Curso de História para o 1º Ano do Ensino Médio
MÓDULO 3 – AS PRIMEIRAS CIVILIZAÇÕES DO ORIENTE MÉDIO
Aula 43 – A escrita cuneiforme: origem e função
Aula 43 – A escrita cuneiforme: origem e função
Agora nós vamos falar sobre uma invenção que mudou definitivamente a forma como as sociedades se organizam, como o poder é exercido e como o conhecimento atravessa o tempo. Estamos falando da escrita cuneiforme, o sistema de escrita desenvolvido pelos povos da Mesopotâmia há mais de cinco mil anos.
Antes de falar sobre a escrita em si, precisamos entender o contexto em que ela surgiu, porque nenhuma invenção nasce do nada. Toda criação humana é uma resposta a uma necessidade concreta. E para entender a necessidade que deu origem à escrita cuneiforme, precisamos voltar ao que estava acontecendo na Mesopotâmia por volta de quatro mil anos antes de Cristo.
A Mesopotâmia, como já estudamos em aulas anteriores, era a região situada entre os rios Tigre e Eufrates, no que hoje corresponde ao Iraque e partes da Síria. Graças aos sistemas de irrigação que os povos daquela região desenvolveram, a agricultura se tornou extremamente produtiva. Os campos produziam grandes quantidades de cevada, trigo, tâmaras e outros alimentos. Os rebanhos de ovelhas e cabras cresciam. As cidades sumérias, como Uruk, Ur, Lagash e Eridu, foram aumentando de tamanho e de complexidade ao longo dos séculos.
E quando uma cidade cresce muito, a vida fica muito mais complexa. Deixa de ser aquele ambiente simples onde todos se conhecem, onde o fazendeiro sabe de cabeça quantos sacos de grão tem no celeiro e onde as trocas entre vizinhos são resolvidas na conversa. Numa cidade com milhares de pessoas, com templos que acumulam enormes quantidades de produtos vindos de centenas de agricultores diferentes, com comerciantes que negociam com regiões distantes, com reis que cobram impostos de toda a população, a memória humana simplesmente não dá conta.
Imagine a situação concreta de um administrador do templo em Uruk. Todos os dias chegam ao armazém do templo sacas de cevada trazidas por diferentes famílias de camponeses, cada uma pagando o seu imposto. Chegam também lã de ovelha, azeite de gergelim, tâmaras, madeira e vários outros produtos. Ao mesmo tempo, produtos saem do armazém para alimentar os sacerdotes, os artesãos, os soldados e os funcionários do Estado. Como esse administrador vai saber no final do mês quanto tem em estoque? Como vai saber se cada família pagou corretamente a sua cota de impostos? Como vai registrar as dívidas dos camponeses que pegaram sementes emprestadas do templo antes do plantio?
A resposta é que a memória sozinha não resolve. É preciso alguma forma de registro permanente. E foi exatamente para resolver esse problema prático, cotidiano, concreto, de controle de estoques e de registros econômicos, que a escrita foi inventada.
Isso é um ponto muito importante que você precisa gravar bem, especialmente para o ENEM: a escrita cuneiforme não foi inventada por um poeta que queria registrar seus sentimentos. Ela não nasceu como uma forma de arte ou de expressão cultural. Ela nasceu como uma ferramenta de contabilidade, de administração pública, de controle econômico e de poder estatal. É claro que com o tempo ela se expandiu muito além dessas funções, mas sua origem foi completamente prática e utilitária.
Agora vamos entender como esse processo de invenção aconteceu, porque ele foi gradual e durou séculos.
A primeira coisa que os administradores mesopotâmicos fizeram para resolver o problema do registro foi usar pequenas fichas de argila. A argila era o material mais abundante na região, retirada das margens dos rios em grande quantidade. Essas fichas tinham formatos diferentes para representar diferentes produtos. Uma ficha em forma de esfera podia representar uma certa quantidade de grãos. Uma ficha em outro formato representava um animal. Quando alguém entregava determinados produtos ao templo, as fichas correspondentes eram reunidas dentro de uma bola de argila que era fechada e selada, funcionando como uma espécie de envelope protegido. Dentro desse envelope estavam as provas concretas da transação realizada.
