Curso de História para o 1º Ano do Ensino Médio
MÓDULO 3 – AS PRIMEIRAS CIVILIZAÇÕES DO ORIENTE MÉDIO
Aula 44 – O comércio externo na Mesopotâmia
Aula 44 – O comércio externo na Mesopotâmia
Quando pensamos na Mesopotâmia, que foi aquela região entre os rios Tigre e Eufrates, a primeira coisa que vem à nossa cabeça costuma ser a agricultura, os zigurates, os reis guerreiros ou as leis de Hamurábi. Mas existe um motor que estava por trás de tudo isso, um elemento sem o qual nenhuma daquelas maravilhas seria possível: o comércio externo.
Para entender por que o comércio externo era tão importante na Mesopotâmia, precisamos começar por um paradoxo geográfico muito interessante. A Mesopotâmia era, ao mesmo tempo, uma das regiões mais ricas e uma das mais pobres do mundo antigo. Rica em quê? Em solo fértil. Graças às cheias regulares dos rios Tigre e Eufrates, que depositavam sedimentos nutritivos nas margens ano após ano, a terra era extraordinariamente produtiva. Os mesopotâmicos cultivavam grandes quantidades de cevada e de trigo, criavam rebanhos de ovelhas, cabras e bois, e produziam excedentes agrícolas que eram suficientes para alimentar populações enormes.
Mas essa mesma região, tão generosa com os alimentos, era extremamente pobre em outros recursos essenciais. E aqui está o paradoxo: a Mesopotâmia era uma planície aluvial, ou seja, uma grande área plana formada pelo acúmulo de sedimentos trazidos pelos rios. Isso significa que ela não tinha montanhas, não tinha rochas de boa qualidade para construção, não tinha florestas com árvores grandes e resistentes e não tinha depósitos de minerais metálicos. Em outras palavras, faltavam exatamente os materiais sem os quais uma civilização complexa não consegue crescer.
Pense nisso de forma prática. Para construir um templo imponente, você precisa de pedra. Para fabricar ferramentas resistentes e armas eficientes, você precisa de metais como o cobre e o estanho, que juntos formam o bronze. Para construir barcos e coberturas de grandes edifícios, você precisa de madeira de qualidade. Para adornar os palácios dos reis e os altares dos deuses com objetos de luxo, você precisa de pedras preciosas e semipreciosas. E a Mesopotâmia não tinha nada disso em quantidade suficiente.
Então o que os mesopotâmicos fizeram? Eles desenvolveram uma solução que foi, ao mesmo tempo, uma necessidade prática e uma das maiores realizações organizacionais da Antiguidade: criaram redes de comércio de longa distância que conectavam as suas cidades a regiões muito distantes, espalhadas por boa parte do mundo antigo.
Esse comércio não era uma atividade marginal ou secundária. Ele era o coração econômico das cidades mesopotâmicas. Sem ele, os templos não teriam sido construídos. Os exércitos não teriam tido armas de metal. Os reis não teriam tido joias e objetos de luxo para demonstrar seu poder e sua riqueza. A própria estrutura social e política que conhecemos na Mesopotâmia dependia diretamente da capacidade desses povos de buscar no exterior o que a sua terra não oferecia.
Vamos entender agora o que a Mesopotâmia importava e de onde vinha cada material.
A madeira era um dos itens mais cobiçados. Na planície mesopotâmica, as árvores existentes eram pequenas e de qualidade insuficiente para as grandes construções que os reis queriam erguer. A madeira nobre que eles precisavam, especialmente o cedro, vinha das montanhas do Líbano, na costa do Mediterrâneo oriental. O cedro era considerado a madeira mais valiosa do mundo antigo: resistente, perfumado e capaz de durar muitos anos sem apodrecer. Trazê-lo da costa do Mediterrâneo para as cidades da Mesopotâmia era uma tarefa logística enorme, que exigia semanas de viagem por rotas terrestres e fluviais.
Os metais eram igualmente indispensáveis. O cobre, que era a base para a fabricação do bronze, vinha de regiões montanhosas ao norte e ao leste, incluindo áreas que hoje pertencem à Turquia, ao Irã e à Península Arábica. O estanho, que era misturado ao cobre para produzir o bronze, tinha origens ainda mais distantes: algumas fontes de estanho utilizadas pelos mesopotâmicos ficavam em regiões que hoje correspondem ao Afeganistão e a partes da Ásia Central. O ouro e a prata chegavam de várias regiões, incluindo as montanhas do norte e os contatos comerciais com o Egito.
