros.
Em Roma, Augusto criou uma força de segurança especial chamada Guarda Pretoriana, composta por nove coortes de elite que tinham como missão principal a proteção pessoal do imperador e a manutenção da ordem em Roma e na Itália. Ao contrário das legiões, a Guarda Pretoriana recebia um soldo muito mais alto e servia por menos anos. Com o tempo, a Guarda Pretoriana tornou-se um fator político de grande importância, capaz de fazer e desfazer imperadores, mas nos primeiros anos do Principado era antes de tudo um instrumento de controle e proteção nas mãos de Augusto.
A administração das províncias também foi profundamente reformada. O sistema republicano de nomear governadores entre os ex-magistrados, que serviam por períodos curtos e muitas vezes usavam o cargo para enriquecer rapidamente, havia levado a abusos enormes. Augusto não eliminou esse sistema de uma vez, mas criou mecanismos de supervisão e nomeou para as províncias sob seu controle direto administradores que respondiam pessoalmente a ele, chamados de legados. Esses legados eram nomeados por Augusto e podiam ser demitidos por ele, o que criava um incentivo para governar de forma mais eficiente e menos corrupta, ao menos por medo das consequências.
A gestão financeira do Império ganhou uma coerência que nunca havia existido antes. Augusto manteve o tesouro público tradicional, o erarium, sob controle nominal do Senado, mas criou um tesouro imperial separado, o fiscus, para gerir as rendas das províncias imperiais, que eram as mais ricas. Na prática, isso significava que a maior parte das receitas do Império fluía para o fiscus, sob controle direto de Augusto, enquanto o erarium cuidava das receitas das províncias senatoriais, muito menores. A distinção formal entre os dois tesouros foi mais uma das ficções constitucionais que permitiam a Augusto exercer controle total enquanto mantinha a aparência de compartilhar o poder com o Senado.
Um censo foi realizado para mapear com precisão os recursos humanos e materiais do Império, o que permitia uma tributação mais sistemática e um recrutamento militar mais organizado. Augusto reformou também o sistema postal e de comunicações do Império, criando o cursus publicus, um serviço de correios e transporte que ligava todas as províncias à capital e permitia que ordens e informações circulassem com uma velocidade que a República nunca havia conseguido.
Em Roma, Augusto criou pela primeira vez na história da cidade um corpo permanente de bombeiros, os vigiles, que também faziam funções de policiamento noturno. A cidade havia sofrido incêndios devastadores ao longo de sua história, e a falta de qualquer organização sistemática de combate ao fogo era um problema crônico. Os vigiles foram organizados em sete coortes, cada uma responsável por dois dos catorze bairros em que Augusto dividiu a cidade de Roma, numa reorganização administrativa que também facilitava o controle do território urbano.
Mas o aspecto das reformas de Augusto que mais chamou a atenção de seus contemporâneos foi o programa de restauração moral e religiosa que ele conduziu com grande energia. Após décadas de guerras civis, de violências, de proscrições e de perturbações em todas as esferas da vida social, Augusto quis apresentar seu governo como o início de uma nova era de ordem, de piedade e de virtude tradicional romana.
Mandou restaurar dezenas de templos antigos que haviam caído em ruínas durante o período de conflitos. Reviveu rituais religiosos antigos que haviam caído em desuso. Assumiu pessoalmente o cargo de pontífice máximo, que era o cargo sacerdotal supremo em Roma, tornando o imperador também o chefe religioso do Estado, o que adicionava uma dimensão sagrada à sua autoridade política. Passou a ser apresentado na arte e na propaganda oficial como um homem sob proteção especial dos deuses, especialmente de Apolo, que Augusto havia escolhido como sua divindade protetora particular.
Promulgou também leis de caráter moral que buscavam regular o comportamento privado dos cidadãos romanos, especialmente das classes superiores. As leis júlias sobre o casamento e sobre o adultério foram as mais famosas e mais polêmicas. Essas leis tornaram o adultério um crime passível de processo judicial, não apenas uma questão privada entre as famílias envolvidas como havia sido antes. Incentivavam o casamento e a produção de filhos, prevendo vantagens legais para quem tivesse filhos e penalizando os que permanecessem solteiros sem razão justificada. A ironia é que a própria família de Augusto foi um desastre em termos de comportamento segundo os padrões que ele mesmo estabelecia: sua filha Júlia foi banida pelo pai exatamente por adultério.