Esse sistema funcionava, mas tinha limitações óbvias. Para saber o que havia dentro do envelope, era preciso quebrá-lo. E depois de quebrado, ele perdia a função de envoltório. Então alguém teve uma ideia muito simples e muito inteligente: antes de fechar o envelope, fazer marcas na superfície externa que indicassem o que estava dentro. Assim, dava para saber o conteúdo sem precisar abrir. E quando perceberam que essas marcas na superfície já eram suficientes para transmitir a informação, as fichas internas começaram a se tornar dispensáveis. A informação estava toda na superfície de argila.
Esse foi o passo que levou ao surgimento das primeiras tabuletas de argila com marcas registradas. Em vez de fichas dentro de envelopes, os escribas passaram a usar placas planas de argila fresca, onde faziam marcas que representavam os produtos e as quantidades. No começo, essas marcas eram desenhos que tentavam representar o objeto de forma reconhecível. Um desenho que lembrava a cabeça de um boi representava um boi. Um desenho que lembrava uma espiga representava grãos. Esse sistema é chamado pelos estudiosos de escrita pictográfica, porque as marcas eram, literalmente, pequenos desenhos de objetos concretos.
A escrita pictográfica funcionava para registros simples. Mas ela tinha um problema enorme: era muito limitada. Como você desenha na argila a ideia de uma dívida a ser paga no futuro? Como você registra o nome de uma pessoa? Como você indica que um produto não chegou, ao contrário de indicar que ele chegou? Os desenhos de objetos concretos não conseguem transmitir essas informações mais complexas e abstratas.
Ao longo de décadas e séculos, os escribas mesopotâmicos foram simplificando progressivamente os seus desenhos. Em vez de tentar fazer um retrato reconhecível do objeto, foram usando traços cada vez mais estilizados e abstratos. E aqui entra o elemento que deu nome ao sistema: o instrumento de escrita.
O escriba usava um estilete feito de cana ou de junco, cortado de forma que a extremidade ficasse com um formato triangular, como a ponta de uma cunha ou de um prego. Quando esse estilete era pressionado contra a argila úmida, ele deixava uma marca em forma de cunha, ou seja, uma marquinha com uma pontinha estreita de um lado e mais larga do outro. Combinando várias dessas marcas em ângulos diferentes, o escriba conseguia criar símbolos variados. E foi exatamente o formato dessas marcas que deu nome ao sistema: escrita cuneiforme, que vem do latim cuneus, que significa cunha.
A grande vantagem dessa técnica era a velocidade. Fazer pressões rápidas com a ponta do estilete na argila era muito mais rápido do que tentar desenhar figuras detalhadas. Mas havia uma desvantagem: com o tempo, os símbolos foram ficando tão abstratos, tão diferentes dos desenhos originais, que já não era mais possível reconhecer o objeto que havia inspirado cada sinal. Para aprender a escrita cuneiforme, era preciso memorizar cada símbolo individualmente, como um código, e não simplesmente reconhecer os desenhos por semelhança visual.
E o número de símbolos era enorme. Nos primeiros séculos da escrita cuneiforme, havia cerca de mil sinais diferentes. Com o tempo, esse número foi sendo reduzido, mas mesmo nos períodos mais avançados o sistema ainda tinha várias centenas de sinais. Isso significa que aprender a ler e escrever em cuneiforme era um processo longo, difícil e que exigia dedicação de anos. Não era algo que qualquer pessoa pudesse aprender enquanto trabalhava no campo ou na oficina. Exigia estudo formal e intensivo.
Foi exatamente por isso que surgiu uma classe profissional muito específica e muito importante na sociedade mesopotâmica: os escribas. Os escribas eram especialistas em escrita, que desde crianças frequentavam escolas especiais chamadas edubba, que em sumério significa literalmente casa das tabuletas. Nessas escolas, os alunos passavam anos copiando textos, memorizando símbolos, praticando a pressão correta do estilete na argila e aprendendo os diferentes usos de cada sinal. Era um treinamento longo e rigoroso, comparable ao nível de dificuldade de um curso superior nos dias de hoje.
Ser um escriba era uma posição de enorme prestígio na sociedade mesopotâmica. E não era apenas prestígio simbólico: era poder real e concreto. O escriba que trabalhava no templo ou no palácio tinha o controle sobre a informação. Era ele quem registrava quanto cada camponês tinha entregue de imposto. Era ele quem calculava os estoques dos armazéns. Era ele quem redigia os contratos comerciais, as ordens do rei, as leis e os tratados diplomáticos. Quem controlava a escrita controlava a informação, e quem controlava a informação tinha um poder enorme sobre a sociedade.