As pedras preciosas e semipreciosas também ocupavam um lugar central nas importações mesopotâmicas. O lápis lazúli, uma pedra de um azul intenso muito valorizada na Antiguidade para fazer joias, amuletos e objetos decorativos de prestígio, vinha de um local extraordinariamente distante: as minas do atual Afeganistão, a centenas de quilômetros da Mesopotâmia. A cornalina, uma pedra de cor avermelhada muito usada em colares e pulseiras da elite, vinha do vale do rio Indo, na atual Índia. O mármore e outras pedras de construção de boa qualidade vinham das regiões montanhosas vizinhas.
Esse mapa de importações nos diz uma coisa muito importante: os mesopotâmicos mantinham contatos comerciais com uma área que ia do Mediterrâneo até a Índia, cruzando desertos, montanhas e grandes rios. Isso há mais de quatro mil anos. Quando você pensa na globalização como algo moderno, lembre-se de que os mercadores de Ur e de Uruk já estavam conectados a um mundo muito mais amplo do que o território que habitavam.
Mas o que a Mesopotâmia exportava em troca de tudo isso? A resposta está naquilo que ela tinha de sobra: os produtos do seu solo fértil e as criações dos seus artesãos.
Os cereais eram o principal produto de exportação mesopotâmico. A cevada e o trigo produzidos em quantidade muito além das necessidades locais serviam como uma espécie de moeda de troca internacional. Grãos em quantidade eram um produto valiosíssimo no mundo antigo, porque muitas regiões montanhosas ou áridas não tinham condições de produzir alimento em abundância. Um carregamento de cevada mesopotâmica podia ser trocado por um carregamento de metal ou de madeira de qualidade.
Os tecidos eram outro produto de exportação muito importante. As mulheres que trabalhavam nas oficinas ligadas aos templos e aos palácios produziam tecidos de lã em grande quantidade e com técnicas muito desenvolvidas. A lã das ovelhas mesopotâmicas era transformada em roupas, mantas e tecidos de diferentes espessuras e qualidades, que eram altamente valorizados em outras regiões. Esses tecidos eram leves, fáceis de transportar e tinham um valor comercial muito superior ao seu peso, o que os tornava ideais para o comércio de longa distância.
O óleo de gergelim, as tâmaras, os produtos de cerâmica e os objetos artesanais produzidos pelos especialistas das cidades também faziam parte das exportações mesopotâmicas. A cerâmica mesopotâmica, por exemplo, era muito apreciada por sua qualidade e por suas decorações, e circulava por várias regiões do Oriente Médio antigo.
Agora, vamos entender como esse comércio era organizado na prática, porque essa organização é um dos aspectos mais impressionantes de toda a história econômica antiga.
O comércio externo mesopotâmico não era uma atividade informal, feita de forma espontânea por indivíduos que decidiam de um dia para o outro sair para negociar. Era uma atividade extremamente organizada, controlada e planejada, que envolvia o Estado, os templos e uma classe de profissionais especializados.
No início da história mesopotâmica, o comércio externo era quase um monopólio dos templos e dos palácios. Eram essas instituições que tinham os recursos necessários para financiar expedições comerciais de longa distância: os cereais que serviam de moeda de troca, os animais de carga para o transporte terrestre, os barcos para o transporte fluvial e os homens necessários para conduzir e proteger as caravanas. Em troca, os templos e os palácios ficavam com os materiais importados, usando-os nas grandes construções e nos objetos de luxo que demonstravam o poder das elites.
Com o tempo, à medida que as cidades cresciam e a atividade comercial se tornava mais intensa, surgiu uma classe de comerciantes profissionais, chamados tamkaru em acádio. Esses mercadores não eram simplesmente vendedores informais. Eram profissionais especializados, frequentemente vinculados ao palácio ou ao templo, que assumiam a tarefa de conduzir as expedições comerciais em nome das instituições que os financiavam. Eles recebiam uma quantidade de mercadorias para levar e se comprometiam a devolver os produtos importados em troca, junto com uma parte dos lucros da viagem.
Esse arranjo funcionava de uma forma muito parecida com o que hoje chamaríamos de parceria comercial ou de contrato de comissão. O tamkaru recebia mercadorias de exportação do templo ou do palácio, conduzia a expedição com seus próprios conhecimentos e habilidades, vendia as mercadorias nas regiões distantes, adquiria os produtos que eram necessários na Mesopotâmia e retornava à cidade para prestar contas. Tudo isso era registrado por escrito em tabuletas de argila, com detalhes sobre o que havia saído, o que havia retornado, qual era o lucro e o que cada parte devia à outra.