O caso de Júlia é um dos mais dramáticos da história de Augusto e revela as contradições entre a imagem pública que ele construía e as realidades da vida privada da família imperial. Júlia era filha única de Augusto, inteligente, brilhante e segundo as fontes de personalidade irresistível, mas também com uma vida amorosa que contrariava frontalmente as leis moralizantes do pai. Casada três vezes por razões políticas, primeiro com o primo Marcelo, depois com o general Agripa e por fim com o futuro imperador Tibério, ela foi banida em dois antes de Cristo e passou o restante da vida em exílio. O exílio de Júlia foi um golpe pesado para Augusto, tanto pelo escândalo público quanto pela perda humana.
A questão da sucessão foi o maior problema permanente do governo de Augusto e a fraqueza mais profunda do sistema político que havia criado. O Principado não era formalmente uma monarquia hereditária. O título de Augusto e os poderes que o acompanhavam não eram juridicamente transmissíveis de pai para filho como uma herança. Eram poderes concedidos pelo Senado e pelo povo romano a uma pessoa específica. Na teoria, quando Augusto morresse, o Senado poderia escolher qualquer cidadão como seu sucessor.
Na prática, Augusto sabia que a única forma de garantir a estabilidade era preparar um sucessor que controlasse as legiões e que contasse com o apoio das elites antes de sua morte. Passou décadas tentando resolver esse problema, e a solução não foi fácil, pois perdeu um candidato após outro pelas crueldades do destino.
Seu sobrinho Marcelo, primeiro marido de Júlia, morreu jovem em vinte e três antes de Cristo. O general Agripa, seu mais fiel colaborador e segundo marido de Júlia, morreu em doze antes de Cristo. Os filhos de Agripa e Júlia, Caio e Lúcio César, que Augusto havia adotado e preparado para sucedê-lo, morreram ambos ainda jovens: Lúcio em dois depois de Cristo e Caio em quatro depois de Cristo. Cada uma dessas mortes era um golpe na estratégia de sucessão de Augusto.
Finalmente, restou Tibério, filho de Lívia, a segunda esposa de Augusto, de um casamento anterior. Tibério era um general competente, austero, experiente e reservado, muito diferente em temperamento do sogro. Augusto o adotou formalmente em quatro depois de Cristo e transferiu para ele progressivamente poderes e responsabilidades. A escolha não foi por afeição, pois a relação entre os dois nunca foi calorosa, mas por necessidade.
Durante o longo governo de Augusto, que durou do final das guerras civis até sua morte, quarenta e quatro anos de poder ininterrupto, o Império Romano viveu um período de paz relativa que ficou conhecido como Pax Augusta ou Pax Romana. Essa paz não era absoluta, pois guerras de fronteira eram constantes e houve desastres militares sérios, mas em comparação com as décadas de guerras civis que a precederam, representava uma estabilidade sem precedentes.
O desastre militar mais grave do período foi a batalha da Floresta de Teutoburgo, em nove depois de Cristo, quando três legiões romanas inteiras, com seus cavaleiros e oficiais auxiliares, foram aniquiladas numa emboscada armada pelo chefe germânico Armínio nas florestas da Germânia. O comandante romano Publio Quintílio Varo se suicidou após a derrota para não ser capturado. Diz a tradição que Augusto, ao receber a notícia, andou pelos corredores de seu palácio batendo a cabeça na parede e repetindo: Varo, devolve-me minhas legiões. A derrota de Teutoburgo convenceu Augusto a abandonar qualquer ambição de estender o Império até o Rio Elba, estabelecendo o Rio Reno como fronteira permanente entre o mundo romano e os povos germânicos.
A paz interna do Império durante o período augustano teve efeitos enormes sobre a vida econômica e cultural. O comércio se expandiu de forma extraordinária. Rotas comerciais ligando o Mediterrâneo ao mar do Norte, ao Oriente Médio, à Índia e até à China tornaram-se mais seguras e mais frequentadas. Produtos de todas as partes do mundo chegavam a Roma: seda da China, especiarias da Índia, marfim e ouro da África, âmbar do Báltico, vidro da Síria, papiro do Egito. A cidade de Roma tornou-se o centro de um sistema comercial de proporções que o mundo não havia visto antes.
A prosperidade gerada por esse comércio e pela estabilidade política alimentou um florescimento cultural que os romanos posteriores chamariam de Época de Ouro da literatura latina. Augusto entendeu que a literatura e as artes eram instrumentos poderosos de legitimação política e de construção de identidade coletiva, e por isso cercou-se de escritores brilhantes e incentivou a produção de obras que celebrassem os valores romanos tradicionais e a grandeza do novo regime.
O mais importante intermediário entre Augusto e os escritores de sua época foi um amigo pessoal do imperador chamado Caio Mecenas, cujo nome se tornou sinônimo de patrocinador das artes em todas as línguas europeias. Mecenas não era um escritor, mas era um homem de gosto refinado e de enorme riqueza, e usava ambos para apoiar financeiramente os melhores poetas de sua época.