Isso criava uma divisão muito clara na sociedade mesopotâmica: de um lado, a minoria letrada, formada pelos escribas e pelas elites do templo e do palácio que sabiam ler e escrever. Do outro lado, a grande maioria da população, que era completamente analfabeta e dependia dos escribas para qualquer assunto que envolvesse registro escrito. Um camponês que tinha uma disputa sobre o pagamento de um imposto não conseguia verificar sozinho os registros do templo. Um comerciante que queria formalizar um acordo precisava contratar um escriba para redigir o contrato. Essa dependência reforçava ainda mais o poder da elite letrada sobre o restante da população.
Agora vamos falar sobre um avanço fundamental na escrita cuneiforme, que a transformou de uma simples ferramenta de contabilidade em um sistema capaz de registrar praticamente qualquer pensamento humano.
No começo, como já explicamos, cada símbolo representava um objeto ou uma quantidade. Mas com o tempo os escribas mesopotâmicos fizeram uma descoberta extraordinária: os símbolos podiam representar não apenas objetos, mas também sons. Em vez de usar um símbolo para indicar o objeto em si, era possível usar esse mesmo símbolo para representar a sílaba ou o som que correspondia ao nome desse objeto naquela língua. Por exemplo, se o símbolo de uma flecha representava a palavra seta em sumério, e se essa palavra soasse de forma parecida com outra palavra da língua, esse mesmo símbolo podia ser usado para escrever a outra palavra também.
Essa ideia de usar símbolos para representar sons de sílabas é chamada pelos estudiosos de sistema fonético, em contraste com o sistema pictográfico que representava objetos. A combinação desses dois elementos, símbolos que representam objetos ou ideias completas chamados de logogramas, com símbolos que representam sons ou sílabas chamados de fonogramas, tornou a escrita cuneiforme um sistema muito mais poderoso e versátil.
Com essa combinação, os escribas puderam finalmente escrever coisas que os desenhos de objetos jamais conseguiriam representar: nomes próprios de pessoas e lugares, conceitos abstratos como justiça, dívida e divindade, verbos que indicam ações, expressões de tempo e de condição, e narrativas complexas com começo, meio e fim. A escrita deixou de ser apenas uma lista de produtos e se tornou um veículo capaz de transportar o pensamento humano em toda a sua complexidade.
E foi com esse sistema mais desenvolvido que os mesopotâmicos registraram algumas das obras mais importantes da história antiga. As primeiras leis escritas da humanidade foram registradas em cuneiforme. Os mitos de criação do mundo foram gravados em tabuletas de argila. Hinos religiosos, tratados astronômicos, cálculos matemáticos, cartas diplomáticas entre reis, relatos de batalhas e conquistas, tudo isso passou a ser registrado e preservado de forma que podia atravessar gerações.
O exemplo mais famoso de uso da escrita cuneiforme para registrar leis é o Código de Hamurábi, que você já estudou em aulas anteriores. Mas é importante notar aqui a dimensão que a escrita deu a esse código. Antes da escrita, as leis eram tradições orais passadas de geração em geração. Elas eram mantidas na memória dos sacerdotes e dos anciãos, e podiam ser alteradas ou interpretadas de formas diferentes por pessoas diferentes. Com a escrita, as leis se tornaram fixas, públicas e permanentes. Quando Hamurábi mandou gravar seu código em uma grande estela de pedra usando a escrita cuneiforme, ele estava fazendo algo revolucionário: tornando as leis visíveis, concretas e resistentes ao esquecimento e à manipulação. Claro que a lei ainda favorecia os poderosos, como já estudamos, mas o simples fato de estar escrita mudava sua natureza fundamentalmente.
O mesmo vale para os mitos religiosos. A Epopeia de Gilgamesh, considerada uma das primeiras grandes obras literárias da humanidade, só chegou até nós porque foi gravada em tabuletas de argila. Essa história foi contada oralmente durante séculos antes de ser escrita, mas ao ser registrada em cuneiforme ela ganhou uma permanência que a transmissão oral nunca poderia garantir. É por isso que hoje, mais de quatro mil anos depois, podemos ler sobre as aventuras de Gilgamesh, sobre a amizade com Enkidu, sobre o dilúvio e sobre a busca pela imortalidade. A argila preservou o que a memória humana não conseguiria.
Agora vamos falar sobre o suporte físico da escrita cuneiforme, porque ele também é muito importante e revelador.