Com o desenvolvimento econômico das cidades, alguns tamkaru foram acumulando riqueza própria e passaram a operar também em nome próprio, além de continuar trabalhando para o palácio e o templo. Esses comerciantes mais bem-sucedidos chegaram a emprestar dinheiro a outros mercadores menores, financiando suas viagens em troca de uma parte dos lucros. É um sistema que funciona de forma muito parecida com o que hoje chamaríamos de investimento ou de financiamento empresarial.
Agora, vamos falar sobre como o transporte funcionava, porque isso era um dos maiores desafios logísticos do mundo antigo.
A Mesopotâmia tinha uma grande vantagem natural para o transporte: os rios Tigre e Eufrates. Esses dois rios eram, literalmente, as estradas do mundo antigo. Transportar mercadorias por barco era muito mais eficiente do que transportar em lombo de animal por terra. Um único barco conseguia carregar uma quantidade de mercadoria que exigiria dezenas ou até centenas de animais de carga para ser transportada por terra. Por isso, os rios eram usados sempre que possível.
Os barcos mesopotâmicos eram de diferentes tipos, adaptados para diferentes condições de navegação. Havia barcos feitos de juncos trançados e impermeabilizados com betume, uma substância natural parecida com alcatrão que existia em abundância na região e que tornava o junco impermeável à água. Havia também barcos circulares, chamados quffa, feitos de vime coberto com pele de animal, que eram usados para transportar cargas nos rios. E havia barcos maiores, feitos de madeira importada, para viagens mais longas pelo Golfo Pérsico.
Pelo Golfo Pérsico, os barcos mesopotâmicos chegavam a regiões que hoje correspondem ao Kuwait, ao Bahrein, a Omã e até à costa da Índia. Bahrein, chamada de Dilmun na Antiguidade, era um ponto de parada muito importante no comércio marítimo mesopotâmico, funcionando como uma espécie de entreposto comercial onde mercadorias de várias regiões se encontravam e eram redistribuídas.
Quando as rotas marítimas e fluviais não chegavam ao destino desejado, era preciso recorrer ao transporte terrestre por meio de caravanas. As caravanas eram grupos organizados de animais de carga, principalmente burros, acompanhados por homens responsáveis pela condução e pela proteção da carga. Antes da domesticação e da difusão do uso do camelo, que aconteceu mais tarde na história, o burro era o principal animal de carga das rotas terrestres mesopotâmicas. Os burros conseguiam carregar um peso significativo e eram relativamente resistentes às condições áridas do terreno, mas mesmo assim a viagem era lenta e extenuante.
Uma caravana que partia de uma cidade mesopotâmica em direção às montanhas da Anatólia, por exemplo, podia levar semanas para chegar ao destino. Durante todo esse tempo, os mercadores estavam expostos a riscos variados: ataques de grupos nômades que viviam nas bordas dos desertos e das estepes, condições climáticas extremas como tempestades de areia no verão ou frio intenso nas montanhas no inverno, e a possibilidade de acidentes que destruíssem parte da carga.
Para lidar com esses riscos, os comerciantes mesopotâmicos desenvolveram soluções muito inteligentes. Uma delas foi o estabelecimento de colônias comerciais, chamadas karum, em cidades estrangeiras estrategicamente localizadas ao longo das rotas comerciais mais importantes. Essas colônias eram bairros ou áreas dentro de cidades estrangeiras onde os mercadores mesopotâmicos podiam se instalar, armazenar suas mercadorias, realizar suas negociações com segurança e manter seus registros contábeis segundo as suas próprias leis e costumes.
O exemplo mais bem documentado dessas colônias comerciais é o sistema de karum assírio na Anatólia, especialmente o grande entreposto de Kanesh, que os arqueólogos descobriram no centro da Turquia moderna. Ali foram encontradas dezenas de milhares de tabuletas de argila com registros detalhados das atividades comerciais dos mercadores assírios que viviam na colônia durante o segundo milênio antes de Cristo. Essas tabuletas mostram contratos de compra e venda, cartas entre mercadores e suas famílias em Assur, registros de dívidas, inventários de mercadorias e muito mais. Elas são uma fonte histórica extraordinária que nos permite entender com riqueza de detalhes como o comércio mesopotâmico funcionava na prática.