Virgílio foi o maior deles. Nascido numa família de pequenos proprietários rurais do norte da Itália, Virgílio havia perdido suas terras nas confiscações que se seguiram à batalha de Filipos, quando Augusto e Antônio precisavam de territórios para distribuir aos veteranos. A proteção de Mecenas e depois do próprio Augusto lhe deu segurança para escrever. Suas Bucólicas celebravam a vida pastoril com uma melancolia refinada. As Geórgicas eram um poema sobre a agricultura e o trabalho na terra, cheio de amor pela paisagem italiana. Mas a obra maior foi a Eneida, o épico que narrava as aventuras de Enéias, o herói troiano que segundo a tradição havia chegado à Itália e cujos descendentes fundariam Roma. A Eneida era ao mesmo tempo um poema sobre as origens mitológicas de Roma e uma celebração velada da missão histórica de Augusto, descendente de César e portanto, pela linhagem mitológica, descendente da deusa Vênus e do próprio Enéias.
Horácio foi outro grande poeta do círculo de Mecenas. Filho de um liberto, havia lutado do lado de Bruto em Filipos e depois reconciliado com o novo regime. Sua poesia combinava uma filosofia de vida baseada na busca do equilíbrio e da moderação com um patriotismo romano sincero e uma admiração pelo governo de Augusto que parece, ao menos em parte, genuína. Seus Carmina são considerados um dos pontos mais altos de toda a poesia latina.
Tito Lívio, contemporâneo de Virgílio e Horácio, dedicou décadas de sua vida a escrever a história de Roma desde suas origens até a época de Augusto, numa obra monumental de cento e quarenta e dois livros, dos quais apenas parte chegou até nós. Seu objetivo declarado era preservar a memória dos feitos romanos e oferecer modelos de virtude cívica que pudessem inspirar os contemporâneos. Era uma história patriótica, não no sentido de desonesta, mas no sentido de que via a grandeza de Roma como o fio condutor da narrativa.
Ovídio, o mais irreverente dos grandes poetas augustanos, escreveu poesias de amor que celebravam o prazer e a sedução com uma leveza e uma elegância incomparáveis. Sua Arte de Amar era um guia irônico sobre como conquistar parceiros, escrito de forma que podia ser lida como paródia da didática literária, mas que claramente contrariava os valores moralizantes da legislação augustana. As Metamorfoses eram um épico mitológico que reunia histórias de transformações de deuses, heróis e seres humanos em animais, plantas e objetos, num mosaico narrativo de extraordinária riqueza. O conflito entre Ovídio e Augusto terminou mal: o poeta foi banido em oito depois de Cristo para Tomos, uma cidade na costa do mar Negro que hoje fica na Romênia, e nunca mais voltou a Roma. As razões exatas do banimento permanecem parcialmente obscuras, mas envolveram tanto a publicação da Arte de Amar quanto algum envolvimento nos escândalos familiares da família imperial.
O Augusto que emerge de toda essa tradição literária é uma figura de enorme complexidade. Homem de saúde frágil que por décadas pareceu à beira da morte mas viveu até os setenta e seis anos, era de temperamento calculado e frio por trás de uma fachada de amabilidade cultivada. Era capaz de crueldade fria quando necessário, como mostrou nas proscrições do Triunvirato, mas preferia a persuasão à força quando podia escolher. Dormia pouco, trabalhava muito, era cuidadoso ao extremo com as palavras, chegando a escrever previamente o que queria dizer nas conversas importantes para não se deixar levar pela emoção e dizer mais do que pretendia.
Fisicamente, as fontes descrevem alguém de estatura mediana, cabelos levemente crespos e de cor entre o louro e o castanho, olhos claros e vivos, dentes irregulares e saúde constantemente problemática. Sofria de males respiratórios no inverno, problemas de pele, problemas digestivos e uma série de outros achaques que seus médicos tratavam com dietas e tratamentos termais. Apesar disso tudo, sobreviveu a todos os seus rivais e a todos os candidatos que havia preparado para sucedê-lo, governando o Império Romano por mais tempo do que qualquer outro imperador na história.
Em quatorze depois de Cristo, Augusto adoeceu gravemente durante uma viagem pelo sul da Itália. Morreu na cidade de Nola, na região da Campânia, cercado por Lívia, sua fiel esposa de mais de cinquenta anos. Segundo a tradição, suas últimas palavras foram dirigidas aos amigos que estavam presentes: perguntou se havia desempenhado bem seu papel na comédia da vida, e pediu que, se assim fosse, lhe dessem uma salva de palmas. A escolha da metáfora teatral, para um homem cuja vida inteira havia sido uma encenação política magistral, parece perfeitamente adequada.