Os mesopotâmicos usavam principalmente a argila como suporte para a escrita. Isso pode parecer uma limitação, mas na verdade foi uma enorme vantagem. A argila era abundantíssima nas margens do Tigre e do Eufrates, praticamente de graça e disponível em qualquer ponto da região. Ao contrário do papel, que pode ser destruído pela umidade, pelo fogo ou pelo tempo, a argila quando seca ou cozida em forno se torna extremamente resistente. Uma tabuleta de argila cozida pode durar milhares de anos sem se deteriorar.
É exatamente por isso que os arqueólogos encontraram, ao longo dos séculos de escavações no Iraque, centenas de milhares de tabuletas de argila com texto cuneiforme. Algumas dessas tabuletas foram encontradas em prédios que haviam sido incendiados na Antiguidade. O fogo, que destruiu tudo ao redor, na verdade cozeu as tabuletas de argila e as preservou ainda melhor. É um paradoxo interessante: o incêndio que destruiu a biblioteca salvou os livros.
Além das tabuletas de argila, os mesopotâmicos também usavam a escrita cuneiforme em outros suportes quando queriam dar um caráter especialmente solene ou permanente a um documento. Pedras duras como o diorito e o basalto eram usadas para gravar textos de lei, inscrições reais e monumentos comemorativas. Metais como a prata e o ouro eram usados para objetos rituais com inscrições. Nesses casos, em vez de um estilete de argila, usavam-se ferramentas de metal para cinzelar os símbolos na superfície dura.
Agora vamos falar sobre a difusão da escrita cuneiforme além da Suméria, porque ela se espalhou muito além dos seus criadores originais.
A escrita cuneiforme foi inicialmente desenvolvida pelos sumérios, mas com o tempo foi adotada por praticamente todos os povos que dominaram a Mesopotâmia ao longo dos séculos. Os acádios, que falavam uma língua completamente diferente do sumério, adaptaram o sistema cuneiforme para registrar sua própria língua. Os babilônios fizeram o mesmo. Os assírios também. O mesmo sistema de marcas em argila, com adaptações e modificações, foi usado para registrar línguas que às vezes tinham estruturas completamente diferentes entre si.
Isso mostra algo muito importante: a escrita cuneiforme era uma tecnologia tão eficiente para resolver o problema do registro de informações que ela conseguiu superar as barreiras linguísticas e culturais. Povos que falavam línguas diferentes adotaram o mesmo sistema porque ele funcionava, porque resolvia o problema que precisava ser resolvido. É um pouco como hoje: o sistema decimal de números, onde usamos os algarismos de zero a nove, é usado em praticamente todo o mundo, independentemente da língua que cada povo fala. A tecnologia que funciona se espalha.
A difusão da escrita cuneiforme foi ainda mais ampla do que apenas os povos da Mesopotâmia. Durante o segundo milênio antes de Cristo, o cuneiforme se tornou a escrita da diplomacia internacional em todo o Oriente Médio. Cartas entre os faraós do Egito e os reis da Mesopotâmia eram escritas em cuneiforme, na língua acádia, que funcionava como uma espécie de língua oficial das relações internacionais da época. Isso foi comprovado pela descoberta, no Egito, de uma coleção de cartas diplomáticas em tabuletas de argila cuneiforme, chamadas de Cartas de Amarna, que mostram a intensa comunicação entre o Egito e os reinos do Oriente Médio durante o século 14 antes de Cristo.
O sistema cuneiforme foi usado por diferentes povos por aproximadamente três mil anos, desde seu surgimento na Suméria por volta de 3300 antes de Cristo até os últimos textos cuneiformes conhecidos, que datam do primeiro século depois de Cristo. Três mil anos é um período enorme: é mais do que o dobro do tempo que separa o início da era cristã até os dias de hoje. Essa persistência ao longo de tanto tempo é a melhor prova de como o sistema funcionava bem.
Agora, uma pergunta importante: como foi que a escrita cuneiforme deixou de ser usada? O seu desaparecimento foi gradual e relacionado com a difusão de outro sistema de escrita que era muito mais simples de aprender: o alfabeto. Os fenícios, um povo de comerciantes que habitava o litoral do Mediterrâneo oriental, desenvolveram um sistema de escrita com apenas um conjunto reduzido de sinais, cada um representando um som consonantal. Com apenas algumas dezenas de letras, qualquer pessoa podia aprender a ler e escrever em tempo muito mais curto do que seria necessário para dominar os centenas de sinais do cuneiforme. Esse sistema alfabético foi transmitido para os gregos, que adicionaram as vogais, e dos gregos chegou ao mundo romano e, por fim, ao alfabeto que usamos hoje.