Outra solução para os riscos do comércio de longa distância foi a criação de sistemas de seguro e de compartilhamento de riscos. Mercadores que se associavam para uma expedição dividiam tanto os custos quanto os possíveis prejuízos entre si. Se parte da carga fosse perdida em um ataque ou em um acidente, a perda seria dividida entre todos os investidores, em vez de recair completamente sobre um único indivíduo. Esse princípio de compartilhamento de riscos é a mesma ideia que está por trás dos seguros modernos.
Agora, precisamos falar sobre um aspecto do comércio mesopotâmico que é muito importante e que aparece com frequência nas questões de provas: a ausência de moeda e as formas de pagamento alternativas.
Durante grande parte da história mesopotâmica, não existia moeda no sentido que conhecemos hoje, ou seja, peças de metal padronizadas emitidas pelo Estado e aceitas universalmente como meio de pagamento. O comércio funcionava principalmente por meio do escambo, que é a troca direta de um produto por outro. Um mercador que levava tecidos de lã para a Anatólia trocava esses tecidos diretamente por lingotes de cobre. Um que levava grãos para uma cidade de montanha recebia em troca madeira ou pedras.
Mas o escambo puro tem uma limitação óbvia: o que acontece quando você quer um produto que o outro lado não tem para oferecer em troca no mesmo momento? Para resolver esse problema, os mesopotâmicos desenvolveram sistemas de equivalência baseados em medidas padronizadas de metais preciosos, especialmente a prata. Um certo peso de prata equivalia a uma certa quantidade de cevada, ou a uma determinada quantidade de tecido, ou a um certo volume de óleo. Quando uma transação era feita com base nessas equivalências, o pagamento não precisava ser necessariamente em prata: podia ser feito em qualquer produto cujo valor equivalesse ao peso de prata acordado.
Para garantir que essas equivalências fossem respeitadas e que ninguém fosse enganado nas pesagens, os mesopotâmicos usavam balanças de precisão e pesos padronizados feitos de pedra ou de metal. Esses pesos tinham formas características, muitas vezes esculpidos na forma de animais como patos ou pássaros, e eram produzidos sob supervisão estatal para garantir que seus valores correspondiam exatamente ao padrão oficial. Falsificar um peso era considerado um crime grave, punido pelas leis da época.
A escrita também foi absolutamente fundamental para viabilizar o comércio de longa distância. Sem registros escritos, seria impossível controlar um sistema tão complexo, com mercadorias partindo de uma cidade, passando por intermediários em rotas longas e chegando a destinos distantes semanas ou meses depois.
Os escribas que trabalhavam para os templos e os palácios registravam em tabuletas de argila cada detalhe das transações comerciais: o nome do mercador responsável, a quantidade e o tipo de mercadoria enviada, o valor equivalente em prata ou em outra unidade de medida, as condições de pagamento e os prazos acordados. Quando um mercador saía com uma carga, levava consigo uma tabuleta que registrava o que havia recebido. Quando retornava, apresentava o registro do que havia obtido em troca. Qualquer discrepância poderia ser verificada por meio desses documentos.
Os selos de cilindro eram outro instrumento fundamental de controle no comércio mesopotâmico. Esses selos eram pequenos objetos cilíndricos feitos de pedra ou de metal, com imagens gravadas na superfície. Quando rolados sobre argila fresca, deixavam uma impressão contínua que funcionava como uma assinatura pessoal e intransferível. Cada pessoa importante tinha o seu próprio selo, com um desenho único que a identificava. Quando um fardo de mercadoria era lacrado com argila e selado com o cilindro do remetente, qualquer violação do lacre ficava evidente, garantindo que a carga chegasse ao destino sem ter sido adulterada pelo caminho.
O comércio externo também tinha uma dimensão diplomática muito importante que não pode ser ignorada. As relações entre os governantes das cidades mesopotâmicas e os reis de outras regiões eram frequentemente seladas por meio de presentes luxuosos. Um rei que enviava um carregamento de ouro, de joias ou de objetos raros para outro governante não estava simplesmente fazendo um gesto de generosidade. Estava estabelecendo uma relação de reciprocidade, criando uma obrigação de retribuição que fortalecia os laços diplomáticos entre os dois reinos.