Seu corpo foi levado a Roma com uma cerimônia imponente, e o Senado o declarou divino, conforme havia feito com Júlio César antes dele. O culto ao divino Augusto foi estabelecido nas províncias e em Roma, e durante séculos os imperadores romanos acrescentaram ao seu nome o título de Augusto como marca de autoridade e grandeza.
Tibério assumiu o poder de forma tranquila, o que era em si mesmo uma novidade histórica: pela primeira vez, o poder imperial passava de um governante para outro sem guerras civis, sem assassinatos e sem crises. Era a prova de que o sistema criado por Augusto havia funcionado. O Principado havia se estabelecido de forma suficientemente sólida para sobreviver à morte do fundador.
A chamada dinastia Júlio-Claudiana que Augusto fundou governaria Roma por mais cinquenta anos após sua morte. Tibério governou de catorze a trinta e sete depois de Cristo. Depois veio Calígula, de trinta e sete a quarenta e um, assassinado pela Guarda Pretoriana após um governo que as fontes descrevem como cada vez mais instável e cruel. Depois Cláudio, de quarenta e um a cinquenta e quatro, um homem que todos haviam subestimado mas que provou ser um administrador competente. E por último Nero, de cinquenta e quatro a sessenta e oito depois de Cristo, cujo governo terminou em rebelião aberta e no suicídio do próprio imperador.
Cada um desses governantes teve características muito diferentes de Augusto, e o Principado foi se transformando lentamente num sistema cada vez mais abertamente monárquico. Mas o modelo básico criado por Augusto, a concentração do poder real nas mãos de um único governante com a manutenção formal das instituições republicanas, perdurou por séculos e deu ao Império Romano a estabilidade necessária para governar um território imenso que se estendia da Escócia ao Iraque e do Marrocos ao mar Negro.
O que faz o período augustano ser tão importante para a história não é apenas o que aconteceu em Roma, mas o que o modelo romano inspirou muito tempo depois. A ideia de que um Estado pode ser governado por um único líder forte que mantém a aparência das instituições representativas enquanto concentra o poder real, essa ideia reapareceu em muitos momentos posteriores da história europeia e mundial. O título de imperador derivou diretamente do imperator latino. As insígnias e os símbolos do poder imperial romano foram copiados e adaptados por governantes europeus por mais de mil anos. O próprio título de kaiser alemão e czar russo são corruptelas do nome César.
Entender Augusto e o início do Império Romano é, portanto, entender um ponto de inflexão na história do poder político no Ocidente. É entender como uma sociedade que havia construído uma tradição republicana de séculos foi gradualmente aceitando o poder de um único homem, não porque esse homem a conquistou pela força bruta, mas porque soube oferecer algo que a República exausta já não conseguia mais dar: ordem, segurança, prosperidade e a esperança de que o pior havia passado.
A Pax Romana, a grande paz que Augusto inaugurou, durou com altos e baixos por mais de dois séculos depois de sua morte. Cidades cresceram, comércio floresceu, estradas foram construídas, aquedutos levaram água limpa a populações distantes, literatura e arte produziram obras que sobreviveram até hoje. Esse florescimento foi possível sobre a base de uma concentração de poder que sacrificou a liberdade política real. É uma contradição que os próprios romanos conheciam e sobre a qual alguns pensaram profundamente. E é uma contradição que ainda faz parte das perguntas que a história nos coloca quando tentamos entender a relação entre poder, ordem e liberdade nas sociedades humanas.
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| Dados de Catalogação na Publicação: NORAT, Markus Samuel Leite. Curso de história para o 1º ano do ensino médio. João Pessoa: Editora Norat, 2026. Livro Digital, Formato: HTML5, Tamanho: 132,4125 gigabytes (132.412.500 kbytes) . ISBN: 978-65-80808-16-8 | Cutter: N825c | CDD-907.12 | CDU-94(100)”-04/17″:373.5 . Palavras-chave: História, Ensino Médio, Pré-História, Civilizações Antigas, Mesopotâmia, Egito Antigo, Grécia Antiga, Roma Antiga, África Antiga, Reinos Africanos, Mundo Árabe-Muçulmano, Idade Média, Feudalismo, Antigo Regime, Monarquias Absolutistas, Renascimento, Humanismo, ENEM, Vestibulares. . TODOS OS DIREITOS RESERVADOS. É proibida a cópia total ou parcial desta obra, por qualquer forma ou qualquer meio. A violação dos direitos autorais é crime tipificado na Lei n. 9.610/98 e artigo 184 do Código Penal. |