Diante da eficiência do sistema alfabético, a escrita cuneiforme foi sendo progressivamente abandonada, embora tenha coexistido com o alfabeto por séculos. O último texto cuneiforme conhecido foi escrito por volta do ano 75 depois de Cristo, um texto astronômico em Babilônia. Depois disso, o sistema foi completamente esquecido, e durante mais de mil anos a humanidade não sabia mais ler as tabuletas de argila que os arqueólogos foram encontrando.
A decifração da escrita cuneiforme foi uma das grandes aventuras intelectuais do século dezenove. O processo começou com a análise de inscrições persas antigas que continham textos escritos em três sistemas de escrita diferentes ao mesmo tempo, um dos quais era o cuneiforme. Estudiosos europeus, principalmente um oficial britânico chamado Henry Rawlinson, conseguiram, a partir do conhecimento do persa antigo e do trabalho com os textos trilíngues, decifrar progressivamente os símbolos cuneiformes. Foi um processo que durou décadas e envolveu o trabalho de vários pesquisadores em diferentes países, mas ao final do século dezenove os estudiosos já podiam ler e entender a grande maioria dos textos cuneiformes.
Essa decifração foi um momento histórico extraordinário porque abriu uma janela direta para o pensamento e a vida cotidiana de povos que haviam vivido há mais de três mil anos. De repente, textos que estavam enterrados e incompreensíveis por milênios podiam ser lidos. Cartas entre comerciantes, registros de impostos, contratos de casamento, poemas de amor, receitas de cerveja, tratados astronômicos, mitos de criação, histórias épicas, tudo isso emergiu das tabuletas de argila e nos revelou uma civilização de uma riqueza e de uma complexidade que ninguém havia imaginado.
Hoje, estima-se que existam cerca de quinhentas mil tabuletas cuneiformes espalhadas por museus de todo o mundo, e a maioria delas ainda não foi traduzida. São séculos de conhecimento mesopotâmico ainda esperando para ser descoberto pelos pesquisadores.
Em provas como o ENEM, você poderá encontrar questões sobre a escrita cuneiforme dentro de um contexto mais amplo sobre a relação entre tecnologia e organização social. A escrita cuneiforme é um exemplo perfeito de como uma inovação técnica pode transformar completamente a estrutura de uma sociedade. Ela permitiu o surgimento de um Estado burocratizado, capaz de administrar grandes territórios, cobrar impostos de forma sistemática, criar e aplicar leis de forma pública e transmitir ordens para regiões distantes. Sem a escrita, o Império Babilônico de Hamurábi ou o Império Assírio de Assurbanipal simplesmente não teriam sido possíveis na escala em que existiram.
O ENEM também gosta de explorar a relação entre escrita e poder. A escrita cuneiforme não era uma tecnologia democrática: ela estava nas mãos de uma elite de escribas que controlavam o acesso à informação. Quem não sabia ler e escrever dependia completamente dos escribas para qualquer questão formal. Isso criava uma hierarquia muito clara e reforçava as desigualdades sociais já existentes. O domínio do conhecimento escrito era, e ainda é em muitas formas, uma das bases fundamentais do poder social.
Outra conexão importante é com a definição convencional de Pré-História e História. Os historiadores convencionam que a Pré-História termina e a História começa quando surgem os primeiros registros escritos. Isso não significa que as sociedades sem escrita não tinham história, claro que tinham, mas significa que a partir da escrita temos acesso direto a fontes primárias, a documentos produzidos pelas próprias civilizações, o que transforma radicalmente a qualidade e a quantidade de informações que podemos obter sobre elas. E o ponto de partida dessa divisão é justamente a escrita cuneiforme dos sumérios, por volta de 3300 antes de Cristo.
A sua prova também pode apresentar questões comparando o sistema cuneiforme com outros sistemas de escrita, como os hieróglifos egípcios ou o sistema alfabético fenício. Nesse caso, é importante saber que a escrita cuneiforme era complexa, com centenas de sinais, combinando logogramas e fonogramas, enquanto o alfabeto fenício era muito mais simples, com apenas algumas dezenas de sinais representando sons consonantais. Essa simplificação do sistema alfabético foi o que permitiu que a escrita se tornasse muito mais acessível e se espalhasse por populações muito mais amplas.