Essas trocas diplomáticas de presentes abriam caminho para as relações comerciais mais amplas que se seguiam. Quando um rei mesopotâmico estabelecia uma boa relação com um governante de outra região, os mercadores podiam transitar pelos territórios desse aliado com muito mais segurança e com menos obstáculos. A diplomacia e o comércio andavam lado a lado, reforçando-se mutuamente.
Havia também situações em que o controle das rotas comerciais era motivo de conflito armado. Quando duas cidades rivais disputavam o domínio de uma rota importante, ou quando um reino tentava cortar o acesso de outro a fontes vitais de metal ou de madeira, o resultado frequentemente era a guerra. O controle das rotas comerciais era uma questão de poder e de sobrevivência política, e muitas das guerras entre as cidades mesopotâmicas e entre os grandes impérios da região tinham como causa subjacente a disputa por esse controle.
Agora, vamos falar sobre algo que poucas pessoas percebem quando estudam o comércio mesopotâmico: o enorme impacto cultural que ele produziu.
O comércio não transportava apenas mercadorias. Ele transportava pessoas, e as pessoas carregam consigo suas línguas, suas crenças, suas técnicas e seus costumes. Quando um grupo de mercadores mesopotâmicos passava semanas numa cidade estrangeira negociando e descansando, eles inevitavelmente trocavam conhecimentos com os habitantes locais. Aprendiam técnicas novas de metalurgia, observavam formas diferentes de construção, ouviam histórias e mitos de outras culturas e absorviam estilos artísticos que não conheciam. E ao voltar para casa, traziam essas novidades consigo.
Da mesma forma, quando comerciantes estrangeiros chegavam às cidades mesopotâmicas, eles traziam consigo suas próprias culturas. A Mesopotâmia, por ser um centro de convergência de rotas comerciais, estava constantemente exposta a influências externas. Isso tornava sua cultura mais dinâmica e mais diversa, capaz de absorver inovações de várias direções ao mesmo tempo.
Podemos dizer com segurança que grande parte das inovações técnicas que caracterizaram a civilização mesopotâmica ao longo dos séculos chegou por meio do comércio. Novas técnicas de fundição de metais, formas mais eficientes de processar a lã, estilos arquitetônicos que influenciaram a forma dos templos, práticas agrícolas mais eficientes, avanços na astronomia e na matemática que eram compartilhados entre diferentes culturas do Oriente Médio antigo, tudo isso circulava pelas rotas comerciais junto com os grãos e os tecidos.
O comércio também contribuiu para a criação de uma espécie de cultura comum no Oriente Médio antigo. Mesmo que os diferentes povos da região falassem línguas diferentes e tivessem tradições religiosas distintas, o contato constante por meio do comércio criou semelhanças importantes: sistemas de medida parecidos, práticas jurídicas que reconheciam contratos feitos por membros de comunidades diferentes, estilos artísticos que influenciavam uns aos outros e uma compreensão mútua de como as trocas deviam funcionar.
Isso é algo muito importante para entender: a interdependência econômica entre os povos do Oriente Médio antigo foi o que criou as condições para que civilizações distintas coexistissem e trocassem ideias ao longo de milênios. Nenhuma delas era autossuficiente. Todas precisavam umas das outras. E essa necessidade mútua foi, paradoxalmente, uma das grandes forças civilizatórias da Antiguidade.
Agora, vamos fazer algumas conexões importantes com temas que aparecem nas provas do ENEM e dos vestibulares.
Um dos pontos que mais aparece nas questões sobre Mesopotâmia é a relação entre o desenvolvimento da escrita e as necessidades do comércio. Você precisa saber explicar com clareza que a escrita cuneiforme surgiu não como uma forma de arte ou de expressão literária, mas como uma ferramenta prática de controle econômico. Os primeiros textos escritos que conhecemos são listas de produtos, registros de estoque e contratos comerciais. Só depois, quando o sistema se tornou mais sofisticado, a escrita passou a ser usada para registrar leis, mitos e hinos religiosos. A origem comercial da escrita é um ponto central para o ENEM.
Outro tema que aparece muito é a relação entre o comércio e a estrutura social. O comércio de longa distância criou e fortaleceu a divisão social na Mesopotâmia. As elites, que controlavam o acesso aos materiais importados, usavam esses produtos de luxo para demonstrar e reforçar sua superioridade sobre o restante da população. Joias de lápis lazúli e cornalina, estátuas feitas com madeira de cedro, armas de bronze, tudo isso era acessível apenas para quem estava no topo da hierarquia. O comércio foi, portanto, ao mesmo tempo um motor de desenvolvimento econômico e um mecanismo de aprofundamento das desigualdades sociais.
O papel do Estado no controle do comércio é outro tema recorrente. Nas civilizações mesopotâmicas, o comércio não era livre no sentido moderno do termo. Ele era regulado, fiscalizado e frequentemente financiado pelo Estado, representado pelo palácio e pelo templo. Impostos eram cobrados sobre as mercadorias que entravam e saíam das cidades. Rotas eram protegidas pelo exército real. Contratos eram registrados e validados pela burocracia estatal. Esse controle estatal do comércio é muito diferente da ideia de mercado livre que conhecemos hoje, e é uma característica que o ENEM frequentemente usa para pedir análise comparativa entre diferentes sistemas econômicos ao longo da história.
Por fim, o tema da interdependência econômica entre os povos do mundo antigo é algo que o ENEM explora bastante. A Mesopotâmia é um exemplo perfeito de que a ideia de que povos ou nações podem ser completamente autossuficientes é um mito. Mesmo as civilizações mais poderosas e mais organizadas da Antiguidade dependiam de outros povos para obter recursos essenciais. Essa interdependência não era fraqueza: era o motor que impulsionava o desenvolvimento, a troca de conhecimentos e a conexão entre culturas distintas.
Vamos agora fazer um resumo completo de tudo que estudamos nesta aula.
A Mesopotâmia enfrentava um paradoxo geográfico: tinha solo extraordinariamente fértil para a agricultura, mas era extremamente pobre em metais, madeira de qualidade e pedras para construção. Para suprir essas carências, os povos mesopotâmicos desenvolveram uma das mais sofisticadas redes de comércio de longa distância do mundo antigo, conectando as suas cidades a regiões que iam do Mediterrâneo até a Índia.
As principais importações incluíam madeira de cedro do Líbano, cobre e estanho das montanhas do norte e do leste, lápis lazúli e outras pedras preciosas do Afeganistão e da Índia, além de ouro, prata e marfim de diversas origens. As principais exportações eram os cereais, os tecidos de lã e os produtos artesanais produzidos nas cidades mesopotâmicas.
O comércio era inicialmente controlado pelos templos e palácios, que financiavam as expedições. Com o tempo surgiu uma classe de mercadores profissionais, os tamkaru, que operavam em nome dessas instituições e também por conta própria. As expedições usavam barcos nos rios e no Golfo Pérsico, e caravanas de burros nas rotas terrestres. Colônias comerciais, chamadas karum, foram estabelecidas em cidades estrangeiras para apoiar o trabalho dos mercadores.
O comércio funcionava sem moeda padronizada, usando o escambo e equivalências baseadas em pesos de prata. Balanças de precisão e pesos padronizados garantiam a honestidade das transações. A escrita cuneiforme surgiu em grande parte para registrar as transações comerciais, e os selos de cilindro serviam como assinaturas pessoais para autenticar documentos e garantir a integridade das cargas. O comércio tinha também uma dimensão diplomática, com trocas de presentes entre governantes que abriam caminho para as relações comerciais mais amplas. O controle das rotas era frequentemente motivo de conflito armado. E além das mercadorias, o comércio transportava pessoas, línguas, técnicas e ideias, tornando a Mesopotâmia um centro de trocas culturais de enorme importância para o desenvolvimento da civilização humana como um todo.
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| Dados de Catalogação na Publicação: NORAT, Markus Samuel Leite. Curso de história para o 1º ano do ensino médio. João Pessoa: Editora Norat, 2026. Livro Digital, Formato: HTML5, Tamanho: 132,4125 gigabytes (132.412.500 kbytes) . ISBN: 978-65-80808-16-8 | Cutter: N825c | CDD-907.12 | CDU-94(100)”-04/17″:373.5 . Palavras-chave: História, Ensino Médio, Pré-História, Civilizações Antigas, Mesopotâmia, Egito Antigo, Grécia Antiga, Roma Antiga, África Antiga, Reinos Africanos, Mundo Árabe-Muçulmano, Idade Média, Feudalismo, Antigo Regime, Monarquias Absolutistas, Renascimento, Humanismo, ENEM, Vestibulares. . TODOS OS DIREITOS RESERVADOS. É proibida a cópia total ou parcial desta obra, por qualquer forma ou qualquer meio. A violação dos direitos autorais é crime tipificado na Lei n. 9.610/98 e artigo 184 do Código Penal. |