E finalmente, é importante conectar o surgimento da escrita com a necessidade econômica e administrativa que a gerou. Quando o ENEM apresenta um texto sobre a escrita cuneiforme, geralmente está explorando essa relação de causa e consequência: a complexidade da vida urbana criou a necessidade de registro; a necessidade de registro criou a escrita; a escrita permitiu o surgimento do Estado centralizado e da burocracia; e a burocracia reforçou ainda mais a hierarquia social e o poder das elites. É uma cadeia de causas e efeitos que revela muito sobre como as sociedades humanas se organizam.
Vamos agora fazer um resumo completo de tudo que estudamos nesta aula.
A escrita cuneiforme surgiu na Mesopotâmia, entre os rios Tigre e Eufrates, por volta de 3300 antes de Cristo. Ela foi desenvolvida pelos sumérios como resposta a uma necessidade prática e urgente: o controle de estoques, o registro de impostos e a administração econômica das primeiras cidades da história. A memória humana não era suficiente para gerenciar a complexidade crescente das sociedades urbanas mesopotâmicas.
O processo de criação da escrita foi gradual. Começou com pequenas fichas de argila para representar quantidades de produtos. Evoluiu para marcas em tabuletas de argila, inicialmente sob a forma de pictogramas, ou seja, desenhos que representavam os objetos. Com o tempo, os desenhos foram se tornando mais abstratos e padronizados, e o instrumento utilizado, um estilete com ponta triangular de junco pressionado contra a argila úmida, criava marcas em formato de cunha, o que deu nome ao sistema: cuneiforme, que vem do latim cuneus, que significa cunha.
O grande avanço do sistema veio quando os símbolos passaram a representar não apenas objetos, mas também sons e sílabas, tornando a escrita capaz de registrar praticamente qualquer pensamento humano. Com isso, a escrita expandiu suas funções muito além da contabilidade: passou a registrar leis, como o Código de Hamurábi, mitos, como a Epopeia de Gilgamesh, tratados diplomáticos, textos astronômicos e matemáticos, e registros históricos das conquistas dos reis.
A escrita era dominada por uma elite de especialistas chamados escribas, que passavam anos estudando nas edubba, as escolas de escrita mesopotâmicas. Esse domínio do saber escrito conferia aos escribas enorme poder e prestígio na hierarquia social. A grande maioria da população era analfabeta e dependia dos escribas para qualquer assunto formal.
A argila foi escolhida como suporte por ser abundante e pela durabilidade que ganhava ao secar ou ser cozida, o que garantiu a preservação de centenas de milhares de tabuletas por milênios.
A escrita cuneiforme foi adotada por todos os grandes povos da Mesopotâmia, sumérios, acádios, babilônios e assírios, além de se tornar o sistema de escrita da diplomacia internacional em todo o Oriente Médio durante o segundo milênio antes de Cristo. Ela foi usada por aproximadamente três mil anos, até ser gradualmente substituída pelo sistema alfabético mais simples, desenvolvido pelos fenícios.
Decifrada no século dezenove por estudiosos europeus, a escrita cuneiforme nos abriu uma janela extraordinária para o pensamento, a vida cotidiana e a cultura dos povos mais antigos da história humana.
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| Dados de Catalogação na Publicação: NORAT, Markus Samuel Leite. Curso de história para o 1º ano do ensino médio. João Pessoa: Editora Norat, 2026. Livro Digital, Formato: HTML5, Tamanho: 132,4125 gigabytes (132.412.500 kbytes) . ISBN: 978-65-80808-16-8 | Cutter: N825c | CDD-907.12 | CDU-94(100)”-04/17″:373.5 . Palavras-chave: História, Ensino Médio, Pré-História, Civilizações Antigas, Mesopotâmia, Egito Antigo, Grécia Antiga, Roma Antiga, África Antiga, Reinos Africanos, Mundo Árabe-Muçulmano, Idade Média, Feudalismo, Antigo Regime, Monarquias Absolutistas, Renascimento, Humanismo, ENEM, Vestibulares. . TODOS OS DIREITOS RESERVADOS. É proibida a cópia total ou parcial desta obra, por qualquer forma ou qualquer meio. A violação dos direitos autorais é crime tipificado na Lei n. 9.610/98 e artigo 184 do Código Penal. |
